terça-feira, 30 de março de 2010

A crise do escritor na era dos escritores

[por Wanderson Lima]



A pletora de meios de produção e difusão de informações que caracteriza a sociedade pós-moderna perturbou a tradicional distinção entre produtores e consumidores – e, com isso, a noção de escritor barateou-se. Diários infantis (nem sempre escritos por crianças) e poemas adolescentes (nem sempre escritos por quem está na puberdade) são publicados freqüentemente. Numa livraria de renome, na estante de Psicologia, um livro de Gugu Liberato descansa ao lado de um de Jacques Lacan.

Há quem, como Michel Maffesoli (2004), comemore esta transformação: num contexto em que o estético se difratou no social, o criar é, mais que um imperativo, uma tarefa ordinária; todos inventam, todos produzem, todos escrevem. O ego deve se abrir, a emoção deve circular; não é mais necessário escrever apenas se for para “transformar o mundo”. A gravidade do escritor, ex-auto-nomeado porta-voz das massas, derruiu. Sob este ângulo, somente um espírito antidemocrático discordaria de Maffesoli, pois, de fato, a linha rígida que, na modernidade, separava produtores e consumidores era repressiva, elitista. No entanto, é preciso que se pense o outro lado dessa revolução, justamente o supracitado barateamento do ofício do escritor.

Esta não é a primeira vez que o escritor titubeia. Na década de 1960, o escritor levou uma primeira surra, pelo questionamento da noção de autoria; esta, porém, tinha um fundo político-corretivo evidente. Pensadores franceses como Michel Foucault (1992) e Roland Barthes (1984) questionaram duramente a entronização do autor como dono absoluto de sua obra. Para eles, dar ao texto um autor é supor, teleologicamente, que textos têm um significado último, que deve ser decifrado (e não construído) seguindo-se os passos desse agente de unidade do texto (o autor). A noção de autor, pensam eles, leva a supor que os textos, especialmente os literários, são pouco mais que confissões e que a tarefa da crítica é desvendar, como diz ironicamente Barthes (1984), a “mensagem do autor-Deus”. Foucault (2002) vai mais longe ao atribuir a noção de autor um peso eminentemente repressivo: atribuir a um texto um autor é exercer uma norma de controle. O alvo desses dois pensadores franceses era o individualismo burguês e o intencionalismo – isto é, a prática hermenêutica de buscar a significação do texto sondando a intenção de quem escreveu – ainda vigente nas interpretações literárias.

Não obstante esse ataque, o triunfo do individualismo narcisista é patente nos dias de hoje: a autoridade do escritor ruiu não pela denúncia de sua pretensão de ser a fonte única e absoluta do sentido, mas pela democratização do ofício. O número de escritores multiplica numa proporção próxima à inconsciência do compromisso ético que a atividade acarreta. Hoje, muitos publicam, mas poucos assumem o papel social que cabe ao escritor.

Grosso modo, é possível apontar três aspectos que abarcam esse “compromisso ético” do escritor: o profissionalismo, o compromisso social e o conhecimento da especialidade.

O profissionalismo, como é evidente, diz respeito a encarar o ofício de escrever como uma profissão. O escritor é um profissional, um trabalhador, ainda que grande parte não receba por isto. Produz bens culturais que, bem ou mal, direta ou indiretamente, influem na sociedade. Quem não encara o escritor como profissional desconhece a dimensão política do ofício. Nada que circula no mercado de bens simbólicos é neutro ou inocente, e isso é difícil fazer compreender àqueles que pensam que escrever é mera distração.

O escritor empenhado deve, também, ser um intelectual, e como tal tem de assumir um compromisso social mais pesado que o da maior parte das pessoas. Tome-se aqui intelectual não como erudito, mas, seguindo a noção de Sartre (1994), como aquele que desrespeita as fronteiras do ofício, rompe com particularismos e busca, na medida do possível, uma fala universalizante, disposto a se bater contra injustiças sociais. É verdade que hoje o intelectual tem bem menos importância social do que tivera até, pelo menos, a década de 1970. Além dos ares trazidos pela pós-modernidade, que tornou démodé a forma de engajamento defendida por Sartre, houve a redemocratização do País, que dispensou o intelectual de ser porta-voz (muitas vezes arrogante) dos anseios do povo, que agora, bem ou mal, pode se expressar; houve também um aumento das fontes de aconselhamento, e a televisão, as revistas e a internet passaram a ocupar uma função pedagógica mais relevante que a dos intelectuais. Como Marilena Chauí pode concorrer com Hebe Camargo? Esta impotência de Chauí (e não só dela!), porém, não desqualifica o valor da intervenção social do escritor, quando age como intelectual.

Também não se pode ser escritor sem conhecimento profundo da especialidade. Disse Ezra Pound (1976, p. 15):

O cientista não espera ter o seu valor reconhecido antes de haver descoberto alguma coisa. Começa por aprender o que já foi descoberto. Prossegue a partir desse ponto. Não se prevalece do fato de ser pessoalmente um indivíduo encantador. Não espera que seus amigos aplaudam os resultados de seu trabalho de principiante. Infelizmente, em poesia, os calouros não ficam confinados a uma sala de aula definida e identificável. Eles ‘circulam por aí’. Será de admirar que ‘o público permaneça indiferente à poesia’?

Será que a crítica de Pound cai bem só aos poetas?

Sem se considerar estas três dimensões do que se chama aqui precariamente de compromisso ético do escritor, dificilmente se exercerá tal mister com consciência e responsabilidade. Em seu livro “Sou Pai, e Agora?” Gugu Liberato diz, referindo-se ao nascimento do filho: “De repente surgiu uma atração nova na grade de programação da minha vida” (2003, p. 04). O livro dele, como de muitos escritores que rebentam por aí, não passa também de uma “atração nova”: modismo, passatempo e meio de acumulação de capital simbólico.


Referências
BARTHES, R. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
FOUCAULT, M. O que é um autor? Lisboa: Vega, 1992.
________. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2002.
LIBERATO, G. Sou pai, e agora? São Paulo: Best Seller, 2003.
MAFFESOLI, M. No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 2004.
POUND, E. Arte da Poesia. São Paulo: Cultrix, 1976.
SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos intelectuais. São Paulo: Ática, 1994.


* Publicado originalmente na revista Espaço Acadêmico, Edição Especial 8 anos (aqui).

sábado, 27 de março de 2010

Noel Rosa & Caetano Veloso



Pra que mentir?
[Noel Rosa / Vadico, 1937]

Pra que mentir
Se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra quê? Pra que mentir,
Se não há necessidade de me trair?

Pra que mentir,
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir, se eu sei
Que gostas de outro
Que te diz que não te quer?

Pra que mentir tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?
Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido?


- *** -




Dom de iludir
[Caetano Veloso, 1986]

Não me venha falar
Na malícia de toda mulher
Cada um sabe a dor
E a delícia de ser o que é

Não me olhe como se a polícia
Andasse atrás de mim
Cale a boca
E não cale na boca
Notícia ruim

Você sabe explicar
Você sabe entender
Tudo bem
Você está, você é
Você faz, você quer
Você tem
Você diz a verdade
A verdade é seu dom de iludir

Como pode querer que a mulher
Vá viver sem mentir?

sexta-feira, 26 de março de 2010

H. Dobal




O texto a seguir foi publicado originalmente em Poesia.Net, em junho de 2008.


Caros amigos,

Esta é a segunda vez que o poeta piauiense H. Dobal é destacado neste boletim. A primeira vez foi em agosto de 2004, na edição n. 82. Agora, infelizmente, como uma homenagem de despedida. O poeta calou sua voz no dia 22 de maio, em Teresina, sua terra natal.

Nascido em 1927, Hindemburgo Dobal Teixeira foi advogado e funcionário público. Residiu em Brasília, Londres, Berlim. Estreou em 1966, com o livro O Tempo Conseqüente, prefaciado por Manuel Bandeira, que já havia incluído poemas de Dobal em sua Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, de 1964.

Se até aquele momento H. Dobal podia ser classificado como bissexto, logo abandonou a categoria, pois produziu sete outras coletâneas de poemas: O Dia sem Presságios (1970); A Província Deserta (1974); A Serra das Confusões (1978); A Cidade Substituída (1978); Os Signos e as Siglas (1987); Cantiga de Folhas (1989); Ephemera (1995). O autor também publicou um livro de viagens, um de contos e dois de crônicas. Em 2005, saiu uma poesia reunida do autor, em edição da Oficina da Palavra, de Teresina, que — lamentavelmente — não se encontra nas livrarias.

•o•

Ambientada na paisagem árida do sertão ou na cidade igualmente áspera ("com sua couraça de vidro, sua indiferença de mármore"), a poesia de H. Dobal trata, antes de tudo, da solidão essencial do ser humano. Não por acaso, o poeta diz que a cidade se movimenta no "suado compasso das solidões justapostas".

Tendo como pano de fundo essa solidão essencial, Dobal considera a passagem do tempo e, partindo dela, procede em seus poemas a um reiterado balanço de perdas e danos existenciais. Os amores que se vão, os artifícios para prolongar a vida e — apesar de tudo — a inevitabilidade do fim. E a solidão. Os campos calcinados. O sol. As cores do crepúsculo.

Outro aspecto que merece atenção na obra de H. Dobal é o elevado nível de concretude das palavras. Poeta substantivo, ele usa os seres e objetos ao alcance dos sentidos para expressar idéias e sentimentos. São sensações reais, angulosas, quase palpáveis. Veja-se, por exemplo, o fecho do poema "Crepúsculo": "Um sol poente / celebra o suicídio da tarde". Todas as sensações provocadas pelo pôr-do-sol nos são projetadas por essas palavras. Nenhuma prestidigitação, nenhum efeito pirotécnico. E tudo está dito. Ou melhor, sentido.

O poema "Lamentação de Pieter van der Ley no Outeiro da Cruz", que fecha a pequena seleta ao lado, merece registro especial. Integrante do volume A Cidade Substituída, esse texto faz referência ao período da invasão holandesa no Maranhão (1641-1644). O Outeiro da Cruz é o lugar, em São Luís, onde se travaram as batalhas nas quais os portugueses expulsaram os holandeses do Maranhão. A cidade substituída é a própria São Luís, onde Dobal trabalhou durante algum tempo.

•o•

Para este boletim, selecionei poemas de H. Dobal contidos em Gleba de Ausentes – Uma Antologia Provisória, volume publicado em 2002 pela Corisco, uma editora de Teresina, também de alcance apenas local. Tenho um exemplar desse livro porque o garimpei num sebo. Mas, desafortunadamente (exceto no Piauí), a obra de Dobal não se encontra nas livrarias, nem nas escolas.

Com o passamento de H. Dobal, os piauienses perdem seu mais querido poeta. E o Brasil amplia sua dívida para com os bons poetas que habitam fora do eixo de interesse das editoras, da mídia e dos negócios de entretenimento.

Repito aqui o que já escrevi no primeiro boletim sobre a poesia dobalina. É estranho e injusto termos um poeta dessa magnitude relegado ao conhecimento quase exclusivo de seu Estado natal.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado

quarta-feira, 24 de março de 2010

O que é verdade?



Tudo é escrita, ou seja, fábula. Mas para que nos serve a verdade que tranquiliza o honesto proprietário? A nossa verdade possível tem de ser invenção.

Julio Cortázar
(in O Jogo da Amarelinha, cap. 73)

terça-feira, 23 de março de 2010

Hilda Hilst




Prelúdios-Intensos para os Desmemoriados do Amor
[Hilda Hilst]


I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.


III

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heróicas
Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado

Uma garganta aguda, vitoriosa.

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento

Desde sempre, amor, redescoberto em mim.




IV

Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezezs dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.


[in Júbilo memória noviciado da paixão, 1974]

segunda-feira, 22 de março de 2010

Parabélum de Enéas Barros

[por Dílson Lages Monteiro]


Enéas Barros é uma das gratas revelações da literatura piauiense dos últimos anos. Tem produzido sem interrupções, estabelecendo liames entre história e literatura. Fazendo do texto, além de componente estético, o que não se pode negar em sua prosa de ficção, propôs-se a mergulhar pelo prisma da literatura, entre temas vários de relevância social, no que ficou sem respostas em um dos episódios mais cruéis registrados na memória coletiva do Piauí, o assassinato do motorista Gregório, na década de 20 do século passado.

Mergulhando em documentos e na memória oral, que reconstruíram os passos de Gregório e de seus algozes, Enéas refaz, em seu Parabélum, o tecido social do Piauí, e mais particularmente de Barras, nas primeiras décadas do século XX. O dia a dia de uma cidade sem grandes novidades que não os banhos no marataoã e a recreação de um povo festivo, que não a chegada de um automóvel e todos os desdobramentos reais e simbólicos advindos do inesperado atropelamento de uma criança. Porém, o escritor vai além da história em si, para ingressar precisamente na literatura ao construir, por exemplo, o perfil de personagens como Gregório, Monsenhor Lidolfo, Rosalice, Floretino, Severão, Maria Teresa e, com efeito, possibilitar reflexões sobre as relações de poder, sobretudo.

Gregório é o indefeso, incapaz de esboçar qualquer reação, a fim de atenuar o drama que vive. È o motorista habilidoso, servil, interessado apenas em cumprir o que a ele compete. Monsenhor Lindolfo, o padre que tenta evitar a injustiça, no que é seguido por Arimathéa Tito. Rosalice, a amante, numa sociedade em que era trivial “o homem de muitas mulheres”. Maria Teresa a namorada que sonha com o dia de amanhã. Floretino e Severão, perversos em sua condição de poder. Emocionam não somente pelas ações que vivem na condição que lhes é atribuída na narrativa, mas principalmente pela inserção deles em descrições dinâmicas e verossímeis dos espaços, originárias de sugestões que tocam a imaginação.

Nesse particular, o texto é límpido, linguagem leve e fluente, sem hermetismos de falsos arroubos vanguardistas ou de modismos literários: “Julho de 1927. As águas de março foram deixadas para trás. Com o final das festas juninas, renascia o verão plenamente abastecido da fartura que as chuvas irrigaram. A feira de Barras apresentava uma grande variedade de frutas e hortaliças, vindas de todos os rincões(...)”.

A isso se acrescente que Enéas é um típico contador de histórias. Interessa ao narrador principalmente construir os desdobramentos dos plots, para manter em suspense a atenção do leitor. Ele, a propósito, enfatiza isso em entrevista ao Portal Entretextos: “(...) Há um estilo que me acompanha, que me facilita escrever. Veja que o primeiro capítulo chama a atenção para a fuga do tenente, que ocorreu em 1928, quase oito meses após o assassinato. Esse capítulo ajuda a gerar uma expectativa no leitor. Os capítulos seguintes são fatos isolados que se cruzarão num momento futuro, para dar uma dinâmica à trama e levar à prisão e ao julgamento do assassino. Esse sistema de condução da narrativa prende o leitor, tornando a leitura agradável."

Por essas razões, leio e releio Parabélum. Leio e releio como o faço com textos que despertam o diálogo com a memória coletiva e fazem do próprio enredo um exercício de metalinguagem, a fim de superar a história pela força que somente a literatura é capaz de gerar.



publicado originalmente no Portal Entretextos

domingo, 21 de março de 2010

Procura da Poesia

[Carlos Drummond de Andrade]

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


[in A Rosa do Povo, 1945]

quinta-feira, 18 de março de 2010

Parabélum




Parabélum. Atropelando a Literatura ou assassinando a pesquisa histórica?
[Adriano Lobão Aragão]


Determinados livros que documentam a memória de um povo, sobretudo naquilo que está ausente na história oficial, precisam ser escritos. O assassinato e a devoção pelo motorista Gregório, por exemplo. Entretanto, é preciso lembrar que Literatura é forma, estilo, estética. Somente assim, uma história absolutamente piauiense pode interessar bem mais além que a memória coletiva, popular. É por isso que Machado de Assis e Lima Barreto são importantes para nós, que não nascemos nem moramos no Rio de Janeiro. É por isso que Dostoievski, Eça de Queirós e Gabriel Garcia Márquez são igualmente importantes para nós. E isso é, essencialmente, Literatura. Estamos tratando de um campo artístico específico.

Por não mergulhar no desafio literário propriamente dito, Parabélum, escrito por Enéas Barros, talvez funcionasse melhor como documentário, como um livro de pesquisa, reportagem, e isso com muito mérito, relevância e dignidade. Talvez até com maior perenidade e horizonte de leitura. É inegável a seriedade do escritor e o esforço empreendido na pesquisa bibliográfica, documental e de campo que levou Enéas a recompor a trajetória do motorista Gregório, morto barbaramente nas primeiras décadas do século XX e, ao longo dos anos, investido de culto e misticismo popular.

Mas ao transformar em romance o trágico destino de Gregório, faltou ao autor uma veia narrativa autêntica, pessoal e bem resolvida. Unir pesquisa a clichês romanescos reduz a eficiência e credibilidade da pesquisa e, ao mesmo tempo, a relevância literária numa obra que, embora se quisesse romance de não-ficção, falta-lhe o devido apuro. Entretanto, resta uma esperança, pois ao abordar a personagem Doralice e seus frustrados anseios por uma vida melhor, o autor acertou a mão. Enfim, determinados livros precisam ser escritos, mas para almejar Literatura, é preciso algo mais.

segunda-feira, 15 de março de 2010

blog Goella entrevista Adriano Lobão Aragão

Entrevista publicada originalmente no blog Goella

HOJE 14 DE MARÇO DIA DA POESIA O PAPO DO GOELLA FAZ UMA ENTREVISTA COM O POETA PIAUIENSE ADRIANO LOBÃO ARAGÃO

Goella: Você diz que sua obra está em constante mutação. Para o poeta, é importante a busca de um novo foco para um novo trabalho?

Adriano Lobão: O trabalho com a criação artística, para ser relevante, costuma lidar com a ousadia de se reinventar constantemente.

Goella: Influências, intertextualidade e releitura são palavras marcantes em sua obra. Um bom poeta é antes de tudo um bom leitor?

Adriano Lobão: Creio que deveria ser. Não como imposição, afinal, na criação artística, ninguém é obrigado a nada. Mas creio que todo escritor sempre deve ler mais e escrever menos, buscando ser o principal crítico de si mesmo.

Goella: Fernando Pessoa diz que "o poeta é um fingidor". Você concorda com esse pensamento?

Adriano Lobão: Toda criação artística lida com algum tipo de “fingimento”. Entretanto, se é fingimento ou confissão, quem se importa? O valor de um poema está acima disso, pois se encontra na linguagem. Como escreveu Drummond, “o que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”.

Goella: Você não acha que hoje os jovens lêem os poetas piauienses mais por cobranças nos vestibulares?

Adriano Lobão: Não só os poetas piauienses. Quase toda a poesia lida pelos jovens piauienses limita-se àquilo que o professor trabalha em sala de aula. O que é uma pena, o que é muito pouco para uma formação cultural relevante. Compreender um poema é compreender uma importante dimensão da própria expressividade da linguagem humana.

Goella: Pra você, os melhores poetas são brasileiros ou estrangeiros? Ou não se pode fazer esse tipo de comparação?


Adriano Lobão: Há bons poetas tanto no Brasil quanto no exterior. Entretanto, em relação aos poetas contemporâneos, a produção poética portuguesa requer uma maior atenção do leitor brasileiro.

Goella: Gostaria que você comentasse a literatura piauiense de hoje e como estão as produções feitas atualmente.

Adriano Lobão: Há alguns esforços bem positivos. Admiro a poesia de Sebastião Edson Macedo e Manoel Ricardo de Lima, os contos de Airton Sampaio e M. Moura Filho, os ensaios de Wanderson Lima e Ranieri Ribas, para citar alguns autores de publicação recente. Mas sempre há um longo caminho a seguir. Um grande incentivo para o desenvolvimento da literatura produzida no Piauí seria a existência de leitores mais exigentes, uma crítica literária mais atuante.

Goella: Gostaria que você fizesse um comentário acerca dos seus livros, "Uns Poemas", "Entrega a própria Lança na Rude Batalha em que morra" e "Yone de Safo". E também que comentasse as suas atividades de poeta, professor e editor da revista literária amálgama.


Adriano Lobão: “Uns Poemas” reúne o que escrevi entre 1997 e 1998, constituindo-se para mim o início de uma necessária busca pela maturação poética que ainda não sei se consegui. Como quase todas as obras de estréia, ali estão meus principais defeitos e a gênese do caminho que escolhi seguir. “Entrega a própria lança na rude batalha em que morra” acrescentou uma preocupação com uma simbologia a partir de uma perspectiva histórica e intertextual, bem como um trabalho formal mais apurado. Cada parte de “Yone de Safo” é uma espécie de fragmento de um livro distinto que preferi não desenvolver isoladamente. Daí temos uma primeira parte lírico-amorosa, um certo erotismo, e logo depois uma parte voltada para a metalinguagem com referências bíblicas. Há ainda uma seção com poemas voltados para o nordeste e outra pseudo-memorialista. Enfim, vejo “Yone de Safo” como um caleidoscópio de temas a formas. E é justamente esse caráter multifacetado que me agrada no livro. Tentar equilibrar concisão e dispersão é sempre um desafio interessante. Esse é meu trabalho como poeta. A revista Amálgama foi um esforço em aliar crítica e jornalismo literário. As dificuldades financeiras em manter a periodicidade da revista nos levou aos meios eletrônicos, no qual atualmente edito, juntamente com Wanderson Lima, a dEsEnrEdoS (http://www.desenredos.com.br/).

Goella: E pra encerrar, hoje, no dia da poesia, qual o livro que você indicaria para o leitor do Goella?

Adriano Lobão: A “Ilíada”, de Homero, se quisermos “começar pelo começo”. Leitura indispensável. Admiro bastante a tradução de Carlos Alberto Nunes. A “Nova Reunião”, de Carlos Drummond de Andrade. 23 livro da poesia desse mestre reeditados recentemente em 3 volumes a um preço incrivelmente acessível. “O Tempo Consequente”, de H. Dobal; “Os Peãs”, de Gerardo Mello Mourão; “O Arado”, de Zila Mamede, enfim, minha lista de leituras fundamentais seria enorme. Não conseguiria indicar um livro apenas.

domingo, 14 de março de 2010

inutilidade

[adriano lobão aragão]


quando o poema
é inútil
a inutilidade me desusa
pra coisas úteis
por isso gosto tanto
do desfazer poético

espero que me incompreendam

apoéticos pensam que ser poeta
é uma coisa boa
...



[in Uns Poemas, 1999]

sexta-feira, 12 de março de 2010

Liberdade para Jafar Panahi





Jafar Panahi
[por Wanderson Lima]

Jafar Panahi forma, ao lado de Abbas Kiarostami, Majid Majidi, Bhaman Ghobadi e da família Makhmalbaf, uma plêiade responsável por uma das mais importantes revoluções do cinema contemporâneo. É difícil encontrar, em qualquer latitude do mundo, um cineasta que não tenha sido afetado, ou mesmo influenciado, por este grupo de cineastas iranianos.

Panahi estreou na direção sob a sombra de Kiarostami. O balão branco (1995), seu primeiro filme, não só tem roteiro assinado pelo diretor de Gosto de cereja, como também tem um mote parecido com outro filme kiarostamiano, Onde fica a casa do meu amigo? Embora sem trazer inovação ao que já se fazia em seu país, O balão branco é um filme austero e lírico, obra de um cineasta que, como seu mestre Kiarostami, opta por um estilo minimalista, pisando e repisando a mesma célula dramática e evitando dramatismos na interpretação dos atores. Uma representação “low”, bem diferente, por exemplo, de Filhos do paraíso, de Majid Majidi, mais dramático e, em certo sentido, mais refinado.

O filme seguinte de Panahi, O espelho (1997), persiste na filiação a Kiarostami, acentuando um traço assaz marcante no cinema kiarostamiano: a aliança entre mímesis e metaficção ou, traduzindo em miúdos, um enlace entre crítica da realidade e crítica do cinema. O espelho começa com um conhecido clichê do cinema iraniano: a odisséia infantil pelo desconhecido e hostil mundo adulto. Uma garota, cansada de esperar pela mãe na porta de colégio, resolve voltar para casa só, de ônibus. Até este ponto, uma metáfora da condição perdida e reprimida do universo infantil (ou, noutra pauta, mais política, da condição perdida e reprimida da população iraniana) já quase desgastada. Mais eis que, de uma hora para outra, a garotinha se volta para a câmera e diz que não quer mais fazer o filme, desce do ônibus e se atira na rua. Eis o mote para Panahi promover uma revisão auto-reflexiva não só nos caminhos do cinema iraniano, mas também no cinema enquanto instância representacional. Um filme que prometia naufragar por chafurdar um território já muito bem explorado, monta, através da técnica da mise en abîme, um aparelho de inquisição do status da verdade no/através do cinema.

Mas parece ser em O círculo (2000) o filme que liberta Jafar Panahi da sombra de Kiarostami. A crítica, em geral, só soube ver nesse filme uma espécie de libelo feminista contra a opressão da mulher perpetrada pelo Islã. Na verdade, o filme é crítico, sim, mas mantém uma estrutura aberta e ambígua, longe de qualquer insinuação panfletária. É um filme que eleva a idéia de circularidade à condição de princípio formal (e mesmo moral) da constituição da obra, encontrando uma maneira eficaz de pintar um painel da condição feminina no Irã, sem recorrer a melodrama, psicologismos baratos, panfletagem e outras estratégias que, em geral, redundam em fracasso. Em termos de representação da opressão feminina, vista pela ótica masculina, Panahi faz parte de um time seleto, ombreando o Bergman de Gritos e sussurros e, em minha opinião, indo além de Amos Gitai de Kadosh – Laços sagrados. Trata-se de um filme que sinto a necessidade de rever para avaliar melhor, dada a sua complexidade. O certo é que O Círculo ganhou o Leão de Ouro em Veneza e muitos outros prêmios mundo a fora.

Depois de O círculo, Jafar Panahi fez mais dois filmes, os quais não pude ver: Ouro carmim (2003) e Fora de jogo (2006). Aquele venceu o Prix Un Certain Regard em Cannes; este último ganhou o Urso de Prata no festival de Berlim.

No dia primeiro do mês corrente, Jafar Panahi, que já estava proibido de sair do seu país, tendo deixado por isso de participar do Festival de Berlim, foi preso a mando do presidente Mahmud Ahmadinejad, provavelmente por apoiar nas eleições o líder oposicionista Mirhossein Mousavi. Panar Panahi, filho de Jafar, até o dia 4 de março, não sabia onde o pai se encontrava, nem o que fizeram com ele. Até hoje (12/03), não se sabe bem onde e como ele se encontra.Toda a comunidade cinéfila torce para que tudo saia bem para Jafar Panahi e sua família. Corre na rede uma lista para assinaturas de abaixo-assinado por sua liberdade:petitiononline.com.

domingo, 7 de março de 2010

www.adrianolobao.com.br




yone de safo
adriano lobão aragão
[amálgama, 2007]


a coluna de São Simeão

II. lectio



fazer de uma idéia objeto
fazer da fé uma coluna

estar perto do céu

naquele tempo não mais
havia gigantes sobre a terra

estar no alto de uma coluna
São Simeão o estilita

elevar a fé à loucura

desejo de repousar entre as estrelas
esquecer a carne
que essa se corta nas espadas

que essa se devora
em rituais de um novo mundo
onde se canta a bravura
dos inimigos

que essa se penetra
quando o instinto devora
mesmo sem pagar o preço
de nova vida

elevar-se ao céu
exige seu sacrifício

no campos de Senaar
os homens erguem a coluna
onde a força divina divide os homens



© 2007 adriano lobão aragão - yone de safo

sexta-feira, 5 de março de 2010

Blowin' in the wind




Uma canção de Bob Dylan
[Adriano Lobão Aragão]

Uma das mais peculiares e interessantes características de Blowin’ in the wind, presente no segundo LP de Bob Dylan, e seu primeiro sucesso, provém do fato de não dar resposta alguma, apenas enumerar questionamentos, tornando-a de certa forma atemporal e não menos instigante. Encaixa-se facilmente em qualquer discurso anti-totalitário, sob qualquer ideologia que a dotasse . Entretanto, provindo de um artista fortemente influenciado pelo ícone Woody Guthie, que ostentava em seus violão os dizeres “This machine kills facists” , era inevitável que a canção de Bob Dylan expressasse os anseios esquerdistas dos manifestantes folks; ou parecesse expressar, ou fosse assim interpretada (o que, na prática, dá no mesmo), ganhando as canções de Dylan o rótulo de “música de protesto”. O envolvimento com a engajada musa Joan Baez só veio a intensificar essa identificação do público de Joan, tipicamente de esquerda, com a poesia de Dylan. Seria o típico retrato idealizado do jovem artista que, engajado e politicamente consciente, encontra seu público fiel. Juntos, viveriam a esperança de “mudar o mundo”. E as posteriores canções de Dylan, em seus dois álbuns seguintes, vieram a estreitar ainda mais esse laço, sobretudo The times they are a-changin’.

A controversa reviravolta de Dylan, em 1966, tendo como marco as vaias proferidas no festival de Newport, assumem o caráter de “sonho perdido” para uma legião de fás e ativistas que, indignados, viam seu mais promissor porta-voz render-se ao rock’n’roll, o que para eles significaria render-se ao capitalismo, o monstro contra o qual vociferavam e que responsabilizavam pelas desigualdades e injustiças do mundo, sobretudo o mundo norte-americano. Em 1967, ao entrar no palco para mais um dos tumultuados shows dessa fase, alguém na platéia acusa Bob Dylan de “Judas”. O artista limitou-se a responder “Eu não acredito em você”, e seguiu adiante com sua música.


Blowin' In The Wind
[Bob Dylan]

How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
Yes, 'n' how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, 'n' how many times must the cannon balls fly
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.

How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, 'n' how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, 'n' how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.

How many years can a mountain exist
Before it's washed to the sea?
Yes, 'n' how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, 'n' how many times can a man turn his head,
Pretending he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.

Copyright ©1962; renewed 1990 Special Rider Music