quinta-feira, 30 de junho de 2011

são josé



 
estes que talvez aqui não mais se encontram abrigados
em respectivos jazigos que dos herdeiros herdaram
nesta terra se revestem de lembrança e esquecimento

sob a sombra de antigas árvores silêncio tardio
sob o passo lento de transeuntes e de abandonados
gatos leves passos sob céu chuva e nuvem se resguardam

apenas o ponto e o porto em que seus corpos decompostos
inertes se reencontram dispersos nesta mesma terra
semente perene como a noite que lhes protege

sob a sombra destes túmulos nas linhas desta lápide
talvez aqui se revestem de esquecimento e lembrança


[in as cinzas as palavras]

domingo, 26 de junho de 2011

audioteca SAL & LUZ

Meus olhos são seus olhos



A Audioteca Sal & Luz é uma instituição filantrópica, sem fins lucrativos, que produz e empresta livros falados (audiolivros) para pessoas cegas ou com deficiência visual, em todo o território nacional, de forma gratuita.

Possui, hoje, mais de 1.700 associados e conta, em seu acervo, com cerca de 2.700 títulos, entre didáticos/profissionalizantes e literatura.

Nosso objetivo é proporcionar, aos nossos associados, meios para a conquista de uma vida com qualidade.

Mais do que inclusão, desejamos viver numa sociedade que não exclua seus filhos, a despeito de todas as diferenças. Que essas diferenças sejam o estímulo necessário para nosso crescimento individual e para a construção de uma nação mais justa.

http://audioteca.org.br/audioteca.htm

sábado, 25 de junho de 2011

Sobre a coceira que se alastra pelos cofres públicos

[renato zagrel]



Se dá nestes cofres públicos
igual coceira do mato
que dá no cu do macaco,
igual buraco sem fundo.
Se dá nos públicos cofres
ânsia e vício similar
que acomete o marajá:
ignora fome de pobre
não há dinheiro que sobre
se a coceira é de gastar.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

No país de Gerardo Mello Mourão



[Adriano Lobão Aragão]






Em artigo no qual versava sobre a poesia e o papel do poeta, Gerardo Mello Mourão escreveu que “Cantar é ser – ensinava ainda o poeta nos Sonetos a Orfeu. / Ser é saber a sua própria história. / O poeta é o contador de sua própria história, da história de seu ser e de seu existir.” Fiel ao compromisso com a palavra, que considerava sagrada, a trajetória poética de Gerardo inclui verdadeiros monumentos literários calcados no cantar, no narrar, no existir em meio a um mundo moldado entre o lírico e o épico e impregnado da mítica existência humana ao longo de sua história e suas histórias. Nascido em janeiro de 1917, na cearense Ipueiras, e falecido em maio de 2007, no Rio de Janeiro, o poeta Gerardo legou-nos uma poesia que remonta a eras bem mais antigas, como “No País dos Mourões”, “Peripécia de Gerardo” e “Rastro de Apolo” (reunidos no volume “Os Peãs”), e “Invenção do Mar”. Acima de tudo, reafirmamos, seu compromisso era essencialmente com a poesia: “Publicar ou não publicar não é problema para um escritor de verdade. Vender livros também não. Baudelaire, em toda a sua vida, ganhou apenas 17 francos com seus livros. Kafka nunca teve mais de 40 leitores. Quanto a mim, escrevo apenas para comparecer com estes livros na mão, diante de Deus, no Dia do Juízo Final, no Vale de Josafá, que espero esteja para chegar. Acho até que tenho vendido demais e publicado demais. Deus vai me cobrar isto. Quando um jovem escritor está aflito para publicar um livro, desconfie do livro e do escritor. Começo por mim, que desconfio de meu primeiro livro. Depois, tome nota: um dos maiores poetas de nosso tempo e de todos os tempos, Kavafis, nunca editou um livro em vida, apenas distribuía, de vez em quando, quarenta ou cinquenta cópias de um de seus poemas a quarenta ou cinquenta pessoas que conhecia em diversos países da Europa.” Não se sabe o que terá dito Deus a Gerardo, mas agradeço-lhe por ter publicado demais, como afirmou, e desejo que a leitura de seus livros lhe sirva de prece para seus pecados editoriais.

A religiosidade permeava sua vivência, ele que declarou amar as alegrias do corpo e da alma, “mas estou afetado pela tristeza existencial (ou será ontológica?) do ser humano, pois sei, como Léon Bloy, que a maior desgraça que pode ocorrer ao ser humano é a desgraça de não ser santo. Eu não sou santo. Esta é a tristeza medular de minha vida. (...) estou vivo e fui maculado por quase todos os pecados mortais, os chamados pecados mortais. Quem quiser que os imagine.” Os depoimentos até aqui mencionados foram extraídos de entrevista, atualmente disponível no site A Garganta da Serpente, concedida a Rodrigo de Souza Leão quando o poeta contava 83 anos de idade. Sua poesia, de forte acentuação épica sempre causou curiosidade quanto às influências. Em outra entrevista, publicada na revista E, do SESC de São Paulo, declarou: “Não sei se é próprio falar de influências. Prefiro lembrar algumas referências. A primeira delas foi o caboclo Anselmo Vieira, cantador da feira de Ipueiras, com sua rabeca rouca, sua voz gemedeira, cantando quadras e sextilhas de sete sílabas, mourões de oito pés em quadrão, galopes-à-beira-mar em puros endecassílabos de Metastasio e assim por diante.” Entretanto, grande conhecedor de grego e latim, o poeta transcende os limites de seus sertões, conforme observa José Nêumanne Pinto, ao escrever sobre “Invenção do Mar”: “O primeiro épico contemporâneo brasileiro refere-se, originariamente, a Luís de Camões, cuja obra deu corpo definitivo e moderno ao vernáculo. Mas, ao nivelar Luiz Gonzaga e Homero, o poeta foi além: a dicção camoniana ganha cor e vida, ao ritmo do baião, que baila no bojo da viola dos repentistas e no verbo de fogo de profetas sertanejos – o Conselheiro, Padre Cícero e o negro forro Inácio da Catingueira no mesmo balaio –, um Brasil inteiro ainda por descobrir.”

A despeito de quaisquer controvérsias políticas ou biográficas, o que Gerardo nos legou foi sua poesia, sua intensa e necessária poesia. E é o poeta, contador de sua própria história, quem traça seu vaticínio: “Nos labirintos do saber e da cultura, varando o oco do mundo, por Europas, Ásias, Áfricas e Américas, peregrino de todas as vicissitudes, talvez eu possa dizer como Keats: ‘– Acho que meu nome constará depois da minha morte entre os poetas de meu tempo’. Se isto ocorrer, a uma coisa eu o devo – à fidelidade obstinada à minha terra, aos seus valores primitivos.” Este o rastro que deixa Apolo pelo vasto país de Gerardo Mello Mourão. 
 
 
 
[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 21 de junho de 2011]

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Gerardo por Gerardo


Aos 83 anos de idade, Gerardo de Mello Mourão (1917-2007), concedeu entrevista ao Balacobaco, na qual falou da convivência com os livros e com a poesia, e deixou, como auto-retrato, o depoimento transcrito a seguir.



Gerardo por Gerardo: "Sou católico, apostólico, romano. Acho que as pessoas de outras religiões têm as mesmas chances de salvação. Sou cearense há mais de quatrocentos anos. Sou casado, fui viuvo. Tenho três filhos, o que acho muito importante, pois creio, como está no Credo de Santo Atanásio, na ressurreição da carne. E os filhos são a prefiguração da ressurreição da carne. Amo as alegrias do corpo e da alma. Mas estou afetado pela tristeza existencial (ou será ontológica?) do ser humano, pois sei, como Léon Bloy, que a maior desgraça que pode ocorrer ao ser humano é a desgraça de não ser santo. Eu não sou santo. Esta é a tristeza medular de minha vida. Pois nasci e fui criado para ser santo e manter intacta a imagem e semelhança de Deus. Tal qual a tinha em meu dia de nascimento, a 8 de janeiro de 1917, em Ipueiras, no Ceará, e na data de meu batismo, quatro dias depois providenciado pelos cuidados pressurosos de minha mãe, no dia 12 do mesmo mês, ministrado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição por nosso primo, Monsenhor José de Lima. Minha mãe era uma pessoa dramaticamente religiosa. Eu tinha um irmão mais velho. Minha mãe leu na vida de São Luís Gonzaga, que sua mãe Branca de Castela, fizera um voto a Deus: queria ver seu filho morto antes que cometesse um único pecado mortal. Quando meu irmão morreu, ela se convenceu de que seu voto o matara. E retirou de mim a promessa terrível. Resultado: estou vivo e fui maculado por quase todos os pecados mortais, os chamados pecados mortais. Quem quiser que os imagine. Etc."


[a entrevista completa pode ser conferida nA Garganta da Serpente]

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Luciano Erba

Luciano Erba, 1922-2010


Un'equazione di primo grado 
Luciano Erba
 
La tua camicetta nuova, Mercedes
di cotone mercerizzato
ha il respiro dei grandi magazzini
dove ci equipaggiavano di bianchi
larghissimi cappelli per il mare
cara provvista di ombra! per attendervi
in stazioni fiorite di petunie
padri biancovestiti! per amarvi
sulle strade ferrate fiori affranti
dolcemente dai merci decollati!
E domani, Mercedes
sfogliare pagine del tempo perduto
tra meringhe e sorbetti al Biffi Scala.




Uma equação de primeiro grau
Luciano Erba
[tradução de Adriano Lobão Aragão]
 
A tua nova blusa, Mercedes       
de algodão mercerizado
tem o ar dos grandes magazines
onde nos equipávamos de brancos
larguíssimos chapéus para o mar
com o rosto provido de sombra! para aguardar
nas estações floridas das petúnias
brancos vestidos! para amar-te
sobre estradas de ferro esmagadas flores
docemente como bens dilacerados!
E amanhã, Mercedes
desfolharás páginas do tempo perdido
entre merengues e sorvetes no Biffi Scala.


_____________
Poeta, professor e crítico literário italiano, Luciano Erba nasceu em Milão, em 1922, onde faleceu em agosto de 2010. Entre suas obras mais importantes estão "Linea K" (1951), "Il male minore" (1960), "L'ippotamo" (1989) e "Il tramviere metafisico" (1987).

sábado, 11 de junho de 2011

três poetas

Bob Dylan e Allen Ginsberg diante do túmulo de Jack Kerouac
Lowell's Edson Cemetery, 1975
foto de Ken Regan

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Na Estrada com Zé Limeira


NA ESTRADA COM ZÉ LIMEIRA
um filme de Douglas Machado


Data: 14 de junho de 2011
Horário: 9h da manhã
Local de exibição: Sala de Vídeo da CASA DA CULTURA
End:    Praça Conselheiro Saraiva – Centro
Contato: Yolanda Carvalho
tel: 3215-7849
[Após a exibição debate com os realizadores]


Sinopse:
Uma equipe de filmagem percorre os Estados da Paraíba e Pernambuco em busca das memórias do poeta e repentista paraibano Zé Limeira [1886-1954]. Nesta viagem pelo Sertão, a procura dessas informações revela a construção do próprio documentário. Suporte digital.

Duração: 90min.
Ano de produção: 2011
Contatos: [86] 99875896 – [86] 99814341

Equipe Técnica:
Roteiro e Direção: DOUGLAS MACHADO
Inspirado em um argumento de: JOÃO MARCELLO CLAUDINO
Direção de Produção: GARDÊNIA CURY
Imagens e som direto: DOUGLAS MACHADO e EDUARDO CRISPIM
Edição: DOUGLAS MACHADO e EDUARDO CRISPIM
Trilha sonora original: SÉRGIO MATOS
Musica de abertura: BETO BRITO
Produção Executiva: JOÃO MARCELLO CLAUDINO
Realização: TRINCAFILMES



Breve entrevista com Douglas Machado
Sobre o Zé Limeira
Talvez a minha maior surpresa encontra-se na certa proximidade entre o Zé Limeira da memória das pessoas que entrevistamos e o Zé Limeira descrito no livro de Orlando Tejo [Zé Limeira – O Poeta do Absurdo]. Salvo algumas liberdades poéticas do escritor, a figura alta e carismática se encaixa em ambas versões. A diferença é que o Zé Limeira de Orlando Tejo é uma personagem literária, repleta de exageros [andava somente à pé, mesmo que por 400km; usava 15 anéis nos dedos das mãos; morreu ao cantar a Pavoa Devoradora antes da meia-noite etc]. Essa dualidade está presente em praticamente todos os encontros gravados no documentário.

Locais das gravações do documentário
Como havíamos planejado, foram três semanas de gravação. Sem interrupções. Percorremos pouco mais de 4.000km. Gravamos, sobretudo, na Paraíba. Também fizemos algumas seqüências em Pernambuco. Dos locais visitados, destacamos:
PB: Teixeira, Sítio Tauá, Maturéia, Campina Grande, Prata, Cajazeiras, Triunfo, São João do Rio do Peixe e Fazenda Melancias;
PE: São José do Egito, Tabira, Piedade, Recife e Itapetim;

Equipamentos usados nas gravações
Tomando partido da presença de Eduardo Crispim na equipe de gravação, usamos uma câmera adicional: a 7-D [Canon]. Ela funcionou, basicamente, como um olhar atento às circunstâncias das filmagens. Por exemplo, enquanto eu operava a XDCAM EX1-R, da Sony, Eduardo fazia uma cobertura dos detalhes desta gravação com a 7-D. Sempre usando uma lente 50mm – com um campo focal mínimo, para resultar em uma textura diferenciada. As duas câmeras trabalharam em Full HD. Quanto ao som, usamos duas fontes simultâneas: um direcionalSennheiser ME66/K6 [shotgun] e um lapela sem-fio, modelo UWP-V1, da Sony. Em alguns momentos, usamos também um Zoom H4n.

Sobre os encontros
Cada conversa sobre Zé Limeira terminava por nos levar a outras pessoas. Como eu já imaginava, algumas foram encontradas, outras não. De qualquer maneira, encontramos bem mais do que estava previsto. E neste tecido da memória oral, costuramos um Zé Limeira que trafega entre os escritos de Orlando Tejo e o que ficou registrado na vida dessas pessoas. Gostaria de ressaltar dois encontros: João Furiba e Pedro Amorim. Ambos tocaram com Zé Limeira nas décadas de 1940 e início de 1950. Vale lembrar, também, Jessier Quirino – que nos recebeu frente ao Campinense Clube, no centro antigo de Campina Grande. Jessier faz parte desta geração de poetas paraibanos que podem ser considerados “limeirenses”.


Sobre a gravação
Todo o trabalho foi regido por gravações sem acertos prévios. Tudo gravado em “primeiro take”, por assim dizer. Isso deu ao documentário um frescor, uma verdade, que certamente vai estar presente na edição. Um dos momentos mais significativos, acredito, foi encontrar – acompanhado por moradores do Sítio Tauá – o local exato onde Zé Limeira morava. Um deles, inclusive, viu, ainda menino, Zé Limeira tocar nesta casa.


Douglas Machado [roteirista|Diretor]

terça-feira, 7 de junho de 2011

Duas vidas secas

[Adriano Lobão Aragão]




“Há muita mitologia com a parafernália do cinema. Para mim, cinema é quadro: em cima, embaixo, esquerda e direita. Você tem que combinar tudo dentro desse espaço. Se o cinema evoluiu, não foi pela tecnologia, mas pela linguagem inovadora. O filme era mudo e sem cor, depois ficou sonoro e colorido. Isso não torna um filme mais interessante em sua essência. Mas quando os italianos vieram com o neorrealismo, ou quando os franceses criaram a Nouvelle Vague, aí, sim, foi um marco. A evolução se deu no nível das ideias, da concepção do filme, e não dos equipamentos. A literatura não melhorou por causa do computador.” Assim manifestou-se Nelson Pereira dos Santos em depoimento concedido à revista Piauí, em novembro de 2008. Diretor de filmes essenciais, como “Rio, 40 graus” (1955), “Boca de Ouro” (1962), “Como era gostoso o meu francês” (1971) e “Memórias do cárcere” (1984), Nelson realizou em 1963 sua primorosa adaptação da obra de Graciliano Ramos, “Vidas Secas”. Poucas vezes uma obra cinematográfica conseguiu transpor de maneira tão exata a ambientação literária empreendida pelo autor e, ainda assim, desenvolver uma criação vigorosa artística que não deve ao modelo inspirador sua relevância. Em outras palavras, “Vidas secas”, de Nelson Pereira dos Santos, tornou-se relevante para o cinema assim como “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, fez-se relevante para a literatura, cada qual por suas características intrínsecas.   

Em consonância com o depoimento de Nelson, “Vidas secas” é sobretudo a afirmação da ideia, da narrativa sóbria, da valorização do preto e branco, da influência do neorrealismo, tudo circunscrito ao minimamente essencial, da “trilha sonora” executada pelos ruídos de um carroça a um duplo monólogo simultâneo do vaqueiro Fabiano e sua esposa Vitória, que jamais se realizaria em diálogo. Em essência, a negação da parafernália mitológica a que, muitos anos depois, faria referência.

A atuação da cachorra Baleia é um caso à parte. Assim como a habilidade de extrair do animal o comportamento e expressões necessários ao filme, ressalta-se também a extrema habilidade de Graciliano em unir o que há de subjetivo em sua personagem antológica ao que de mais convencional se observa no comportamento de um cachorro.

Escrito entre 1937 e 1938, o romance de Graciliano Ramos narra a desventura de uma família de retirantes do sertão brasileiro brutalizada por uma condição de vida subumana. Revisor cuidadoso, meticuloso com todos os detalhes que pudessem interferir até mesmo no processo editorial, Graciliano examinava até mesmo o material recém-impresso ainda na própria gráfica. E nada de seu labor criterioso era direcionado para a incorporação de adornos, embelezamentos, mas para manter em seu texto a objetividade essencial que lhe é inerente.

Durante o processo editorial do livro, Graciliano mostrou-se inteiramente cuidadoso com sua criação, frequentando a gráfica responsável pela elaboração do livro diversas vezes e examinando meticulosamente o material quando esse entrava no prelo, para ter a certeza que a revisão não interferiria em seu texto. Eis a antológica receita de Graciliano: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

No cinema, seguir os preceitos de Graciliano é ainda mais comprometedor, talvez impossível. A criação de um filme é uma arte absolutamente coletiva, por mais que a mão de um diretor tente conter os diversos ímpetos pessoais que se reúnem em torno de uma produção. Com certeza Nelson teve diante de si um gigantesco desafio, sobretudo pelo fato da liberdade, tradicionalmente, que concede a seus atores. Ainda assim conseguiu aproximar as duas linguagens, a literária e a cinematográfica, pelo viés da carestia, do enxugamento. O cinema de Nelson não brilha como ouro falso, mas como uma orquestração árida que valoriza cada segundo de som e silêncio, sobretudo silêncio. Ou um romance que valoriza mais as entrelinhas que a ação. Não se pode afirmar que Nelson tenha pretendido fazer um romance visual, mas não deixa de ser notório que, a partir de 2006, passasse a ocupar cadeira 7 para a Academia Brasileira de Letras. Um reconhecimento literário, é certo, mas Nelson já poderia ser considerado “imortal” desde 1963. 

 



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 07 de junho de 2011]

segunda-feira, 6 de junho de 2011

assim sutil recompõe no olhar teu traço que vislumbra

[adriano lobão aragão]





assim sutil recompõe no olhar teu traço que vislumbra
umbra de teu corpo concreto sutil e preciso mar
onde teu ser está no traço que meu olhar desnuda

no gesto que impunha sem que devolva qualquer olhar
nua está na veste que te vista na umbra que te cubra
assim compõe tua figura no estar no vestir no andar

mesmo onde teu ser não está teu traço meu ver vislumbra
estará sempre presente e nua onde meu olhar olhar



[in Yone de Safo, 2007]

sexta-feira, 3 de junho de 2011

dEsEnrEdoS: chamada para publicação



Até o dia 22 de junho, receberemos colaborações em forma de artigo, ensaio, resenha, conto, crônica, poema e tradução. As normas de publicação podem ser lidas aqui.