terça-feira, 31 de agosto de 2010

domingo, 29 de agosto de 2010

Juan Gelman por Adityas Soares de Moura


[por Alexandre Bonafim



Juan Gelman

Com grata alegria, celebramos mais uma bela versão, em português, da poesia do argentino Juan Gelman. Dibaixu (Debaixo) é livro raro para raros. Escrito originalmente em sefardita, língua falada pelos judeus da Espanha, o livro nos traz grandes momentos de plenitude amorosa e lírica.

Devemos a ampla divulgação da obra de Gelman no Brasil às belas intervenções do poeta Andityas Soares de Moura. Com sensibilidade, o escritor de Minas tem nos ofertado, em traduções bem elaboradas, a poesia de nosso vizinho portenho.

Em diapasão harmônico, Adityas soube captar toda a sensibilidade de Gelman, suas associações lexicais raras, a fulguração de sua linguagem viva, pulsante de metáforas inventivas, de imagens oníricas de grande fascínio, numa recriação verdadeiramente poética da escrita do autor de Dibaixu. Nós brasileiros, agora, podemos deleitar, com felicidade, em nossa língua, a mesma verve lucífera desse grande poeta da América Latina.

Uma solaridade vivaz, plena, incendeia as imagens de Gelman, numa verdadeira celebração epifânica do presente, momento de plenitude, de intensidade existencial, no qual o homem contempla sua fecundidade:
 
a manhã faz os pássaros brilharem/
está aberta/ tem frescura/
a beberemos junto
com o espanto do pensar/
(p.25)
 

Irradia dessa poesia, a maestria inventiva dos construtores de imagens oníricas, de imagens de grande efeito lírico. Como na escrita dos brasileiros Francisco de Carvalho, Oscar Bertholdo e Jorge de Lima, na poesia de Gelman contemplamos a encantação mágica das palavras, no que elas têm de sinestesia e fascinação visual. Um lirismo puro, com gosto inaugural, irrepetível, incandesce a escrita do argentino, possibilitando-nos sempre uma iluminação, uma vertigem advinda dos nascimentos, das fontes, das germinações, dos descobrimentos inolvidáveis:

agacha-te/ se queres/ olha/
se queres/ o pássaro
que voa em minha voz/
tão menino/
 
pelo pássaro passa um caminho
que vai para teus olhos/
espera tua mão/
há erva onde não estás/
 
derme tudo/
o pássaro/ a voz/
o caminho/ a erva
que amanhã veio/
(p. 27)


Os cortes empreendidos pelo poeta, registrados pelas barras, iconicamente reproduzem nossa ofegante respiração, entrecortada pelas súbitas aparições da beleza. A cada corte, um relâmpago de sensações, uma trovoada de sentimentos febris, estertorantes, profusão de procelas vivas, de surpresas incineradas pela plenitude de um fogo fulminante: poesia experimentada no mais profundo âmago de nossa humanidade:
 
o que falas
deixa cair
um pássaro
do qual sou ninho/
 
o pássaro cala
dentro de mim/

o que faz de mim/
(p.47)

Uma nova metáfora, inaugural, inaugura também um país, uma nação inteira. Alegria saber que tal como os argentinos, nós brasileiros, pelas mãos de Andityas, podemos sorver essas imagens míticas, fuzilantes:

o desejo é um animal
todo vestido de fogo/
tem patas tão longas
que chegam ao olvido/
 
agora penso
que passarinho em tua voz
arrasta
a casa do outono/
(p.72)

Gelman e Andityas, parceria em comunhão no eterno. Argentinos e Brasileiros, irmandade viva, celebrante, nessa bela tradução de Dibixu. 
GELMAN, Juan. dibaixu (debaixo). 
Tradução de Andityas Soares de Moura. 
[S. Cidade]: Edium, 2007.
 

 


 










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Alexandre Bonafim nasceu em Belo Horizonte, em 1976. Vive em em Franca, São Paulo. Formado em Letras, mestre em Literatura Brasileira. Autor de Biografia do deserto (2006).

sábado, 21 de agosto de 2010

Genesis - I know what I like



Ainda com Peter Gabriel e suas teatrais apresentações, já com Phil Collins na bateria, a banda inglesa Genesis em sua melhor forma. I know what I like é faixa do fabuloso álbum Selling England by the Pound, de 1973.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Da Costa e Silva & Chico César & Paulinho Moska

Da Costa e Silva

Saudade
[Da Costa e Silva]

Saudade - olhar de minha mãe rezando
e o pranto lento deslizando em fio
saudade amor da minha terra... o rio
cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho. O caboré com frio,
ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
e à noite as folhas lívidas cantando
a saudade infeliz de um sol de estio.

Saudade - asa de dor do pensamento
gemidos vãos de canaviais ao vento...
Ai, mortalhas de neve sobre a serra.

Saudade - o Parnaíba - velho monge
as barbas brancas alongando... e ao longe
o mugido dos bois da minha terra...

[In Sangue, 1908]



Paulinho Moska e Chico César matando a saudade
Saudade
[Chico César / Paulinho Moska]


Saudade a lua brilha na lagoa
Saudade a luz que sobra da pessoa
Saudade igual farol engana o mar
Imita o sol
Saudade sal e dor que o vento traz

Saudade o som do tempo que ressoa
Saudade o céu cinzento a garôa
Saudade desigual
Nunca termina no final
Saudade eterno filme em cartaz

A casa da saudade é o vazio
O acaso da saudade fogo frio
Quem foge da saudade
Preso por um fio
Se afoga em outras águas
Mas do mesmo rio.


[In CD Pouco, 2010]

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Entre a letra e o acorde


TODA PALAVRA
Entre a letra e o acorde 
Adriano Lobão Aragão


A geração que definiu o rock brasileiro nos anos 80 também gerou grandes letristas que mereceram a estima pública que lhes concedeu, talvez com razão, o título de poetas. Cazuza e Renato Russo são os mais lembrados nesse aspecto, mesmo antes de seus lamentáveis e prematuros falecimentos, mas é conveniente lembrar os nomes de Humberto Gessinger e Arnaldo Antunes. Certamente, boa parte da significativa relevância da discografia das bandas Barão Vermelho, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e Titãs provém do trabalho de seus letristas. No caso dos Titãs, que até 1991 era uma reunião de 8 músicos, Arnaldo não exercia esse papel com a exclusividade que seus mencionados contemporâneos, mas a ele eram concedidos os méritos da poesia titânica, sendo obras individuais como Todo mundo quer amor e O que, parcerias como Miséria e Racio Símio, e até onde não houve sua participação no processo de composição como Flores e Desordem. Desde os primórdios de sua carreira, Arnaldo buscou conciliar as duas atividades, músico e poeta, e muitas vezes reuni-las em uma única manifestação. O ápice desse amálgama talvez tenha sido o primeiro álbum solo de Arnaldo, Nome, lançado em 1992. Curiosamente, enquanto sua música permeia a cada trabalho novas facetas, ou releituras significativas de experiências anteriores, sua mais recente reunião de poemas, n.d.a (Iluminuras, 2010) pouco ou nada acrescenta aos seus livros anteriores, mais parecendo um diluidor de si mesmo. Apesar de ter escrito obras mais significativas, como Psia (1986), Tudos (1990) e o ótimo As Coisas (1992), por mais que o ex-titã prossiga em seus ânseios poéticos (e como poeta, é justo que prossiga), o mais provável é que continue sendo lembrado como o grande músico e letrista que é. Entretanto, essa distinção entre poeta e letrista, para seu público, não aparenta ter relevância alguma. Ao que parece, desde o momento em que Vinicius de Moraes trocou a poesia propriamente dita, ou convencionalmente veiculada pela letra de música popular (e o fez com maestria), nos habituamos a desfrutar a poesia nas canções e relegar aos poetas que não impunhassem um violão o silêncio sepulcral das bibliotecas. E daí temos o "poeta" Caetano Veloso, o "poeta" Gilberto Gil, o "poeta" Gonzaguinha, o "poeta" Chico Buarque, e a carruagem de Apolo segue até os dias atuais com o "poeta" Zeca Baleiro e o "poeta" Marcelo Camelo, para ficar com apenas poucos exemplos. Até artistas anteriores são lembrados da mesma forma e afirmo que, inegavelmente, Cartola é Poeta. Trata-se de um aspecto tão notório e sintomático que até o Concretismo, uma estética absolutamente desprovida de melodia, soube perceber e aproximar-se dos Tropicalistas para angariar seu lugar junto ao público. É justo acrescentar que alguns nobres artífices do verso e do violão merecem o termo Poeta quando conseguem que suas letras se sustentem artisticamente ainda que sem o auxílio do respectivo acompanhamento musical. Mas isso não é regra.

Além de Arnaldo Antunes, diversos outros até poderiam, se quisessem, desenvolver a atividade poético-literária propriamente dita, quem sabe com grande talento e desenvoltura, mas é notório que o palco e o suor de fãs que acompanham as letras de cor é bem mais atraente que a fria página de um livro e o campeonato de indiferença disputado pelo público e pela crítica. Ainda assim, John Lennon e Jim Morrison se arriscaram no mundo dos livros, Chico Buarque já demarcou seu lugar de romancista e Chico César lançou seu livro de poemas, Cantáteis, em 2005. Não é de hoje que se menciona o nome de Bob Dylan como sério candidato ao prêmio Nobel de Literatura, e até Lou Reed, que cancelou sua participação na Festa Literária de Paraty de 2010 após ter sido largamente divulgada, já declarou suas pretensões literárias e o anseio que sua obra seja reconhecida também como literatura. Seria um retorno aos moldes medievais que, durante o trovadorismo, não estabelecia limites entre música popular e poesia, e seus menestréis/trovadores/poetas voltavam sua produção exclusivamente para o público, inexistindo a figura da crítica? Muito bem, mas vale lembrar que, pelo menos na vertente portuguesa de cantigas e novelas, de 1189 (quando Paio Soares de Taveirós talvez tenha composto a Cantiga da Ribeirinha) a 1556 (data estimada da conclusão de Os Lusíadas), demoraram cerca de quatro séculos para surgirem os versos que imortalizariam Luís Vaz de Camões.


[Publicado no jornal Diário do Povo, 10 de agosto de 2010, coluna Toda Palavra, pág 18]

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Woody Allen e o cinema americano



"As gerações mais novas não são tão chegadas a cinema, não são letradas em cinema, nem conhecem os grandes filmes, a ideia que fazem do que são os filmes bons mudou. Não estou fazendo nenhum juízo de valor, apenas é diferente da minha. O cinema de que eles gostam não me interessa. Não estou dizendo que não existam alguns filmes bons todo ano, existem - mas fazem centenas de filmes, e uns dois ou três filmes americanos bons se esgueiram pelo meio, em geral de gente independente, mas no mais das vezes são os filmes europeus ou estrangeiros - podem ser iranianos, chineses, mexicanos agora - que são interessantes. E só você assiste. Telefono para a Keaton em Los Angeles e digo: "Você viu isso?" E ela diz que não foi lançado lá, ou que não sabe onde está passando. (...) Bom, se eu fizesse uma lista dos dez melhores filmes já feitos, com a exceção de Cidadão Kane, não haveria nenhum outro filme americano."

[Primavera de 2005]

[Conversas com Woody Allen, Eric Lax, 2ª edição, cosacnaify, 2009. pág 332-334]