quarta-feira, 28 de julho de 2010

Conversando com Woody Allen




[por Adriano Lobão Aragão]



Você anota as ideias quando elas vêm?”, perguntou Eric Lax para Woody Allen, em novembro de 1987. “Anoto, sim, uma porção de piadas quando elas me ocorrem. Sempre fiz isso porque sempre esqueço se não anoto. Ainda tenho uma gaveta cheia de piadas e palpites. Muitos ainda estão em pedaços de papel." Em fevereiro de 2006, Allen acrescentaria que "só jogo as ideias fora depois de realizadas." O diálogo entre Eric e Woody estende-se por décadas, desde 1971, quando um editor da New York Times Magazine mandou-lhe investigar três pautas para uma possível matéria, dentre elas, o perfil de Woody Allen, um comediante de 35 anos de idade que havia escrito duas peças da Broadway e que começara a dirigir seus próprios filmes. 36 anos depois, acompanhando os inúmeros filmes de Allen (de Um assaltante bem trapalhão, 1969, a O sonho de Cassandra, 2007, passando, dentre outros, pelos antológicos Noivo neurótico, noiva nervosa, 1977; Manhattan, 1979; A rosa púrpura do Cairo, 1985; Hannah e suas irmãs, 1986; Poderosa Afrodite, 1995 e Match Point, 2005, com direito a um anexo para os mais recentes Vicky Cristina Barcelona e Tudo pode dar certo), as entrevistas concedidas a Lax delineiam o cotidiano criativo do cineasta, a gênese de suas obras, suas influências e anseios, bem como o intenso e repetitivo elogio à equipe e aos atores que participaram de seus filmes contrastando com a constante reafirmação de suas limitações. Em fevereiro de 2006, referindo-se a O Escorpião de Jade (2001), diria que "decepcionei um elenco excepcionalmente talentoso. Eu tinha a Helen Hunt, que é uma atriz e comediante soberba. Tinha o Dan Aykroyd, que sempre achei hilário. Tinha o David Ogden Stiers, que usei muitas vezes, e que sempre se sai bem. A Elizabeth Berkley era maravilhosa. (...) Mas, do ponto de vista pessoal, sinto que pode ser - e existem muitos candidatos a isso - o pior filme que fiz. Me mata ver um elenco tão talentoso e eu não ser capaz de realizar uma coisa com eles. (...) sinto muito arrependimento e vergonha, porque as pessoas confiaram em mim e aceitaram o trabalho sem dinheiro nenhum."

Conversas com Woody Allen, Eric Lax [2ª edição ampliada, Tradução de José Rubens Siqueira, Cosacnaify, São Paulo, 2009] nos remete ao curioso retrato de um cineasta exposto ao longo do tempo a um ciclo de perguntas que envolvem suas ideias; o ato de escrever; casting, atores, atuação; filmagens, sets, locações; direção; montagem; trilha sonora; e, obviamente, sua carreira. Curiosamente, não há muita margem para a vida íntima e pessoal de Woody Allen, exceto em alguns, e raros, momentos que estejam fortemente relacionados ao filme em questão. E este é um dos méritos do livro de Eric Lax, o interesse voltado para o artista e sua obra apenas. Entretanto, o que emerge desse emaranhado de questionamentos é simplesmente um ser humano como qualquer outro, falível, mas disposto a arriscar; inseguro diversas vezes, mas ciente de seu talento e buscando explorar da melhor maneira possível suas próprias limitações. Em junho de 1974, já tinha plena consciência das dificuldades em se colocar em cena: "Porque não sou ator: não vou escrever uma história em que eu faça, por exemplo, um xerife sulino. Vou sempre representar dentro do meu âmbito limitado. E só sou convincente como eu mesmo em algumas coisas, como um boboca urbano, com cara de CDF, da minha idade. Eu não seria convincente, digamos, como um instrutor de ginástica ou um fuzileiro naval herói. E as pessoas esperam que eu diga coisas divertidas o tempo todo."

Allen não se entrega ao trabalho de simplesmente transformar suas respostas numa sucessão de piadas, comentários jocosos ou frases irônicas. Há, efetivamente, a figura de um autor disposto a comentar suas obras por dentro; ou pelo menos o que conseguir lembrar-se delas: “não é que a memória me falhe, mas fui fazendo ao longo dos anos, e fiz trinta e seis, trinta e sete filmes, e não assisti de novo desde que foram feitos. Um assaltante bem trapalhão foi em 1967, 68, faz quanto tempo?”, diria em novembro de 2005. Testemunhar como um cineasta como Woody Allen sobreviveu em meio ao predatório cinema americano durante tantos anos sustentando seus filmes nos diálogos e nas ideias, não nas ações e imagens, chega a ser uma lição de integridade artística bastante avessa ao forte apelo imagético atual. São raras, muito raras, as cenas em que se ouve um palavrão, por exemplo; mas sua obra é essencialmente adulta. Há assassinatos premeditados, humor negro, execuções, mas a violência nunca é gratuita. Também não há a presença de relacionamento sexual explícito; mas o sexo é constantemente um tema central de sua obra. Não se trata de nenhuma colocação moralizante, nem estamos afirmando que uma grande obra cinematográfica não possa ou não deva abordar a violência e o sexo de maneira mais visceral (há brilhantes exemplos nessas vertentes), mas Allen sabe que não é assim que seus filmes funcionam. É dessa integridade que estamos tratando.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Sobre as antigas construções deterioradas pelo centro da cidade

[renato Zagrel]


Entre calçadas e esquinas,   
Sujeira, detrito e mofo,
caído todo reboco,
dia a dia em Teresina       
lição do tempo se ensina 
Resquício de paradeiro       
em pedaços todo inteiro  
esquecido à própria sorte –   
Velha que não mais se fode   
se quer enterrar primeiro.


abril 2008

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Yehuda Amichai



13 canções de guerra e de paz
Yehuda AmichaiTradução de Sebastião Edson Macedo





meu filho cheira a paz
Meu filho cheira a paz.
Quando eu me inclino sobre ele
Não há só o cheiro do sabonete.

Todo mundo foi uma vez a criança com o cheiro a paz.
(E não há em toda a terra um só
Moinho que ainda gira)

Ó moinhos despedaçados como roupas
que não se pode remendar.
Duros, solitários patriarcas na tumba de Hebron
Sem filho algum em seus silêncios.

Meu filho cheira a paz.
O ventre de sua mãe o prometeu
Aquilo que deus não pode
Nos prometer.


minha amada não esteve na guerra

A minha amada não esteve na guerra.
Ela aprende o amor e a história
No meu corpo, que foi dois, ou três.
E de noite.
Quando meu corpo faz duelos na paz
Ela se confunde.
Seu pasmo é seu amor. E seu aprendizado.
Suas guerras e sua paz, seu sonho.

E eu estou bem no meio da minha vida.
O tempo quando se começa a coletar
Os fatos, e muitos detalhes,
E mapas exatos
De um país que jamais ocuparemos
E de um inimigo e um amante
Cujas fronteiras jamais cruzaremos.



nós o fizemos

Nós o fizemos na frente do espelho
E a claro. Nós o fizemos no escuro,
Na água, e na grama alta.

Nós o fizemos em memória do homem
E em memória da fera e em memória de Deus.
Mas eles não queriam saber da gente,
Eles já entendiam a nossa sorte.

Nós o fizemos com imaginação e a cores,
Com uma confusão acaju e marrom de cabelos
E com difíceis exercícios
Gratificantes. Nós o fizemos
Como a bicicletas e a seres sagrados
E com as cátedras próprias para os profetas.
Nós o fizemos seis asas
e seis pernas
        Mas os céus
Austeros eram sobre nós
Como a terra por debaixo do verão.  


caminhada com uma mulher

Quando depois de horas de caminhar
Tu subitamente descobres
Que o corpo da mulher que vai a teu lado
Não tinha sido pensado
Para a viagem ou a guerra,

E que suas coxas se tornaram pesadas
e suas nádegas se movem como um rebanho cansado,
Tu te inflas numa grande alegria
Pelo mundo
No qual as mulheres são mesmo assim.


espião

Muitos anos trás
Eu fui enviado
Para espiar a terra fora
Para além da idade dos trinta.

E eu fiquei por lá
E não voltei para os meus mandantes,
Para não ter que
Contar
Desta terra

Nem ter que
Mentir.


faz muito tempo que ninguém é perguntado

Faz muito tempo que ninguém é perguntado
Quem viveu nestas casas, e por último falou, quem
Esqueceu sua capa nestas casas,
E quem ficou. (Por que ele não caiu fora?)

Uma árvore morta fica no meio das árvores floridas.
    Uma árvore morta.
É um velho engano, nunca compreendido,
E nas fronteias do país, o princípio
Do tempo de outro alguém. Um pequeno silêncio.
E os delírios do corpo e do inferno.
E o fim do fim que se move nos sussurros.
O vento passou por este lugar através
E um cão muito sério vê humanos se rirem.


e nós não devemos ficar excitados

E nós não devemos ficar excitados. Porque um tradutor
Não tem que ficar excitado. Calmamente devemos transmitir
As palavras de pai para filho, de uma língua
Para os lábios dos demais, des-

Conhecidamente, como um pai que transmite
Os traços do rosto de seu pai morto
Para seu filho, e ele próprio não semelha nenhum deles. Um mero mediador.

Nós devemos lembrar das coisas que tivemos nas mãos
E escapuliram.
O que eu tenho em minha posse e o que eu não tenho em minha posse.

Nós não temos que ficar excitados.
Os apelos e seus apeladores naufragaram. Oh, a minha amada
Disse-me umas poucas palavras antes de partir,
Para dar conta dela.

E nós não devemos mais contar o que nos contaram
Para outros contadores. O silêncio como aceitação. Não temos
Que ficar excitados.


de três ou quatro pessoas numa sala

De três ou quatro pessoas numa sala
Uma sempre fica na janela.
É obrigado a ver o mal entre os espinhos
E as chamas na colina.
E como as pessoas que saíram todas juntas
São devolvidas aos lares ao anoitecer
Como se fossem um troco miúdo.

De três ou quatro pessoas numa sala
Uma sempre fica na janela.
Seus cabelos negros sobre seus pensamentos.
As palavras ficam atrás dela.
Em frente a ela, vozes se perdendo sem bagagem,
Corações sem mantimento, profecias sem água,
E as grandes pedras devolvidas
Como cartas lacradas
Sem remetente nem destinatário.


o prefeito

É triste ser
O prefeito de Jerusalém.
É terrível.
Como pode um homem ser prefeito de uma cidade dessa?
O que ele pode fazer por ela?
Ele só pode construir e construir e construir.

E à noite,
As pedras dos montes ao seu redor
Virão até as pedras do limiar das casas
Como lobos que vêm uivar para os cães
Que se tornaram escravos dos homens.


não aceitar

Não aceitar estas chuvas que vêm tarde demais.
Melhor se segurar. Fazer da tua dor
Uma imagem do deserto. Dizer está dito
E não olhar para o poente. Recusar

Render-se. Tentar este ano também
Viver sozinho no longo verão,
Comer teu pão ressequido, refrear
Tuas lágrimas. E não aprender com

A experiência. Tomar a minha mocidade como exemplo,
O meu retorno tarde da noite, o que foi escrito
Na chuva no ano passado, não faz a menor diferença

Agora. Ver teus casos como meus casos.
Cada coisa será como antes: Abraão será de novo
Arão. Sara será de novo Sá.


é chegado o tempo de colher os testemunhos

Quando foi a última vez eu chorei.
É chegado o tempo de colher os testemunhos
Daqueles que me vivenciaram nisto. Alguns estão  mortos.
Eu lavo meus olhos com água
Para tornar a ver o mundo
Através de um véu úmido e doloroso. Eu preciso
Colher os testemunhos. Estes dias
Pela primeira vez eu senti umas pontadas
No meu coração:
Eu não estava espantado. Eu estava quase tão orgulhoso
Quanto um menino que descobre o primeiro pêlo em seu sovaco
E em sua púbis.

com a minha mãe

Minha mãe sempre me chama pra dentro
Se estou a brincar lá fora. Certa vez me chamou
E eu não voltei para casa por muitos anos,
E eu não estava brincando.

Quando eu me sento diante dela agora
Ela fica igual às pedras silentes.
Todas as minhas palavras e os meus poemas
São qual uma graxa derramada das palavras
De um vendedor de tapetes,
De um alcoviteiro, e de um dócil caixeiro viajante.

de Poemas sobre o Mar da Cesaréia

7.
A mulher que desapareceu no além
Da porta marcada como “Mulher” nunca apareceu novamente.
A areia entre meus dedões.
Metade de uma maçã e um quarto de hora chegando atrasados.
Um bilhete com uma ferida de uma viagem específica,
Um número em um antebraço, metade de um fósforo queimado.
A pele untada. Para quem?

Rubros pecadores de pé
No fogo do inferno de uma ducha
A gritar fervorosos por socorro.
Dois homens obesos rolando
Nas tábuas da lama como um rolo compressor.
Palhas de milho e romãs ressequidas
No fundo de uma tigela.

Alguém sussurra com um bocado de areia:
“Qual a areia nas bordas do mar.”
Uma mulher entra com seu vestido
Como se subisse uma escada. Seu rosto em chamas.

9.
Volte aqui no próximo inverno,
Ou algumas dessas palavras
Sustentem a minha vida
E atravesse meus dias,
Como uma fila de soldados, um por um, sobre a ponte
Marcada para explodir.

Volte aqui no próximo inverno.
Quem não ouviu tais palavras, e quem vai retornar?





_________________________
Yehuda Amichai (1924-2000) é um dos mais destacados poetas de língua hebraica do século XX. Nascido no seio de uma família ultra-ortodoxa em Würzburg, Alemanha, emigou para Israel em 1936. Sua obra é extensa, com 15 livros de poemas, dois romances, vários contos e teatro, sendo considerada fundamental para se refletir as margens da experiência da linguagem na lírica moderna. A poesia de Amichai está intimamentemente conectada ao convívio possível entre os homens num mundo destroçado pela falência do Humanismo. Por isso, talvez, haja tão recorrentes temas da esfera privada implicados na vida pública do homem comum. Amichai ganhou inúmeros prêmios internacionais de poesia e está traduzido para mais de 35 idiomas. A presente tradução se baseou nas versões em língua inglesa de Bloch & Kronfeld (Harcourt: NY, 2000), de Barbara & Benjamin Harshav (HarperCollins: NY, 1994) e de Gutmann, Schimmel & Hughes (Penguin: London, 1978).


_________________________
Sebastião Edson Macedo é poeta e ensaísta, autor de: para apascentar o tamanho do mundo (Oficina Raquel: 2006); e: cego puro sol (UFRJ/FL: 2004). Nasceu no interior do Piauí em 1974. Atualmente mora no Rio de Janeiro, onde se tornou Mestre em Estudos Literários Portugueses pela UFRJ.



[publicado originalmente em dEsEnrEdoS 4, janeiro de 2010]



quarta-feira, 14 de julho de 2010

dEsEnrEdoS 6

editorial


Mais uma garrafa lançada no mar da internet, dEsEnrEdoS,  em seu sexto número, sente-se privilegiada, pois já se sabe – a história pregressa de cinco outros números avaliza que no manuscrito encontrado nesta garrafa, se não há profecia, se não há mapa indicando ouro fácil, há a sondagem séria, a opinião abalizada, o estudo diligente da literatura e das formas culturais que lhe são irmãs.
O generoso leitor que acompanha nossa trajetória deve ter notado a dupla visada da Revista, que mantém espaços de criação e de debate acadêmico; espaços de expressão mais livre e espaços onde a objetividade da pesquisa pede um comedimento (jamais uma anulação) da expansão subjetiva. Esta atividade revela a desaprovação, de todos os que compomos a dEsEnrEdoS, perante aquele modelo de periódico acadêmico-universitário que se fecha, com seu tecnicismo e seu horror ao não canonizado, ao diálogo amplo e ao debate das questões mais pontuais e cotidianas.
Fora este ponto axial, as metas para 2010 continuam irretocáveis: além da manutenção da qualidade e da abertura ideológica (não se leia aqui neutralidade ou incoerência), buscamos um alargamento geográfico das colaborações, sempre favoráveis ao diálogo com a lusofonia e com o espaço latino-americano, pois dEsEnrEdoS não quer ser apenas uma revista brasileira, caso se dê a este adjetivo pátrio um sentido de limitação das questões debatidas.
O ponto de maior interesse deste número reside em nosso segundo dossiê, desta vez abordando a obra do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva, que acaba de sair de um longo ostracismo editorial graças à arrojada iniciativa da É Realizações. Além de contar com um texto raro e basilar de VFS, nosso dossiê recolhe textos clássicos e novos sobre o filósofo, todos de grande agudeza analítica.  dEsEnrEdoS sente-se orgulhosa de participar deste importante momento da cultura brasileira que é o “retorno” – providencial, diga-se de passagem – de VFS ao debate filosófico-cultural e agradece à É Realizações e ao organizador da nova edição de suas Obras Completas, Rodrigo Petronio. Sem a diligência e a generosidade deles seria impensável este dossiê.
Por fim, dEsEnrEdoS dedica este número à memória de José Saramago. Em nosso segundo número, tivemos a honra de abrigar aqui um texto de Saramago, no qual ele dizia de Jorge Amado: “Poucas vezes um escritor terá conseguido tornar-se, tanto como ele, o espelho e o retrato de um povo inteiro. Uma parte importante do mundo leitor estrangeiro começou a conhecer o Brasil quando começou a ler Jorge Amado”. Tire-se o nome do baiano e ponha-se o do português que o esplendor de verdade do enunciado brilhará com mais intensidade.
Os Editores 


contato
lobaoaragao@gmail.com
wandersontorres@hotmail.com



[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]

terça-feira, 13 de julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mário Faustino & Jorge Luis Borges

 











Prefácio
[Mário Faustino]

Quem fez esta manhã, quem penetrou
À noite os labirintos do tesouro,
Quem fez esta manhã predestinou
Seus temas a paráfrases do touro,
A traduções do cisne: fê-la para
Abandonar-se a mitos essenciais,
Desflorada por ímpetos de rara
Metamorfose alada, onde jamais
Se exaure o deus que muda, que transvive.
Quem fez esta manhã fê-la por ser
Um raio a fecundá-la, não por lívida
Ausência sem pecado e fê-la ter
Em si princípio e fim: ter entre aurora
E meio-dia um homem e sua hora.

[O homem e sua hora, 1955]
















James Joyce
[Jorge Luis Borges]


Num só dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial dos tempos, em que um terrível
Deus prefixou os dias e agonias
até o outro em que o rio ubíquo
do tempo secular torne à nascente,
que é o Eterno, e se apague no presente,
no futuro, no ontem, no que ora possuo.

Entre a aurora e a noite está a história
universal. E vejo desde o breu,
junto a meus pés, o caminho do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.


Cambridge, 1968


[Poesias, - Poesia, tradução de Josely Vianna Baptista, Companhia das Letras, 2009]

sábado, 10 de julho de 2010

ensaios fotográficos
















Stanley Kubrick


















John Bohan e Robert Plant, Led Zeppelin























Marylin Monroe























Madonna
















 Sofia Coppola


































Keith Richards, Rolling Stones

quarta-feira, 7 de julho de 2010

“Ensaio de visibilidade para os olhos de um Argos”




“Ensaio de visibilidade para os olhos de um Argos”
[por Adriano Lobão Aragão]



Debruçar-se sobre a poesia contemporânea brasileira consiste num dilema para qualquer leitor. A enorme diversidade de poetas, versejadores e candidatos a poeta, aliada à inexistência de uma produção crítica eficiente, leva a um labirinto de oferta de versos e a necessidade de algum mecanismo que permita entender o momento poético (?) que vivenciamos (?) e, sobretudo, “separar o joio do trigo”, o beletrista do criador, o diluidor do mestre, para lembrar as categorias propostas por Ezra Pound e lamentar a ausência de um Mário Faustino que encarasse o desafio de apostar no talento imberbe e repudiar o diletante, de resgatar mestres e desmistificar equívocos.

É possível imaginar que, antes da inigualável seleção a ser imposta pelo tempo, como Cronos devorando suas crias, o público poderia realizar esse papel de, numa ampla massa de pretendentes a vate, eleger uns poucos que teriam seus versos aceitos e editados em plena consonância com a legitimação da crítica ou, no caso, do mercado. Mas a arte, sobretudo a poesia, sempre esteve com os pés distanciados dessa lógica. Não é o público consumidor que os seleciona, afinal, a quantidade de leitores de poesia é baixíssima, embora livros, revistas, coletâneas, livretos, fanzines, eventos, se multipliquem a cada ano (tendo leitores ou não), e com a internet, sobretudo com o advento dos blogs, é bastante improvável que se possa mapear um universo em constante e acelerada expansão. Trata-se do estranho caso de uma modalidade artística que parece contar com mais produtores que consumidores, pois a maioria desses escritores (ou candidatos a tal) não se apresentam como leitores da própria expressão artística que buscam realizar. Pois é justamente nessa “terra de ninguém” que Marco Lucchesi resolveu mergulhar na difícil tarefa de ensaiar uma antologia que pudesse dar visibilidade à produção poética brasileira de 2000 a 2006, “num país de tão vastas proporções e no seio de um presente que se mostra praticamente inabordável, num oceano de publicações reais e virtuais”, conforme nos lembra o próprio pesquisador. Trata-se do Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 2000 (Global Editora, 2009), mais um exemplar da série que se propôs a antologiar a arte poética realizada no Brasil, contando nos demais volumes com o olhar de Ivan Teixeira (raízes), Antonio Carlos Secchin (romantismo), Ivan Junqueira (anos 30), André Seffrin (anos 50), dentre outros.

Com sua vasta experiência de poeta, ensaísta, tradutor e professor, Marco Lucchesi não foge do desafio, embora para lograr êxito talvez fosse preciso fazer uso dos cem olhos de Argos, o mitológico gigante que mantinha cerca de cinquenta olhos abertos mesmo quando dormia, exemplo mencionado no prefácio pelo próprio antologista. Buscando o olhar que possa separar a realização plena e a mera tendência versejadora, Lucchesi direciona sua varredura, verdadeira odisseia, através “dos grupos restritos, nas brenhas de suas tribos e língua, revistas, com seus nômades urbanos, punks, grafiteiros, anarquistas, anacoretas, músicos de rock e MPB, operações de multimídia, projetados no ciberespaço, na profusão de homepages e na espessura da blogosfera.” Mas quais seriam as vertentes da poética brasileira contemporânea? Para além do texto em si, é inegável que o afastamento entre o público em geral e os poetas agrava a situação. Isto é, qual a relevância de uma tendência (ou da identificação dessa), se se encontra restrita a um punhado de partidários, incluindo o pouco de crítica literária que daí possa advir e, quase sempre, permaneça restrita a trabalhos acadêmicos que igualmente não apresentam interação nem interesse pelo público não especializado. Difícil identificar quem ignora quem. Mas as consequências são visíveis e lamentáveis.

Lucchesi acredita que a necessidade imediata não seja o mapeamento de “linhas evolutivas”, análise da predominância de determinados grupos e consolidação de terminologias e conceitos, mas a divulgação dos melhores resultados obtidos, venham de onde vier, seja discípulo dos irmãos Campos, seguidor dos passos de João Cabral de Melo Neto, herdeiro da “marginalidade” setentista ou adepto da milenar tradição poética ocidental. Entretanto, descobrir essas vozes que possam elevar-se além do contexto em que foram elaboradas e tocar essa estranha experiência chamada Poesia tropeça em um outro problema, bastante curioso, por sinal, conforme observa Ranieri Ribas em A Crise da Poesia Brasileira Contemporânea, Considerações de um leitor cansado, ensaio publicado na revista eletrônica dEsEnrEdoS, em julho de 2009. Onde tantas vozes se apresentam, e por isso se identificariam inúmeras feições, Ribas preferiu ressaltar um ponto de contato, uma convergência que se instaura diante dos múltiplos olhos de Argos, como um claro enigma: “Os poetas se distinguem pela forma, pela preferência estética, porém, é como se a fala por eles proferida fosse oriunda de uma única forma de experiência da qual são escravos, títeres. (...) Por alguma razão que me é alheia, vivemos a época da falência da experiência da singularidade. Nossos poetas estão estéreis, repetem a si mesmos, desenganam-se em elaborações formais múltiplas porque se sabem impotentes para qualquer exercício de alteridade. (...) O fato é que há uma completa ausência de inflexão pública na poesia brasileira atual.” Diante desse diagnóstico, é impossível não relacioná-lo ao sintomático afastamento entre público e poesia. Também é imprescindível refletir acerca do próprio termo utilizado. Talvez por isso, Ribas, no mesmo ensaio, acrescente: “Denomino ‘inflexão pública’ toda poesia que possa ser testemunho ou porta-voz de um ethos, uma poesia que ultrapasse a esfera do íntimo, do privado, do conforto doméstico. Uma poesia que não esteja submersa e cega pela escuridão narcísica do cotidiano, pela egolatria da percepção.”

Concordando ou não com o diagnóstico de Ribas, é interessante conhecer mais um esforço para desvendar a produção poética atual. Mesmo que sirva mais para compreender a visão do leitor Marco Lucchesi do que um panorama avaliativo propriamente dito, os 45 poetas selecionados remetem a apostas e esperanças de um estudioso do verso, e confrontá-los com nossas próprias escolhas pode vir a ser lúdico para uns, cansativo para outros, mas o que mais se pode esperar de tempos tão “líquidos”? Das fragmentações estéticas de Delmo Montenegro e Ricardo Domeneck às intertextualidades cinematográficas em prosa poética de Alexandre Bonafim e ao estranho universo futebolístico de Luis Maffei (poema Copa do Mundo 2002, Rivaldo ato II: “... antes a máscara e o martelo e o palco / vagina aberta / e o quiasmo rijo como dentes em vitrine.”, para ficar somente com um exemplo), há pastiches e esforços de feição vária, inclusive a aprazível surpresa de uma piauiense, Joana Maria Guimarães, que estreou em livro aos 80 anos declamando em sua Poética que “toque de amor / me penetra”. Enfim, Carlos Manes nos lembra que “Os olhos são poucos / para o mundo” (Drummond diria “meus olhos são pequenos para ver”), mas acredito que estes dois versos de Flávio Corrêa de Mello, em Manifesto de Artaud, resumam melhor toda a questão: “(...) / o relógio de um tempo / gritando por algo de novo no front.”




[TODA PALAVRA / Jornal Diário do Povo, Teresina, 6 de julho de 2010, p. 18]

sábado, 3 de julho de 2010

Os óculos de Lennon, o olhar de Paul





Os óculos de Lennon, o olhar de Paul

[por Adriano Lobão Aragão]


Ao que parece, John Lennon considerava os Beatles uma extensão de seu círculo pessoal de relações. Partindo dessa premissa, podemos supor ser este o princípio e o fim da maior banda de rock de todos os tempos. Se em torno de si Lennon reuniu brilhantes talentos como Paul McCartney e George Harrison, também era capaz de impor a presença de seu amigo Stuart Sutcliffe na banda, embora o rapaz não tivesse a menor inclinação musical. Ainda assim, os Beatles foram adiante e arrumaram as malas rumo a Hamburgo, na Alemanha, e, principalmente, rumo ao seu primeiro amadurecimento artístico-musical. Após a saída do pseudo-baixista Stuart e do baterista Pete Best, e o ingresso do irreverente Ringo Starr, o fabuloso quarteto de Liverpool experimentou a explosão de um sucesso internacional jamais imaginado nem experimentado por outro artista. 1963 foi, definitivamente, o ano da Beatlemania. E cinco anos depois, o círculo pessoal de John Lennon exigia a presença constante de Yoko Ono na mesma medida em que se desinteressava visivelmente pela manutenção da parceria criativa com Paul McCartney e, por extensão, com o que sua banda representava a partir de 1968. É claro que a gradativa e inevitável separação dos Beatles não é uma consequência direta da presença de Yoko, mas da postura de John, do desgaste nas relações inter-pessoais e musicais entre todos, e das equivocadas decisões empresarias que se sucederam depois da morte do empresário Brian Epstein. Mas o impacto que deixaram na música popular e na indústria do entretenimento foi irreversível. E regularmente chegam às livrarias, novas obras que se propõem a mergulhar nesse emaranhado de genialidade, excentricidade, ousadia e o que mais aparecesse. Dessa vez, é Jonathan Gould, autor de Can't buy me love: os Beatles, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos [tradução: Candombá. São Paulo, Larousse do Brasil, 2009], quem busca estabelecer um interessante painel das referências culturais que permearam a carreira dos Beatles, desde suas origens, em Liverpool, até sua tempestuosa dissolução.

Um dos méritos da obra está em compor um retrato individual de cada beatle sem perder o foco de como a união de suas forças criativas deram origem a tamanho fenômeno de público e de realização artística no universo da música pop. Ouvir cada uma das faixas gravadas pelo grupo lendo os pertinentes comentários de Gould amplia a compreensão de detalhes que quase sempre passam despercebidos, ou que não se costuma dar a devida importância. Talvez por isso, destaco a primorosa dissecação do White Album (The Beatles, 1968) na qual a análise faixa a faixa do mais caótico e disperso (e nem por isso menos fascinante) disco dos Beatles estabelece o potencial quase que exato do quanto eles conseguiriam chegar se ainda fosse possível se manter como força criativa conjunta, bem como suas particulares fragilidades, cada vez mais latentes, puxando-os para a conscientização de que há algum tempo já trilhavam caminhos distintos. Os paralelismos apresentados ao longo da obra enriquecem bastante a leitura. É curioso acompanhar o mergulho de George Harrison na cultura indiana, não apenas na música, e o impacto disso tanto nos Beatles (das notórias faixas Love You To, With You Without You e The Inner Light à desastrosa experiência com o guru Marrarishi), quanto na proliferação da sonoridade indiana na música ocidental e a utilização da cítara indiana por diversos grupos ingleses da época. Vale lembrar que Harrison tornou-se, sobretudo, um brilhante compositor de clássicos pop incontestáveis como Here Comes the Sun, Taxman, Whille my Guitar Gently Wheeps e a magistral Something. Mas os Beatles são o resultado primordial da colaboração entre John Lennon e Paul McCartney, e a relação estabelecida entre os dois define cada uma das fases da história do grupo. Compreender essa relação implica em compreender um importante capítulo da história cultural do século XX, e Jonathan Gould realizou um interessante e coeso painel a partir desse caleidoscópio de referências que definiram os anos 60, o comportamento juvenil, a cultura de massa, o mercado fonográfico e a música ocidental a partir de então. Um livro para ler e ouvir.