domingo, 31 de outubro de 2010

dois acasos três

[Sebastião Edson Macedo]



esperei muitas folhas cairem pela tua aparição em meu correio
diminuí os olhos risquei ofertas de quarto e sala e foram ruas
com pessoas de toda sorte desaparecendo em teu nome tão pequeno

não sou capaz de precisar o que escapou das iscas na minha sede
nem mesmo o meu cabelo cortado ou não e a alameda esta tarde
que tomei sem acaso para evitar o desconto dos teus compromissos
posto como uma vida real entre outras vidas num recomeço decerto

sei que fica repleta a hipótese da alegria remota a próxima estação

por isso persiste diante de mim a árvore da tua serena mensagem
simples como conviria a uma última caminhada junto até a condução



[in as medicinas (Oficina Raquel, 2010)]




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Sebastião Edson Macedo é poeta e ensaísta, autor de: as medicinas (Oficina Raquel: 2010), para apascentar o tamanho do mundo (Oficina Raquel: 2006); e cego puro sol (UFRJ/FL: 2004). Nasceu no interior do Piauí em 1974. Atualmente é pesquisador de Literatura Luso-Brasileira na University of California, Berkeley, EUA.

sábado, 30 de outubro de 2010

Notas de passagem: alguns espinhos



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A eleição do Tiririca é uma demonstração de nossa fragilidade e falta de crédito na política. Nessa sociedade dita “pós-moderna”, perdemos realmente a capacidade de sermos inteligentes. Nós estetizamos até mesmo a política... Aliás, esta nos parece mais estetizada do que a própria produção artística. Cada vez mais as propagandas políticas são carregadas de recursos cinematográficos, trilhas sonoras expressivas, iluminação menos natural e mais emotiva, maquiagem exacerbada, angulações de câmeras menos documentais e políticos que são verdadeiros personagens fílmicos. Parece-nos realmente um curta-metragem de ficção. Outras propagandas fazem da falta de recurso uma “comédia pastelão” de quinta categoria, como a campanha do famigerado Quem Quem, em Teresina. Eis o problema da Democracia: permite com que um Tiririca se eleja. “Pior do que tá vai ficar”

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O Brasil é um dos poucos países do mundo em que um bandido sai da cadeia e vai direto para o Congresso Nacional. Desconfio, entretanto, que nas cadeias encontremos pessoas mais leais e justas do que em nosso Congresso.

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Há um abismo entre Dilma e Serra. O mesmo abismo que há entre as últimas janelas de dois prédios vizinhos. Estão distantes, embora muito próximos.

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Há boas perspectivas para a política cultural do Brasil no próximo governo: de um lado a visão tacanha dos tucanos, para quem a cultura se torna um espaço de técnicos especializados e é incentivada na medida em que ela gera lucro para os cofres do governo (ou do capital estrangeiro?!); de outro, a cultura é vista como um espaço das minorias tocarem tambores e exibirem sua cor nas favelas e nas zonas marginais.

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No Piauí, a esposa de um famoso político achou que seria melhor não incentivar financeiramente um dos mais tradicionais festivais de arte santeira da cidade. Ela alegava o fato de que se tratava de um culto a imagens religiosas. Ela, como era evangélica, não aprovava a realização do festival com recursos estatais. Desconfio que se uma mula dessas fosse presidenta, ela mandava retirar dos livros de Arte todas as imagens que estivessem relacionadas ao sagrado. O que nos restaria?

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Um dos slogans da Fundação de Cultura do nosso estado é “A cultura é presente”. Esse trocadilho de profundo mau gosto diz muito sobre a política cultural desenvolvida nestes anos. A cultura para nossos gestores é apenas um presentinho: desses que a gente compra nas lojinhas bregas de 1.99 e dá, de ano em ano, aos parentes chatos.

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Muita coisa se fez pela cultura do nosso Brasil nestes últimos anos. Já conseguimos até mesmo fabricar tambores de couro e panelinhas de barro.

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O governo não tem 1 real para incentivar a produção cinematográfica de nossos jovens e sonhadores cineastas do Piauí, mas dá milhões para a produção de um filme sobre a vida do Frank Aguiar. Não tenho nada contra o Frank Aguiar (ele até me parece uma boa pessoa), mas sou contra a produção de porcaria incentivada pelo estado. Mas afinal, isso é a democracia, não é? Um sistema que iguala Villa-Lobos a Amado Batista.

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Muitas críticas foram feitas à política cultural do Piauí e, especificamente a de Teresina. A maioria das críticas que li são sem fundamentação e mal feitas. Mas valeram a pena, pois são do contra...

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A maneira mais fácil de um artista entrar em decadência na atualidade é ele participar dos eventos artísticos organizados pelo Estado. Além de não receber dinheiro, ele está demonstrando que sua arte não vai lá muito bem das pernas...

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Os nossos grandes pensadores da cultura piauiense puseram no regulamento do projeto musical “Boca Da noite”, a obrigatoriedade de (no mínimo) 60% de músicas “piauienses” no repertório. Quer dizer: o critério deixou de ser estético para ser geográfico. Um artista que desenvolver um belo projeto musical sobre Noel Rosa ou um recital com peças de Bach, automaticamente estará eliminado. Mas tudo bem, eu entendo: afinal Noel não teve muita importância para MPB, nem Bach para a música erudita.

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Assisti ao filme “Lula, filho do Brasil”, e fiquei impressionado. Pareceu-me, de fato, um filme de super herói (de quinta categoria, diga-se). A diferença é que esses filmes de super-heróis são mais bem feitos tecnicamente, além de serem mais divertidos.

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Ouvi, numa recente palestra, um ilustre piauiense dizer que devíamos trocar o iogurte pela coalhada e o beiju, que são “coisas nossas”. Entendi, através destas sábias palavras, que o sujeito que come iogurte está se despiauiensesando (desculpe-me o mau gosto do neologismo). Se um cidadão desses fosse um dia governador do estado, não tenho dúvida que comer petit gauteau seria considerado um crime hediondo...


OBS: Algumas dessas notas foram levemente inspiradas na "Bíblia do Caos", de Millôr Fernandes.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A noite em que no Sul o velaram


[Jorge Luis Borges]



Pela descida de alguém
– mistério cujo vacante nome possuo e cuja realidade não abarcamos –
até a aurora há uma casa aberta no Sul,
uma ignorada casa que não estou destinado a rever,
mas que me espera esta noite
com desvelada luz nas altas horas do sono,
carcomida por noites más, distinta,
minuciosa de realidade.

Para sua vigília gravitando em morte caminho
por ruas elementares como lembranças,
pelo tempo abundante de noite,
sem mais vida audível
que os folgados do bairro junto ao armazém apagado
e algum assovio solitário no mundo.

Lento o andar, na posse da espera,
chego à quadra e à casa e à sincera porta que busco
e me recebem homens constrangidos à gravidade
que viveram nos anos de meus antepassados,
e nivelamos destinos no aposento provido que mira o pátio
– pátio que está sob o poder e na integridade da noite –
e dizemos, porque a realidade é maior, coisas indiferentes
e somos apáticos e argentinos no espelho
e o mate compartilhado mede horas vãs.

Comovem-me as pequenas sabedorias
que em todo falecimento se perdem
– hábito de alguns livros, de uma chave, de um corpo entre outros.
Eu sei que todo privilégio, ainda que obscuro, é da linhagem do milagre
e é muito o de participar nesta vigília,
reunido ao redor do que não se sabe: do Morto,
reunida para acompanhar e guardar sua primeira noite na morte.

(O velório gasta os rostos;
nossos olhos estão morrendo no alto como Jesus).
E o morto, o incrível?
Sua realidade está sob as flores diferentes dele
e sua mortal hospitalidade nos dará
uma lembrança mais para o tempo
e sentenciosas ruas do Sul para merecê-las lentamente
e brisa obscura sobre a fronte que se volta
e a noite que da maior aflição nos livra:
a prolixidade do real.

(In: Cuarderno San Martin. Obras Completas. Buenos Aires: Emecé, 1974, p. 88-89)



Leia o poema e ouça-o na própria voz de Jorge Luis Borges AQUI. Detalhe: esta versão que Borges lê é anterior à versão, definitiva, que traduzi, possuindo, na penúltima estrofe, estes dois versos que foram retirados da versão das Obras Completas: “frecuencias irrecuperables que fueron / la precisión y la amistad del mundo para él”.

domingo, 24 de outubro de 2010

poema

[Adriano Lobão Aragão]



um poema é uma coisa simples
tão simples
quanto uma declaração de amor


 

tão óbvia
que não há razão em complicar



 

Poesia é difícil




[in Uns Poemas, FCMC, 1999]

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O homem e outros bichos do bestiário de Dobal

[Adriano Lobão Aragão]




BESTIÁRIO
(H. Dobal)

O homem e os outros bichos que passeiam
neste campo de cinza te perseguem.
E após tantos verões sua presença
ainda se guarda em ti como na infância.

E em ti se faz antiga esta lembrança
do descuidado andar nestas veredas
de gado. Mas outra vez nos tabuleiros
de abril teu cavalim de carnaúba
estradando no ar campeia ovelhas.
Vence os campos de outrora e as miunças
soltas do seu passado te restauram

em teu tempo. Teu tempo consequente
neste imenso curral em que te amansas
triste e só campeador de lembranças.




Talvez os versos de “Bestiário” possam ser apontados como um poema-síntese da primeira parte de O Tempo Consequente, o fundamental livro de estreia do poeta piauiense H. Dobal (1927-2008), editado em 1966. Neles, encontramos mais que os títulos da obra e sua primeira parte, “Campo de cinza” [“Teu tempo consequente, neste campo de cinza”], mas a apresentação de seus principais temas. O interlocutor do poema pode ser entendido como o próprio poeta, funcionando então “Bestiário” como uma espécie de poética para “Campo de Cinza”. Ali se delimita consideravelmente grande parte da temática da referida obra.

É notório que o poeta não tenha escrito “o homem e outros bichos esquecidos”, como se referia ao final do poema imediatamente anterior, “Réquiem”, mas ao “homem e outros bichos que passeiam”, pois encontram-se, neste momento, povoando as lembranças de um “menino crescido” que em si restaura um tempo consequente. Um ambiente idílico se reconstrói, justaposto à miséria que os versos iniciais inferem ao, inevitavelmente, evocar o já mencionado poema “Réquiem”. Um menino que campeia nuvens [ovelhas] em um cavalinho de carnaúba. Mesmo quando permeia o onírico, Dobal mantém a inconfundível e admirável rusticidade que retransforma a lembrança-sonho do “menino crescido”, em que se campeia ovelhas pelo céu em um menino que olha para as nuvens, naquele abril, breve intervalo dos verões, dos outubros, onde jaz o homem [e outros bichos], como se o sonho, o céu, [este imenso curral] lhe amansasse, como se ali existissem as “lendas tramadas pelo inverno” a que refere o poema “Campo Maior”. Porém, as nuvens não são mais que lembranças, estas que no Piauí, costumam ser passageiras e poucas águas trazem. 

Uma definição para o eu lírico dobalino: triste e só, somente um campeador de lembranças, estas que tresmalharam num campo bem maior que os tabuleiros de carnaubais, o próprio tempo que reduz tudo a cinzas, revelando a existência minguada de um ser esfacelado que busca sobreviver, e nisso não difere de nenhum outro bicho que habita essas chapadas corcoveadas de cupins, onde o capim agreste não dá sustança e o gado magro mal se mantém. Uma simbiose homem-bicho, zoomorfização típica desta primeira parte de O Tempo Consequente, apresenta-se desde o título do poema em questão: “Bestiário”.

A estrutura de “Bestiário” assemelha-se a um soneto recomposto. Um possível segundo quarteto funde-se a um possível primeiro terceto, numa única estrofe de 7 versos. Na poética dobalina, a apropriação muito particular de formas poéticas tradicionais, ganhando em sua obra uma feição própria, é um aspecto observável em diversos poemas, como “Introdução e Rondó sem Capricho”, no qual Dobal utiliza dois padrões de uma forma poética, o rondó português e o rondó francês, reestruturando assim os dois modelos em um só. Se o poeta buscou realizar alguma correlação com a estrutura típica do soneto italiano permanecerá matéria obscura, mas é curioso que “Réquiem”, apresente justamente 14 versos divididos em três estrofes de 4, 7 e 3 versos, predominantemente decassílabos, e que as licenças poéticas sejam encontradas apenas em 3 versos da estrofe que, em teoria, estaria reunindo o segundo quarteto com o primeiro terceto da configuração tradicional de um soneto.

Mas o que seria esse Bestiário de H. Dobal? Remetendo aos mosteiros da idade média, Bestiário é um tipo de literatura descritiva do mundo animal acompanhado de mensagens moralizadoras, reunindo informações sobre animais reais e fantásticos. Entretanto, a significação óbvia seria associar bestiário a besta, animal de carga, de onde teríamos o adjetivo bestial. Porém, a leitura de poesia sempre nos permite alguma fuga. Estilisticamente, é um recurso típico de Dobal a justaposição de termos, como se substituíssem um ao outro ou se fundissem em uma única ideia a ser expressa por elementos que não estariam necessariamente correlacionados, mas quando evocados lado a lado, causam estranhamento, situação tão cara à poesia, tanto sintática quanto semanticamente. Nisso reside boa parte da dicção própria do poeta. Então, poderia um antigo Bestiário monástico transfigurar-se agora no catálogo desses bichos esquecidos, incluindo sobretudo o homem, evocados agora nos verbetes das lembranças campeadas em um imenso curral onde te amansas?


[publicado no Jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 19 de outubro de 2010]

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Jogo de Sombras, Ian Curtis

 



IAN CURTIS

Coração e Alma

Instintos que ainda podem nos trair,
Uma jornada que conduz ao sol,
Desalmado e determinado à destruição,
Uma luta entre o certo e o errado.
Assuma meu lugar na hora da verdade,
Eu observarei com um olhar piedoso,
Eu pedirei humildemente perdão,
Um pedido muito além de mim e você.

Coração e alma, um arderá.
Coração e alma, um arderá.

Um abismo que se ri da criação,
Um circo completo com todos os tolos,
Fundações que duraram eras,
Depois arrancadas pelas raízes.
Para além do bem está o terror,
O aperto de uma mão mercenária,
Quando a selvageria torna todo o bem razão,
Não há volta, nenhum último refúgio.

Coração e alma, um arderá.
Coração e alma, um arderá.

A existência, sim, o que importa?
Eu existo da melhor maneira que posso.
O passado agora é parte do meu futuro,
O presente está bem fora de alcance. 
O presente está bem fora de alcance. 

Coração e alma, um arderá.
Coração e alma, um arderá.
Um arderá, um arderá.
Coração e alma, um arderá.


Jogo de sombras (Shadowplay)
Ian Curtis
Tradução de Gleiton Lentz
Edição bilíngue
Nephelibata/2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

dEsEnrEdoS 7 on line!

editorial



Em vez de mergulhar nas águas do Parnaíba, parece que os editores de dEsEnrEdoS preferiam aquelas do mítico Lethe, o rio do esquecimento: na edição anterior completáramos 1 ano de existência, mas ninguém se lembrou  de mencionar esta modesta vitória! Fica, então, o registro atrasado de uma conquista cultural que, sem as facilidades da internet e o desprendimento de muitos colaboradores, seria impensável.

Esta edição não foge ao ideário, forjado já na primeira edição, de julho de 2009, de se calcar numa “linha editorial [...] aberta e plural, primando, sobretudo, pela qualidade dos trabalhos”. A abundância de textos que recobrem esta edição – em quantidade e, sobretudo, em qualidade – impede comentários mais pontuais. Venhamos, então, a uma panorâmica. Akira Kurosawa, cujo primeiro centenário se comemora este ano, comparece num generoso ensaio panorâmico de Roberto Acioli; a poesia alemã contemporânea protagoniza o espaço destino à tradução; Jorge Amado é lembrado no percuciente artigo de Durval Muniz de Albuquerque, pesquisador prolífico e bastante lembrado pelo instigante A invenção do Nordeste, do qual este trabalho sobre o escritor baiano certamente deriva. Na seção de entrevista, sondamos vários poetas contemporâneos, de várias latitudes e inclinações, com cinco perguntas de máxima urgência para quem deseja pensar o papel do poeta e da poesia hoje; as respostas oferecem um painel límpido e denso da questão, e devem interessar a todos que estudam ou poetam neste país. Esse painel do “estado da arte” da poesia é complementado por um arguto ensaio de Carlos Felipe Moisés. Manuel Iris é a vozhermana que demonstra a força da poesia jovem na América Latina, especialmente a de seu país, o México. Desfilam ainda em nossas páginas reflexões sobre Graciliano Ramos, Jorge Luis Borges, Machado de Assis e o cineasta Carl Dreyer, um dos grandes de sua arte. Enfim, difícil é enumerar sem cometer injustiças. Confira o próprio leitor essas ou outras oportunidades de reflexão que lhe são oferecidas!

Esta edição é dedicada a um homem que, com sua arte, encurtou a distância entre o Ocidente e o Oriente; um homem que costumava dizer: ‘"O ocidental e o japonês convivem lado a lado em minha mente, sem o menor sentimento de conflito". à memória de Akira Kurosawa (1910-1998), pelo seu primeiro centenário.

Os Editores  

contato
lobaoaragao@gmail.com
wandersontorres@hotmail.com

domingo, 10 de outubro de 2010

Portugal dentro adentro


Portugal dentro adentro

fotografias de Virgínia Boechat
doutoranda em Literatura Portuguesa na USP/FAPESP

Um testemunho fotográfico que expõe a capacidade de recorte, dissolução e construção da paisagem pelo olhar.

curadoria
Sebastião Edson macedo
Tatiana Pequeno da Silva


Encerramento do Colóquio Literatura e Paisagem.
Dia 21 de outubro de 2010, a partir de 19h
no 4º andar do bloco B, Intituto de Letras da UFF, Niterói

sábado, 9 de outubro de 2010

as odes os signos

[Adriano Lobão Aragão]


estas odes que aqui se erguem como estranhos obeliscos
emanam como desencanto louvando o próprio canto
palavra perdida lançada em busca de alheio signo

este verbo disperso em distante campo de poeira
areia estéril onde não canta tágide nem musa
estância onde não se encontra em seus cantos engenho e arte

nem alegre lembrança vestida de esquecidas ânsias
nem rústico altar profano onde sem música se dança
aquém dos verbos de outrora além dos versos de amanhã

decantados em prosa elegia e hino assim recordam
estas odes aqui erguidas em busca de signo alheio









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[in as cinzas as palavras, 2010]

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O eterno voo efêmero dos pavões

TODA PALAVRA
O eterno voo efêmero dos pavões
Adriano Lobão Aragão
poeta e professor / www.adrianolobao.com.br


Não há o que lamentar no fato de uma das melhores bandas brasileiras de música popular ter durado somente nove meses. E apesar de tão curta existência, poucas vezes, antes, durante e depois de 1973, algum outro artista conseguiu resultados tão significativos  utilizando algum dos referenciais definidores da estética artístico-musical dos Secos & Molhados; e nisso podemos incluir seus imitadores e diluidores, como o infame Assim Assado, similares (?) estrangeiros como o Kiss (?!), e até mesmo as carreiras individuais de seus três integrantes, Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad.
A sexualidade andrógina de seu vocalista, Ney Matogrosso, plenamente associada a sua voz em falsete soprano, condiz com o momento glitter que o rock estava experimentando naqueles idos. Havia um David Bowie travestido de Ziggy Stardust e, logo em seguida, vivenciando um Alladin Sane ainda mais andrógino; o T. Rex de Marc Bolan exalando purpurina e seguidores que abusavam de batom e delineador; Lou Reed, no álbum apropriadamente intitulado Transformer, aparece como uma estranha espécie de monstro de Frankstein bissexal, além de viver maritalmente com um travesti; e até os pré-punks do New York Dolls exibiam suas grosseiras fantasias femininas. E o horror que o rock provocava nos anos 50, sinônimo constante de rebeldia (pelo menos em décadas passadas), exasperava ainda mais os pais de adolescentes ingleses e americanos que chegassem em casa com o disco Honk Dory de Bowie debaixo do braço e fossem mexer no estojo de maquiagem da irmã. Se anos antes era “pecado” filmar os quadris rebolantes de Elvis Presley na televisão americana, a imagem de Ney Matogrosso nas telas brasileiras, em horário nobre, seminu, vestido em saias havaianas bem abaixo do umbigo, poderia ter sido o próprio inferno. Da mesma forma que Elvis tornou-se um produto de mídia extremamente rentável, os Secos & Molhados viraram sensação instantânea e, durante seu ano de estreia e dissolução, venderam mais discos que o “rei” Roberto Carlos.

Gal Costa, adepta há alguns anos de trajes sumários, despia-se mais ainda em Índia, cuja capa consiste em um indiscreto close de seus quadris vestidos em mínimo biquíni vermelho. Havia então esse desnudar instaurado em diversos segmentos artísticos, do cinema boca-do-lixo à incipiente pornochanchada, mostrar o corpo parecia ser uma arma contra a censura e a moral que os militares apregoavam pelo Brasil. E a sexualidade parecia ser a ordem imediata. Sobretudo no que pudesse ser contestador, ambíguo e irreverente. Com isso, temos desde o “machão” Erasmo Carlos cantando versos de conotação homossexual em Sodoma e Gomorra, presente no disco que inverte seu nome, Carlos, Erasmo; até o glitter brasileiro Eddy Star convivendo com o que ainda fosse possível passar pelo crivo dos militares. E a banda Secos & Molhados era isso tudo em constante estado de ebulição. Maquiagem pesada, penas de pavão e um inusitado talento para musicar poemas, como Rosa de Hiroxima (Vinicius de Moares), Não, Não Digas Nada (Fernando Pessoa), Rondó do Capitão (Manuel Bandeira), O Hierofante (Oswald de Andrade), As Andorinhas (Cassiano Ricardo) etc.
Não há o que lamentar de terem se separado antes mesmo do lançamento do segundo disco. O estrago já estava feito. A dispersão ficou apenas para diluidores, como seu próprio mentor, João Ricardo, que há décadas tenta reavivar o nome Secos & Molhados em frustradas tentativas que não passaram de maquiagem borrada. Nada mais.






[Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 5 de outubro de 2010]

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

(n.t.) Revista Literária em Tradução




(n.t.) pórtico.jpg



Nº 1 (setembro/2010) - Edição bilíngue semestral - Ilha de Desterro/SC - Brasil

ISSN 2177-5141

  
O QUE HÁ PARA LER?



   halina.JPG
   Halina Poświatowska 
   Mais uma lembrança (Jeszcze jedno wspomnienie)

A seleção compreende composições de quatro coletâneas de Halina Poświatowska, além de um poema publicado postumamente. Sua poesia, uma espécie de “diário lírico” de sua existência, contrasta um ávido desejo de viver e de amar com um pressentimento da inevitabilidade da morte. Obras selecionadas: Hymn Bałwochwałczy (Hino idolátrico), 1958;Dzień dzisiejszy (O dia de hoje), 1963; Oda do rąk (Ode para as mãos), 1966, e Jeszcze jedno wspomnienie (Mais uma lembrança), 1968. [Trad. Magdalena Nowinska] prévia

   blecher.JPG
   Max Blecher
   Corpo transparente (Corp transparent)

Os poemas selecionados fazem parte da coletânea Corp transparent (Corpo transparente), publicada em 1934 em Bucareste sob forma de plaquete bibliófila, primeiro e último volume de poesia do autor romeno. Há quem diga que, em sua poesia, pode-se reconhecer “aquela transformação radical da matéria e do pensamento, tão cara aos surrealistas”. Para a presente tradução, levou-se em conta a edição de 1971 da editora Cartea Românească de Bucareste, intitulada Vizuina luminată (A Toca Iluminada), que contém também outros escritos. Exceção para o poema em prosa [Por um instante], inédito até então. [Trad. Fernando Klabin] prévia


   muhsin.JPG
   Muhsin Al-Ramli
   Laranjas e giletes em Bagdá (Naranjas y cuchillas en Bagdad)

Para abordar de forma incomum temas cotidianos já discutidos diversas vezes, Al-Ramli se mistura com os personagens da narrativa e com o leitor, mescla fluxo de consciência, quebra a narrativa linear e inverte os limites espaço-temporais, impossibilitando distinguir as reflexões do narrador-autor e dos personagens com a situação retrata-da. Essa combinação de fatores, aliada aos desfechos inesperados, evidencia o modo peculiar do autor de descrever a angústia pela ausência de sentido, a desesperança e a aparente inutilidade dos movimentos cotidianos. Os três contos selecionados para esta tradução dão-nos uma mostra disso: Laranjas e Giletes em Bagdá apresenta ao leitor alguns fragmentos do cotidiano iraquiano guardados na memória do autor-narrador; Tédio, a perturbadora sensação de vazio como uma metonímia do caos moderno, que passa a incorporar-se à natureza humana; A vendedora de pentes discorre sobre a urgência de amar, quando é o amor que se ama, não o objeto de desejo. [Trad. Fedra R. Hinojosa] prévia


E mais...


POESIA
Стихотвореня/Poemas, de Marina Tsvetáeva [Trad. Veronica Filíppovna] prévia
Ελεγεία και Σάτιρες/Elegias e Sátiras, de Kóstas Karyotákis [Trad. Théo de Borba Mossburger] prévia
Los doce gozos/Os doze gozos, de Leopoldo Lugones [Trad. Camilo Prado] prévia
'Eπιγραμματα/Epigramas, de Rufinos [Trad. Miguel Sulis] prévia
Yatar Bursa Kalesinde/Preso na Fortaleza de Bursa, de Nâzım Hikmet [Trad. Leonardo da Fonseca] prévia


DRAMA
The Ghost of Abel/O Fantasma de Abel, de William Blake [Trad. Juliana Steil] prévia


PROSA POÉTICA
Gaspard de la nuit, de Aloysius Bertrand [Trad. Sandra M. Stroparo] prévia
El mensajero/O mensageiro, de José Antonio Ramos Sucre [Trad. Floriano Martins] prévia


CONTOS & EXCERTOS
Gesta Romanorum (Os Feitos dos Romanos) [Trad. Scott Ritter Hadley] prévia
Muk'ult'an in nool/Dois segredos do avô, de Jorge Miguel Cocom Pech [Trad. Gleiton Lentz] prévia


MEMÓRIA DA TRADUÇÃO
Quinze poetes catalans/Quinze poetas catalães, antologia [Trad. João Cabral de Melo Neto] prévia


ILUSTRAÇÃO
Caminos del espejo/Caminhos do espelho [texto de Alejandra Pizarnik, ilustração de Aline Daka]


SUPLEMENTO DE ARTE (n.t.) 1°
Artistas da Edição: Lílian Santos Gomes [Brasil] [Prévia] & Dorothea Tanning [EUA] [Prévia]




Chamada para colaboração:
(n.t.) Revista Literária em Tradução n° 2 (março/2011)
Normas para publicação em: www.notadotradutor.com/publicar

Recepção de textos:  de 15/09/2010 a 15/12/2010


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(n.t.) Revista Literária em Tradução
       www.notadotradutor.com