sábado, 29 de agosto de 2009

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setembro / outubro

a partir de 1º de setembro, não deixe de visitar nossa segunda edição

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Conquista da Honra





A imagem da conquista

[por Adriano Lobão Aragão]

Produzido por Steven Spielberg e pelo próprio Clint Eastwood, A Conquista da Honra (Flags of our fathers, EUA, 2006) não é, essencialmente, um filme de guerra, tampouco a visão americana do conflito em Iwo Jima que se contrapõe a uma visão japonesa apresentada em As Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, EUA, 2006), realizado simultaneamente por Eastwood. A princípio, poderia ser a reutilização de um recurso que pode ser visto em O Mais Longo dos Dias (The Longest Day, 1962), dirigido por Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Wicki, abordando o desembarque dos aliados na Normandia a partir dos dois lados em conflito, mas Eastwood quis ir além da mera documentação histórica, da representação/encenação do combate. A Conquista da Honra volta-se para algo maior, mais abrangente e fundamental para a construção da vida contemporânea, não apenas ocidental: o poder da imagem. Essa visão torna-se mais relevante nos dias atuais que em 1944, numa sociedade cada vez mais voltada para a estética iconográfica. É o contraste entre a aparência e a essência, entre o real e o simbólico que interessa a Eastwood. E sobretudo para os propagandistas militares americanos, que precisam de dinheiro para continuar uma guerra que, segundo suas próprias palavras apresentadas no filme, durou mais do que deveria (o que corresponde dizer que "gastou-se mais do que deveria"). Mas, a partir da imagem de seis soldados fincando uma bandeira no alto de uma montanha japonesa, as pessoas estariam dispostas a patrocinar aquela guerra, pois não estariam comprando bônus de guerra do exército, mas investindo em heróis que, com certeza, trariam a vitória. Aquela foto era mais que uma esperança, era uma garantia. A controvérsia das bandeiras, a morte de diversos soldados, a tênue linha entre a homenagem e o anonimato, juntamente com a angústia de Reyes, o soldado indígena, o altruísmo de Doc e o senso oportunista de René nos remetem a uma nova história sobre uma bandeira e seus frágeis personagens, uma história muito mais instigante e sincera que a história oficial, recontada por Eastwood em seu habitual estilo sóbrio e equilibrado, como uma reminiscência do que Hollywood já teve de clássico. Mas há um senão: o final ancora-se excessivamente na necessidade de um narrador, arrastando-se demais. Essa indeterminação de encerrar a película é uma característica recorrente em outros filmes de Eastwood, como A Troca (Changeling, 2008) e Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004), mas felizmente não chega a comprometer a relevância e a harmonia de suas obras. Talvez porque, acima de tudo, Eastwood é um cineasta necessário.




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domingo, 23 de agosto de 2009

O curioso caso de Benjamin Button



O Curioso Caso de Benjamin Button e Forrest Gump
[por Adriano Lobão Aragão]

A perfeição estética orquestrada por David Fincher em O Curioso Caso de Benjamin Button [The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008] chega a ser um caso à parte nessa película extremamente bem produzida, mas somente os méritos técnicos não fazem de um filme uma obra grandiosa. Entre o elenco, destaca-se a atuação de Cate Blanchet, como sempre. Mas, infelizmente, permeia o filme uma incômoda sensação de “deja vu”, na qual diversas vezes a estranha existência de Benjamin Button parece um revival da jornada de Forrest Gump (Forrest Gump, EUA, 1994), que, aliás, foi escrito pelo mesmo roteirista, Eric Roth (em Forrest, contou com o auxílio de Charlie Peters e Ernest Thompson). E por falar em roteiro, surge uma questão fundamental: era realmente essencial para história a leitura do diário de Benjamin Button em um quarto de hospital enquanto se aproxima o furação Catrina? É que os momentos mais irregulares do filme de Fincher acontecem ali, naquele espaço que Fincher e Eric Roth usaram para impulsionar a narrativa adiante, ainda que adentre pelos clichês do melodrama e outros artificialismos. De qualquer forma, Benjamin soa como um outro contador de histórias que, a exemplo de Gump, narra seu ponto de vista calcado na não compreensão da própria existência, ou numa compreensão bem pessoal. E daí desfilam outras semelhanças, como a relação com a fé e a religião; Gump cresceu numa pensão e Button num asilo; o envolvimento em guerras (Vietnã e II Guerra Mundial, respectivamente), sobrevivendo ambos a um fulminante ataque inimigo; a correlação entre o capitão do navio de Button e o tenente Dan de Gump é evidente, bem como o anão pigmeu e o soldado Bubba, ambos falastrões, cumprem funções semelhantes, como confidentes de um homem deslocado da sociedade dita “normal”; a paixão de infância vivenciada aos pedaços, em meio a trágicas complicações, como o acidente da amada de Button ou a doença da amada de Gump, mas é dessa relação que advém um filho, seu saudável legado. Enquanto o personagem de Tom Hanks, por suas limitações psicológicas, não consegue amadurecer, adentrar no mundo adulto, o personagem de Brad Pitt já nasceu velho fisicamente, um idoso-criança, e caminha para infância, onde todo amadurecimento que conseguir acumular terminará inevitavelmente no que deveria ser seu ponto de partida. Ao longo de toda sua trajetória às avessas, como o relógio inaugurado no início do filme, que gira ao contrário, emana a impressão de que Button é sempre o mesmo, como alguém que, por nascer velho, não lhe fosse possível amadurecer. No final dos dois filmes, resta uma criança chamada Forrest Gump vai à escola, porém, já não é o mesmo Forrest, nosso contador de histórias, mas seu filho; e uma criança chamada Button que inevitavelmente irá desaparecer. Enfim, não é uma má história. Leia o conto original de F. Scott Fitzgerald e confirme.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

oficina: A TRILHA SONORA NO CINEMA

PRATO CHEIO DE ARTE (Um encontro de Arte e Cultura, 24/08 A 04/09 - 2009)


oficina: A TRILHA SONORA NO CINEMA



CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:

1.0 Aspectos Gerais da Linguagem Cinematográfica

1.1 Roteiro
1.2 Direção
1.3 Cenografia
1.4 Os planos
1.5 Fotografia
1.6 Montagem


2.0 A Música e a Imagem

2.1 A música no cinema mudo.
2.2 O Cinema depois do advento do som.
2.3 Breve histórico das trilhas sonoras: de Max Steiner aos dias atuais.


3.0 Aspectos Gerais da Trilha Sonora

3.1 A Palavra
3.2 Os “Ruídos”
3.3 A Música


4.0 A Análise e o processo de construção de uma trilha sonora

4.1 Delineamento / Mapeamento de obra
4.2 A Formatação da composição sonora
4.3 A Relação entre estilos musicais e gêneros fílmicos
4.4 As diferentes funções da trilha sonora.
4.5 A aparelhagem técnica necessária.


5.0 Estudo da trilha sonora de alguns filmes.

5.1 A construção sonora do suspense em “Psicose”
5.2 A relação de imagem e som em “E.T, o extraterrestre”.
5.3 A construção poético-musical de “Cinema Paradiso”.
5.4 Música e narrativa em “Cidadão Kane”
5.5 As trilhas sonoras brasileiras: “Abril despedaçado”, “Cidade de Deus”.


6.0 Estudo de importantes compositores do cinema:

6.1 Max Steiner: a música como elemento da narrativa.
6.2 Alfred Newman e Miklós Rosza, Victor Young: a era das grandes orquestras.
6.3 Mancini: o toque jazzístico e pop no cinema.
6.4 Grandes parcerias do discurso fílmico: Herrmann/Hitchcock, Nino Rota/ Fellini, Ennio Morricone/ Sergio Leone, John Willians/ Spielberg.
6.5 Compositores atuais: Danny Elfman, Thomas Newman, Howard Shore, Hans Zimmer, Gustavo Santolalla, Antonio Pinto, James Newton Howard.



DATA: 25 DE AGOSTO A 04 DE SETEMBRO (TERÇAS E QUINTAS, DAS 14:00 h AS 18:00h)


NÚMERO DE VAGAS: 20


INSCRIÇÕES: NO PÓLO ARTE (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ- CCE - PRÓX. A PRAÇA DO BESOURO) ATÉ O DIA 24/08/09.


OBS: INSCRIÇÕES GRATUITAS
CERTIFICADO EMITIDO PELA UFPI


MINISTRANTE: ALFREDO WERNEY (formando em Artes-Música, especialista (nível técnico) em Trilha Sonora para Cinema e TV, pela Escola de Música de Brasília. Participou de vários festivais de música pelo Brasil, dentre eles: I FESTIVAL INTERNACIONAL DE MÚSICA DO CINEMA (Música em Cena, Rio de Janeiro - 2007).

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Antológico livro do renomado fotógrafo piauinese José Medeiros é relançado




Livro do fotógrafo José Medeiros sobre o Candomblé é relançado
extraído de http://correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp?codigo=19320&mdl=50

Ana Cristina Pereira / Redação CORREIO


Foi uma verdadeira aventura. Em 1951, o repórter ArlindoSilva e o fotógrafo José Medeiros foram escalados para vir a Salvador realizar uma tarefa que, mesmo nos dias de hoje, não seria das mais fáceis: fotografar a iniciação das filhas-de-santo no candomblé. O objetivo era produzir uma reportagem especial para a revista O Cruzeiro, à época a publicação de maior prestígio do país. Com uma tiragem de 330 mil exemplares, a revista causou grande repercussão.

Aqui na Bahia, caiu como uma bomba, sobretudo entre adeptos e estudiosos do candomblé, insatisfeitos com o tom sensacionalista da matéria, batizada As noivas dos deuses sanguinários.“Lembro que foi uma reportagem muito agressiva, em todos os sentidos”, afirma o antropólogo baiano Ordep Serra.

Na ocasião, o fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger, que tinha chegado à Bahia havia três anos e iniciava suas pesquisas na cidade, se manifestou temeroso de que o trabalho reforçasse o preconceito que a religião afro sofria na sociedade. Seu conterrâneo, o sociólogo Roger Bastide, outro estudioso das religiõesafro-brasileiras, também engrossou as críticas, mas eximiu o fotógrafo da responsabilidade.

Os dois estudiosos haviam acompanhado a repercussão negativa da reportagem Lées possédées de Bahia (As possuídas da Bahia) publicada no mesmo ano na França na revista Paris Match. A preocupação fazia todo sentido. Não haviamuitos anos, o candomblé era visto como caso de polícia e os templos, para funcionar, tinham de pedir autorização especial. Mesmo com as críticas, o ensaio fotográfico de José Medeiros (1921-1990) foi bastante elogiado, sobretudo pelo ineditismo do registro e pelo impacto das 38 imagens, que mostravam sacrifício de animais e outros detalhes da cerimônia.

Medeiros continuou o trabalho e, em 1957, lançou o livro Candomblé, ampliando para 52 o número de fotografias. Desta vez,cuidou ele mesmo do texto. É justamente este livro que o Instituto Moreira Salles traz de volta às livrarias. A publicação inclui todas as imagens, além das imagens sem corte, captadas diretamente dos negativos, um conjunto de outras 13 fotografiasde Medeiros sobre candomblé e a reprodução, em tamanho menor, das páginas da publicação original.

O livro também traz os textos explicativos de Medeiros, que são bastante objetivos - evitando maiores polêmicas -, acrescidos de notas adicionais do antropólogo Wagner Gonçalves da Silva (USP). “Há alguns anos, tive a oportunidade de fotografar os rituais secretos de iniciação das filhas-de-santo, o que se fez pela primeira vez na história da imprensa brasileira”, anotou Medeiros na primeira edição do trabalho.

Reedição

Mais de cinco décadas depois do lançamento, as fotos de Medeiros conservam a primazia de ter chegado tão próximo nas cerimônias do candomblé. “Este é um importante episódio da fotografia brasileira, por isso resolvemos republicar o trabalho. Na nossa avaliação, neste momento, as fotos, de grande valor antropológico, não prejudicam mais a religião”, afirma Rodrigo Lacerda, responsável pela edição do material. No texto que introduz a obra, Lacerda conta detalhes da produção da reportagem, realizada no Terreiro de Oxóssi, que ficava localizado no subúrbio ferroviário, próximo ao bairro de Plataforma.

A intermediação foi feita por um motorista de táxi de nome Sessenta, que conhecia um pequeno terreiro, no qual três jovens estavam reclusas, preparando-se para o grande dia em que receberiam seus santos, pelas mãos de mãe Riso de Plataforma. “Os jornalistas pagaram pelo direito de assistir e documentar a cerimônia de iniciação, em troca de fornecer ao terreiro osmeios para adquirir os animais a seremsacrificados e os demais elementos necessários ao ritual”, anota.

Como muitos temiam, a repercussão do trabalho acabou atingindo a parte mais fraca. A Federação dos Cultos Afro-Brasileiros impôs sanções a mãe Riso. Além de denunciá-la à polícia, também não reconheceu a iniciação das jovens que participaram do ritual.

Registro de cenas brasileiras

Natural do Piauí, o fotógrafo José Medeiros mudou-se para o Rio de Janeiro em 1939. No ano seguinte, já integrava a equipe da revista O Cruzeiro, importante veículo de renovação do jornalismo brasileiro. Ele atuou por 15 anos na publicação, para a qual fez reportagens na Europa, nos Estados Unidos e na África.

Medeiros se notabilizou pelo registro de várias facetas da vida brasileira. Foi ele, por exemplo, quem fez os primeiros registros de contatos com os índios realizados pelos irmãos Villas-Boas no Xingu e na Serra do Roncador. Quando deixou a revista, o fotógrafo participou da fundação da agência fotográfica Image, pioneira do país.

Ele também teve uma participação importante no cinema nacional, tendo atuado como diretor de fotografia em produções como A falecida (1965), de Leon Hirszman, Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues e Memórias do Cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos. Foi premiado em vários festivais e chegou a dirigir um longa, Parceiros da aventura (1980).

Detentora de todo o acervo fotográfico de Medeiros - que tem um total de 20 mil negativos - o Instituto Moreira Salles começou a apresentar as preciosidades ao público. Além do livro Candomblé, a instituição inaugurou em sua sede, em São Paulo, uma exposição com registros dele feitos entre as décadas de 1940 e 1970.


Autor: José Medeiros
Editora: Instituto Moreira Salles
Preço: R$ 56 (112 páginas)
Vendas pela Internet: www.ims.com.br

(Reportagem publicada na edição impressa do CORREIO, de 20 de fevereiro de 2009)



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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

"já é tempo da alegria girar"



Alegria Girar
Validuaté
[Bumba Records, Brasil, 2009]
Quaresma, Thiago E, Vazin, Júnior, Wagner Costa, John Well

Com diversas letras interessantes, pelo inusitado ou pela ironia certeira, aliadas a um significativo trabalho de arranjo e harmonia, a banda piauiense Validuaté apresenta seu segundo disco, Alegria Girar. A irreverência que caracteriza a banda desde o primeiro trabalho, Pelos Pátios Partidos em Festa (2008), continua rendendo bons frutos, como a ótima “Eu só quero acabar com você”, com sua introdução que parece debochar do lugar-comum da swingueira e sua letra que mais parece uma releitura desconcertante do “Samba do grande amor” do Chico Buarque. O desafio de passear por diversos estilos e manter uma musicalidade coesa, que garanta a identidade musical da banda, ainda não parece superado; mas o Validuaté realizou em Alegria Girar um grande passo rumo à maturidade artística. Um bom indício é que, no quesito “brega’n’roll”, a faixa “Bruta como antigamente”, de autoria de Thiago E., Quaresma e Ricardo Totte, cumpre melhor essa função que a “Eu preciso de você”, cover de Márcio Greyck, apesar do ótimo aproveitamento de “Sentimental”, dos Los Hermanos, como música incidental. Resta agora conseguir desamarrar-se das inevitáveis influências que em alguns momentos parecem soar mais alto que a banda. Trata-se da eterna luta que angustia todo artista consciente de seu papel: a busca de uma voz própria, relevante e reconhecível. Mas é um desafio que estes jovens músicos já se mostram aptos a superar, e até lá, “já é tempo de sair do lugar, já é tempo da alegria girar”. Parabéns, rapazes! A alegria girou!





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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009



O Espaço Cultural São Francisco convida para a abertura da exposição Todas as cores de Teresina, com obras do artista plástico Braga Tepi.

Abertura: 15/08/2009 às 9h
Visitação: 16/08 a 16/09/2009
Segunda a Domingo, de 7h30 às 17h30

Espaço Cultural São Francisco
Rua Lucídio Freitas, 1633 - Mercado do Mafuá
Teresina - Piauí

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O homem de cabeça de papelão

João do Rio


No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.

O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!

Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.

Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.

Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.

Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.

— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.

— Mas não quero ser nada disso.

— Então quer ser vagabundo?

— Quero trabalhar.

— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.

— Eu não acho.

— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.

Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!

Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:

— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...

O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:

— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.

— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?

Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.

No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.

Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.

— É doido, mas bom.

Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.

— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...

— É da tua má cabeça, meu filho.

— Qual?

— A tua cabeça não regula.

— Quem sabe?

Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.

— Só caso se o senhor tomar juízo.

— Mas que chama você juízo?

— Ser como os mais.

— Então você gosta de mim?

— E por isso é que só caso depois.

Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.

Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.

— Traz algum relógio?

— Trago a minha cabeça.

— Ah! Desarranjada?

— Dizem-no, pelo menos.

— Em todo o caso, há tempo?

— Desde que nasci.

— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...

Antenor atalhou:

— E o senhor fica com a minha cabeça?

— Se a deixar.

— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...

— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.

— Regula?

— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.

Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.

Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.

Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.

— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!

Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.

— Há tempos deixei aqui uma cabeça.

— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.

— Ah! fez Antenor.

— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...

— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.

— Mas a minha cabeça?

— Vou buscá-la.

Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.

— Consertou-a?

— Não.

— Então, desarranjo grande?

O homem recuou.

— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.

Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.

— Faça o obséquio de embrulhá-la.

— Não a coloca?

— Não.

— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.

Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.

— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.

— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.

Antenor ficou seco.

— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.

E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.



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João do Rio foi o pseudônimo mais constante de João Paulo Emílio Coelho Barreto, escritor e jornalista carioca, que também usou como disfarce os nomes de Godofredo de Alencar, José Antônio José, Joe, Claude, etc., nada ou quase nada escrevendo e publicando sob o seu próprio nome. Contista, romancista e autor teatral. Escreveu, entre outros livros, "Dentro da Noite", "A Alma Encantadora das Ruas" e "Rosário da Ilusão", que contém o conto "O homem da cabeça de papelão". Nasceu no Rio de Janeiro, em 05 de agosto de 1881, e faleceu também no Rio, em 23 de junho de 1921.