sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A volta ao dia em 80 mundos



Os caleidoscópios de um cronópio
[Adriano Lobão Aragão]


Eis que Julio Cortázar nos apresenta seu inusitado A Volta ao Dia em 80 Mundos. Assim como Último Round, seu consequente desdobramento, trata-se de uma sucessão de ensaios, críticas, poemas, contos, fotos, desenhos, nos quais o cronópio Cortázar escreve sobre o que lhe viesse à mente: da máquina de ler O Jogo da Amarelinha ao seu gato Theodoro Adorno; de Jack the Ripper a Louis Armstrong, de Lezama Lima a Julio Verne, formando um caleidoscópio de textos e imagens, indiferente à coesão de temas e gêneros. E se alguém esperasse alguma unidade, uma forma mais séria e rígida que norteasse seus escritos, o autor responde ainda nas primeiras páginas utilizando-se de um questionamento parafraseado de um verso do poeta Ricardo Molinari: “Quem nos salvará da seriedade?” Bem apropriado para quem escreveu que o mais grave problema dos argentinos não era a ditadura, mas a falta de humor.

Escritos no final dos anos 60, somente agora se encontram disponíveis em tradução no Brasil, realizada por Ari Roitman e Paulina Wacht e publicada, em dois tomos bastante fiéis aos originais, pela Civilização Brasileira, que já havia editado, dentre outras obras de Cortázar, os fundamentais O Jogo da Amarelinha e Todos os Fogos o Fogo.

Acima de tudo, os textos de Cortázar desafiam os nossos sentidos, rejeitam as facilidades críticas e se alçam ao inusitado. Preocupar-se com os “porquês”, sobretudo as explicações racionais, é absolutamente desnecessário. Em “A Carícia mais profunda”, um conto, o autor não se preocupa em expor por que seu protagonista se afunda cada vez mais no solo, assim como Kafka não nos revelou por que Gregor Samsa, após sonhos intranquilos, acordou metamorfoseado em um enorme inseto. E que importa? Há coisas mais relevantes no próprio texto, que assim como a vida, não guarda tempo para as devidas explicações. É este aspecto, no qual a escrita de Cortázar encontra-se bastante influenciada pela literatura fantástica do século XIX, com Kipling, Poe e Verne, do qual subverteu o título de A Volta ao Mundo em 80 Dias. O argentino amarra o real e o fantástico, apresentando-os de maneira inusitada dentro das situações mais corriqueiras. Mas esse Cortázar encontra-se diluído nesse enorme caleidoscópio de temas e formas. Talvez por isso, pode não ser a melhor opção para quem quer começar a descobrir o escritor. E, efetivamente, não chega a constituir uma de suas obras essenciais, afinal, Julio Cortázar seria o mesmo com ou sem essas “voltas”.

Entretanto, se com O Jogo da Amarelinha Julio Cortázar antecipou o hipertexto, com A Volta ao Dia em 80 Mundos e Último Round, respectivamente em 1967 e 1969, o cronópio já fazia uso do que seria a típica estrutura dos blogs da internet atual. Quarenta anos depois, parece ser esta uma época bastante interessante para traduzi-los, editá-los, reeditá-los e constatar que o presente já existia há muito tempo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O que é liberdade?




"A liberdade, se é que significa alguma coisa, significa o nosso direito de dizer às pessoas o que não querem ouvir."

George Orwell
[in A Liberdade de imprensa, prefácio proposto pelo autor para a 1ª edição de A Revolução dos Bichos, em 1945, mas que só chegou a ser publicado em 1972]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

as cinzas as palavras




as capas os discos
[adriano lobão aragão]

ontem eu vi o disco da vaca à venda na galeria
onde há muito naqueles campos estranhos me perdi
entre os riscos do vinil motocicleta e sinfonia

ontem eu vi um velho em um quadro carregando lenha
adornando em parede destroçada a capa de um álbum
e a iluminada escuridão de um dirigível de chumbo

ontem eu vi o álbum branco que depois de muitos anos
pude perceber as matizes dispersas de suas cores
e seu discreto nome de besouro impresso em relevo

mas há muito dispostos em silêncio seus sons evocam
sonora imagem retida na retina da memória




à venda:

pela internet
lobaoaragao@gmail.com
R$10,00 [frete incluso]

na Toccata
Rua Afrísio Lobão, 922 / Esquina com Av. N. Sra. de Fátima
Loja 01/03 - Jockey Club - Teresina PI

na livraria Nova Aliança
Rua Olavo Bilac, 1258 - Centro [por trás do Colégio Diocesano]
Teresina - PI

na banca de revistas do Teresina Shopping

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Bastardos Inglórios



Bastardos Inglórios
(Inglourious Basterds, 2009), de Quentin Tarantino

[por Wanderson Lima]


Há imbecis por aí condenando o filme de Tarantino pelas inverdades históricas. Francamente, como diz com sabedoria o próprio Tarantino, cinema é lugar para se ver tiros e beijos, aventuras épicas e líricas. Aristóteles, já faz certo tempo, nos ensinou que a arte anseia o verossímil, não o verdadeiro. O que interessa na obra de arte é a capacidade de formular mundos autônomos e internamente coerentes. Isto não significa ter desprezo pela história ou pela verdade; significa buscá-la, segundo o filósofo, por outro viés, o mimético, que se pauta no lúdico e na operação de universalizar situações particulares. Quem quiser buscar a verdade histórica do nazismo que se debruce sobre tomos e tomos que se publicaram por aí ou, caso haja pressa, que leia um estupendo livrinho de George Steiner intitulado “No castelo do Barba Azul”. Agora, para quem busca cinema de qualidade, Bastardos Inglórios é uma das melhores propostas dos últimos anos, e talvez o melhor Tarantino de sempre. As armas intelectuais tarantinianas são as de sempre e podem ser encontradas em qualquer manual sobre estética pós-moderna: ironia relativista, pastiche, hiper-realismo e metalinguagem. Porém, garanto que estas mesmas “armas” estão presentes em muitos filmes e romances sem o mesmo brilho. Tarantino sabe controlar o ritmo de um filme como ninguém (e nisso ele manipula, fazendo continuarem sentados nas poltronas, até os incautos que dizem que seus filmes são “parados”); além disso, é um roteirista de grande talento, que sabe usar supostos “tempos mortos” para exercitar sua ironia e sátira social quase sempre inteligentes.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

De tanto carnaval

[Geovane Monteiro]



No carnaval sempre a mesma surpresa renovada: sorrisos festivos, nenhuma inquietação, a não ser seguir o percurso da avenida. E assim cada cidadezinha acolhe seus filhos com os arranjos carnavalescos. Bem distante dos desfiles das escolas de samba que colorem o sambódromo com artistas e com a grande mídia em global cobertura, dando férias às abordagens dos paradoxos do país. Mas o que me move a escrever desta vez não toca o tamanho de cada festa nem os custeios de cada cidade.

Em Água Branca pude ver o que certamente se vê em qualquer outro lugar, quando o folião já passou dos trinta. Refiro-me à faixa etária da juventude. Mas penso que sempre foi assim, foliões bem moços; o que mudou é que o tempo não me permite mais mascarar a alma com a idade daquele rostinho de menino perdido lá pela década de 1990. Curioso mesmo os meus 32 anos a me fazer maximizar a juventude predominando no carnaval. A juventude, até certo ponto, fazendo os trintões, os quarentões sentirem-se meio descompassados na avenida ao pararem um instante da festa em imaginação. Assim sobra uma avenida feita por aqueles que no dia a dia são apenas ingênuos meninos e meninas.

A mudança do percurso para a Avenida José Miguel não desmente minha mais que teoria, minha continuidade na vida. Se é que todo “coroa” perde tempo em filosofar o que poderia se converter em pura animação de quatro dias de festa. Mas, como disse Caetano Veloso em Dom de iludir: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Não é que cismei mesmo em achar que as meninas, beijando os garotos que passam, apenas zombam de minha vez de eu também ter sido bem jovem! Os valores não mudaram tanto; o que se alterou foi minha percepção e o jeito desastroso de flagrar pai e mãe tirando foto da filha com o “ficante”, como se o mundo tivesse de ser consumido rápido por sua iminência. E agora não sei se o mais ridículo é eu estar registrando essas ousadias ou me recordando que nunca saía na foto; No passado meus colegas agora cantam: ”pessoas ruins da cabeça e doente do pé”, quando os perco de vista.

Hoje sinto uma inveja necessária desses jovens. Sim, porque enquanto me disponho a ver a garota sustentando o corpo seminu em frevo, em samba-reggae ou o garoto aproveitando o “esfrega-esfrega” da swingueira, quase me iludo numa dose de lirismo, tal qual em adolescente. Esta inveja que me faz embriagar qualquer coisa de alma que já surgiu restante, depositada neste corpo a teimar ver apenas com os olhos, quando amarga o Caymmi no carro de som: “Quem não gosta de samba bom sujeito não é”.

E assim vou suando dentro de minha fantasia de escrever no momento em que a cidade se sacode no batuque dos quatro dias mais agitados do ano. Meninos e meninas pulam e suam no bloco e não há mesmo nada de novo nisso. Apenas agora me escondo em dizer: “no meu tempo...” ao passo que a nova geração sem saber se prepara para quando chegar o “no meu tempo...” respirar sem escrita que não seja a vida atualizada na fantasia de ser.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

"Vejo minha obra em constante mutação"

______Jeferson Probo, Adriano Lobão Aragão, Sérgio Bastita e Washington Ramos, lançamento da revista Amálgama, 2002


- Entrevista concedida em 2004 para Wanderson Lima, publicada no jornal Diário do Povo e no site da revista amálgama.


Wanderson Lima: Seu primeiro livro, Uns Poemas (1999), apresenta traços evidentes de influência da estética marginal; seu trabalho mais recente Entrega A Própria Lança na Rude Batalha em que Morra –, segundo colocado no Concurso Torquato Neto da Fundac 2003, palmilha outro caminho e, segundo me parece, recebe influxo de autores como H.Dobal, João Cabral e Gerardo Mello Mourão, entre outros. Comente como e por que se deu essa mudança.
Adriano Lobão Aragão: Vejo minha obra em constante mutação. Esse é o único aspecto que me induz a continuar escrevendo: a possibilidade de trilhar outros caminhos, independente de serem avanços ou retrocessos. Uns Poemas foi escrito na sombra da estética dita marginal, principalmente (ou exclusivamente) dentro do contexto piauiense; e isso fica patente nas limitações facilmente encontráveis na obra. Há muita coisa que deveria ter sido mais desenvolvida, mas a pressa em publicar atrapalhou um pouco. Já existia a influência de Dobal em meu primeiro livro, mas a informação sobre as influências na transição para o segundo livro está correta. Poderia citar inúmeras outras, mas prefiro deixar esse serviço para os leitores que eu venha a ter. Porém, aceito o fato que foi através dessas influências que minha poesia buscou abandonar os pressupostos estéticos do primeiro livro e mergulhar na intertextualidade e na releitura.

Wanderson: Um dado novo e importante de sua nova fase poética é o intenso jogo intertextual que você realiza. A maneira como você monta esses jogos denuncia um débito a T.S.Eliot. Você poderia explicitar melhor esse ponto? Qual o impacto da poética eliotiana em sua nova fase?
Adriano: Vi no Eliot dos Poemas de Ariel e The Wast Land elementos que gostaria de ver associados a contextos piauienses. Essa ânsia me perturbou por muito tempo e gerou alguns poemas bem mais “eliotizados” que preferi excluir. Após esse exercício, a influência já estava estabelecida de maneira que não precisei me preocupar com os resultados. Na primeira parte de Entrega a própria lança..., há trechos de poemas de Eliot reescritos, juntamente com Safo, Horácio, Gregório de Matos e outros; as fontes já não me interessavam mais. Os exercícios mais radicais estão na parte intitulada A classe operária vai ao paraíso.

Wanderson: Recentemente caracterizei a cultura literária piauiense como autofágica, o que decerto desagradou a algumas pessoas. Se alguém vier aqui para falar de Homero ou Dante terá um público minguado; mas se o tema for, por exemplo, Torquato Neto ou Fontes Ibiapina (sem querer desmerecê-los ou compará-los ao autor grego e ao italiano) o auditório decerto lotará. Você concorda com essa avaliação?
Adriano: Não apenas na literatura, mas em nossa cultura artística em geral, somos vítimas desse bairrismo besta. Aliado a esse aspecto nefasto, é necessário lembrar que vivemos numa província onde, com as justas e milagrosas exceções, escreve-se mal e fala-se demais. É inacreditável a falta de critérios justos nas “críticas literárias” que tentam produzir por aqui. Parece elogio de prefácio e orelha de livro. Muita leitura impressionista e seleção de temas e autores através de amizade, coleguismo, geração isso e aquilo, e o que é pior: costuma-se tratar mais de autores que de obras e literatura. Aliado a isso, falar de Eliot, Pound, Homero, Keats, Safo, é ser chamado de diluidor, pretensioso, traidor ou simplesmente ignorado. Creio ser mais saudável ficar quieto lendo Catulo e Sade.

Wanderson: Como professor de ensino médio, não se revolta em ver obras de valor literário mais que questionável, como Traquinagem, serem adotadas em vestibulares enquanto uma autora do porte de Alvina Gameiro é completamente esquecida?
Adriano: É o que mencionei anteriormente. Podemos estender também para o ensino médio. Conviver com indicações para lá de absurdas é o mínimo. O desafio de formar leitores é bem mais complicado sob a sombra de um vestibular que reduz o trabalho do professor a treinar seus alunos a marcar cruzinhas em gabaritos, como se a vida nos trouxesse respostas prontas. Espero que essas cruzes não sejam de nosso futuro cemitério intelectual. Quanto a Alvina Gameiro, trata-se de uma das mais injustiçadas escritoras que tenho notícia. Curral de Serras é uma obra que tem muito a oferecer à nossa cultura. Poderia citar também o Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, Álvaro Pacheco...

Wanderson: Fale sobre a gênese da Revista e Site Amálgama. A seu ver, em que Amálgama pode contribuir no contexto literário piauiense?
Adriano: Amálgama nasceu da falta de espaço para divulgação dos primeiros textos que escrevíamos, mais ou menos em 1996. Convidei o poeta Hermes Coelho, o contista Sérgio Batista e os professores Jeferson Probo e Washington Ramos e iniciamos um trabalho que deveria misturar produção e jornalismo literário. Disso resultou um misto de revista e fanzine que é publicado, por enquanto, com periodicidade irregular. Também um site, www.revistaamalgama.hpg.com.br, que nasceu da fundamental colaboração da programadora Glauciene Brito. Nem todos continuam trabalhando conosco atualmente, a periodicidade continua irregular, mas já contamos com vários novos colaboradores, como Rodrigo Petronio, Aquiles Rique Reis, Delmo Montenegro, entre outros. Creio que a contribuição seja a de estabelecer mais um canal de debate e divulgação. De preferência que não seja associado a uma estética, a um grupo ou geração. A intenção é criar um espaço aberto. Porém, a falta de recursos financeiros e tempo hábil nos limita bastante. Se quiséssemos apenas divulgar “literatura piauiense”, talvez fosse mais fácil conseguir patrocínio, mas nossa proposta não se limita a regionalismo algum. É importantíssimo falar e divulgar o Piauí, mas não fazer dessa bandeira uma venda que nos impeça de dicernir uma obra de arte de uma perda de tempo.

Wanderson: Por mero diletantismo, como você mesmo frisa, tem traduzido poemas de autores de língua inglesa, como Emily Dickinson. Que aprendizado tem tirado desse exercício?
Adriano: Isso é sério? Minhas traduções são apenas exercícios sem maiores consequências. Divulgo algumas no site Amálgama apenas para instigar comentários, críticas. Atualmente, trabalho com cummings e Keats. Cada um deles nos traz aprendizagens distintas. No caso de cummings, a organização gráfica influenciando o próprio contexto do poema é fascinante e praticamente intraduzível. O jogo entre a estética e o conteúdo é o que mais me instiga nessa didática.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

os blocos os sujos


os blocos os sujos
[adriano lobão aragão]


e todos sabiam que ali estavam todos sujos
do que de sua alegria era possível conceder

e todos sabiam que era apenas carnaval aquele cortejo trôpego
desfeito de fantasia e ilusão





[in as cinzas as palavras, 2009]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

os tempos e a forma

[adriano lobão aragão]

I
quando sair da água
estenda suas brânquias
pelo seu itinerário

quando voltar para água
deixe suas brânquias
em seus antepassados

recolha suas patas
como as patas das baleias
perdidas dentro de si



II
para voar asas
o céu é das baratas
por direito
mas nem os pterossauros
nem as aves
puderam perceber isso

restou para a história da aviação
o direito de posse



III
não se aprende
a longevidade dos anos
nem
a brevidade da vida
nos fósseis
arrastados entre os carros e o concreto
sim se aprende
a longevidade dos anos
bem
a brevidade da vida
nos fósseis
elevados de João Cabral a Gregório de Matos



IV
enquanto recolhia restos de plantas
foi de se perceber
o fóssil e o lixo

isso enquanto
passarinhos gorjeavam
depois que a revoada
de archeopterix passou

esse ponto quase sempre
passa despercebido
num carbonífero de lixo e fóssil



V
sendo pedra e osso
o caminho da espécie
ser osso e pedra
pra fazer parte do caminho

sendo a pedra matéria
prima para sobrevivência
ser lápide como
ossos navegando o oceano

sendo que deste oceano
restam apenas ossos e pedras



VI
quando as águas
invadiram esta terra
e um oceano pôde unir-se ao outro
nós navegantes do acaso
pudemos ver o horizonte mover-se
e enormes escorpiões voltarem ao mar
de onde tudo saiu


[in Poetas do Brasil 2000, 1997]

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

não saber teu nome liberta

[adriano lobão aragão]


não saber teu nome liberta
a tarefa de nomear-te
não mais um substantivo, mesmo próprio
mas a ordem absoluta do caos

então chamo-te poesia
quando recolhes o mais tênue lirismo
na dimensão infinita de um sorriso

e quando passas breve e leve
entre silêncios justapostos
teu nome é brisa
e rompendo o silêncio te chamo lira

nomeio teu ser presságio
onde outros chamariam acaso

e não por acaso, em tua aparição repentina
juntar queria a teu nome todas as sensações
na mais profunda sinestesia

e se acaso perguntasse
que reposta me daria?
que adianta um nome
se nada mais estaria
nesse nome sua dona
que nunca mais veria?

então juntaria teu nome
a todos os nomes da vida
e em cada coisa querida
ali teu nome estaria

quando desejar não é ter
mas querer mais além ainda
mesmo apenas guardar um nome
entre as lacunas da vida



[in Yone de Safo]

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Imagem

Na primavera de 1962, quase um ano depois de os Beatles começarem a invadir a consciência coletiva da Grã-Bretanha, o historiador e sociólogo americano Daniel J. Boorstin publicou um livro chamado The Image, em que discutia que os meios de comunicação de massa modernos, ao suplantarem a racionalidade da palavra escrita com uma variedade estonteante de imagens gráficas e eletrônicas, estavam comprometendo os valores, as expectativas e a visão de mundo fundamental do público amplo que atingiam. “Estamos arriscados a ser o primeiro povo da história”, advertiu Boorstin, que “conseguiu tornar suas ilusões tão vívidas, tão persuasivas, tão ‘realistas’, que é capaz de viver dentro delas.” Uma característica persistente de The Image foi a identificação de um novo tipo de acontecimento público, que é encenado ou trazido à tona com o fim expresso de ser divulgado pelos meios de comunicação de massa para as massas. Boorstin caracterizou tais ocorrências tramadas de “pseudoeventos” e as enxergava como sinal de uma maré crescente de banalidade e irrealidade nos âmbitos da política, da economia e da cultura. Os principais protagonistas dessa pseudorrealidade burguesa, escreveu Boorstin, eram as celebridades, uma nova espécie de figura pública “fabricada” que era tautologicamente “famosa por ser famosa”. Comparando as épocas passadas, em que a fama era considerada resultado da “grandeza” em atos ou palavras, Boorstin sugeriu que o apelo essencial das celebridades reside precisamente em sua capacidade de personificar e glamorizar o lugar-comum, facilitando assim sua identificação com as pessoas comuns.

[GOULD, Jonathan. Can’t buy me love: os Beatles, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Tradução: Candombá. São Paulo, Larousse do Brasil, 2009. pág 191]