terça-feira, 28 de setembro de 2010

9ª Poesia Tarja Preta

 
--> exposição fotográfica = Alexander Galvão
--> vídeo/documentário = Palavra (En)cantada
 
mais informações:

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Palavra em Crise (I)



Lendo alguns ensaios de Linguagem e silêncio (ed. bras. 1988), de George Steiner, me angustiei com o diagnóstico, bem argumentado e demonstrado, sobre o retraimento da palavra. A imagem do mundo recua, já não mais ao alcance comunicativo da palavra. A linguagem deixou de abarcar a (quase) totalidade de nossas experiências; dela devemos agora desconfiar. Uma faceta “menor” desta questão diz respeito ao depauperamento da linguagem no uso cotidiano. Nossos idiomas hoje têm mais palavras que à época de Camões, de Cervantes e de Shakespeare, mas efetivamente usamos um mínimo possível de palavras. Steiner cita um pesquisador que constatou que o vocabulário básico, essencial na comunicação cotidiana nos EUA e na Inglaterra, se constitui de 34 palavras. É diferente conosco?

Empobrecimento vocabular não significa a perda de um adorno aristocrático, mas um processo de empobrecimento humano da pessoa. Isso não começa, mas ganha peso quando a chamada cultura de massa (não gosto de termo, mas vou deixar passar) está se expandindo e sente a necessidade de nivelar a comunicação por baixo.

Nomear, penso eu, ajuda a compreender. Não quero aqui entrar na polêmica da primazia ontológica da linguagem, que desde Heidegger e Lacan é um “fato” amplamente aceito por pesquisadores de várias latitudes. Só penso que saber nomear bem é entender, ao menos em parte, um processo, um objeto, um sentimento; o que se sente e não se sabe nomear, esmaece, passa. Não me refiro aqui a experiências inefáveis, místicas, que estas em qualquer tempo são dificilmente comunicáveis – ou talvez incomunicáveis mesmo. Refiro-me a experiências mais ou menos corriqueiras. Nossa linguagem, de tão simplificada e reduzida a um punhado de palavras, só funciona se caricaturizarmos as coisas. A caricatura tem força cômica e crítica, mas por sua natureza é grosseira, generalizante – e exige, assim, uma linguagem peremptória, taxativa.  Wanderley Luxemburgo perde um jogo: na caricatura aparece com cara de burro, “experimentando”, como faz um burrico, a qualidade do gramado. Ora, quem entende minimamente de tática futebolística, sabe que nisso Luxemburgo nunca foi, nunca vai ser burro. Mas a caricatura encurta o caminho da complexidade. Obviamente, esse encurtamento pode ser benéfico em determinados contextos, mas não deixa de ser uma simplificação.  

O aniquilamento da experiência que a modernidade promoveu (vide as teses de Benjamin sobre o fim da arte de narrar), exige que a representação se torne caricatural para ser entendida. A pornografia, como caricatura do sexo, é, como bem observou Baudrillard, a metáfora-mor da caricaturização geral da sociedade. Nossa sociedade é pornográfica na medida em que deseja um ver tudo, reduzindo os significados a uma obviedade extrema. Precisamos do exagero, porque ele traz a certeza, e se temos certeza nomeamos com segurança. O modismo teórico do momento, sob a tutela de Derrida, é prodígio em desfazer extremos, mas, aqui embaixo, o povo gosta é de extremos. Close-ups no estilo MTV, hiperrealismo, jornalismo em tempo real, webcam, Big Brother, orkut, 3D – tudo isso, como sabia Baudrillard, são formas de pornografia, isto é, manifestações do impulso do querer mostrar tudo, do querer ver tudo, até que se esgote todo mistério e toda ambigüidade. Até que a mais lassa e imprecisa das linguagens possa se banquetear do cadáver dissecado. Nomear o que é vivo e impuro, o que desliza dos extremos, é problemático, exige interpretar sentimentos humanos; nomear o caricatural é simples, porque a caricatura nivela as camadas da realidade, organiza o mundo em grandes blocos de fácil identificação.

O que não é pornográfico, isto, um mostrar explícito, direto, livre de sutilezas, fácil de nomear, tem dificuldade de ser percebido, causa enfaro. Murnau não assusta mais, Jacques Tati não faz mais rir, Hitchcock se tornou lento, “sem ação”; é preciso um Jogos Mortais para assustar, um Debi & Loide pra fazer rir, um 007 para ser um “cinema de ação”. Proust é chato e seus personagens nebulosos, por não saberem o que querem; Hamlet é nada mais que um “cara perturbado” e Bentinho, um “corno”. Ora, que têm em comum Murnau, Tati, Hitchcock, Proust, Shakespeare, Machado? Não muita coisa, claro, mas se pode dizer que todos nos falam de sentidos sutis, de estados de espírito cuja captação exige dedicação e certa experiência; são humoristas ou ironistas nada resignados, mestres na anatomia das paixões humanas. Como verbalizar tais sentimentos, tais paixões, no vocabulário pobre que temos?

Imagine essa situação. Você leva um filme para sala de aula, nem é preciso ser Tarkovski ou Godard. Digamos que você leve um filme como O silêncio, de Mohsen Makhmalbaf, comentado no meu último post sobre cinema. A galera, pode ter certeza, vai achar lento, sem ação. Claro, a linguagem de cinema da maioria deles é a da novela, a da MTV, a do blockbuster hollywoodiano. Suponha, porém, que 3 ou 4 alunos gostem. Peça a estes que gostaram para tentar verbalizar. Dirão os seus “Legal”, “Bem diferente”, “Muito louco!”. Essas expressões e semelhantes, fáceis de ser discriminadas, escondem uma gama de sentimentos para os quais falta vocabulário (não no repertório do idioma, está claro) adequado para expressar.

A experiência é rasteira; a linguagem também. Assim, se topo com algum produto artístico inabitual, resistente à redução aos lugares-comuns propalados naquele setor, a saída é eu o caricaturar. É mais fácil, é mais prático do que me esforçar para encontrar no repertório do meu idioma os termos que possam se adequar àquele caso.  

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Isso é samba sim, Sinhô


TODA PALAVRA
Isso é samba sim, Sinhô
Adriano Lobão Aragão
poeta e professor / www.adrianolobao.com.br


“Malandros, soldados, marinheiros, donas de rendez-vous baratos, meretrizes, choferes, macumbeiros, todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito, mulheres dos morros, baianas de tabuleiros, vendedores de modinhas...”, assim, em crônica publicada no primeiro número da Revista da Música Popular, em outubro de 1954, Manuel Bandeira descreveria as inevitáveis presenças no enterro de Sinhô, o auto-denominado Rei do Samba, falecido em 04 de agosto de 1930. Em 1937, nas Crônicas da Província do Brasil, Bandeira escrevera “o que há de mais povo e de mais carioca tinha em Sinhô a sua personificação mais típica, mais genuína e mais profunda”. O notório compositor, admirado por escritores como Oswald de Andrade e Bandeira, nascido José Barbosa da Silva, em 1888, adepto do candomblé, da boêmia e das polêmicas, autor de obras fundamentais para o surgimento e desenvolvimento do samba, como “Gosto que enrosco”, “Ora vejam só” e “Jura”, seu maior sucesso, após uma vida, nas favelas do Rio, na Cidade Nova, onde conheceu a miséria e o apreço popular, numa época em que quase nada se ganhava com música no Brasil, dedicou seu talento a um gênero ainda em gênese que mudaria a história cultural de um país. Nas palavras do historiador Jairo Severiano, “foi ouvindo as músicas de Sinhô que o Brasil aprendeu a gostar de samba”.  

Edigar de Alencar, biógrafo de Sinhô, chegou a catalogar 174 canções, número bastante expressivo, se considerarmos que foram compostas em apenas 13 anos. João Máximo, em texto para a coleção Raízes da Música Popular Brasileira, lançada em 2010 pelo jornal Folha de São Paulo, assim divide os sambas amaxixados de Sinhô: a) Temas afro-brasileiros, incluindo referências à Bahia; b) As demais composições, carnavalescas ou não, sambas ou não, compreendendo crônica, crítica, sátira, polêmica, mulher. As polêmicas, aliás, eram parte intrínseca não apenas de suas letras, mas também de sua vida. Rui Barbosa, por exemplo, chegou a ser alvo de sua verve satírica através de “Fala meu louro”; e Pixinguinha, Donga e China em “Três macacos no beco”. E quando Heitor dos Prazeres cobrava de Sinhô os direitos autorais de uma composição sua que Sinhô havia tomado posse (como, ao que parece, Donga havia se apropriado da composição coletiva de "Pelo Telefone"), o controverso compositor respondeu que “samba é como passarinho. É de quem pegar.” E vale lembrar que, ao carimbar e assinar as edições das partituras de suas músicas, coube a Sinhô a primazia de preocupar-se com direitos autorais. Mas o fato é que, entre o maxixe, o samba de Sinhô, o choro de Pixinguinha e o samba do Estácio, não seria possível, desde sua origem, estabelecer o que realmente fosse um samba. Em relação à suas obras, Sinhô podia chamá-las do que fosse, samba-toada, samba-choro, samba democrático, samba maioral, samba isso, samba aquilo, mas sempre seria, para ele, indiscutivelmente samba.

Há quem diga que o samba de Sinhô, com sua forte ligação com o maxixe, tenha surgido e morrido com o compositor, e que a disseminação do que passou a ser entendido como samba deveu-se aos compositores do Estácio. Tal afirmação é bastante coerente, mas a questão do que seria ou não, essencialmente, um samba, remonta à sua própria origem, e nem mesmo os compositores das primeiras décadas chegavam a um mínimo de consenso, apresentando, em suas discussões, exemplos absolutamente contraditórios. Em outras palavras, os limites de um samba jamais seriam mapeados, nem no passado nem no futuro. Ao longo do século XX, até os dias atuais, o samba, gênero mestiço por natureza, estendeu seus compassos por diversas veredas, do samba-jazz ao samba-rock, do samba-reggae ao sambalanço. O baiano Caymmi lembrava que “o samba da minha terra deixa a gente mole / quando se canta todo mundo bole”. Outro baiano, João Gilberto, declarava que não fazia bossa nova, fazia samba. E Jorge Ben, antes de ser Benjor, batizou seu primeiro disco de Samba Esquema Novo, e, três décadas depois, o Mundo Livre S./A. estreou com o seu Samba Esquema Noise. O mineiro João Bosco, juntamente com Aldir Blanc, reviveu o samba de breque nos anos 70. O pernambucano Chico Sciense perguntava “você samba de que lado, de que lado você vai sambar?”. De volta ao Rio de Janeiro, Marcelo D2, em sua busca pela batida perfeita, relembrava “a maldição do samba”, e Paulinho Moska avisa que “tem Moska no samba”, projeto cujo título é mais que auto-explicativo. A lista ainda seria infinitamente maior, incluindo Marisa Monte, Jards Macalé, Leila Pinheiro e diversos outros artistas que nunca seriam vistos como sambistas, mas seguem pelo caminho com seus passos de bamba. E quando Marcelo Camelo abre o terceiro disco dos Los Hermanos, Ventura, perguntado “quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?”, talvez Sinhô pudesse ter a resposta. E não aceitaria contestação.     




[Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 21 de setembro de 2010]

domingo, 19 de setembro de 2010

dEsEnrEdoS


desenredos


número 01

julho agosto 2009
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entrevista | Ismail Xavier
poesia | Danilo Bueno | Sebastião Edson Macedo
prosa de ficção | M. de Moura Filho
tradução | Borges, em 1941, sobre Citizen Kane, por Wanderson Lima
| Michel Deguy, por Sebastião Edson Macedo
ensaio | O rio como recurso humanizador na poesia de João Cabral - André Pinheiro
| Sobre o Sr. Cláudio Assis e seus filmes - André Renato
| Don Giovanni: a tragédia do humano - Newton de Oliveira Lima
| A crise da poesia brasileira contemporânea - Ranieri Ribas
| Burtonland - Wanderson Lima
resenha | Constante Florinda - Antonia Pereira de Souza
artigo | Música na literatura: extratos musicais na construção de sentido do texto poético - Alfredo Werney
| A representação da mulher nos romances Através da vida e Angústia de Amélia Beviláqua - Glacilda Nunes Cordeiro
| Os alicerces filosóficos do formalismo e a nova retórica: circunstâncias e construção de verdades - Gilton Sampaio de Sousa e Roselany de Holanda Duarte
| Paródia: gênero ou estilo? - Florita Dias da Silva
| A música de Luiz Gonzaga no território da “invenção das tradições” - Jonas Rodrigues de Moraes

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

aos rios do Piauí

[adriano lobão aragão]



Ai rios do Piauí
corre o sangue dos tapuias
como tuas águas

ai rios do Piauí
diferente de tuas águas
outro rumo
o sangue dos tapuias toma
só à terra retorna

ai rios de sangue do Piauí
água pesada na memória


a) longá 

beberam destas águas este povo
que nelas deixaram seu nome
derramado nas águas
onde se espalharam seu sangue

temporário, forma inúmeros alagoados
na época das chuvas

não navegável, recusa as dimensões
da navegação européia


b) Marataoã

padre Miguel Carvalho ante o rio Marataoã:
do ano de mil seiscentos e noventa e sete
restam poucos indícios

nem leitos de piçarra
nem bons banhos na Ilha dos Amores

só um religioso e seus escritos
nenhuma canoa


c) Piracuruca

antes da explosão das armas estrangeiras
o estrondo da guerra vinha de garganta humana

um tabajara podia ouvir o ronco dos peixes

antes do aldeamento São Francisco Xavier
abafar os sons da natureza
pois melhor se fixa
a doutrina européia
a disciplina militar


d) Jenipapo


vinham do Ceará os tapuias Jenipapos
pequena tribo entre Potis e Longas

vinham do Ceará ao Maranhão
engrossar as fileiras militares
aliciadas para a guerra
contra o gentio maranhense

ainda em mil setecentos e doze
ainda na capitania do Piauí
um padre prega outro destino

frei Euzébio Xavier Gouveia
induz Jenipapos à fuga

por ordem do Conselho Ultramarino
pela ordem e prosperidade da guerra
um padre desta capitania é expulso

aliciados e espoliados
desertores desta luta
invasores de fazendas
desaparecidos desta terra

resta um nome no rio
que ainda assistiria em suas margens
portugueses e piauienses em batalha


e) Poti

índios tapuias
talvez vindos do Rio Grande do Norte
habitar as nascentes
doutro rio

atacados pelo cap. Domingos Rodrigues de Carvalho
expulsos para os lados do Maranhão

palavra indígena:
resíduo, fezes
o nome que em tupi se dá ao camarão

água que passa arrastando arraias
sem nome



f) Berlengas

no Novo Oriente do Piauí
na serra da Lagoa Funda
Bangüê Buriti Mocambo
Vaca Morta
todos os outros afluentes
a mesma solidão
da fazenda que em 1697
abrigava apenas Dionísio Dias Pereira
e um negro


g) Canindé

periódico e não-navegável
o mais longo dos afluentes do Parnaíba
nele se mergulha em sua margem direita
vindo do nascente

em Campinas do Piauí a sua margem direita
tem a Fome e a Volta
por afluentes

18 9 1832 Conselho Geral da Província
o engenheiro Pedro Cronemberger
é incumbido da desobstrução
de suas cachoeiras

15 10 1834 nova resolução
destruir 6 cachoeiras que impedem sua navegação
trabalho incompleto para o mesmo engenheiro




[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra/2005]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Cornell Capa

Cornell Capa (1918-2008)

Cornell Capa nasceu no dia 10 de abril de 1918 em Budapeste. Em 1936, aos 18 anos de idade, Cornell foi a Paris para trabalhar com seu irmão, o genial fotojornalista Robert Capa. Mudou-se para Nova Iorque em  1937. Tornou-se fotógrafo da Life em 1946. Após a trágica morte de seu irmão, Robert, vítima da explosão de uma mina durante as tensões que levaram à Guerra do Vietnã, Cornell Capa se juntou à Agência Magnum, a agência de fotografia co-fundada por seu irmão. Para a Magnum, Capa cobriu a União Soviética, a Guerra dos Seis Dias e políticos americanos. Faleceu em Nova Iorque, no dia 23 de maio de 2008.

Marilyn Monroe. Deserto de Nevada, USA, 1960.
 
Savoy Ballroom. Harlem, NY, EUA, 1939.

Ballet Bolshoi. Moscou, USSR, 1958.

Argentinos saúdam a chegada das tropas destacadas para derrubar Juan Peron do poder. Buenos Aires, Argentina, 1952.

Dissidentes politicos presos após assassinato de Anastasio Sonoza. Manágua, Nicarágua, 1956.


As mãos de John F. Kennedy. Hollywood, California, EUA, 1960.
Robert Kennedy em campanha pelo senado. Buffalo, EUA, 1964. 
Clark Gable e Marilyn Monroe. Deserto de Nevada, USA, 1960.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dissionário

D I S S I O N Á R I O
por Alfredo Werney


Confira alguns verbetes colhidos no fabuloso "dissionário" de Alfredo Werney, postado originalmente em seu blog, Staccato.


Akira Kurosawa - pintura que se movimenta.

Andrei Tarkovski - poeta que escreve com fotogramas.

Arnaldo Antunes - compositor popular cuja música pode ser vista com os ouvidos.

Arte de Vanguarda - Diz-se das artes cujos manifestos são mais importantes do que as obras produzidas.

Artista de vanguarda - Diz-se do artista ultrapassado.
 

Borboleta - “uma flor que voa”. (colhido em Guy de Maupassant)

Cecília Meireles – uma fábrica de fazer versos bonitos.

Claude Monet – uma tradução de Debussy para a linguagem visual.
 
Concretismo – Movimento literário brasileiro que confundiu poesia com artes plásticas.

Crepúsculo - momento em que “o sol celebra o suicídio da tarde”. (colhido em H.Dobal)

Crítica literária - o caminho mais longo para quem deseja entender literatura.

Crítico de arte - pessoa destinada a explicar o inexplicável.

Dicionário - livro que esconde o sentido verdadeiro das palavras.
Dunga – maior técnico de futebol americano da história do futebol brasileiro.

Esquadrilha da fumaça - literatura escrita no céu.
Felipe Melo (Zool) – uma espécie de ruminante que tem por preferência a grama de certos estádios de futebol. 
 
François Truffaut - artista francês que fala pelos olhos.

Garrincha – poeta que escreve com os pés.

Invenção de Orfeu – Richard Wagner escrito em versos.

Jorge de Lima - uma orquestra sinfônica de palavras.

Livro de auto-ajuda – livro escrito para ajudar financeiramente aquele que escreve.

Manoel de Barros – poeta que desexplica as coisas.

Mestre Dezinho – um fabricante de feiúras belas.

MPB atual - música pra pular brasileira.

Música - uma escultura composta de sons.

Músico - um ser que lambe os sons e se alucina (baseado em Manoel de Barros)

Perfume - poesia que se cheira.
 

Poesia concreta - Diz-se da poesia em estado sólido.

Poesia engajada - o mesmo que poesia enganada.
Poesia romântica - diz-se da poesia em estado líquido.

Poeta engajado – Espécie de poeta que escreve em prosa e entende a linguagem literária como um meio e não um fim.
Psicanálise - área do conhecimento que estuda o comportamento de Freud.
 
Semiótica – um tipo de ciência que vê apenas com um olho.
Van Gogh – artista holandês que esculpe com tintas.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Lou Reed



É certo que muitos lamentaram a ausência de Lou Reed na Festa Literária de Paraty, mas também é certo que muitos sequer sabiam quem é mesmo Lou Reed antes do anúncio de sua participação no evento. Nos videos postados, podemos conferir algumas faces de Reed que provavelmente não estariam na Festa de Paraty, mas que constituem momentos antológicos em sua carreira após o fim de sua banda, o Velvet Undergrond. 

1 -  Walk on the wild side, em apresentação de 1976. Gravada originalmente no álbum Transformer, de 1972.


2 -Vicious, a bombástica faixa de abertura de Transformer, ao vivo em Paris, 1974.


3 - Satellite of love, outra faixa de Transformer, aqui em versão acústica bem comportada para a TV francesa, em 1996.

domingo, 5 de setembro de 2010

sábado, 4 de setembro de 2010

Perfil no Matraca

Na edição nº11, ano 5, de junho de 2010, o MATRACA, Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social do CEUT - Jornalismo, publicou o perfil abaixo reproduzido. Baixe a versão online completa do jornal clicando aqui.


[por Mara Vanessa

Adriano Lobão Aragão
Adriano Lobão é professor, poeta e literato. Formado em Letras, leciona língua portuguesa e literatura na rede particular de ensino de Teresina. Fundou a revista Amálgama, publicação dedicada à literatura. Em 1998, recebeu o Prêmio Cidade de Teresina pelo livro Uns Poemas, publicado no ano seguinte pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves. No ano de 2005, publicou Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, pela Fundac. Seu livro Yone de Safo foi agraciado em 2006 com prêmio Torquato Neto instituído pela Fundação Cultural do Piauí e publicado pela Amálgama no ano seguinte. Em 2009, publicou as cinzas, as palavras. Participou das coletâneas Versos Diversos (Passos/MG), Poetas do Brasil 2000 (Porto Alegre/RS) e Estas Flores de Lascivo Arabesco, poemas eróticos piauienses (Teresina/PI). Atualmente, edita o site dEsEnrEdoS (www.desenredos.com.br) e o blog Ágora da Taba (adrianolobao.blogspot.com).
 
O início

“Difícil saber. Interesso-me por arte desde criança, sobretudo desenho, música, cinema e literatura, mas confesso que tinha um certo distanciamento em relação à poesia”, confessa Adriano. O literário afirma: “quando o assunto era poesia, gostava de algumas coisas, mas não me parecia uma atividade relevante”. A história só ganhou um novo rumo quando Adriano Lobão ‘descobriu’ Manuel Bandeira e, algum tempo depois, H. Dobal. “Hoje, o estudo da poesia é parte intrínseca à minha maneira de observar o mundo”, afirma. Quando o assunto é ficção, o professor declara que as primeiras leituras que fez das obras de Machado de Assis, no final dos anos 80, foram determinantes para desenvolver o fascínio pelo gênero.
 
Literatura é uma arte?

“Creio que a literatura, como qualquer arte, consiste numa busca pela expressão estética adequada ao contexto.” Mudar consciências, provocar reações e atuar como agente de transformação social por meio da literatura. É possível? “O mundo organiza-se através da linguagem, e o mergulho em busca de um dos limites desse universo é justamente operado pela literatura e pelas demais manifestações artísticas”, afirma Adriano.
 
Dica de veterano

“Trabalhe sempre e jamais esqueça que ler os autores fundamentais é mais importante que arriscar-se no diletantismo [amadorismo]. Literatura, para mim, é compromisso e disciplina, única forma de libertação”, enfatiza.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Os seres imaginários do bestiário de Borges

[por Adriano Lobão Aragão]



Bestiário é um tipo de literatura descritiva do mundo animal, muito comum nos monastérios da baixa Idade Média, e devidamente acompanhados de mensagens moralizadoras. Nesses catálogos manuscritos, os monges reuniam informações sobre animais reais e fantásticos, incluindo seu aspecto, habitat e dieta alimentar. Metaforicamente, podemos imaginar um labirinto de seres extravagantes circunscritos às páginas milenares de seus livros.

Avançando até o século XX, sabe-se que o escritor argentino Jorge Luis Borges chegou a imaginar o Paraíso como sendo uma espécie de biblioteca. E se assim for, o que lhe aguardava em um outro plano não iria destoar de sua vivência mundana, imerso numa profusão de leituras e uma ânsia compulsiva pelos mais distantes caminhos que a imaginação literária e sua tradição pudessem alcançar. Permanecer cego em meio à sua grande paixão, os livros, pareceria ser sua maldição, ou, quem sabe, seu labirinto; afinal, é uma imagem bem mais recorrente na obra de Borges. Além do labirinto, permeiam sua produção as narrativas fantásticas, os elementos míticos, o mergulho no tempo imemorial. Muito justo que o renomado escritor argentino resolvesse acompanhar seu passeio pela tradição de escritos insólitos com a construção de uma curiosa reunião de verbetes intitulada O livro dos seres imaginários, [Tradução de Heloisa Jahn, Companhia das Letras, São Paulo, 2007], mais um volume a completar a indispensável coleção Biblioteca Borges, tendo sua edição no Brasil coordenada por Davi Arrigucci Jr., Heloisa Jahn, Jorge Schwartz e Maria Emília Bender, e que já lançara, dentre outros, as obras-primas Ficções e O Aleph

Se há quem lamente a imersão visceral da prosa brasileira num realismo constante e cru, e quando escapa dessas amarras caí em foclorismo e regionalismo tacanhos, talvez seja oportuno assimilar as lições desse nobre argentino. Assim, a Biblioteca Borges poderia ser um norte, e O livro dos seres imaginários um bom aperitivo. Editado originalmente em 1957, sob o título Manual de zoologia fantástica, ampliado nas edições de 1967 e 1969, recebendo também seu título definitivo, sob o qual é atualmente publicado. Mais que mítico, o universo dos seres imaginários catalogados por Borges e Margarita Guerrero nos parece lúdico. Com certeza, a composição desse livro foi para o escritor um interessante momento de descontração, mas nem por isso deixou de ser feito com o compromisso estético-literário que lhe é inerente. No prólogo de 1967, Borges afirmara que “como todas as miscelâneas, como os inesgotáveis volumes de Robert Burton, de Fraser ou de Plínio, O livro dos seres imaginários não foi escrito para uma leitura consecutiva. Gostaríamos que os curiosos o frequentassem como quem brinca com as formas cambiantes reveladas por um caleidoscópio.

É certo que, muitas vezes, o mito é tão importante quanto a realidade, e muitas vezes explicam o ser humano tanto (ou mais) que seus atos mais racionalistas. A história de existência humana também é a história de seus mitos, metáforas e simbolismos, é propriamente o registro da experiência dos homens diante de um vasto mundo que nem seus sentidos nem sua ciência puderam compreender em sua extensão. E a partir dessa margem, o mítico, o fantasioso e o imaginário abrem suas asas de fênix, de grifo, de harpia ou do que quer que seja sobrenatural. E, nesse mitológico voo, Borges sempre nos brinda com sua peculiar abordagem dos paralelismos da invenção humana, como se vê neste trecho: “A idéia de uma casa construída para que as pessoas se percam talvez seja mais estranha que a de um homem com cabeça de touro, mas as duas se reforçam, e a imagem do labirinto combina com a imagem do Minotauro. Fica bem que no centro de uma casa monstruosa exista um habitante monstruoso.” (p. 145)

Na verdade, não importa se existem ou não os diversos seres que desfilam pelos verbetes que Borges e Margarita catalogaram do Alcorão (os djins), da cultura hindu, do folclore americano (o estranho hidebehind, habitante das florestas de Wisconsin e Minnesota, que jamais chegou a ser visto, pois se posiciona sempre atrás das pessoas, fora de seu campo de visão), além, é claro, dos inevitáveis dragões, seja o ocidental ou o chinês, dentre diversos outros mistérios da história cultural da humanidade. As verdades e as certezas estão bem aquém da dúbia vastidão do imaginário de séculos e séculos. Bem adequado para quem declarou “dediquei minha vida inteira à literatura, só posso lhes oferecer minhas dúvidas.” E a dúvida, certamente, é bem mais vasta que a certeza, e traduz bem melhor a frágil realidade dos mortais, talvez o maior de todos os mitos.