sexta-feira, 31 de julho de 2009

Bem mais que a morte de Lindóia




O Uraguai
Basílio da Gama
[Multiclássicos – Épicos. Organização de Ivan Teixeira. São Paulo, Edusp, Imprensa Oficial, 2008]

Ao louvar o iluminismo do Marquês de Pombal, através da atuação do general Andrada em Sete Povos das Missões, expulsando os jesuítas da região, Basílio da Gama conseguiu moldar belos versos e compor um dos primeiros poemas épicos brasileiros (?) com alguma relevância artística. Equivocadamente interpretado pelos românticos e muitas vezes lembrado tão somente pelo episódio da morte da índia Lindóia, o excelente prefácio de Ivan Teixeira consegue restabelecer o contexto e o interesse pelo poema, livre do sentimento nativista que a leitura romântica por muito tempo deixara de herança na obra deste homem que, embora nascido na terra que dentro em breve seria o Brasil independente, pensava, sentia-se e escrevia como um português, e lido desta maneira, seu O Uraguai torna-se bem mais interessante e coerente.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Literatura Piauiense: Seis proposições sobre o conceito e seus efeitos

Wanderson Lima




1. O conceito de “literatura piauiense”, que emerge por volta da segunda metade do século XIX, não descreve uma realidade ontológica, mas funda uma “formação discursiva”, na acepção de Michel Foucault, que tem, pelo menos, dois objetivos evidentes: compensar o esquecimento dos autores piauienses no quadro da literatura nacional e delegar poder e prestígio àqueles que atuam nesta formação. Assim, não se pode separar a criação deste conceito do quadro de interesses e jogos de poder que marcam nossa sociedade, nossa elite cultural em especial, desde a emergência do conceito, no século XIX, até os dias atuais.

2. O problema é que este conceito, que emergiu a partir de um dado momento histórico, foi naturalizado. Tornou-se um “mito” na acepção de Roland Barthes: uma operação estratégica de naturalização de uma realidade histórica ou, de forma mais sintética, a transformação da História em Natureza. Dessa forma, fala-se de literatura piauiense como se esta noção existisse desde sempre e como se não se pudesse analisar a produção literária de autores do Piauí a partir de outros parâmetros.

3. Quando se diz “literatura piauiense” circunscreve-se uma noção artística (literatura) a uma realidade geográfica (piauiense). Mas arte nenhuma é determinada por fronteiras geográficas; o surrealismo pode ter surgido na França, mas não é uma “arte francesa”. Octavio Paz disse: “O nacionalismo não é só uma aberração moral; é também uma falácia estética”.

4. Falar de “literatura piauiense”, para além do mal-estar que é fundir uma noção estética a uma geográfica, supõe que há uma essência do ethos piauiense que esta literatura deva representar. Onde está esta suposta “piauiensidade”? Não digo, como já ouvi, que o piauiense não tenha uma identidade (o que seria uma aberração), mas esta identidade é mais rica, híbrida e complexa do que comumente se supõe, e não se resume a traços regionalistas (cajuína, bumba-meu-boi, cabeça-de-cuia). O discurso regionalista, em arte e em política, é quase sempre a expressão de um saudosismo conservador, inócuo como plataforma de resistência aos efeitos nocivos da globalização.

5. O que é um autor da literatura piauiense? Creio que há duas respostas básicas para esta pergunta. A primeira, e mais ingênua, seria responder, pura e simplesmente: é um autor que nasceu no Piauí. Neste caso, Hardi Filho e Rubervam du Nascimento simplesmente não fariam parte da literatura piauiense. A segunda seria dizer: é aquele que se ocupa de tradições culturais e questões sociais que dizem respeito ao Piauí. Neste caso, Mário Faustino e qualquer outro poeta meditativo e metafísico não fariam parte do conceito; mais estranho ainda: Elio Ferreira, quando escreve uma obra sobre o massacre de Eldorado de Carajás, passaria, nesta lógica, a fazer parte da literatura paraense. Aqui se desvela um pressuposto repressivo que está na base de um conceito de literatura estadual: reduzir a obra literária a uma dimensão meramente documental; no nosso caso, conceituar literatura piauiense como aquela que “documenta” a realidade do Piauí.

6. Em 1873, Machado de Assis já criticava o “nacionalismo de vocabulário” – que nós adaptaríamos para o “regionalismo de vocabulário” – e se punha contra àqueles que só reconheciam “o espírito nacional nas obras que tratam de assunto local”. Dizia ele: “O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço”. O compromisso do escritor com sua época e sua nação, pensava Machado, não pode ser assimilado à idéia repressora de ter que se limitar à tematização de questões locais e contemporâneas. O afastamento de uma abordagem direta das questões locais pode ser uma estratégia de uma crítica talvez mais refinada aos dilemas daquele local. Como muitas outras sugestões de Machado, esta ainda precisa ser meditada suficientemente, em especial pelos nacionalistas e regionalistas.



Wanderson Lima é professor e escritor.

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terça-feira, 28 de julho de 2009

na glória de tua força perdida na ânsia do herói

[adriano lobão aragão]


na glória de tua força perdida na ânsia do herói
derrotado se constrói a divindade que te louva
levado à mesma forca que sendo erguida se destrói

perdida a força do herói o que em nossa lira se canta
guarda no andor de santa caminho em terra de homens sós
onde em ferro se constrói todo canto que ao fogo espanta

há música e há dança onde uma musa leve se mova
meretriz que se louva quando um herói sem esperança
entrega a própria lança na rude batalha em que morra

entre as marcas e a força do profano e do sagrado
destes heróis armados que uma brisa distante encanta





[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]

domingo, 26 de julho de 2009

Prelúdio para Arco e Flecha



Prelúdio para Arco e Flecha
Virginia Boechat
[Rio de Janeiro, Oficina Raquel, 2008]

Uma das gratas promessas para a poesia brasileira neste início de século, a mineira Virginia Boechat, radicada em São Paulo, estréia com um livro coeso e pungente, repleto de um lirismo desconcertante que remete a grandes poetas lusos, como Sophia de Melo Brayner Andresen; uma de suas influências evidentes. Para as letras brasileiras, diria que é uma vertente necessária e bem-vinda. Destaco, dentre outros, os poemas Quando menos se espera, Tua morte no meu dia, Carta da baía e Eu menti.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A vitória de Mickey Rourke




O Lutador
Darren Aronofsky
[The Wrestler, EUA, 2008]
Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
☆☆☆☆

Nesse típico filme de personagem, o que mais interessa é a surpreendente atuação de Mickey Rourke no papel de Randy “the Ram” Robinson (o Carneiro), um veterano da luta livre que conheceu o estrelato nos anos 80 e agora, no apagar das luzes, vive a angústia do envelhecimento, dos problemas financeiros e de saúde, da solidão, sacrificando o próprio corpo em prol da auto-afirmação. Rourke, galã nos anos 80 (9 ½ Semanas de Amor, O Ano do Dragão, O Selvagem da Motocicleta etc), que amargou a sina de astro decadente, inclusive fisicamente, ressurge como concorrente ao Oscar, provando que ainda pode ser mais que o brutamontes Marv, seu eficiente papel em Sin City. Resta saber se é esse o seu limite como ator, em que tantas semelhanças poderiam ser enumeradas entre Randy e Rourke.

Em seu video-game, há o jogo personalizado de Randy “the Ram”; no seu carro, há o boneco de Randy “the Ram”; ícones que ele insiste em tentar passar para novas gerações. E numa cena antológica, vemos o Carneiro entrando no ringue para sua última luta, ao som do Sweet Child O’mine, dos Guns’n’Roses, em um êxtase de redenção como se, naquele momento, lhe fosse possível estar de volta aos anos 80. Mas Randy vive de um passado de glórias soterradas pelo tempo, e, fora dos ringues, não encontra seu lugar no mundo. E há o balcão de frios de um supermercado, onde amargaria seus dias de aposentadoria das lutas, do estrelato, lugar onde não mais deveria ser reconhecido.

O objetivo da câmera é seguir os passos de Randy, num tom quase que documental, e o faz com boa desenvoltura. Entretanto, o roteiro não consegue afastar-se dos clichês de sempre: a conturbada relação com a filha, a possibilidade de um relacionamento amoroso com uma striper que tem um filhinho (outra boa atuação, agora por conta de Marisa Tomei, também indicada ao Oscar), o comovente, mas desnecessário, discurso antes da última luta, e até um amiginho pré-adolescente entra em cena para jogar video-game com Randy. Mas o problema é que, assim como a típica luta livre estadunidense, os acontecimentos trabalhados no roteiro parecem golpes acertados previamente, num jogo de causas e consequências que, embora interessante, não parece fugir do óbvio, e para essa luta de Randy contra o destino que ele mesmo construiu transformar-se em uma obra genial (e não apenas um bom filme) era preciso mais que a tradicional coreografia das telas e dos ringues.
[adriano lobão aragão - 21/07/09]


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quarta-feira, 22 de julho de 2009

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Jacques-Alain Miller falando de Jorge Luis Borges e Jacques Lacan

"(...)

Tive o privilégio, na semana última, de ouvir Borges durante duas horas em sua casa. Não posso dizer se me escutava, mas tive o cuidado de não lhe fazer perguntas sobre psicanálise, pois não a tem em grande conta. De qualquer modo, seu conhecimento sobre a matéria é anterior à cegueira e não contém referência à obra do dr. Lacan, que, com certeza, desconhece. Indaguei de sua relação com a literatura francesa, ao que respondeu de bom grado, e, devo concordar, haver nexo entre minhas perguntas e suas opiniões; conquanto ele, visivelmente, não soubesse a situação do outro para ouvi-lo. É coisa difícil para um cego! Mas ele não se importa: parece que quando o diálogo se processa razoavelmente bem, tem gosto em falar indefinidamente. Cantou um tango, recitou versos de Mallarmé, que aliás acha de mau gosto, teve uma palavra maldosa para Joyce, falou de sua família. É o que Lacan denomina o discurso corrente: os interlocutores se revezam, dando-lhe ocasião de desafiar o que se apresenta como uma espécie de discurso interior, cujo ouvinte é sempre o mesmo, pois é difícil de individualizar a presença que lhe trazem, não tendo ele oportunidade senão de repetir sempre o mesmo discurso.

Às vezes, Lacan dizia: 'Todos monologam'. É o que o mal-entendido contém, que, definitivamente, todos monologam. Só na psicanálise, devido à maneira como se apresenta o outro, há uma pequena chance de monologar de outro modo, para ser prudente e não incensar a operação, no caso vertiginosa.

Geralmente, a pessoa é compreendida já antes de começar a falar, e aí está o mal-entendido, a pré-compreensão.

Carrego um certo número de significantes, graças aos quais se pode isolar minha pessoa; isso posto, é aguardar que eu corresponda à minha reputação, não importando se lisonjeira, como apregoada por meu amigo Forbes, ou terrificante. Esperar que eu me comporte conforme o pressuposto, já comprova o imediato mal-entendido. Devo dizer também que o local é determinante, por isso aprecio este lugar retirado, onde podemos respirar livremente.

Será que Lacan não chegou ao Brasil como parte integrante de cultura francesa dos anos 60? Ele foi propelido à notoriedade internacional no memento em que a influência do sartrismo, na França, se debilitava, e os estruturalistas passaram à primeira fila. Assim, fizeram um trem, colocaram Lacan dentro e o mandaram viajar, espalhando-se por boa parte do planeta, nas regiões onde se deixam espalhar as coisas.

Tudo era de imediato pré-compreendido e Lacan junto com tudo. Começa-se, porém, a perceber que seu caso é diferente, pois o interesse por ele perdura há algum tempo e, justamente, em relação ao mal-entendido. (...)"



[in Miller, Jacques-Alain. Lacan Elucidado, palestras no Brasil. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1997. p. 21-22]



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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Breve antologia de Cláudio Manuel da Costa

__Cláudio Manuel da Costa em desenho de Adriano Lobão Aragão




Cláudio Manuel da Costa
nasceu em Vargem do Itacolomi, perto da cidade de Mariana, em 1729. Cursou a Faculdade de Direito Canônico, em Coimbra. Foi juiz das demarcações das sesmarias de Vila Rica até 1773. Envolveu-se na Conjuração Mineira, foi preso em 1789 por reunir os conjurados da Inconfidência Mineira, e encontrado morto em sua cela na Prisão da Casa de Contos.


SONETOS

I

Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:

Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.

Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino:

O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.




VII

Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado
E em contemplá-lo, tímido, esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado;
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era;
Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Meus males, com que tudo degenera!




XIV

Quem deixa o trato pastoril, amado,
Pela ingrata, civil correspondência,
Ou desconhece o rosto da violência,
Ou do retiro a paz não tem provado.

Que bem é ver nos campos, trasladado
No gênio do Pastor, o da inocência!
E que mal é no trato, e na aparência
Ver sempre o cortesão dissimulado!

Ali respira Amor sinceridade;
Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um só trata a mentira, outro a verdade.

Ali não há fortuna que soçobre;
Aqui quanto se observa é variedade:
Oh! ventura do rico! oh! bem do pobre!




XXVIII

Faz a imaginação de um bem amado,
Que nele se transforme o peito amante;
Daqui vem, que a minha alma delirante
Se não distingue já do meu cuidado.

Nesta doce loucura arrebatado
Anarda cuido ver, bem que distante;
Mas ao passo, que a busco neste instante
Me vejo no meu mal desenganado.

Pois se Anarda em mim vive, e eu nela vivo,
E por força da idéia me converto
Na bela causa de meu fogo ativo;

Como nas tristes lágrimas, que verto,
Ao querer contrastar seu gênio esquivo,
Tão longe dela estou, e estou tão perto.




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terça-feira, 14 de julho de 2009

Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo

"Mas sobre todas as invenções estupendas, que eminência de mente foi aquela de quem imaginou encontrar modo de comunicar seus próprios pensamentos mais recônditos a qualquer outra pessoa, mesmo que distante por enorme intervalo de lugar e de tempo? falar com aqueles que estão na Índia, falar com aqueles que ainda não nasceram e só nascerão dentro de mil ou 10 mil anos? e com que facilidade? Com as várias junções de vinte pequenos caracteres num pedaço de papel. Seja este o segredo de todas as admiráveis invenções humanas."

Galileu Galilei, Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo





[in Italo Calvino, Por que ler os clássicos. Companhia das Letras, 1993, trad. Nilson Moulin, p 91-92]



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domingo, 12 de julho de 2009

A obra móbil de Joaquim Cardozo




A OBRA MÓBIL DE JOAQUIM CARDOZO
por Manoel Ricardo de Lima
Caderno Idéias, Jornal do Brasil, 11.07.2009


Foi publicado recentemente pela Nova Aguilar, numa parceria com a editora Massangana, na conhecida Série Brasileira da Biblioteca Luso-Brasileira, o volume intitulado Poesia completa e prosa de Joaquim Cardozo. Um volume que aparece cercado por algumas discussões acerca dos créditos de organização, e que devem ser estendidas até o que aparece e não aparece no livro como indicação e lacuna, como serviço e falta etc. É fato que este volume cumpre um bom lugar de acesso, principalmente para a poesia e alguns textos esparsos sobre arte e arquitetura de Joaquim Cardozo, mas é fato também que, ao mesmo tempo, abre motivos de alerta para outras questões ausentes do seu trabalho aberto e amplo.

O começo da conversa toda está numa carta de João Cabral de Melo Neto para Clarice Lispector, datada de 08/12/1948, quando pede a ela que lhe ceda seu Coro de anjos para edição na Livro Inconsútil (aqueles pequenos livros que Cabral fazia em prensa manual). E avisa que vai enviar a ela a Antologia pernambucana que fez com poemas de Joaquim Cardozo. Diz: “Conhece V. a poesia de Cardozo? Soube que publicaram há pouco, no Rio, suas poesias completas, arrancadas do autor, que nunca publicara livro, e baseadas em textos 'fixados e estabelecidos' pelo poeta e por mim, quando estava no Rio (o poeta não tinha cópia de nenhum poema; e assim, meu trabalho foi: pedir aos amigos as versões que possuíam e submetê-las à memória do poeta que as corrigisse). Pois desses textos, num momento de añoranza da luz recifense, escolhi os mais diretamente pernambucanos e organizei-os numa antologia que tenho estado imprimindo. O próprio Cardozo não sabe de nada , nem da estrutura que dei ao livro (um tanto especial) nem do próprio livro. A ver se lhe agradará”.

O desejo de João Cabral em editar a poesia e todo o trabalho do também pernambucano Joaquim Cardozo tem a ver, diretamente, primeiro com a importância que atribuía a ele e depois como pauta do pensamento sofisticado e silencioso deste engenheiro calculista, poeta, dramaturgo, crítico de arte, de poesia e de arquitetura. Pensamento marcado por uma linha de variantes intensa que pode fazer o caráter institucionalizado e hierárquico das leituras já cumpridas do modernismo brasileiro se mover para outro lugar, mais longe e mais pantanoso, como o do esquecimento e o do deserto.

Num desvio de propósito, uma espécie de baixa sedução (seguindo Bataille), Joaquim Cardozo ajustava sua postura política a um gesto radical entre modesto e lúcido, como disse dele Oscar Niemeyer na Módulo, de 1961: “... o trato ameno e simples do homem inteligente – Cardozo é o brasileiro mais culto que conheço – incapaz de impor uma opinião com a intransigência das coisas irrefutáveis, apresentando-as sempre como sugestões pessoais, que julga justas e convenientes”. E acrescenta: “O homem simples que se situa, modesto e lúcido, diante do mundo transitório em que vivemos (...)”. Cabral sabia disso, por isso também manteve o desejo de publicação de uma espécie de obra completa de Cardozo até bem perto de morrer.

Este livro agora é, um pouco, o resultado disso. Os desdobramentos da preparação, do resultado e do projeto que ele parece traçar é que vêm carregados de alguns problemas. Tanto é que no dia 17 de junho deste ano, no Diário de Pernambuco, em matéria assinada por Thiago Correa, dá-se a ver uma teia conflituosa acerca da edição do livro, da organização e, principalmente, de algumas coisas que parecem muito localizadas.

Mas o dado é que em 2005, quando estive em Recife para recolher material de pesquisa sobre Joaquim Cardozo, encontrei Maria da Paz Ribeiro Dantas (pesquisadora e autora de três livros sobre o trabalho dele como poeta) e Everardo Norões (poeta que, naquele momento, concentrava esforços na organização deste volume). Morto João Cabral, a tarefa de organizar uma espécie de obra completa de Joaquim Cardozo caberia, num primeiro plano de ação, a Maria da Paz, tendo em vista a sua tarefa crítica cumprida até agora. Mas, ao mesmo tempo, a partir do esmero com que Everardo Norões cuidava do material recolhido entre várias pessoas, de Geraldo Santana a Paulo Brusky, da própria Maria da Paz a César Leal entre outros, a edição estava em boas mãos. A questão é que o livro saiu como se não houvesse um organizador. O mínimo que se pode fazer como compromisso é, quando há um, dar-lhe o devido crédito. Ainda mais quando dentro do livro há um texto que lembra que há organizador: “Como podemos constatar neste livro, organizado pelo poeta e crítico Everardo Norões.”, diz Marco Lucchesi na apresentação da poesia de Joaquim Cardozo.

Depois, toda a parte do teatro de Joaquim Cardozo (seis peças) foi retirada do volume – porque constava dele antes – descolando uma importância fundamental à construção de seu pensamento e de sua poética (que é por onde arma o seu procedimento, dos poemas às peças, da crítica ao relato etc). Isto também terminou por reorientar o título do livro e o livro, não mais obra completa, mas poesia. Com isso perdeu-se também o rigor minucioso do texto de João Denys Araújo feito para este volume. João Denys que já apresentara o teatro de Joaquim na pequena e charmosa edição de 2001 feita pela Fundação de Cultura Cidade do Recife em cinco volumes. Ainda, a parte relativa aos contos, ou relatos (textos muito mais próximos do testemunho, do comentário ou da anotação íntima e que não foram publicados em livro, mesmo que Joaquim idealizasse um conjunto), fixos assim apenas como contos podem incorrer no desajuste com a imprecisão ou com a necessidade conservadora de institucionalizar o impreciso ou de facilitar a linha mais tensa de um procedimento. Isto comparece numa solicitação, a de dar um lugar ao trabalho de Joaquim Cardozo. Lugar que ele mesmo preferiu marcar como “participação ausente”, para lembrar a expressão precisa que Carlos Drummond de Andrade usa no prefácio ao primeiro livro de poemas de Joaquim, em 1947. Tanto é que o primeiro texto de Joaquim Cardozo, “Astronomia Alegre”, publicado em 1913, um relato inacabado e fundamental p ara a compreensão de sua “luta cósmica” também não consta do volume.

Assim, do índice econômico até o desenho solicitante que atravessa alguns textos do livro, como o de “integrar” Joaquim Cardozo ao cânone do modernismo brasileiro, como o de reclamar uma atenção crítica que até então lhe foi ingrata ou um parentesco antecipador do concretismo etc, parecem remeter a um sintoma da necessidade de construção de um monumento. E Robert Musil nos lembra o descabido dessa condição, ao dizer que “não há nada no mundo tão invisível quanto os monumentos”. O trabalho de Joaquim Cardozo é um móbil incessante, tanto que ao lê-lo nessa clave comum de solicitação para o monumento se pode perder de vista alguma saída possível, alguma disposição para sair dessa mediocridade imperativa que tem assolado este tempo agora, este “tempo de alarme”. Ele mesmo disse: “Ninguém se lembrou que o silêncio pode ser uma energia ainda desconhecida e que sua concentração pode, ou se abafar inteiramente, ou explodir; (...). Ou mesmo, quem sabe, fora a própria materialização do silêncio. Se não a explosão, a implosão do silêncio.”




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Manoel Ricardo de Lima é escritor e professor de literatura. Autor de Quando todos os acidentes acontecem (7Letras), entre outros. Bolsista de Pos-Doc, CNPq, com pesquisa a partir de Joaquim Cardozo e Mário Faustino.



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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Breve antologia de Wanderson Lima





Wanderson Lima nasceu em Valença do Piauí em outubro de 1975. Poeta e professor. Publicou "Escola de Ícaro – O Exercício Necessário da Queda", "Morfologia da Noite", "Balé de Pedras" (poemas) e "Reencantamento do Mundo - notas sobre cinema" (ensaios, com Alfredo Werney).
Edita os blogs kairos e chronos e o site desenredos.



INVOCAÇÃO

ò manhã-museu,
tempo de tantas fezes,
quantas vezes
anseio ser muro –

e murmuro!



[in Balé de Pedras, 2005]

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tigre nu, rei devorado –
rimas e ruínas a reinar
no mar da linguagem.

tigre nu, rei devorado –
campânulas plantadas
na luz do nome.

tigre nu, rei devorado –
chicote sujo de arenga
limpo com chuva de lâminas.

tigre nu, rei devorado –
o medo se fará nuvem,
o verbo se fará carne.



[in Balé de Pedras, 2005]

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BORGES SALVOU-ME A PELE

O volume I
das Obras Completas
de Jorge Luís Borges
salvou-me a pele.

Foi assim:
na vereda que se bifurca,
o cachorro, encarniçado,
vinha em fúria
e queria a minha perna.
Arrancar a minha perna.

Não havia ao chão
pau, pedra ou cacete.
Nada no chão havia.

Atirei, então,
o grosso volume
na fuça do bicho.
Bem na fuça
do cérbero.

O desgraçado de dor gemia.
E enquanto gemia
de novo apanhei
o grosso volume
e por três vezes
amassei-lhe a fuça
e por três vezes
grunhiu o bicho.

Quando se calou
e ficou gemendo só
colhi o livro
de sangue sujo
e segui –
a vera estrada segui.

Borges agora sujo estava de vida.
E eu descobri
as múltiplas funções
das belas letras.



[in Película, inédito]

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ANDRE BRETON PRECISOU DE ASPIRINA


Ele, o que semeou
Iluminações profanas –
Ele, o que felou
na teta do primo verbo –

Ele
– o filho de um guarda-chuva
e uma máquina de costura –
precisou de aspirina.

ANDRE BRETON PRECISOU DE ASPIRINA.

Não houve xamã
Nem totem asteca
Nem chá da Amazônia –

Praquela dorzinha
tomou aspirina
aquele que soltou
os galgos do Dr.
Sigmund Freud.


[in Película, inédito]



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terça-feira, 7 de julho de 2009

os blocos os sujos

[adriano lobão aragão]



e todos sabiam que ali estavam todos sujos
do que de sua alegria era possível conceder

e todos sabiam que era apenas carnaval aquele cortejo trôpego
desfeito de fantasia e ilusão





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domingo, 5 de julho de 2009

nem úmido nem líquido falar

[adriano lobão aragão]



nem úmido nem líquido falar
quando ao banho de passarinho olhamos
se de areia se faz sua água e seu molhar
mas ainda assim se seca em seco banho

nem úmido nem líquido falamos
quando ao banho de passarinho olhar
se de areia faz a água de seu banho
mas ainda em seco seca o seu molhar




[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra, 2005]

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quinta-feira, 2 de julho de 2009

dEsEnrEdoS - número 1





www.desenredos.com.br

Depois de um número experimental, em que se reeditou antigos textos saídos em amálgama, dEsEnrEdoS tem sua estréia definitiva. A linha editorial permanece aberta e plural, primando, sobretudo, pela qualidade dos trabalhos. São textos, os que aqui se encontram, de variados temas e linhas teóricas. Como se propôs no editorial da número zero, dEsEnrEdoS se encaminha, preferencialmente, para o debate que envolve as artes e as ciências humanas, com preferência para temas que envolvam literatura e cinema. O leitor terá aqui essa confirmação através de textos de gêneros variados – artigos, ensaios, resenhas – abordando temas e obras ligados a cinema, poesia, romance, ópera e canção. Pode também conferir, nas sessões destinadas à criação artística, poemas de poetas de diversas latitudes e tendências, contos e fotografias de uma insólita viagem. Some-se a isto traduções de textos de Jorge Luis Borges e Michel Deguy. Por fim, não se pode deixar de citar com orgulho a entrevista inédita com Ismail Xavier, um dos grandes críticos de cinema da atualidade. Enfim, um início animador para uma revista que espera, com muito trabalho, contribuir para o crescimento cultural do país.



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