quinta-feira, 29 de setembro de 2011

eu menti

[Virgínia Boechat]



eu menti
não tem algas nessa baía

não há sinal da areia que um dia abri
em arco e nem mesmo há no mundo
boca que seja minha

eu inventei as tardes em que tentei te esquecer
e tua lembrança afogada de mim

amor eu fingi ruas enquanto falávamos
e meia dúzia de meias explicações tuas

eu blefei todas as linhas
que eu tive para te tentar
acreditar em meio a chumbo e matéria
orgânica em decomposição





[in Prelúdio para arco e flecha, Oficina Raquel, 2008]

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Anna Akhmátova (1889 - 1966)



MÚSICA

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
 

Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.

 


МУЗЫКА           
 

В ней что-то чудотворное горит,
И на глазах ее края гранятся.
Она одна со мною говорит,
Когда другие подойти боятся.

Когда последний друг отвел глаза,
Она была со мной в моей могиле
И пела словно первая гроза
Иль будто все цветы заговорили.

1958




[Anna Akhmátova - Poesia 1912 - 1964 - Editora L&PM, 1991 - Seleção, Tradução e Notas de Lauro Machado Coelho.]

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Michelle Perrot e a sua história das mulheres





Renegada injustamente a um segundo plano ao longo da tradicional historiografia das civilizações humanas, o papel e a história da mulher têm sido revisitados e reavaliados nas últimas décadas, sobretudo com o advento de uma visão feminina ante sua própria implicação histórica e social. Se ainda no século XVIII se discutia a própria condição de humanidade das mulheres, e no século XIX eram alvo de tentativas pretensamente científicas de impor uma suposta “inferioridade” em relação ao homem branco europeu, os atuais estudos acadêmicos, juntamente com as diversas conquistas sociais e culturais, apresentam um produção consistente e relevante que embasa a emancipação feminina em relação a uma história que, tradicionalmente, relegava as mulheres, quando muito, a um segundo plano.

O trabalho desenvolvido pela historiadora Michelle Perrot, autora de diversas obras sobre o tema, traduzidos em vários idiomas, inclusive no Brasil, apresenta-se como uma importante contribuição para essa nova visão. Em seu livro Minha história das mulheres (São Paulo: Contexto, 2007), nascido da grande repercussão de um programa da rádio France Culture, a autora busca desenvolver uma visão pessoal sobre o tema. Entretanto, uma revisão da história das mulheres jamais seria algo particular, pois o que se encontra no trabalho de Perrot é uma história que remonta às relações com os homens e com as outras mulheres, com as crianças e o vaticínio de ser mãe; às representações de masculino e feminino e suas implicações nas classes sociais, no ambiente público e no privado. Não seria essa uma história apenas das mulheres, mas da própria existência humana e sua inevitável, e necessária, relação entre mulheres e homens, afinal, como a própria autora menciona, “uma história ‘sem as mulheres’ parece impossível”. (p.13) O curioso, e até paradoxal, nessa afirmação é que, até bem pouco tempo, a história era escrita como se fosse possível e, sobretudo, natural excluir de seu papel histórico. A leitura da obra de Michelle Perrot, dentre outras, dirige-se a um esforço legítimo de suprimir um pouco dessa lacuna secular.

Minha história das mulheres é dividida em 5 partes: Escrever a história das mulheres; O corpo; A alma; O trabalho das mulheres; Mulheres na cidade; além de um balanço do percurso empreendido, suas implicações, ausências e perspectivas contemporâneas, intitulado E agora?. Na primeira parte, a autora expõe as origens de sua própria trajetória acadêmica e sua relação com o tema, que não era, inicialmente, de seu interesse, mas sua vivência na Sorbonne e, sobretudo, na Universidade de Paris VII – Jussieu, nos anos 70, configurou-se como uma revelação perante o inegável silêncio que pairava ante as fontes históricas de uma história das mulheres. É a partir desse contexto que a Perrot lança as questões de seu livro: “o que mudou nas relações entre os sexos, na diferença dos sexos representada e vivida? Como e por quê? E com quais efeitos?” (p.16)

O “silêncio” a que se refere em relação às fontes de uma história das mulheres está intimamente ligado ao fato de que as mulheres eram pouco e, por isso, pouco se falava delas, pouco se escreveu sobre elas, e pouco elas próprias deixaram escrito sobre si mesmas: “As mulheres deixam poucos vestígios diretos, escritos ou materiais. Seu acesso á escrita foi tardio. Suas produções domésticas são rapidamente consumidas, ou mais facilmente dispersas. São elas mesmas que destroem, apagam esses vestígios porque os julgam sem interesse. Afinal, elas são apenas mulheres, cuja vida não conta muito. Existe até um pudor feminino que se estende à memória. Uma desvalorização das mulheres por si mesmas. Um silêncio consubstancial à noção de honra.” (p.17)

Observa-se que o desafio de Michelle Perrot é bastante. Transpor o silêncio de séculos, enfrentando a escassez de fontes, que são a matéria-base para o trabalho da historiadora, e a própria postura que se impôs às mulheres na emancipação de sua visão de si, torna seu trabalho ainda mais louvável. Note-se que “é praticamente impossível, para essas épocas antigas, alcançar o olhar das mulheres, pois elas são ‘construção do imaginário dos homens’”. (p.24) E ainda que corra o risco de ser, mesmo que em breves pormenores, excessivamente tendenciosa, o que dizer de uma outra história, a tradicionalmente masculina, que foi abertamente excludente ao longo de diversos séculos?



[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 20 de setembro de 2011]

domingo, 18 de setembro de 2011

o campo de flores


 
Apodrecidas as flores do jardim
o relento e o vento arrastado
habitam os cadáveres florais

alguém leva as últimas flores
para sua primeira donzela
que sente o desejo e o medo
do prazer e do pudor
ainda escondidos nas flores
de seu corpo


[in uns poemas, 1999]

sábado, 17 de setembro de 2011

"Um escritor, ou todo homem, deve pensar que tudo o que lhe ocorre é um instrumento; todas as coisas lhe foram dadas para determinado fim - e isso tem de ser mais forte no caso de um artista. Tudo o que acontece a ele, inclusive as humilhações, as vergonhas, as desventuras, todas essas coisas lhe foram dadas como argila, como matéria-prima para sua arte; ele tem de aproveitá-las. Por isso já falei num poema do antigo alimento dos heróis: a humilhação, a desgraça, a discórdia. Essas coisas nos foram dadas para que as transmutemos, para que façamos, da miserável circunstância de nossa vida, coisas eternas ou que aspirem a sê-lo."

Jorge Luis Borges
[in Borges oral & sete noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 213]

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Nícolas Gómez Dávila: aforismos





Nícolas Gómez Dávila [tradução Wanderson Lima]



 
O ironista desconfia do que diz sem crer que o contrário seja certo.
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Temos necessidade de que nos contradigam para afinarmos nossas idéias.
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A literatura toda é contemporânea para o leitor que sabe ler.
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A prolixidade não é excesso de palavras, mas sim escassez de idéias.
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O homem mais desesperado é somente o que melhor esconde sua esperança.
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Dos seres que amamos sua existência nos basta.
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Quem critica ao burguês recebe duplo aplauso: o do marxista, que nos julga inteligentes porque corroboramos seus prejuízos; o do burguês, que nos julga acertados porque pensa em seu vizinho.
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A tentação do comunista é a liberdade de espírito.
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Vencer a um idiota nos humilha.
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Como pode viver quem não espera milagres?
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Pensar que só importam as coisas importantes é sintoma de barbárie.
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Vivemos porque não nos vemos com os olhos que os demais nos vêem.
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Entre a anarquia dos instintos e a tirania da ordem, estende-se o fugitivo e puro território da perfeição humana.
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O tom professoral não é próprio do que sabe, senão do que tem dúvidas.
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Ninguém pensa seriamente enquanto a originalidade lhe importa.
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A “psicologia’ é, propriamente, o estudo do comportamento burguês.
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Amor é o ato que transforma a seu objeto de coisa em pessoa.
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O homem vive a si mesmo como angústia ou como criatura.
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O que distancia de Deus não é a sensualidade, mas a abstração.
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O estado moderno fabrica as opiniões que reconhe depois respeitosamente com o nome de opinião pública.
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Amar é compreender a razão que teve Deus para criar ao que amamos.
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Amar é rondar sem descanso em torno da impenetrabilidade de um ser.
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A verdade está na história, mas a história não é a verdade.
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A Bíblia não é a voz de Deus, senão a do homem que o encontra.
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Educar a alma consiste em ensinar-lhe a transformar em admiração sua inveja.
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Crer é penetrar nas entranhas do que meramente sabíamos.
-
O pior vício da crítica de arte é o abuso metafórico do vocabulário filosófico.
-
A hipocrisia não é a ferramenta do hipócrita, senão sua prisão.
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Só o imbecil não se sente nunca copartidário de seus inimigos.
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A imparcialidade é filha da preguiça e do medo.
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O amor à pobreza é cristão, mas a adulação ao pobre é mera técnica de recrutamento eleitoral.
-
A estatística é a ferramenta daquele que renuncia a compreender para poder manipular.
-
A grandiloqüência das teorias estéticas cresce com a mediocridade das obras, como a dos oradores com a decadência de sua pátria.
-
A tragédia da esquerda? Diagnosticar a enfermidade corretamente, mas agravá-la com sua terapêutica.
-
A inteligência não consiste no manejo de idéias inteligentes, mas no manejo inteligente de qualquer idéia.
-
Toda reta leva direto a um inferno.
-
As “soluções” são as ideologias da estupidez.


[In: DÁVILA, Nícolas Gómez. Escolios a un texto implícito (selección). Bogotá - Colômbia: Villegas editores, 2002]


P. S. Júlio Lemos escreveu uma sucinta e esclarecedora apresentação de Nícolas Gómez Dávila aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Shakespeare & Ivo Barroso & Wagner Moura

Sonnet 71
[William Shakespeare]


No longer mourn for me when I am dead
Then you shall hear the surly sullen bell
Give warning to the world that I am fled
From this vile world, with vilest worms to dwell:
Nay, if you read this line, remember not
The hand that writ it; for I love you so
That I in your sweet thoughts would be forgot
If thinking on me then should make you woe.
O, if, I say, you look upon this verse
When I perhaps compounded am with clay,
Do not so much as my poor name rehearse.
But let your love even with my life decay,
Lest the wise world should look into your moan
And mock you with me after I am gone.



[tradução de Ivo Barroso]

Não lamentes por mim quando eu morrer
Senão enquanto o surdo sino diz
Ao mundo vil que o deixo e vou viver
Em meio aos vermes que inda são mais vis.
Nem te recorde o verso comovido
A mão que o escreveu, pois te amo tanto
Que antes achar em tua mente olvido
Que ser lembrado e te causar o pranto.
Ah! peço-te que ao leres esta queixa
Quando for minha carne consumida,
Não te refiras ao meu nome e deixa
Que morra o teu amor com minha vida.
Não veja o mundo e zombe desta dor
Por minha causa, quando morto eu for.



[tradução de Wagner Moura]
 
Não chore mais por mim; empacotei
Vai ouvir que o sino escroto grita
Dando aviso a todos que eu vazei
Desse mundo vil que o verme habita
Nem ao ler este verso vá lembrar
Da mão que o escreveu, te amo tanto
Quem nem em teus doces sonhos quero estar,
Pensar em mim só te trará o pranto
E se (eu digo) você vir essa fala
Quando eu, quem sabe já lama for
Não vá gritar meu nome, cala
Que com minha vida tombe o teu amor
E que o mundo não vigie o choro teu
Te sacaneará. E eu já morri. Fudeu.



[in Sonetos de Shakespeare: faça você mesmo, Jorge Furtado e Liziane Kugland (org), Rio de Janeiro: Objetiva, 2010. p.87-89]

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O primeiro motivo da perene rosa efêmera



1º Motivo da Rosa
(Cecília Meireles)

Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula,
que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.

Meus olhos te ofereço:
espelho para a face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.

Então, da seda e nácar,
toda de orvalho trêmula,
serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.



Logo no primeiro verso do poema 1º Motivo da Rosa, constante no volume Mar Absoluto, Cecília Meireles explora assonância em “e” (“Vejo-te em seda e nácar”), o que remete à sonoridade do verbo ver. Entretanto, a utilização da palavra “nácar”, e sua sonoridade bastante aberta, quebra essa assonância, mas intensifica a dimensão sonora do verso, implicando uma correlação com a propriedade comum entre a seda e o nácar, o brilho. Observa-se que tanto a assonância em “e” e seu corte em “a” é a mesma estrutura que se pode observar numa palavra fundamental para o poema: “Beleza”. Mas retomando ainda os dois termos do primeiro verso, a seda e o nácar, a oposição que poderia ser obtida entre a textura macia da seda e a estrutura calcária da madrepérola, isto é, o nácar, é preterida em favor daquilo que têm em comum, o brilho acetinado que envolve as vestes mais requintadas, por exemplo, e o nácar que prepara a pérola, daí o termo “madre+pérola”, a “mãe da pérola”, por extensão, a “mãe da beleza”. Note-se que a madrepérola também é usada na confecção de botões de alto requinte.

A correlação entre “tão” e “trêmula”, sonoridade projetada do início para o final do verso, mantém entre si a palavra “orvalho”, elemento líquido que se apresenta tremulamente em meio à seda e nácar do verso anterior, como se mesmo tão finamente envolvida não lhe fosse possível conter as lágrimas, simbólica consciência de sua efemeridade, entendendo a rosa como uma metáfora da “Beleza”, que se apresenta grafada no poema justamente em letra maiúscula, o que reforça sua idealização. Então, tem-se em um plano imediato a seda como referência às pétalas da rosa, sua textura, sua coloração; o nácar como reforço dessa coloração, por seu tom rosado ou carmim (e esta é uma outra significação bastante recorrente para o termo “nácar”), bem como a disposição das pétalas pode ser poeticamente vista como as reentrâncias circulares de uma concha, na qual sua última camada é justamente a madrepérola; e, em meio à beleza dessa flor, deposita-se o orvalho. Em um plano metafórico, a rosa pode ser entendida como uma personificação, tradicionalmente feminina (embora não de caráter exclusivo), da beleza. Entende-se que estaríamos diante de uma beleza frágil, sobretudo por ser efêmera, e assim é vista (colhida), nas lágrimas que lhe assinalam a fragilidade. Uma outra correlação pode ser estabelecida por meio da expressividade a partir dos olhos entre o ser visto, a rosa em lágrimas/orvalho, e o eu lírico observador, como se colhesse essa rosa com os olhos, para que se preservasse na memória sua beleza. Que o orvalho possa ser entendido como resultado da chegada da noite, ou pela consciência da noite iminente, intensifica sua correspondência com o envelhecimento que apagará a efêmera beleza juvenil, quando o orvalho tornar-se-á lágrima.

Oferecer os olhos como espelho, e que tal visão esteja perenizada em versos, este monumento mais perene que o bronze, conforme se cantou na antiguidade clássica através do poeta Horácio, elege a memória como depositório/repositório da beleza (não seria essa também uma das funções de um poema, senão da própria arte?). Mas percebe-se que também efêmero é o rosto do eu lírico, posto que igualmente sujeito à tirania do tempo, mas efêmero em relação à percepção que recebe da rosa, do ser contemplado, como se as lágrimas/orvalho não permitissem à rosa a beleza de ser contemplada, de alcançar a perenidade daquele olhar que a converte em poema. O rosto do eu lírico, aquele que a colhe, nada mais seria que um rosto passageiro, efêmero e igualmente frágil. 

Os versos hexassilábicos, um meio termo entre as medidas mais tradicionais da poética calcada em redondilhas, poderia ser compreendido como o próprio tempo da rosa, além da primeira idade (uma possível redondilha menor) e ainda, pelo menos por enquanto, da derradeira idade (uma possível redondilha maior). A acentuação proparoxítona dos três versos centrais da primeira e da última estrofe, justapostos entre versos limitados por paroxítonas, imprime, ainda que simbolicamente, esse confinamento do ser em meio a tudo que lhe é desestruturante: entre o tremor e as lágrimas, a efemeridade. A condição humana se repete através da repetição das palavras que encerram os versos quase que duplicados: nácar, trêmula, efêmero, lágrimas, frágil. Eis que nem o nácar, nem a seda, escondem essa questão fundamental: a efemeridade que torna a beleza trêmula e frágil, extremamente frágil, como uma rosa que inevitavelmente será despetalada pelo vento.