quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos".


- Frase atribuída à Luís Vaz de Camões. Infelizmente, não consegui confirmar a fonte, mas fica a relevância do pensamento, sendo dele mesmo ou não.





//

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

bônus de natal

___Emerson Araújo, Adriano Lobão, Kenard Kruel, Airton Sampaio e Elio Ferreira

Bônus de natal
[Emerson Araújo]

Aos poetas fwilson, Paulo Machado, Chico Castro e Adriano Lobão



Morte à reminiscência fugaz
Tão comum neste tempo de natal
E papai noel precisa de uma companheira de baby doll
E as cabras de outros apriscos ruminam, ruminam
E os cavaleiros partem no beijo de nuvens
Na doideira elétrica de Artaud.

Ah, tempo de escuridão e seus dezesseis movimentos
De frase dura, pedra desfeita na ação do esmeril
De eros farto em pele de avelã e aviamento
Farinha e café sobre a mesa de cristal e taça
Só a minha vertigem a traduzir-se
Numa parte que é transbordamento
Outra exclusão.

A primeira pessoa predomina nas folhas que rumorejam
E não quero saber da linguagem improdutiva
Nem no poema que se resolve a luz do olhar
Ou no sopro dos dedos que foi chacal e lobo voraz
O meu poema é minha fala e minha audição
O meu poema, antes, é nada, nada
E os cavaleiros partem no beijo de nuvens
Na doideira elétrica de Artaud.

Assim prefiro construir a sétima margem do rio flores
Sem ter horário fixo e londrino
O meu horário é o meu sertão
Sem neve cor de chumbo
A minha neve é a minha nódoa
E os cavaleiros partem no beijo de nuvens
Na doideira elétrica de Artaud.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Poeminha de Natal




Poeminha de Natal
à memória de Mário Quintana


Na sala de estar, o burrico farsante reluzia na lapinha,
sob o olhar atento do Menino Jesus.

Na sala de jantar, o gatarrão manhoso ronronava saciado.

Na alcova, a priminha azul, inesquecível,
sonhava países distantes.


[Paulo Machado]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

terceto íntimo

[adriano lobão aragão]



profundissimamente pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
este ambiente me causa repugnância análoga à ânsia que se escapa
da boca de um hipocondríaco

domingo, 20 de dezembro de 2009

Fundação Biblioteca Nacional

PORTARIA N.º 94 FBN/PRESI Rio de Janeiro, 09 de dezembro de 2009.


O PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo Estatuto da Entidade, aprovado pelo Decreto n° 5.038, de 07 de abril de 2004, publicado no Diário Oficial da União em 08 de abril de 2004, torna público o resultado do Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional do ano de 2009.


1. Prêmio Alphonsus de Guimaraens
Categoria: Poesia
Comissão Julgadora:
· Eucanaã Ferraz
· Francisco de Castro Mucci
· Moacir Amâncio

Vencedor: Marina Colasanti, com a obra Passageira em trânsito, publicada pela Editora Record.
2º lugar: Reynaldo Damazio, com a obra Horas perplexas, publicada pela Editora 34.
3º lugar: Rodrigo Petronio, com a obra Venho de um país selvagem, publicada pela Editora Top Books.


2. Prêmio Machado de Assis
Categoria: Romance
Comissão Julgadora:
· José Guimarães Castello Branco
· Beatriz Vieira Resende
· Flávio Martins Carneiro

Vencedor: Raimundo Carrero, com a obra A minha alma é irmã de Deus, publicada pela Editora Record.
2º lugar: Rodrigo Lacerda, com a obra Outra vida, publicada pela Editora Alfaguara.
3º lugar: Bernardo Ajzenberg, com a obra Olhos secos, publicada pela Editora Rocco.


3. Prêmio Clarice Lispector
Categoria: Conto
Comissão Julgadora:
Mário Bezerra Pontes
Moacyr Jaime Scliar
Mànya Dias Millen

Vencedor: Beatriz Bracher, com a obra Meu amor, publicada pela Editora 34.
2º lugar: José Rezende Jr., com a obra Eu perguntei pro velho se ele queria morrer, publicada pela Editora 7 Letras.
3º lugar: Antônio Carlos Viana, com a obra Cine Privê, publicada pela Companhia das Letras.

4. Prêmio Mário de Andrade
Categoria: Ensaio Literário
Comissão Julgadora:
Vera Lúcia de Oliveira Lins
Walnice Nogueira Galvão
Frederico Augusto Liberalli de Góes

Vencedor: Luiz Costa Lima, com a obra O Controle do Imaginário & A Afirmação do Romance – Dom Quixote, As relações perigosas, Moll Flanders, Tristram Shandy, publicada pela Editora Companhia das Letras.
2º lugar: Marcus Mota, com a obra A Dramaturgia Musical de Ésquilo – Investigação sobre composição, realização e recepção de ficção audiovisual, publicada pela Editora da UNB.
3º lugar: Ronaldes de Melo e Souza com a obra A Geopoética de Euclides da Cunha, publicada pela EDUERJ.


5. Prêmio Sérgio Buarque de Holanda
Categoria: Ensaio Social
Comissão Julgadora:
· Carlos Guilherme Santos Serôa da Mota
· Elias Thomé Saliba
· Carlos Fico da Silva Júnior

Vencedor: Ronaldo Vainfas e Lúcia Bastos Pereira das Neves, com a obra Dicionário do Brasil Joanino, 1808-1821, publicada pela Editora Objetiva.
2º lugar: Mary Del Priore, com a obra Condessa de Barral, a Paixão do Imperador, publicada pela Editora Objetiva.
3º lugar: Demétrio Magnoli, com a obra Uma Gota de Sangue. História do Pensamento Racial, publicada pela Editora Contexto.


6. Prêmio Paulo Rónai
Categoria: Tradução
Comissão Julgadora:
· Leonardo Fróes da Silva
· Ivo do Nascimento Barroso
· Per Johns

Vencedor: Erick Ramalho, com a obra Poemata, poemas em latim e em grego, publicada pela Editora Tessitura.
2º lugar: Paulo Werneck, com a obra Zazie no Metrô, publicada pela Editora Cosac Naify.
3º lugar: Luís Antônio Martinez Corrêa, com a obra O Percevejo, publicada pela Editora 34.


7. Prêmio Aloísio Magalhães
Categoria: Projeto Gráfico
Comissão Julgadora:
Sônia Virgínia Moreira
Amaury Fernandes
Rodolfo Capeto

Vencedor: Marina Carolina Sampaio, com a obra Lina por escrito: textos escolhidos de Lina Bo Bardi de Silvana Rubino e Marina Grinover, publicada pela Editora Cosac Naify.
2º lugar: Ângela Lago, com a obra Bichos, de Ronaldo Simões Coelho, publicada pela Editora Aletria.
3º lugar: Luciana Facchini, de Décio Pignatari, com a obra Bili com limão verde na mão, publicada pela Editora Cosac Naify.


8. Prêmio Glória Pondé
Categoria: Literatura Infantil e Juvenil
Comissão Julgadora:
· Neide Medeiros Santos
· Mariza de Almeida Borba
· Elizabeth d´Angelo Serra

Vencedor: Bartolomeu Campos de Queirós com a obra Tempo de Voo, publicada pela Editora Comboio de Corda.
2º lugar: Ronaldo Simões Lopes com a obra Bichos publicada pela Editora Aletria.
3º lugar: Graziela Bozzano Hetzel com a obra O Lobo publicada pela Editora Manati.



MUNIZ SODRÉ
Presidente
Fundação Biblioteca Nacional

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Lendo as cinzas as palavras

______Herasmo Braga, Alfredo Werney, Vagner Ribeiro, Wanderson Lima, Adriano Lobão



Lendo as cinzas as palavras, confesso que errei por pensamentos e palavras
por Vagner Ribeiro



A possibilidade por exercício
De pensar a inutilidade
Das conjunções aditivas
Das drogas americanas
Das boas ideias
Do herói e sua lança
E e e e
Do gaguejar do viciado
Sua rude batalha
É luta mais vã
Em que
Vivo
Não se dá por vencido

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

As lições eternas do vagabundo



por Alfredo Werney


Um chapéu, uma bengala, um sorriso. Não é difícil reconhecer o personagem mais aclamado do cinema. A vida do londrino Charles Spencer Chaplin (1889/ 1977) se confunde com a de seus personagens, daí o codinome carinhoso que carregou durante toda sua vida: “O Vagabundo” (The Tramp). Geralmente quando se fala em Chaplin, já se achega ao nosso imaginário as trapalhadas do vagabundo Carlitos. O fato é que as experiências de Chaplin estão muito além do humor mambembe que ele empreendera nos seus filmes. Ao mesmo tempo rigoroso e improvisador, o cineasta inglês construiu obras paradigmáticas. Em “Tempos Modernos”, por exemplo, Chaplin nos ensinou inúmeras lições de cinema: a expressiva montagem, utilizando planos metafóricos para representar a vida mecânica e circular da sociedade que a Revolução Industrial gerara; o cuidadoso trabalho com o som (embora Carlitos não fale) utilizando os timbres metálicos da orquestra e fazendo da ambientação sonora de uma fábrica uma verdadeira sinfonia. Sinfonia esta que nos transmite uma poderosa sensação de opressão.

Coadunado com tais experiências formais, ainda há de se observar a riqueza conteudística dos trabalhos chaplinianos. No já citado Modern Times, como já se sabe, o diretor faz uma dura crítica à sociedade capitalista que surgira com os avanços tecnológicos empreendidos pela Revolução Industrial, gerando pobreza, problemas psicológicos e sociais. Um dos momentos mais sugestivos da película: Carlitos se desestabiliza e é comprimido ferozmente pelas engrenagens da máquina. Decerto, uma metáfora visual muito forte do trabalho alienado e árduo da época. “O grande Ditador” - visivelmente um recado para o mundo e uma afronta a Adolf Hitler, que era vivo nessa época – trata-se de uma análise firme do que o abuso de poder e a falta de comunhão entre os seres podem gerar. “Transformar homens em bucha de canhão”, como diria o próprio Chaplin numa crítica veemente ao nazi-facismo. Em “O Circo”(1928) estamos diante de um humor mambembe cuidadosamente elaborado. O vagabundo entra, por acaso, num circo em crise e o transforma num palco de espetáculos de pura poesia. Este foi um dos ingredientes que Chaplin – influenciado pelo antecessor Meliés – trouxe para o cinema: a capacidade de fabular e fantasiar através das imagens em movimento. A capacidade de transcender a prosa cotidiana e nos apresentar um mundo centrado nas sensações primeiras. É importante dizer que em “O circo”, como em muitas películas do diretor londrino, ele compôs quase tudo: música, cenário, roteiro, personagem.

Facilidade é uma palavra que nunca permeou a vida de Charles Chaplin. O diretor teve uma infância muito pobre, além do que sua mãe tinha graves problemas mentais. Desde muito cedo demonstrou enorme talento para a dramaturgia e em 1912 foi para os Estados Unidos, local onde montou seu próprio estúdio. “O Garoto” (1921) não deixa de ser um filme autobiográfico. Se bem observarmos, a pobreza é um tema sempre presente na filmografia chapliniana.

Diversas animações recorrem aos paradigmas chaplinianos: O Pica-pau, O Picolino, Tom e Jerry. Cenas como “a dança dos pãezinhos” e a que Carlitos, num momento de fome, vê seu amigo como sendo uma galinha, vez por outra aparecem nos desenhos animados. O Pica-pau não deixa de ser uma espécie de Carlitos: um vagabundo atrapalhado que consegue conquistar as pessoas. E não se trata de uma empresa fácil: um vagabundo, figura tão repugnada por uma sociedade da técnica e do trabalho como é a nossa, fazer com que o público o aplauda e seja, de certa maneira, conivente com suas ações “maliciosas”. A dramaturgia brasileira também deve muito ao vagabundo.Há vários clichês estabelecidos por Chaplin no trabalho dos “Trapalhões”, sobretudo no personagem “Didi”. Além do que se observa em alguns programas televisivos de humor.

O trabalho do cineasta londrino pode ser apreciado para além das suas questões estritamente cinematográficas. O artista Charles Chaplin, muito mais do que um diretor de cenas, imprimiu em suas obras questões universais que marcam a vida humana - essa “aventura maravilhosa”. Dentre estas: o poder, a fraternidade, a felicidade, o amor e a beleza.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Matsuo Bashô & Guimarães Rosa


Bashô
(Japão, 1644-1694)

O velho tanque
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

[tradução de Paulo Franchetti e Elza Doi]


- *** -



Guimarães Rosa
(Brasil, 1908-1967)

Verde

Na lâmina azinhavrada
desta água estagnada,
entre painéis de musgo
e cortinas de avenca,
bolhas espumejam
como opalas ocas
num veio de turmalina:
é uma rã bailarina,
que ao se ver feia, toda ruguenta,
pulou, raivosa, quebrando o espelho,
e foi direta ao fundo,
reenfeitar, com mimo,
suas roupas de limo...

[in Magma, 1936]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Bashô & Camões


Bashô

(Japão, 1644-1694)

O velho tanque
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

[tradução de Paulo Franchetti e Elza Doi]


- *** -


Luís Vaz de Camões
(Portugal, 1524?—1580)
Os Lusíadas
Canto II

27
Assim como em selvática alagoa
As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
Se sentem por ventura vir pessoa,
Estando fora da água incautamente,
Daqui e dali saltando, o charco soa,
Por fugir do perigo que se sente,
E acolhendo-se ao couto que conhecem,
Sós as cabeças na água lhe aparecem:

domingo, 6 de dezembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade & Ferreira Gullar



Os Últimos Dias
[Carlos Drummond de Andrade]

(...)
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

(...)

[A Rosa do Povo, 1945]


- *** -



Traduzir-se
[Ferreira Gullar]

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

[Na Vertigem do Dia (1975-1980)]

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Entrevista de Airton Sampaio concedida a Herasmo Braga

_____Airton Sampaio, foto de M. de Moura Filho




Entrevista de Airton Sampaio concedida a Herasmo Braga em setembro de 2009

Airton Sampaio de Araújo é contista, novelista, cronista e articulista. Teresinense, publicou, individualmente, "Painel de sombras", contos, 1980, e "Contos da Terra do Sol", 1996, tendo participado de diversas coletâneas, entre as quais se destaca "Vencidos", contos, 1987, ao lado de J. L. Rocha do Nascimento, José Pereira Bezerra e M. de Moura Filho, e "Sob um CéAzultigrino", novela, em Concursos Literários do Piauí, 2005, além de várias premiações. Organizador do livro Geração de 1970 no Piauí: contos antológicos. Formado em Letras (1982) e Direito (1984) pela Universidade Federal do Piauí, é professor-mestre-adjunto no Departamento de Letras da referida Universidade.




"Nasceram-me. Não pequei o suficiente. Não aprendi dançar um tango argentino."
Airton Sampaio

Herasmo Braga - Em que época e quais circunstâncias o encaminharam para a literatura?
Airton Sampaio
- Logo na entrada do ensino médio, menino ainda, decidir escrever. Não foi fácil. Escrevia e rasgava, escrevia e rasgava, escrevia e rasgava e achava que não conseguia produzir um só texto por falta de talento, o que desanimava bastante. Só depois vim a ter consciência de que o texto raramente se oferece pronto e que precisa ser construído. Então aquela angústia inicial de escrever e rasgar passou. É claro que Painel de Sombras, meu livrinho de 1980, ainda não pode, a rigor, ser chamado de literatura, mas não o posso renegar porque lá já estão os germes de algumas coisas boas que, acho, eu faria depois. Comigo não teve essa história de li fulano ou sicrano e resolvi escrever, até porque na adolescência o que eu lia muito mesmo eram livretos de faroeste, hqs e seriados de tv, coisas fora do cânone literário. Nesse cânone, o primeiro a me conquistar, ainda que eu não entendesse bulhufas, foi Machado de Assis. Penso que foi a ironia dele a responsável pelo encanto, sei lá...

Herasmo - Como se deu sua aproximidade/proximidade com o conto? E por quê?
Airton - Meu primeiro conto saiu num jornalzinho mimeografado que a gente editou na então Escola Técnica Federal do Piauí, na década de 70. Parece que se chamava A Cova do Anjo e fez um pequeno sucesso ao meu redor, embora eu imagine que o texto fosse bobinho. O mais foi daí pra frente...

Herasmo - Como constitui o seu processo de criação?
Airton - Pode acontecer de repente ou não. Quer dizer, se ocorrer de repente a ideia de um conto é porque ele já vem dentro de mim. Posto no papel, não tem jeito. Há que se burilar o texto que veio de primeira mijada, às vezes até desistir dele. Mas não sofro com isso não. Acho que a escrita é assim mesmo. É praticamente impossível algo em primeira, segunda ou mesmo terceira versão já ficar pronto para publicação. Como diz Umberto Eco, a escrita é um objeto preguiçoso...

Herasmo - Quais autores influenciaram ou influenciam na sua formação de contista? Airton - Qualquer bom contista me influencia, pertença ou não ao cânone literário. Então, passaria linhas e linhas citando nomes e contos, contos e nomes. Mas no Piauí arrisco citar o M. de Moura Filho, para mim um baita contista.

Herasmo - Como o senhor avalia a tradição brasileira na produção de contos?
Airton - Não sei se é melhor que a poesia, mas sem dúvida é melhor que a romancística e a cronística. O conto é um gênero que deu certo no Brasil, e vocês sabem que praticamente nada dá certo nesse complexo país de elite hiperegoísta e povo supermanipulável.

Herasmo - E dentro da literatura nacional de expressão piauiense, como o senhor avalia a tradição contista?
Airton - O conto é uma manifestação literária que nos acompanha, no Piauí, desde o Romantismo. Tivemos grandes contistas, como Carlos Castelo Branco, com Continhos brasileiros, de 1953. Mas infelizmente a vertente que mais vingou foi a do regionalismo tacanho ou regionalismo de segunda linha, capitaneado por Fontes Ibiapina. Creio, sem querer puxar brasa para nossa sardinha, mas já puxando, que esse modo de contar foi superado pelo Grupo Tarântula da Geração de 1970, que legou um conto mais urbano, mais estetizado e mais moderno.

Herasmo - Ainda dentro da pergunta anterior, quais os aspectos o senhor destacaria desta tradição?
Airton - A tradição é, como já disse, muito regionalista, no sentido menor da palavra.

Herasmo - Harold Bloom sempre levanta a tese que não temos tanto tempo para ler tudo o que seria de extrema importância, portanto uma seleção criteriosa deve ser realizada de forma minuciosa. Ele propõe uma lista canônica das obras de grandes autores imprescindíveis que não podemos morrer sem termos lidos ou mesmo nos considerarmos como escritores com ausência destas leituras. Gostaria de saber, então, qual a sua concepção sobre essas formações canônicas “vitais” e quais seriam as suas obras fundamentais?
Airton - O cânone é importante como uma referência qualitativa, mas é preciso não esquecer que na sua formação não entram critérios exclusivamente estéticos. As escolhas e imposições políticas são uma evidência, tanto que se torna inexplicável, por exemplo, a não inclusão de Da Costa e Silva no cânone parnasianista e simbolista brasileiro, cheio de nomes sem dúvida menores que ele.

Herasmo - Qual seria suas considerações a respeito do novo contexto da literatura nacional? Quem o senhor destacaria e por quê?
Airton - Acho que a internet nos trará boas novas. Mas ainda precisamos esperar para ver. É claro que o livro jamais morrerá, porém é ótimo termos um mídia a ele alternativa, como a internet. Dela virá, se é que já não está vindo, uma literatura digna de nota.

Herasmo - Nesse nosso contexto, percebem-se inúmeras questões em relação à literatura - suas teorias e suas obras. Qual ou quais mais lhe incomodam? Por quê? E quais delas vêm recebendo a sua atenção?
Airton - Nenhuma teoria literária me incomoda. O que me incomoda é o desconhecimento delas e o seu equivocado uso. Por exemplo: certa feita, uma estudante me pediu para que a ajudasse a fazer um trabalho universitário sobre a carnavalização na obra de O. G. Rêgo de Carvalho. Achei impossível aplicar essa formulação de Backthin à obra de O. G. Que carnavalização há na obra de O.G? Só com muita forçação de barra se pode detectar isso. Outro exemplo é um professor como o Luís Romero Lima pôr Fontes Ibiapina como vanguardista. Ora, isso não é uma escolha pessoal: vanguarda tem uma demarcação definitória que não permite esses arroubos impressionistas. Isso incomoda.

Herasmo - Há dentro da teoria e da critica literária novas considerações advindas dos estudos culturais. Será que o senhor concorda que a literatura em seu sentido maior tem sido deixada de lado, principalmente nos aspectos estéticos ao se privilegiar outras questões mais sociais?
Airton - A literatura é basicamente linguagem estetizada, mas não só. Centrar-se apenas na literatura como estética é, a meu ver, o mesmo erro que olhá-la somente como expressão de questões extraliterárias. Sempre digo que literatura é linguagem, linguagem, linguagem e vida e não só linguagem, linguagem, linguagem e linguagem.

Herasmo - Tenho observado que dentro de um mundo mais compacto em que as distâncias temporais e espaciais tornam-se menores, alguns escritores levantam a bandeira do regionalismo literário, entre eles temos Assis Brasil do Rio Grande do Sul que só publica seus textos em editoras do seu estado. Como o senhor avalia este regionalismo? Será que o regionalismo de 30 não fora muito mais de estilo do que geográfico?
Airton - Não consigo ver nenhum regionalismo que não seja tentativa de autoafirmação de um lugar ou de um modo de vida posto em desigualdade, numa relação assimétrica. Se não esquecermos as profundas intenções separatistas dos gaúchos, hoje inconfessadas mas existentes, então... E nas periferias culturais, como o Piauí, o regionalismo também é forte. Ou seja, não há como falar de regionalismo sem considerá-lo uma atitude, em primeiro lugar, política, de quem busca dizer até para si mesmo: eu existo!

Herasmo - Quando o senhor realizou a pesquisa sobre os contistas da década de 70, pensei que colocaria apenas autores que publicaram naquele período, mas temos algumas presenças que só agora começam a ter mais visibilidade com suas publicações. Qual o motivo que fez o senhor ampliar o leque e englobar esses que aparecem no livro e são recentes?
Airton - Porque um autor não se forma de bate-pronto. Ele se forma ao longo dos anos. Foi o caso do Wellington Soares, que não publicou na própria década de 70, mas, sendo formado lá, publicou só muito tempo depois. Com certeza, o Wellington não é um autor da Geração de 2000 só porque publicou a partir daí.

Herasmo - E entre os críticos, quem o senhor apontaria como realidade ou promessa?
Airton - O melhor, sem dúvida, é o Ranieri Ribas, apesar do seu estilo um tanto empolado, que o torna chato e até inacessível. O Wanderson Lima só me desagrada porque é muito sectário, mais até que os piores momentos de minha Geração, que ele acusa, exatamente, de sectarismo. Você, Herasmo, tem todas as condições de ocupar também esse espaço, já que tem formação teórica e sensibilidade para tanto. E deve haver outros, embora não muitos, que agora me fogem à lembrança. De qualquer forma, Ranieri e Wanderson são grandes e incontestes avanços em relação, por exemplo, a Chico Miguel de Moura e Herculano Moraes, nomes máximos, no Piauí, da crítica compadresca. Não cito o Adriano Lobão porque para mim ele é o poeta por excelência do Grupo Amálgama: tem talento e consciência do que faz. Só não gosto quando ele renega seu primeiro livro, um vezo ogerreguiano que só deve ocorrer em situações muito específicas.

Herasmo - Em relação às revistas literárias, como o senhor analisa as possíveis contribuições na formação de leitores e divulgação literária. Quais delas o senhor destacaria?
Airton - A Revista Pulsar, apesar de ser muito fechada, foi uma grande revista. A Amálgama, principalmente em sua versão internética, tem contribuição deveras relevante. As demais, até onde lembro, são oficiais demais: Presença, Cadernos de Teresina, De Repente... Quanto à recepção, enquanto não houver um investimento maciço em divulgação (outdoors em profusão, chamadas televisivas intensas, merchandising forte, etc), não me convencerei de que o autor piauiense não vende. Ou o Paulo Coelho venderia sem todo esse aparato midiático? Publicar hoje é até fácil. Duro mesmo é divulgar a obra e distribuí-la...