domingo, 31 de julho de 2011

para os salgueiros junto ao rio

844-869 d.C


Vultos em jade às margens devolutas
à névoa assombram pavilhões distantes
Reflexos deitam-se no rio do outono
e flores descem sobre os pescadores
Peixes ocultam-se ás raízes densas
enlaçam os ramos barcos visitantes
Respiração da noite, a chuva e o vento
ecoam tristes sonhos revolutos



[in Poesia Completa de Xi Xuanji, tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, Editora Unesp, 2011, pag 31]

sexta-feira, 29 de julho de 2011

“Escrever é lutar contra a ignorância”

entrevista com Halan Silva
 


Lançado durante o Salão do Livro do Piauí, Salipi, 2011, Cambacica é mais nova criação de Halan Silva. Uma novela ambientada na Teresina dos dias atuais, repleta de referências intertextuais. Nascido em Campo Maior, em 1970, graduado em Filosofia (UFPI) e Direito (UESPI), mestre em Educação e Estudos Culturais (ULBRA- RS), Halan Kardeck Ferreira Silva publicou: 16 poemas (Edições DesLivres), As formas incompletas: apontamentos para uma biografia (Oficina da Palavra/Instituto Dom Barreto), Cantiga de viver (org. juntamente com João Kennedy Eugênio/ Fundação Quixote), Representação e identidade cultural do vaqueiro no cinema novo (Editora Nova Aliança) e, agora, Cambacica (Editora Nova Aliança), mote para a conversa que se segue.


Adriano Lobão Aragão - Poesia, biografia, ensaio e, agora, novela. A que se deve essa diversificação em sua obra?
Halan Silva – Não sei bem o motivo da diversidade de minha escritura. Sinto vontade de fazer e faço (dentro de minhas limitações). Ultimamente estou escrevendo um romance ambientado em minha terra, Campo Maior, mas não sei se vou conseguir finalizá-lo. No início escrevia poesia, mas creio que a poesia é o mais elevado dos gêneros literários, não é à toa tanta versalhada por aí. Em regra, a minha percepção estética me obriga a destruir noventa por cento do que escrevo. Quem se mete pelos caminhos estreitos da literatura só pode ser louco. Ernesto Sabato largou uma carreira bem sucedida na ciência para se aventurar na literatura. Ele passou por momentos de grandes dificuldades, porém escreveu El Tuneo. Não sei o que me prende à literatura, apenas sinto prazer que não encontro noutros lugares: na religião, nos negócios ou na política. Estou bem certo de uma coisa: Quem escreve quer se comunicar com o mundo. Curiosamente, escrever é sempre um ato de solidão, mas de uma solidão diferente, que não é sinônimo de isolamento ou sofrimento. Enquanto eu tiver respirando, vou lendo escrevendo, pois o leitor precede o escritor.

Adriano – E Cambacica, como se originou?
Halan - Depois de ler A hora da estrela, de Clarice Lispector, desta vez numa edição especial, resolvi escrever um ficção ambientada em Teresina durante os dez primeiros anos do século vinte e um. Tudo partiu da epígrafe do Livro: “! Pergunta: toda história que já se escreveu no mundo é uma história de aflições?”. Então, eu resolvi contar, não exatamente uma história de amor aflito. Por meio desses fragmentos, eu mostro Teresina num processo de transição de uma cidade pequena para uma cidade grande, onde, de um lado, eu mostro os preconceitos de uma aristocracia atrasada e, de outro, o processo de urbanização que vem mudando significativamente a paisagem natural e cultural de Teresina. Outro dia alguém me falou que eu deixe muita coisa de fora. Sim é verdade. Deixei. É que não pretendia fazer um inventário da cidade de Teresina. A intenção era mostrar pontos de vista que poderiam ser reconhecidos pelas pessoas. O Salgado Maranhão me falou que Cambacica era uma novela infanto-juvenil e provinciana, não creio que seja isso não. Curioso! O Caio Douglas achou que eu escrevia à moda antiga, como ele disse, perecido com o estilo de Machado Assis, essas coisas. Embora Cambacica possa parecer sintético, eu digo que não é, pois deixei lacunas a fim de tornar o leitor participativo na narrativa. É impressionante como no Brasil ainda se mede um bom livro pelo número de páginas. Quando o O.G. Rego de Carvalho escreveu Ulisses entre o amor e a morte, recebeu todas as críticas possíveis, infundadas a maior parte delas, é certo hoje. Disseram que Ulisses... era autobiografia (e o que não é confissão para quem escreve?), que ele não sabia escrever, que ele não tinha mais assunto, o diabo. Para mostrar que sabia escrever. O.G. escreveu Somos Todos Inocentes e, com ele, recebeu o prêmio Coelho Neto, da ABL. Durante muito tempo o O.G. Rego de Carvalho não divulgou essa premiação.

Adriano - O.G. Rego de Carvalho foi uma grande influência?
Halan - O O.G. Rego de Carvalho é um belo cidadão, todavia há por aí quem se disponha a fazer graça imitando a postura física dele. Embora eu saiba que para os humoristas não há nada sagrado, particularmente, eu não vejo graça nenhuma. Na juventude o O.G. Rego de Carvalho foi muito aguerrido e atuante na cidade, mas veio-lhe doença e dele fez o que bem quis. Ele é uma influência para todos nós que gostamos de boa literatura. O Jantar, que é o primeiro capítulo de Cambacica, é uma homenagem ao O.G. Rego de Carvalho. O Gilvani Amorim entendeu tudo, ele disse: “O primeiro capítulo parece coisa do O. G. Rego de Carvalho”. No capítulo Nossa Senhora do Rosário faço um intertexto com ele. Lembra que em Somos todos Inocentes há uma passagem em que o personagem Raul aparece jogando dama? Pois é, em Cambacica, ele joga com o Dr. Ferraz. Também faço um intertexto com Assis Brasil, mais precisamente, com o Assis Brasil de Beira rio beira vida. Dou um desfecho que ele, deliberadamente, deixou para o leitor dar, ou seja, o destino de Luiza e de Mundoca. 0s títulos de alguns capítulos apontam para outros autores: Graciliano Ramos, Miguel Torga, Machado de Assis, Manuel Bandeira, enfim.
 
Adriano - Promover, divulgar um livro é uma tarefa tão árdua quanto escrevê-lo?
Halan - Divulgar um livro é sempre doloroso, no Piauí o doloroso vai para o superlativo. Você publica um livro e simplesmente nada acontece no outro dia. O O.G. Rego de Carvalho teve a sorte de receber uma série de críticas negativa no jornal O Piahuy. Tivesse ele escrito hoje, nada aconteceria. No país, não existe mais jornalismo literário e as universidades, as públicas mormente, só produzem dissertações e teses (produzem bem), as revistas de circulação nacional só fazem indicações de livros das grandes editoras. As escolas do Piauí, por hábito de consumir só o que vem de fora, simplesmente ignoram a produção local. O governo e os municípios também ignoram a produção local. Não adianta só publicar, é preciso que haja circulação das publicações para fomentar o mercado editorial. Os intelectuais do Piauí são, na maioria, os que já leram alguma coisa e não estão interessados em ler mais nada. Tudo me parece paradoxal, pois na era da informação e da tecnologia, que facilita a editoração, estamos cegos pelo excesso de luz e aturdidos diante de tantas publicações. Certa feita, o professor Cineas Santos disse que no Piauí há mais escritores que leitores. Isso, ao que me parece, compromete a circulação do livro. Veja que no Rio Grande do Sul a coisa é bem diferente. Os escritores gaúchos não precisaram sair de lá para acontecer: Mário Quintana, Dionélio Machado, Josué Guimarães, Veríssimo, Luiz Antonio Assis Brasil, Moacyr Scliar, Luís Fernando Verissimo, enfim. Esses autores são adotados nas escolas e por isso são valorizados. O Leonardo Dias, depois que o Cineas deixou de editar, vem se arriscando por essas águas, mas o risco de afogamento é alto. O professor Cineas Santos disse-me que ninguém iria ler meu livro, que tudo ia dar em nada. No entanto, não sou pessimista. Ataliba o vaqueiro, de Francisco Gil Castelo Branco, passou cem anos no limbo e depois ressurgiu das cinzas, no meio universitário (coisa que o autor não imaginou). Franz Kafka, hoje considerado um dos maiores escritores do século vinte, no início teve pouco mais de quarenta leitores. Konstantinos Kaváfis teve meia dúzia deles. Fernando Pessoa, em vida, editou Mensagem e a repercussão de sua poesia foi branda, e por aí vai. Um professor, aqui da cidade, disse que os autores piauienses não sabiam escrever, que ele escrevia melhor. Discordo desta besteira, Assis Brasil ganhou o prêmio Walmap duas vezes e ainda o Coelho, da ABL; o O.G. Rego de Carvalho ganhou o Coelho Neto, da ABL; o H. Dobal, que não ligava para essas coisas, ganhou o Porta de Livraria, de O Globo, e o Jorge de Lima, do INL; o Mário Faustino fez o que fez. Se alguém procurar saber quem são os escritores contemporâneos de São Paulo, do Rio, de Minas, de Santa Catarina, do Paraná, da Bahia, de Goiás, de Rondônia, etc, só poderá concluir uma coisa: que não devemos nada a ninguém, que tudo é só uma questão de ignorância e de preconceito.

Adriano - O que fazer diante dessa ignorância e desse preconceito?
Halan - Resta seguir em frente, não dá para voltar. O Villa-Lobos dizia que escrevia cartas para o futuro e não aguardava respostas. Portanto, nestes tempos sombrios, em que já não há solidez no mundo, publicar é antes de tudo um ato de esperança. Escrever é lutar contra ignorância (inclui-se a do autor). Digo isso porque o Mário Faustino pregava que o escritor medíocre não era inofensivo, ele compromete seriamente a língua.

Adriano- E quais os próximos passos do escritor Halan Silva?
Halan - Como disse, no momento estou escrevendo um romance que se intitulará Atoleiro. É uma viagem ao passado de Campo Maior, que foi uma cidade próspera, marcada por uma linda paisagem, e que hoje é uma cidade pobre. Esse livro é o maior desafio que já me propus, não sei se vou conseguir realizá-lo. Depois, pretendo publicar alguns poemas que venho traduzindo por meio de um processo de recriação literária. O H. Dobal, que traduzia muito bem, dizia-me que para traduzir um poema não era necessário um conhecimento aprofundado da língua alienígena, bastavam duas coisas essenciais: 1) Uma boa percepção poética, 2) E um conhecimento razoável da língua para onde se vai fazer a tradução, ou melhor, a recriação poética. Como entendo que poesia é sempre algo pessoalíssimo, venho traduzindo os poemas que me agradam (esse é o critério). Pretendo fazer uma publicação alternativa, fora do mercado editorial, tipo as que você, Adriano, costuma fazer. Se a divina providência me favorecer, gostaria de encerrar a minha incursão escrevendo um livro de poemas. Ao dizer isso, afirmo que para mim a poesia, diferentemente da ciência, que se vale da verdade proposicional, tem um quê de mistério que me encanta, embora há quem diga que a possua por inteiro, mas eu me recuso a acreditar nisso. No dia que a arte for tomada como verdade proposicional, eu desisto dela. Ah, estava esquecendo: eu e o João Kennedy, com base em depoimentos, estamos organizando a biografia do professor Cineas Santos, que a despeito do que possam pensar seus detratores, é uma pessoa de grande importância para a cultura do Piauí.
 


quarta-feira, 27 de julho de 2011

ave eva [download]


caros amigos,


eis minha nova obra, o livro de poemas ave eva. Desta vez, disponibilizado em pdf. Aos que se interessarem, bom download e boa leitura.

download pdf ave eva


inté
Adriano Lobão Aragão

o disse-me-disse do vladimir [2]






Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

Joseph Conrad sobre D.H. Lawrence
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

D.H. Lawrence sobre Herman Melville
“Ninguém pode ser mais palhaço, mais desajeitado e sintaticamente de mau gosto como Herman, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Tem algo falso sobre sua seriedade, esse é o Melville.”



[a partir de depoimentos coletados pela flavorwire]

terça-feira, 26 de julho de 2011

o disse-me-disse do vladimir [1]


Vladimir Nabokov sobre Ernest Hemingway
“Quanto ao Hemingway, eu li um livro dele pela primeira vez nos anos 40, algo sobre sinos, bolas e bois, e eu odiei.”

Ernest Hemingway sobre William Faulkner
“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”

William Faulkner sobre Mark Twain
“Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa e que enganou alguns esqueletos literários de tiro-certo com cores suficientemente locais para intrigar os superficiais e preguiçosos.”

Mark Twain sobre Jane Austen
“Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando eu odeio um. Eu sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que eu começo. Cada vez que eu tento ler Orgulho e Preconceito eu quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com seu osso do queixo.”



[a partir de depoimentos coletados pela flavorwire]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

"Do Sagrado ao Profano"


Alfredo Werney, Dimas Bezerra e Ruimar Batista





 MÚSICOS PIAUIENSES ENCANTAM CARIOCAS
                                                          (Marcos Vilarinho)



Os músicos piauienses Dimas Bezerra e Alfredo Werney  fizeram apresentação, como convidados, no Teatro João Caetano, Rio de Janeiro, por ocasião do II Encontro Nacional de Cultura do Morhan - Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase. Os piauienses apresentaram composições autorais, nos estilos reggae e afoxé, com grande aceitação do público. A noite foi comandada pela atriz Elke Maravilha que se apresentou com banda performática.

O show intitulado Do Sagrado ao Profano também contou com a participação de artistas de São Paulo, do Rio de Janeiro e de outras unidades da Federação. Para os piauienses, a experiência foi válida, gerando bons frutos: "Nosso show alcançou grande sucesso, gerando convites para retornar ao Rio e para apresentações em outros estados", assinala Dimas Bezerra. Ele acrescenta ainda que a música piauiense tem uma aceitação muito boa, faltando apenas mais investimento para a promoção de shows.

Dimas Bezerra e Alfredo Werney, decorrência dessa apresentação no Teatro João Caetano, estarão se apresentando no Festival de Cinema de Fortaleza (CE) e no Festival de Música Instrumental, em Santo André (SP). "É muito gratificante para nós ver a nossa música sendo aplaudida com entusiasmo", ressalta Dimas Bezerra. Alfredo Werney lembra que os artistas piauienses são muito elogiados entre os artistas cariocas, "pela criatividade, pelos nossos ritmos".

No mesmo festival, o coordenador geral do Morhan no Piauí, Ruimar Batista, lançou o livro "Negritude", já em sua segunda edição, com poemas afros. Para Ruimar, esta foi uma excelente oportunidade de divulgação da cultura piauiense: "A gente precisa divulgar lá fora o que fazemos de bom, no campo cultural, aqui no Piauí. Tornar conhecida nacionalmente a nossa cultura é uma forma de mostrar ao Brasil que também evoluímos; uma forma de mostrar que aqui também tempos pessoas capacitadas, voltadas para as artes, para a educação".


texto disponível no www.portalodia.com

terça-feira, 19 de julho de 2011

[livro novo!]

ave eva


os prefácios

[adriano lobão aragão]



§. α

ave eva
te assisto na nudez que desvela
este íntimo diálogo cultivado
num jardim de esquecidos anseios morais
onde se morre de corpo e de alma
em pequena vastidão de pecado e perdão



§. ω

reviver
a odisséia de cada dia despertar
na inútil batalha de se perder
e se me acompanha a lança em sangue adornada
é dádiva da diva dama a quem se deva adorar



§. ∞

em silêncio ecoa teu ardor de êxtase de dor e gozo
enquanto marchamos solitários para longe dos paraísos reviver

ave eva






[in ave eva, 2011]

Dau Bastos fala do livro que organizou sobre Luiz Costa Lima






“Já foi o tempo em que o país se orgulhava do espírito macunaímico”


Dau Bastos publicou os romances Das trips, coraçãoSnifClandestinos na América e Reima, a tese Céline e a ruína do Velho Mundo, a biografia Machado de Assis: num recanto, um mundo inteiro e alguns outros livros. É professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A seguir, discorre sobre Luiz Costa Lima: uma obra em questão (2010), que lhe coube organizar.


Wanderson Lima: Como surgiu a ideia de um livro de entrevistas com Luiz Costa Lima?
Dau Bastos: Pensei em organizá-lo assim que comecei a fazer mestrado em Literatura Brasileira, duas décadas atrás, quando constatei o paradoxo de o grande professor do Instituto de Letras da UERJ enfrentar muita dificuldade para ser compreendido pelos alunos de graduação e pós. Eu próprio, já com trinta anos, boiava em boa parte de suas aulas. No início, pensei em algo muito simples, tipo Para entender Luiz Costa Lima, feito de capítulos explicativos. Aos poucos, achei que a melhor maneira de facilitar a compreensão de suas descobertas e reflexões seria recorrendo a um gênero que, a meu ver, deveríamos cultivar intensamente: a entrevista literária. Não do modo banalizado como costuma aparecer nos periódicos, e sim como texto capaz de conciliar dinamismo e profundidade. O último passo no sentido de realizar o projeto foi abri-lo à participação do maior número possível de interlocutores, escolhidos entre professores de instituições brasileiras e estrangeiras que conhecem bem a obra do Luiz. O plano demorou para ser realizado, mas isso foi até bom, pois durante esse tempo o entrevistado escreveu mais que nunca, chegando à cifra invejável de 21 volumosos títulos.


WL: Luiz Costa Lima: uma obra em questão me parece um livro que se bifurca em dois objetivos, já que tanto oferece uma súmula das ideias do autor como possibilita ao entrevistado, muito autoexigente, nuançar distinções e aprofundar argumentos. Esta dupla visada foi pensada previamente pelo organizador ou a ideia era apenas oferecer uma introdução?
DB: Mesmo sem compreender boa parte do que o Luiz dizia, percebi, desde as primeiras aulas, que o problema não era dele, e sim meu. Faltava-me, como a boa parte dos estudantes, professores e produtores de literatura de nosso país, acesso a uma vasta bibliografia sobre ficção e poesia, desde a Grécia até a atualidade, pela qual o Luiz circula como se estivesse em casa. Assim se explica que o intuito inicial fosse mapear essas leituras, de modo a criar condições de diálogo, com a consequente síntese das ideias mestras do pensamento do entrevistado: controle do imaginário, mimesis e assim por diante. Acontece que o Luiz se mantém em constante ebulição. Ao se revisitar, não se limitou a reproduzir o que havia publicado: além de escrever como se conversasse, exerceu uma autocrítica feroz sobre seu quase meio século de produção e, muitas vezes, chegou a novos achados sobre questões anteriormente enfrentadas. Em síntese, por mérito seu – e certamente dos entrevistadores, escolhidos pela argúcia, competência e seriedade –, tenho a alegria de dizer que o livro ficou infinitamente mais rico do que o imaginei.


WL: O que, a seu ver, Luiz Costa Lima: uma obra em questão acrescenta às reflexões do entrevistado?
DB: Como o Luiz precisou parar sua produção frenética para perspectivar aquilo que já havia colocado no papel, pôde formular com outras palavras certos pensamentos que, assim, ganharam um brilho diferente e, beneficiados pela passagem do tempo, puderam ir ainda mais longe. A navegação pelo todo da obra também possibilitou ao entrevistado explicitar conexões impossíveis no âmbito exclusivo de um livro. Dessa maneira, criou condições de o leitor perceber, com toda a clareza, a articulação de vários dados que, em conjunto, contribuem significativamente para a compreensão do fenômeno literário.


WL: As condições atuais de nossa academia são mais favoráveis a uma compreensão da obra de Luiz Costa Lima ou continuamos, para lembrar um célebre ensaio do entrevistado, com medo da teoria?
DB: Em consonância com o otimismo dos teóricos da estética da recepção – que acreditam na ampliação paulatina do horizonte ficcional do ser humano –, vejo a teoria como uma área que atrai cada vez mais os estudantes de Letras. A ampliação de sua acessibilidade encontra explicação em paralelos que façamos com áreas tão distantes quanto a informática, cujo conhecimento se propaga continuamente, facultando a um número cada vez maior de pessoas conhecerem softwares e demais recursos. No caso do Luiz, já não é possível dizer que sua obra é muito complicada: quem encontrar alguma dificuldade terá apenas de adquirir nosso livro, que, segundo vários depoimentos de leitores, realmente é um verdadeiro mapa da mina. Isso é muito bom, pois haverá um momento em que dizer que não leu nada de Costa Lima vai ser um mico e tanto. Uma das mostras de seu crescente alcance, dentro e fora da universidade, se encontra num dos últimos textos que José Castello publicou no “Prosa & Verso”, doGlobo, iniciado por uma lista de críticos brasileiros importantes na qual se vê primeiro Antonio Candido e, em seguida, nosso entrevistado – tratado, assim, como o nome mais expressivo de sua geração. Ora, reconhecer o valor do Luiz é admitir que a teoria é imprescindível. Daí a tristeza de ouvir, num importante congresso realizado na Faculdade de Letras da UFMG, um colega do Rio defender o retorno da crítica impressionista como se fosse uma espécie de abordagem cheia de molejo que o enrijecimento acadêmico teria estigmatizado. É igualmente desesperador ver e ouvir colegas de todo o Brasil tratando a escrita em prosa e verso nos moldes dos velhos manuais de literatura e, o que é pior, sentindo-se no direito de meter o cacete em quem tenta desenvolver a teoria entre nós; geralmente são tão toupeiras que sequer percebem a ficção e a poesia lhes escapando inteiramente por entre os dedos. Para não me limitar aos docentes, digo igualmente do grande constrangimento de ver graduandos e pós-graduandos fazendo suas escolhas de professores e orientadores pela refração a essa atividade penosa que é pensar. Já foi o tempo em que o país se orgulhava do espírito macunaímico, mas restam largas ilhas de preguiça a nos matar de vergonha.

* Leia a entrevista completa na nova edição de dEsEnrEdoS [aqui].

domingo, 17 de julho de 2011


A urdidura da tramA
Victor Del Franco
Editora Giordano
São Paulo, 1998




esfera além da razão,
além da lógica exata
de todo conhecimento cabível

esfera além da física,
além de toda explicação científica
que jamais nos dará paz de espírito