terça-feira, 24 de maio de 2011

“Onde entanguidos bois pastam a poeira”

[Adriano Lobão Aragão]
 


RÉQUIEM
(H. Dobal)

Nestes verões jaz o homem
sobre a terra. E a dura terra
sob os pés lhe pesa. E na pele
curtida in vivo arde-lhe o sol
destes outubros. Arde ar
deste campo maior desta lonjura
onde entanguidos bois pastam a poeira.

E se tem alma não lhe arde o desespero
de ser dono de nada. Tão seco é o homem
nestes verões. E tão curtida é a vida,
tão revertida ao pó nesta paisagem
neste campo de cinza onde se plantam
em meio às obras-de-arte do DNOCS
o homem e outros bichos esquecidos.



O termo “réquiem”, oriundo do latim, “repouso”, refere-se à primeira palavra do intróito da missa dos mortos, ou à sua prece litúrgica. O poeta H. Dobal, entretanto, prepara um réquiem para os vivos; embora a própria terra (da qual deveria cultivar sua condição de sobrevivência) já lhe pese “sob os pés”. Constante em O Tempo Consequente (1966) trata-se do primeiro poema do livro em questão que alude ao tema mais peculiar de sua obra: o rústico sertanejo abandonado à sua própria indigência em meio a outros bichos, talvez abaixo do nível de sobrevivência, como se, ainda vivos, já se apresentassem mortos. O termo “outubros” poderia ser entendido como um indício de uma situação cíclica, ano a ano repetida, vivenciada sob o sol que curte o couro não do gado morto, mas do ser humano que, in vivo, tem sua pele, sua vida e seu ar entregues à ardência da sucessão dos dias áridos. Desenvolvidos em enjambement, chega a ser brutal o lirismo desconcertante dos versos “E se tem ama não lhe arde o desespero / de ser dono de nada. (...)”. Com certeza, uma das mais incisivas reflexões sobre a precária condição de vida(?) do homem sertanejo.

Entretanto, neste breve texto, procuraremos analisar, para além dos aspectos relacionados ao conteúdo sociológico, alguns elementos formais que, aliados ao valor social do poema, tornam a obra de Dobal ainda mais magnífica. Ao lado de aliterações (“sob os pés lhe pesa. E na pele”), assonâncias (“E se tem alma não lhe arde o desespero / sob os pés lhe pesa. E na pele”) e ecos (“nestes verões. E tão curtida é a vida, / tão revertida ao pó nesta paisagem”) Trata-se de um poema repleto de rimas internas, como ‘terra’ (verso 2) / ‘pesa’ (verso 3) ou o eco já mencionado, por exemplo. Não deixa de ser um recurso notório para um poeta que costuma não utilizar rimas. A quantidade de versos, 14, também é bastante curiosa, pois trata-se justamente da tradicional extensão de um soneto, e Dobal fez uso diversas vezes de sua forma inglesa, com os 14 versos reunidos em uma única estrofe. Neste caso, observa-se a partição em duas estrofes. Seria agora um soneto esfacelado, quebrado como o chão do sertão “onde entanguidos bois pastam a poeira”? Observa-se que a própria discursividade é “quebrada”, pelo recurso de enjambement, típico de Dobal, explorado à maestria neste poema. A suspensão do termo seguinte confere ao verso uma rudeza lírica, como o silêncio litúrgico ou o difícil falar sertanejo a que nos alude João Cabral de Melo Neto em O Sertanejo Falando, poema de A Educação pela Pedra.

Lembremos também que a palavra “réquiem” também se aplica à música, referindo-se à composição musical sobre o texto litúrgico da missa dos mortos, cujo intróito começa com as palavras latinas requiem aeternam (‘repouso eterno’). Configura-se assim um poema no qual o canto rústico, mas elaborado com os recursos estilísticos naquilo que lhe é essencial, é desfiado para o homem e outros bichos que se revertem ao pó. A dimensão litúrgica pode aqui ser retomada, conforme a intertextualidade bíblica: “Pois tu és pó e ao pó tornarás” (Gênesis, 3:19, conforme a Bíblia de Jerusalém).

A ironia dobalina, que será tão explorada em A Serra das Confusões, nos oferece uma de suas primeiras crias, estranhamente inserida na conclusão de poema tão grave (“em meio às obras-de-arte do DNOCS”). Por tratar-se de poema onde não há marcas de pessoalidade, não deve ser compreendida como alusão ao típico hábito brasileiro de ironizar a própria desgraça. Entretanto, a ironia não recai sobre o ‘homem’, mas sobre a ‘instituição’ (o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), que deveria ampará-lo. Este o aspecto que atenua a estranheza que a ironia confere ao poema, como uma incômoda nota dissonante nesta composição, neste réquiem. Eis que, num poeta como H. Dobal, nenhum recurso é desprovido maiores significações intrínsecas e, muitas vezes, repletas de polissemia. Neste árido “réquiem”, com certeza diversos leitores de Dobal colheram outras interpretações, pois se o campo de cinzas retratado é seco, sua poesia continua intensamente fértil.



[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 24 de maio de 2011]

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Pobreza e lirismo: o programa Chaves (El chavo del ocho)






Shakespeare e Chespirito


O povo ama o programa Chaves (El chavo del ocho), não exatamente apesar, mas por causa de sua simplicidade de circo mambembe. Assistindo ao Chaves, sabemos de antemão, ou ao menos intuímos com alguma nitidez, o que vai acontecer; mas como a criança que pede todas as noites que lhe contem a mesma história, e que sempre a ouve com o interesse da primeira vez, rimos sem pejo. É relativamente fácil desqualificar El chavo devido a sua simplicidade flagrante – seus esquemas reiterativos, sua pobreza cenográfica, seus personagens planos e caricatos –, porém é um grande engano. Em termos de cultura de massa, sofisticação, muitas vezes, não passa de verniz para vender mercadoria vagabunda; de séries americanas a novelas brasileiras, daria para apontar uma quantidade considerável de exemplos de pseudosofisticação, tanto na concepção da mise-en-scène quanto num roteiro recheado de alusões eruditas. Chaves, ao contrário disso, dispensa qualquer verniz: é íntegro, essencial, em sua pobreza. Roberto Gómez Bolaños, o homem que criou e que protagonizou o seriado Chaves, é um talento cômico que dá continuidade ao teatro popular improvisado (cujas raízes é a commedia dell’arte do século XV italiano).

No México, seu país de origem, Bolaños recebeu a alcunha de Chespirito, que é a forma diminutiva e castelhanizada de Shakespeare. Se fôssemos traduzir tal alcunha para o português, seria algo mais ou menos como Chequespirzinho. Esse apelido dado a Bolaños encerra em suas sugestões, sem dúvida, algum elogio e reconhecimento ao seu talento de comediante, mas, por outro lado, representa uma visão bastante corrente e negativa da cultura de massa: a cultura de massa como sendo uma corruptela da alta cultura (assim como “Chespirito” nasce da corrupção de “Shakespeare”).

A discussão sobre a veracidade ou não dessa interpretação da cultura de massa (como corruptela, caricatura, redução simplória e esquemática da alta cultura) tem longa história e vários ângulos. Um desses ângulos foca o problema na durabilidade. A idéia tacitamente aceita é a de que o reino da cultura de massa é o do efêmero: tudo nela, porque traz a marca do inautêntico, é feito para ser consumido rápida e irrefletidamente. Inúmeros exemplos, entre eles o seriado Chaves, podem comprovar o quão pouco problematizante e maniqueísta é esta perspectiva. El chavo del ocho estreou no México em 1971; este ano, portanto, faz 40 anos ininterruptos de exibição televisiva, e isso contando com um número limitado de episódios (tem 290 episódios e parou de ser produzido desde 1992). No Brasil, estreou em 1984, no SBT, e atualmente passa não só neste canal como também no Cartoon Network, em ambos os canais com audiência satisfatória. Nos Estados Unidos Chaves também é apreciado e chama-se “The Kid From 8”; na Itália, chama-se “Cecco Della Botte”; na Alemanha, “Der Junge aus der 8”; na França, “Le Grosse Huit”. Ao todo, Chaves é visto e faz sucesso em, pelo menos, 29 países (segundo informa a Wikipedia). Tão surpreendente quanto o número de países é a variedade de público: crianças e idosos; analfabetos e cults; gente que nem mesmo é muito aficionado em televisão.

Como explicar o fenômeno Chaves, sua universalidade, sua durabilidade relativa, contornando os chavões condenatórios que se emitem em nome da inferioridade da cultura de massa? Neste texto, tento uma atitude compreensiva – que o filósofo Paul Ricoeur chamaria de “hermenêutica da confiança” –, buscando entender, numa atitude de abertura à obra, como o seriado produz, por meio de mecanismos simples, sua magia, sua efemeridade que dura. Evito, assim, ler o Chaves a partir de categorias que denotem suspeita, como manipulação, massificação, alienação e decadência da cultura, tão ao gosto de certo elitismo que engloba nomes que vão de Adorno a George Steiner; tampouco espero encontrar no seriado algo como um foco de resistência popular ou sabotagem dos valores da elite, como fariam os que abraçam as sugestões teóricas de Michel de Certeau, por exemplo. Parto de uma constatação – a de que a pobreza recobre todas as camadas significativas do Chaves – e busco extrair algumas conseqüências dela.


A pobreza como qualidade central


Chaves não é apenas um programa sobre pessoas pobres, é um seriado pobre em todas as suas camadas: a temática é a pobreza; o cenário é pobre; o roteiro é marcado conscientemente por certa pobreza literária. Mas por um aparente paradoxo, logo desfeito, a magia do seriado advém de sua pobreza: dela emana sua absoluta legibilidade e seu apelo fácil a uma identificação.

No Brasil, foi Ruth Rocha quem primeiro percebeu a pobreza positiva do programa. Numa entrevista à revista Veja, em 1999, Ruth contrapôs nestes termos a pobreza do Chaves à opulência do Castelo Rá-Tim-Bum:


O melhor programa infantil é o Chaves, do SBT. Pode ser pobre, feio, mas quem escreve aquilo é inteligente. Chaves é circense. As crianças se identificam com os diálogos, com os trocadilhos, com as cenas de pastelão e com o personagem-título, que se comporta exatamente como elas. É uma atração simples e divertida, que não faz mal a ninguém. Considero-o melhor que o Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura. O Castelo é consistente, tem ótimos atores e atrizes e, no deserto da TV brasileira, é uma maravilha. Mas é um pouco over, exagerado.
O Castelo tem muita cor, ruído, grito, correria, apelo sensorial. As crianças, principalmente as menores, têm dificuldade em assimilar o que acontece na tela (Veja, 5/5/1999).


As fontes de identificação que Ruth Rocha elenca atraem não apenas crianças. Nada em Chaves cria uma dissimetria entre o programa e o telespectador. A pobreza do Chaves, como na literatura de Dickens e no cinema de Chaplin, é carregada de dignidade e lirismo. A Chespirito pouco ou nada interessa escavar as causas sociais da pobreza, denunciar o sistema político ou extrair o drama meloso das situações de fome e carência material. Ninguém precisa ter pena ou se indignar com a situação do Chaves, da Chiquinha, do seu Madruga. Eles são pobres, eles são bons. Ou melhor, eles são pobres e, por isso, são bons. Pobreza é bondade. Esta é, a propósito, uma das forças catárticas do seriado: pobreza não é vergonha.

Num episódio, seu Madruga pergunta ao Chaves se ele já tomou café da manhã. Ele responde que, sim, duas vezes. Seu Madruga se surpreende e Chaves explica melhor: duas vezes naquele ano. O público explode em risadas, risadas sem nenhum laivo de pena. Chespirito acerta ao não permitir, ou ao só permitir raras vezes, que sintamos dó de Chaves. Se assim não fizesse, o seriado seria provavelmente mais um dramalhão insosso, uma denúncia ingênua. Felizmente, Chaves, o personagem, guarda um pouco do herói pícaro da tradição espanhola, que Chespirito deve ter lido muito – talvez não pelo lado do ardil, mas por haver em Chaves uma consumada consciência da arte de sobreviver. Chaves é órfão, não tem lar, não tem nome (o nome Chaves é uma invenção arbitrária, um abuso ao original), mas sabe fazer-se socialmente aceito – não se faz agressivo, nem se torna um pedinte: sua sobrevivência depende da empatia que ele gera com as outras pessoas. É de se notar que Chespirito põe Chaves num barril, aludindo ao modo de vida do filósofo cínico Diógenes de Sínope. E, de fato, Chaves partilha alguns traços comuns com Diógenes: ambos são mendigos, para ambos a pobreza é uma virtude (embora Chaves não verbalize isso), ambos só precisam do mínimo necessário (Diógenes, os raios do sol; Chaves, um sanduíche de presunto).

Em Chaves a pobreza é tema e agente estruturante. É o catalisador que desencadeia outras qualidades, como a legibilidade, a pureza, a ingenuidade, o lirismo e o humor. Da pobreza geral de Chaves, um dado que garante sua eficácia salta aos olhos: ser um mundo tipificado, de personagens psicologicamente pobres, mas que em conjunto formam um cosmos absolutamente verossímil e simpático.


Uma mundo tipificado


O talento de Chespirito, em sua criação El chavo del ocho, é evidente na elaboração de tipos sociais que, juntos, formam um quadro límpido da vida suburbana. A vila ou cortiço em que os personagens de Chaves habitam é um mundo integral, um microcosmo, cada peça desempenhando uma função.

Nesse mundo tipificado, o personagem Chaves é o centro em torno do qual gira tudo. Chaves tem oito anos, é órfão, e vive a maior parte do tempo num barril. É absolutamente sem origem: se mora em algum lugar, não sabemos; se tem parentes, também não sabemos. No livro “El diário de El chavo del ocho”, Chespirito esclarece algumas dessas questões, mas no programa televiso não. Mais ainda: Chaves não é apenas um Zé Ninguém por sua condição de mendicante, nem mesmo um nome ele possui. O fato de, no Brasil, “chavo” (cabrinha, moleque, guri) ter sido traduzido por “Chaves” representa uma séria distorção, porque, ganhando um nome, o personagem adquire uma dignidade que, na verdade, lhe falta. “Chaves” individualiza; “chavo” sugere que ele é um menor abandonado qualquer. De uma forma ou de outra, Chaves é a representação do garoto pobre, imaginativo e travesso, que habita vilas, cortiços e favelas, aqui ou no México.

Além de Chaves, há oito personagens de maior relevo. Quico, típico menino mimado, filho da ex-rica com ares aristocráticos – dona Florinda. Chiquinha, garota irônica e manipuladora, filha do segundo personagem mais carismático do programa, o seu Madruga, eterno desempregado, malandro consumado, sempre a dever 14 meses de aluguel. Forma-se aqui uma simetria de ausências: menino sem pai X menina sem mãe. Deixo a psicólogos e psicanalistas a consideração sobre supostos traumas deixados em Quico e Chiquinha devido a essas ausências familiares; lembro apenas que tal simetria acentua o traço bastante comum na vida suburbana e, em termos de efeitos de sentido no espectador, produzem maior empatia com o personagem – sabe-se, afinal, desde Aristóteles, que a nossa comoção aumenta na proporção em que os personagens sofrem por causas injustas ou alheias à vontade delas.
Completam o quadro dos personagens relevantes os seguintes tipos: professor Girafles, o intelectual de bairro, professor zeloso mas de pouco sucesso, apaixonado por dona Florida; dona Clotildes, a solteirona execrada pelas crianças, apaixonada pelo seu Madruga; senhor Barriga, o capitalista com surtos de generosidade; e Nhonho, o glutão (que forma contraponto com o Chaves: fome X glutonaria).

Nesse mundo bastante caricato, sobreleva-se um detalhe: a bondade essencial dos personagens, apesar de praticarem ações que sugerem o contrário. No mundo de Chaves, ainda que todos encarnem um ou mais pecados capitais – Chaves e Nhonho, a gula; Madruga, a preguiça; Florinda, a ira; Clotilde, a luxúria; Barriga, a avareza; Quico (e, em menor grau, Chiquinha e Chaves), a inveja; Girafales (e também Florinda e Quico), a vaidade –, quando postos a teste, amolecem o coração. Assim é que o senhor Barriga acaba perdoando os aluguéis atrasados ao seu Madruga; dona Florinda arruma empregos para o seu Madruga; seu Madruga freqüentemente se compadece com a fome do Chaves; e dona Clotilde ajuda as crianças algumas vezes, mesmo sendo apelidada de Bruxa do 71.

Decerto que não se trata de personagens densos, e nem é isso o que pede o gênero “sitcom” (a comédia de situação, com seu “saco de risadas”, e sua sátira social leve) nem qualquer outro tipo de comédia. Personagens “tipos” são abstrações, encarnações de virtudes ou defeitos, e não seres individualizados. Apesar de superficiais, a elaboração de tipos, se desobriga o criador de sondar as profundezas do ser, exige uma aguda capacidade de observação social, mérito que dificilmente se pode negar a Chespirito. Ou não? Obviamente, Chespirito elide as causas sociais da explicação da pobreza em Chaves; ele aceita a pobreza como uma condição dada e extrai dela a dignidade, o humor, o lirismo até. Bem, mas essa fuga da explicação político-social tem sua contraparte positiva: a universalização dos personagens. Afinal, a pobreza não tem lugar nem momento histórico rigidamente definidos, embora em cada lugar e momento histórico ela apresente uma face diferente. Chaves é o pobre intemporal.


O proletário e o pobre


Roland Barthes, analisando o filme “Tempos Modernos”, nota que Carlitos atribui ao proletário as características do pobre; graças a isso, o filme torna-se politicamente mais ambíguo, escapando ao panfletarismo, e logra ainda a reconhecida “força humana de suas representações” (Barthes). “Tolhido pela fome” – escreve Barthes –, “o homem-Carlitos situa-se sempre abaixo da tomada de consciência política”. Ora, o mesmo se pode dizer do Chaves: seu sonho não é transformar o mundo, mas matar a fome com um reles sanduíche de presunto. E essa sua cegueira nos comove pela sua pureza: em parte porque não há manipulação dramática abusiva, em parte porque não há manipulação ideológica abusiva. Além disso, esta cegueira social do personagem abre mais ainda nossos olhos para o modelo social injusto em que vivemos (o homem representado na comédia, como nos ensina Aristóteles, é inferior aos homens reais, e não raras vezes ensina graças à sua tolice ou cegueira). Quando vemos o que Chaves não vê, passamos a amá-lo mais ainda: ele é o mendigo puro em meio às estruturas de um mundo frio e injusto. Isto Bolaños nos transmite com uma sabedoria que flerta com o estoicismo, sem nenhuma mácula de ressentimento de classe.

Transformar a pobreza em tema de comédia ligeira, sem denegrir o pobre, dignifica Chespirito. Tudo em Chaves transpira leveza, e quase nos esquecemos de que “el chavo” é um menino mendigo – ou um herói mendigo, como o chama a pesquisadora Ludimila Cardoso.

Penso que a cultura de massa tem muito a ganhar quando evita a falsa sofisticação em prol de suas raízes populares, folclóricas, circenses. Em termos culturais, estruturas reiterativas e pobreza de meios podem ser antes estimuladores da criatividade do que sinônimo de banalidade, digam o que disserem os detratores da cultura de massa. El chavo Del ocho comprova isso.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BARTHES, R. Mitologias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

BOLAÑOS, R. G. (Chespirito). El diário de El chavo del ocho. México, D.F.: Punto de Lectura, 2005.

CARDOSO, L. S. A saga do herói mendigo: o riso e a neopicaresca no programa Chaves. Dissertação (mestrado). Programa de Pós-Graduação em Comunicação, UFG, Goiânia, 2008.

KASCHNER, P. Chaves do sucesso. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2006.

ROCHA, R. Coristas demais: a escritora e pedagoga Ruth Rocha avalia o que a TV oferece hoje às crianças (entrevista). In: Veja, São Paulo, 05/05/2011.

WIKIPEDIA. El chavo del ocho. Diaponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/El_Chavo_del_Ocho>. Acesso em 09 mai. 2011
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quinta-feira, 19 de maio de 2011

as alamedas

[adriano lobão aragão]


esta que ao nome não atende    
como alameda que não justifica razão de ser

sem este caminhar lento que a percorre
passo a passo em caminho sem lenda

entre esquinas plantados o caminhante e a via
e em cada extremo um rio passaria

e se encontrariam adiante
longe desta avenida



[in as cinzas as palavras, 2009]

sexta-feira, 13 de maio de 2011

as cinzas as palavras


caros leitores,

meu livro de poemas as cinzas as palavras encontra-se disponível para download em sua versão pdf. Basta clicar no link abaixo ou acessar o site www.adrianolobao.com.br na seção bibliografia.



inté,
adriano lobão aragão

terça-feira, 10 de maio de 2011

Penetrália

[Olavo Bilac]


Falei tanto de amor!... de galanteio,
Vaidade e brinco, passatempo e graça,
Ou desejo fugaz, que brilha e passa
No relâmpago breve com que veio...

O verdadeiro amor, honra e desgraça,
Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o:
Nunca o entreguei ao público recreio,
Nunca o expus indiscreto ao sol da praça.

Não proclamei os nomes, que baixinho,
Rezava... E ainda hoje, tímido, mergulho
Em funda sombra o meu melhor carinho.

Quando amo, amo e deliro sem barulho;
E quando sofro, calo-me, e definho
Na ventura infeliz do meu orgulho.