domingo, 29 de novembro de 2009

as cinzas as palavras




as capas os discos
[adriano lobão aragão]

ontem eu vi o disco da vaca à venda na galeria
onde há muito naqueles campos estranhos me perdi
entre os riscos do vinil motocicleta e sinfonia

ontem eu vi um velho em um quadro carregando lenha
adornando em parede destroçada a capa de um álbum
e a iluminada escuridão de um dirigível de chumbo

ontem eu vi o álbum branco que depois de muitos anos
pude perceber as matizes dispersas de suas cores
e seu discreto nome de besouro impresso em relevo

mas há muito dispostos em silêncio seus sons evocam
sonora imagem retida na retina da memória




à venda:


pela internet
lobaoaragao@gmail.com
R$10,00 [frete incluso]

na Toccata
Rua Afrísio Lobão, 922 / Esquina com Av. N. Sra. de Fátima
Loja 01/03 - Jockey Club - Teresina PI

na livraria Nova Aliança
Rua Olavo Bilac, 1258 - Centro [por trás do Colégio Diocesano]
Teresina - PI

na banca de revistas do Teresina Shopping

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade & Raul Seixas



Campo, Chinês e Sono
[Carlos Drummond de Andrade]
A João Cabral de Melo Neto

O chinês deitado
no campo. O campo é azul,
roxo também. O campo,
o mundo e todas as coisas
têm ar de um chinês
deitado e que dorme.
Como saber se está sonhando?
O sono é perfeito. Formigas
crescem, estrelas latejam,
Peixes são fluidos.
E árvores dizem qualquer coisa
que não entendes. Há um chinês
dormindo no campo. Há um campo
cheio de sono e antigas confidencias.
Debruça-te no ouvido, ouve o murmúrio
do sono em marcha. Ouve a terra, as nuvens.
O campo está dormindo e forma um chinês
de suave rosto inclinado
no vão do tempo.


[in A Rosa do Povo, 1945]



- *** -





O Conto do Sábio Chinês
[Raul Seixas]

Era uma vez
Um sábio chinês
Que um dia sonhou
Que era uma borboleta
Voando nos campos
Pousando nas flores
Vivendo assim
Um lindo sonho...

Até que um dia acordou
E pro resto da vida
Uma dúvida
Lhe acompanhou...

Se ele era
Um sábio chinês
Que sonhou
Que era uma borboleta
Ou se era uma borboleta
Sonhando que era
Um sábio chinês...


[in lp Abre-te, Sésamo, 1980]

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

as cinzas as palavras



as cinzas as palavras
adriano lobão aragão

lobaoaragao@gmail.com
R$10,00 [frete incluso]




as cinzas as palavras


pintada em verbo angústia nenhuma palavra incendeia
decantada a mesma iluminada metáfora escura
seguindo em eterna fuga do discurso que se perca

expressão que inexata deseja toda exatidão
envolta entre sim e não se refaz a dúbia certeza
exatidão toda inexata que deseja expressão

qual verbo abandonado por remota prosa incontida
qual chama irrestrita escrevendo seu ardor devastado
cinza palavra ao vento calado palavra descrita

como que semeando a si espalhando do vento ao gosto
as cinzas em torno de todas as obras a destruir

sábado, 21 de novembro de 2009

Cecília Meireles & Arnaldo Antunes


Retrato
[Cecília Meireles]

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?


- *** -



Não vou me adaptar
[Arnaldo Antunes]

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar

Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O que é saúde mental?




"A meus olhos, a saúde mental é o estado de uma pessoa capaz de conhecer seus limites e amá-los. Ser psiquicamente saudável significa viver relativamente feliz consigo mesmo apesar das inveitáveis provas, experiências e restrições que a vida nos impõe."
J.-D. Nasio
[in Um psicanalista no divã, Jorge Zahar Editor, 2003, p22]

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Zila Mamede




Banho (rural)
Zila Mamede


De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.



[in O Arado, 1959]

domingo, 15 de novembro de 2009

São Benedito






















São Benedito na chuva,
Adriano Lobão Aragão,
óleo sobre tela, 1997

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Zila Mamede

O Prato
[Zila Mamede]

Na casa escura, o prato campinava
dimensão magra de conviva e pasto.
Se lume de candeia refletia,
naquela toalha, o barro inerte branco

uma dor de menino sacudia
as miragens de pão que o habitavam.
Liberta de função a branca rosa
desarvorada lua se fazia

nas cercas, no curral espantamento
em que o menino reinventa reino
onde aboiavam prados. Infiltrava-se

na mesa neutra e vã o medo infante:
os dedos cavalgados por fantasmas
serenamente despedaçam luas.

___________________
In O Arado, 1959.



Pertence Zila Mamede àquela estirpe de poeta que não renega a tradição lírica, não foge da “forma”, ao tempo em que não se submete a ela, mas explora-a, transforma-a em instrumento e não em fim, tal como Carlos Drummond de Andrade (sobretudo em Claro Enigma), João Cabral de Melo Neto, Mário Faustino, Jorge de Lima (magistralmente em Invenção de Orfeu), Cecília Meireles e H. Dobal (A Província Deserta), dentre muitos outros, assim o fizeram. Os sete sonetos de O Arado, em um universo de 19 poemas, refletem menos o que é estruturalmente inerente a sua forma do que a dicção peculiar da poeta, e as sugestivas imagens que seus versos evocam. Publicado em 1959, no Rio de Janeiro, pela Livraria São José, O Arado constitui sua obra seminal, como bem caracterizou Hildeberto Barbosa Filho, em posfácio da reedição de O Arado, pela Editora da UFRN, em 2005: “No âmbito de sua poética individual, O Arado funciona como a obra canônica, na medida em que reflete, mais equilibradas e mais amadurecidas, as experiências do passado. O que vem depois confirma a qualidade de uma dicção lírica singular, mas não ultrapassa os ângulos de irradiação mais iluminados que vêm deste livro/chave.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

aos rios do Piauí

[adriano lobão aragão]



Ai rios do Piauí
corre o sangue dos tapuias
como tuas águas

ai rios do Piauí
diferente de tuas águas
outro rumo
o sangue dos tapuias toma
só à terra retorna

ai rios de sangue do Piauí
água pesada na memória


a) longá

beberam destas águas este povo
que nelas deixaram seu nome
derramado nas águas
onde se espalharam seu sangue

temporário, forma inúmeros alagoados
na época das chuvas

não navegável, recusa as dimensões
da navegação européia


b) Marataoã

padre Miguel Carvalho ante o rio Marataoã:
do ano de mil seiscentos e noventa e sete
restam poucos indícios

nem leitos de piçarra
nem bons banhos na Ilha dos Amores

só um religioso e seus escritos
nenhuma canoa


c) Piracuruca

antes da explosão das armas estrangeiras
o estrondo da guerra vinha de garganta humana

um tabajara podia ouvir o ronco dos peixes

antes do aldeamento São Francisco Xavier
abafar os sons da natureza
pois melhor se fixa
a doutrina européia
a disciplina militar


d) Jenipapo

vinham do Ceará os tapuias Jenipapos
pequena tribo entre Potis e Longas

vinham do Ceará ao Maranhão
engrossar as fileiras militares
aliciadas para a guerra
contra o gentio maranhense

ainda em mil setecentos e doze
ainda na capitania do Piauí
um padre prega outro destino

frei Euzébio Xavier Gouveia
induz Jenipapos à fuga

por ordem do Conselho Ultramarino
pela ordem e prosperidade da guerra
um padre desta capitania é expulso

aliciados e espoliados
desertores desta luta
invasores de fazendas
desaparecidos desta terra

resta um nome no rio
que ainda assistiria em suas margens
portugueses e piauienses em batalha


e) Poti

índios tapuias
talvez vindos do Rio Grande do Norte
habitar as nascentes
doutro rio

atacados pelo cap. Domingos Rodrigues de Carvalho
expulsos para os lados do Maranhão

palavra indígena:
resíduo, fezes
o nome que em tupi se dá ao camarão

água que passa arrastando arraias
sem nome



f) Berlengas

no Novo Oriente do Piauí
na serra da Lagoa Funda
Bangüê Buriti Mocambo
Vaca Morta
todos os outros afluentes
a mesma solidão
da fazenda que em 1697
abrigava apenas Dionísio Dias Pereira
e um negro


g) Canindé

periódico e não-navegável
o mais longo dos afluentes do Parnaíba
nele se mergulha em sua margem direita
vindo do nascente

em Campinas do Piauí a sua margem direita
tem a Fome e a Volta
por afluentes

18 9 1832 Conselho Geral da Província
o engenheiro Pedro Cronemberger
é incumbido da desobstrução
de suas cachoeiras

15 10 1834 nova resolução
destruir 6 cachoeiras que impedem sua navegação
trabalho incompleto para o mesmo engenheiro





[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]

terça-feira, 10 de novembro de 2009

aos que fizeram guerra ao gentio bárbaro da nação crateú e crateú-mirim

[adriano lobão aragão]



Dispersas as sobras do extermínio
resta a um povo a odiosa alcunha
de gentio bravio

por ordens de Pernambuco
capitão Bernardo Coelho de Andrade
tem por missão a guerra
a todos os sobreviventes
Crateús, Crateús-Mirins
cem anos após a morte
do primeiro estrangeiro

lavrado o campo
entre restos de sombras
sobre as cinzas se busca firmar
uma vila do Príncipe Imperial
uma vila da Independência
e plantar o esquecimento



[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]

domingo, 8 de novembro de 2009

aos que aqui primeiro plantaram uma cruz onde há mortos

[adriano lobão aragão]


Lembremos hoje os nomes de Francisco
Pereira Pinto e Luís Figueira, padres
acompanhados de índios tabajaras,
seguindo a barco para Jaguaribe.
Lembremos a submissão tabajara
que fiéis guiavam os homens de fé
por lentos dias pela sombra da selva,
onde a semente européia buscava
abrir este caminho pela fé.
Haveremos de revelar a face
iluminada de Deus ao gentio.

De Jaguaribe ao Maranhão, o caminho
da verdade por terra deve ser.
Seguem Pinto e Figueira carregando
uma cruz para além daquela serra.
Carajirus, Caratiús ou Crateús,
eram estes os senhores da terra
pela rústica expedição invadida.
Marca-se a reação crateú com a morte
de Francisco Pinto e três tabajaras.
Restou-lhes o retorno a Pernambuco.

Recaía sobre os Caratiús a vingança
do gentio tabajara em guerra
que uma nação apagada não redime

Aos sobreviventes deste embate
o constante contato com colonos
em encontros cada vez mais hostis.
Estrangeira mão renova-se armada,
não mais os homens da cruz e da fé
mas os senhores suas armas e espadas
buscando estabelecer o direito
de posse de terras, de homens e de almas.

Lembremos aqui todos os que com sangue
marcaram os passos de seu caminho.



[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]

terça-feira, 3 de novembro de 2009

2005

[Mário Quintana]

Com a decadência da arte da leitura, daqui a trinta anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias em quadrinhos...
A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas.
A poesia é irredutível.



(in A Vaca e o Hipogrifo)