domingo, 28 de junho de 2009

a partir de Estrelas de Murilo Mendes

Murilo Mendes, por Guignard





a partir de Estrelas de Murilo Mendes
[adriano lobão aragão]


Há Murilo Monteiro, Monteiro Mendes, Murilo Mendes.
Há Murilo-peixe, Murilo-piano, Murilo-menino,
Murilo-voador, Murilo-flor, Murilo-sabiá,
Há Murilo que vem, que ouve,
Outros que fazem poesia.
Há muito mais Murilo que máquinas, burgueses e operários:
Quase que só há Murilo.



[in Yone de Safo, 2007]


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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Breve antologia de Alda Lara




Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu em Benguela, Angola, 09 junho de 1930. Foi casada com o escritor Orlando Albuquerque. Viveu em Portugal desde a adolescência, onde frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Faleceu em Cambambe, Angola, em 30 de janeiro de 1962. Sua obra completa tem sido organizada e editada por Orlando Albuquerque.


Curiosamente, ao ler As Belas Meninas Pardas e Testamento, é a poesia de Cecília Meireles que me vem aos ouvidos. A segunda estrofe do primeiro poema evoca Motivo e todo o conjunto me transporta ao Romanceiro da Inconfidência. O poema Rumo me remete ora ao Antero de Quental das Odes Modernas, ora ao Fernando Pessoa de Mensagem, sobretudo o último poema da seção O Encoberto. Interessante ouvir essas possíveis reminiscências de uma brasileira e dois portugueses pulsando nos versos de uma poeta africana, que a mim insinuam que é possível darmos as mãos.






As Belas Meninas Pardas


As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos dos dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trabajadas.
Direitinhas. Aprumdas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?... , outros mundo?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...


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Testamento


À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhamdo algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...


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Rumo

É tempo, companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos, companheiro ...
É tempo!

Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!

Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...
É tempo, companheiro!
Caminhemos...





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sábado, 20 de junho de 2009

Notas de passagem

(notas sobre poesia)
Alfredo Werney



Drummond é um poeta cuja obra se nos mostra em constante modulação. A cada livro que lemos deste poeta sentimos que ali pulsa uma veia irrequieta. Uma veia que busca incessantemente descobrir coisas novas. Cecília é uma poetisa que se nos mostra a mesma em cada experiência poética: versos redondos, fluentes, sonoros, sugestivos e extremamente bem construídos. É possível encontrar um verso mal feito na obra de Drummond, na de Cecília não. Por este motivo prefiro Drummond. A perfeição é enfadonha...


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É perfeitamente possível se elaborar uma poesia ao mesmo tempo hermética, rigorosa em seus aspectos formais e, paradoxalmente, extremamente comunicativa e de forte apelo oral. Mas, no que se refere à moderna poesia brasileira, só João Cabral conseguiu...


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Da primeira vez que li “I-Juca Pirama” fiquei surpreso com o efeito que o texto me causara. Eu percebi que não está apenas lendo sobre uma batalha entre índios, mas efetivamente estava no meio dela... Ouvia tambores, gritos, ruídos, sussurros... Gonçalves Dias me ensinou que na poesia a palavra não fala sobre as coisas: as palavras são as próprias coisas...


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Ezra Pound nos disse, imbuído de razão, que a poesia empobrece na medida em que se afasta da música. Estive pensado no caso da poesia concreta que se afastou da arte dos sons e se aproximou das artes plásticas. A meu ver, o resultado não foi dos melhores: a poesia perdeu sua força oral e não conseguiu atingir a força imagética da pintura e da escultura...


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Quando leio um poeta eu procuro sempre observar as imagens criadas por ele, a combinação dos sons das palavras, as idéias expostas, a beleza das metáforas, etc. Quando leio Octávio Paz e Alberto Caeiro não consigo pensar em nada disso. Simplesmente sou arrastado para o mundo que eles criam. Parece ser uma poesia que não passa pelo pensamento, ela atinge diretamente a nossa epiderme. Penso que esses é que realmente são os poetas natos...

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Dizem alguns poetas que a poesia é um ofício rotineiro, que exige muito mais "expiração" do que "inspiração". Eu continuo acreditando que há diferença entre um pedreiro e um poeta: o primeiro constrói o que já está foi previamente criado por um arquiteto, o segundo inventa seu próprio mundo para posteriormente construí-lo. Para construir não é necessário ter muita inspiração, mas para inventar sim...


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Por detrás do rótulo de “moderno” e “contemporâneo”, se escondem muitos poetas medíocres. Propõem a destruição do verso, quando, na verdade, ainda não aprenderam a fazê-lo. Um soneto de Camões pode ser pode ser muito mais contemporâneo do que um risco numa página (que muitos dizem ser um poema).


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Ser um poeta é um ofício muito difícil: tem que dominar a língua, descobrir imagens pouco usuais, preocupar-se com a sonoridade de cada palavra, criar belas metáforas, idéias interessantes, etc. Porém, há um caminho mais simples hoje em dia: tirar uma foto com uma biblioteca ao fundo, escrever “poemas” elogiando as belezas de sua terra natal e mandar para as fundações culturais publicarem. Esses são a maior parte de nossos “poetas” atuais...

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Muitos consideram Caetano e Chico como mero letristas de música popular. Jamais serão poetas! - asseveram alguns intelectuais. Porém, nunca vi ninguém questionar se Thiago de Melo e Florbela Espanca são realmente poetas. Se Chico e Caetano lançassem livros de poemas em vez de discos, seriam bons poetas... Por outro lado se Thiago e Florbela lançassem discos de música popular em vez de livros, seriam letristas. E letristas medianos, diga-se de passagem...


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O mundo de Mário Quintana é onde habitam as coisas miúdas, pequenas, tímidas. O mundo de Jorge de Lima é onde habitam as coisas grandes, eloqüentes, as vozes profundas e graves da nossa alma. Diante de Quintana nos sentimos grandes, pois temos a impressão de que a poesia é algo simples (que brota do nada) e que qualquer um pode ser poeta. Diante de Jorge de Lima nos sentimos pequenos, somos esmagados pela força sonoro-visual-espiritual de sua palavra. A poesia nos parece algo inatingível...


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Se Mário Quintana fosse músico seria um Debussy: leves sensações em vez de tensões fortes, sutilezas timbrícas, frases sugestivas, texturas sem peso... Jorge de Lima estaria mais para Wagner: tensões que geram tensões, texturas densas, frases cromáticas de forte teor dramático...


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Manuel Bandeira é talvez o mais musical de nossos poetas. Sua poesia possui uma espécie de musicalidade subtendida, como dissera certa vez um crítico literário. Bandeira não se conforma simplesmente em construir um verso com dezenas de assonâncias e de aliterações – que muitas vezes são apenas ornamentos gratuitos. Bandeira saboreia a cor sonora de cada vogal, tateia a textura de cada palavra, experimenta o ruído de cada consoante e dá alma às palavras através do ritmo...

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Da Costa e Silva, em seus “Poemas da fauna”, demonstrou um imenso virtuosismo poético. E de fato este poeta piauiense é o nosso versejador mais virtuoso. Porém, nos “poemas da fauna”, ele extravasou: trocou a poesia pelo puro artesanato do verso. A técnica se esgotou em si mesma...




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terça-feira, 16 de junho de 2009

Breve antologia de Da Costa e Silva




Antônio Francisco da Costa e Silva nasceu em Amarante, no Piauí, em 29 de novembro de 1885. Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda e jornalista. Faleceu em 29 de junho de 1950.



O primeiro livro de Da Costa e Silva, Sangue, é uma obra de evidente ortodoxia simbolista. Pelos temas, pelo vocabulário, pelas imagens, pela construção dos versos e pela musicalidade. Mas já revelava um poeta de dicção própria, personalíssima. Sem afastar-se dos cânones da escola, tal como difundida no Brasil por Cruz e Sousa, predomina em Sangue – escrito entre 1902 e 1908 – uma linguagem luminosa, arrebatadora e forte de um poeta que não esconde a sua sensualidade nem o sentimento diante da vida.
Alberto da Costa e Silva


Ao lado de Augusto dos Anjos, Da Costa e Silva faz uma figura de quase clássico, faz francamente uma figura de vocação harmônica... Isso se deve, em grande parte, às qualidades específicas da música com que soube vestir as imagens percucientes que caracterizam tanto seus poemas. Sua musicalidade se situa à altura de Alphonsus de Guimaraens e faz dele como que o primeiro representante da nossa última geração simbolista, coisa que ele foi tanto cronologicamente quanto possivelmente de um critério de valor.
José Guilherme Merquior





Deusa Pagã

Casto Esplendor da Carne, quando assomas,
Na deslumbrante perfeição que trazes
No corpo excelso, bamboleando as pomas,
Sinto volúpias cálidas, audazes...

Coloco-te nas fúlgidas redomas
Do Verso, e no turíbulo das frases
Queimo-te o incenso de florais aromas:
– Cravos, magnólias, trevos e lilases.

Na doce extrema-unção do Sensualismo,
És tu a Fé suprema em que me abismo
Na comunhão profana dos Desejos...

Nossa Senhora eterna do Pecado,
Salve o teu vulto, angélico, sagrado,
Na peanha de fogo dos meus beijos!

[in Sangue, 1908]

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Visões da Morte

Almas tristes, sinistras e angustiadas,
Almas sombrias dos desiludidos,
Dos seres para sempre adormecidos
Na poeira azul das eras apagadas.

Almas doudas de amor, martirizadas,
Almas errantes dos incompreendidos
Que hoje descansam frios, envolvidos
No sudário das noites desoladas.

Castas filhas do Medo e do Mistério,
Duendes tremendos do Pavor, medonhos
Espectros que vagais no cemitério...

Quão semelhantes sois, mudos, tristonhos,
Nesse cortejo lúgubre e funéreo,
À Procissão de Passos dos meus sonhos!

[in Sangue, 1908]

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Rosa Mística

Primavera floral das primaveras,
Dos astros, dos rosais, dos passarinhos...
Alegria do verde dos caminhos
Florindo em lianas, fecundando as heras...

Do azul radioso das azuis esferas
Bênçãos de sóis, de orvalhos e carinhos,
Que a nudez solitária das taperas
Enchem de luz e cânticos e ninhos...

À vida, Íris do Amor e da Ventura,
Branca aleluia da Suprema Altura,
Primavera de pompas e de flores...

Maio! Sorri Nossa Senhora pelas
Torres altas e claras das Estrelas,
Braços abertos para os Pecadores...

[in Sangue, 1908]




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domingo, 14 de junho de 2009

Breve antologia de Lêdo Ivo






LÊDO IVO

(Maceió, 18 de fevereiro de 1924)
Jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta
- biografia


As Iluminações


Desabo em ti como um bando de pássaros.

E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.

Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsálício.

Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.

(in Um Brasileiro em Paris, 1955)

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Primeira Lição

Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler

Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar

E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes

Um dia no muro
Ivo viu o mundo
a lição da plebe

E aprendeu a ver
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?

Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo

(in Estação Central, 1964)

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Os Morcegos

Os morcegos se escondem entre as cornijas
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?

A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.

Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?

No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.

Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oito irmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.

(in Finisterra, 1972)

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Os Pobres na Estação Rodoviária

Os pobres viajam. Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida na névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão que
tapa o nariz dos mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências, não sabem
portar-se em público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma eles vão e vêm, saltam e seguram
malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidos nos guichês, sussurram
palavras misteriosas
e contemplam as capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida.
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê que doem
na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos
lugares mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.

(in A Noite Misteriosa, 1982)




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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Literatura piauiense - quo vadis?

APORIAS DO CONCEITO DE LITERATURA PIAUIENSE
[por Wanderson Lima]


“Se não existe literatura paulista, gaúcha ou pernambucana” – diz-nos Antonio Candido – “há sem dúvida uma literatura brasileira manifestando-se de modo diferente nos diferentes Estados”. No Piauí, não se foge à regra: há certas recorrências estilísticas, certas continuidades temáticas que, se não nos são exclusivas, não estão espalhadas nos quatro cantos.

Mas Candido, sempre cauteloso, não afirma que essa diferença com que a literatura se apresenta em diferentes Estados gere sistemas literários autotélicos. Pensar em estéticas nacionais e regionais é um equívoco do qual Candido não partilha; em seu sistema, à absorção de uma nova estética preside um processo dialético que conjuga questões locais aos princípios daquela estética. Assim, o romantismo brasileiro não é igual ao francês, ainda que se inspire nele; por outro lado, uma vez que se trata de um processo dialético, o fato de os autores brasileiros redimensionarem temas e padrões românticos para fazê-los falar sobre nossa realidade não indica que o romantismo brasileiro constitua uma estética nacional. Em última instância, portanto, se falarmos em literatura regional, a peculiaridade desta seria de natureza temática, jamais estética: assim, só a literatura piauiense se empenharia em ficcionalizar o que se convencionou chamar – passe a palavra! – piauiensidade, isto é, um conjunto de traços construídos coletivamente através de variadas práticas culturais, assumidas sob o rótulo de identidade cultural piauiense.

A noção de literatura regional, portanto, tem de partir da concepção da literatura como expressão do espírito de um povo ou de um local – concepção justa, mais propensas a exagerações. Adotando este ponto de vista, consideramos que na literatura piauiense está contida a “alma” do povo piauiense. A literatura aqui é espelho em que o povo se constrói e se mira; é documento dos mais valiosos, porque está nele o que um povo pensa de si.

Dentro dessa perspectiva, a literatura abre um flanco de pertencimento fundamental na constituição de uma identidade cultural. Nela mergulhamos para nos sentirmos enraizados, para sentirmos que não vogamos à toa e sem face. As obras emprenham nosso imaginário e vão engendrando narrativas que nos orientam, e mesmo nos coagem, a assumirmo-nos como filhos dessa ou daquela terra. Porém, quando se mira, obsessivamente, esta capacidade produtiva do discurso literário e fixa-se como mister deste o produzir/refletir o ethos de uma coletividade, está-se restringindo a ação dos autores (“só poderás escrever sobre tua aldeia”) e o arco de temas da literatura (“a literatura deve tratar de temas locais”). É neste ponto em que o belo espelho torna-se cárcere.

Vejamos, como exemplo, o que seria literatura piauiense segundo um crítico abalizado, Herculano de Moraes: “Literatura Piauiense é o conjunto ou acervo de obras literárias registradoras das emoções, das paisagens geofísicas, humanas e sociais, de memória e do comportamento do povo do Piauí”.

Não é preciso muito esforço para se desmontar tal conceito, já que ele contempla, basicamente, uma literatura de cunho regionalista. Seguindo-o à risca, Elio Ferreira deixaria de pertencer à literatura piauiense no momento em que escreve um poema sobre o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no Pará: tornar-se-ia um autor da literatura... paraense. O próprio Herculano Moraes põe em crise aquele conceito ao inserir em seu escopo Mário Faustino (p. 133 – 138, tomo II). Mas teria o crítico outra saída? Deixaria de fora de sua Visão Histórica da Literatura Piauiense Faustino e os demais escritores que não exploram temas locais nem se valem de vocábulos regionais? Tomaria mesquinhamente como um critério basilar o local de nascimento do autor e, dessa forma, excluiria de seu livro, entre outros, Hardi Filho e Rubervam du Nascimento?

A aporia em que Moraes se imiscui – de forma alguma um privilégio privado – é sintomática. Quando nos aproximamos da noção de literatura regional – e mesmo de literatura nacional – bordejamos perigosamente essa via. O patriotismo, disse Octavio Paz, não é apenas uma aberração moral – é também uma falácia estética. Quando digo literatura piauiense trago para o campo artístico uma noção geopolítica e histórica. O problema é que é impensável conter um grande autor nas bordas de uma literatura regional. Mário Faustino tem mais que ver com o inglês Dylan Thomas do que com Da Costa e Silva. Assis Brasil tem mais afinidade com o americano William Faulkner do que com Fontes Ibiapina. H. Dobal se afina mais com o irlandês W. B. Yates do que com Martins Napoleão. O.G. Rego deve mais o seu talento a certa tendência da romancística francesa – Sthendal, Flaubert, Proust – do que a um Abdias Neves. Os exemplos poderiam se multiplicar ad naseum como comprovação de que é redutor ler autores exclusivamente pela pauta da noção de literatura regional. A narrativa das continuidades que as histórias da literatura de diversos Estados forjam estão fadadas à incompletude ao fracasso, pois o "espaço" literário não coincide com o espaço geográfico. Um prova cabal disso é o modo radical como Allan Poe mudou os caminhos da poesia francesa.

Não nos enganemos, porém: esse reducionismo que está no bojo da noção de literatura regional é demasiado evidente para deixar de ser reconhecido. Mas por que, mesmo apesar disso, continua a se falar sobre literatura regional? Eis uma pergunta complexa a que, neste espaço, só posso dar respostas provisórias.

Três motivos podem servir de resposta à indagação. Primeiramente, a necessidade de produzir zonas de pertencimento, isto é, de forjar identidades. Nesta perspectiva, a literatura piauiense responde à necessidade de se produzir uma identidade cultural piauiense. Em segundo lugar, as literaturas regionais resultam da experiência da margem, e nesta pauta são uma resposta ao sentimento de marginalidade cultural a que certos Estados brasileiros são relegados. Mesmo que se fale em literatura paulista, carioca ou mineira nunca estas noções serão estratégicas como o são literatura piauiense, maranhense ou cearense, pois Minas, Rio e São Paulo não ocupam a margem cultural no que concerne ao discurso literário. Em terceiro lugar, como nos ensina Foucault, quando se cria uma nova área de saber e instituições para abrigar este saber cria-se, também, um campo de poder; assim, a instituicionalização da literatura piauiense, promovida principalmente pela Academia Piauiense de Letras, permitiu (e permite) à elite cultural piauiense (dentro e fora da Academia) ocupar um espaço social privilegiado e influente na sociedade piauiense.

Resulta desta terceira resposta as implicações extra-literárias do conceito de literatura piauiense. Usar este conceito traz implicações políticas porque, a partir dele, se valida as regras de um campo de produção cultural cujo desenvolvimento depende do insulamento cultural (literário) do Estado. A quem, porém, interessa este insulamento?




* Este texto é o fragmento de um estudo mais extenso, sobre Da Costa e Silva e H. Dobal.

sábado, 6 de junho de 2009

o homem e sua hora

___ Dedicatória do poeta Mário Faustino para a escritora e crítica de arte Ruth de Paula Laus na edição original de seu livro O Homem e sua hora de 1955.


o homem e sua hora
[adriano lobão aragão]


O POETA E SUA OBRA
um fausto delírio
O HOMEM E SUA HORA
a prematura queda do destino
SUA HORA
o mês assassino
O HOMEM
Mário Faustino




[in Uns Poemas, 1999]

terça-feira, 2 de junho de 2009

A poesia brasileira no fim do milênio




A poesia brasileira no fim do milênio
Por Ivan Junqueira

(...)
Noto na poesia que hoje se escreve entre nós aspectos positivos e negativos. No que entendo como aspecto positivo gostaria de salientar o talento quase inato do poeta brasileiro de qualquer época, sua espontaneidade de expressão, seu agudo sentido de ritmo e de melodia, o luxuriante cromatismo de suas imagens e metáforas, características essas que me parecem seminais desde que se começou a escrever poesia neste país. Mas é daí, talvez paradoxalmente, que se esgalham nossas mais flagrantes deficiências, isto é, as do relaxamento formal, da adiposidade expressiva, do mau conhecimento da língua e de sua própria índole, do desprezo àquelas tradições que nos permitiriam ascender à condição de uma paideia e da carência, quase lancinante, daquilo que os alemães definem como Weltanschauung, ou seja, uma visão de mundo. Sentimos isto de forma particularmente aguda quando cotejamos os poemas de nossos autores com os dos grandes poetas do Ocidente, como nos casos de Dante Alighieri, Leopardi, Virgílio, Baudelaire, Donne, Yeats, Eliot, Guillén ou Borges, além de tantos outros. Há neles uma vertente de universalidade que os torna compreensíveis e estimados em qualquer quadrante da Terra. Há neles uma visão do mundo e dos destinos humanos que qualquer leitor será capaz de captar, enquanto aqui nos atolamos numa espécie de regionalismo estreito e orgulhoso que jamais nos levará a parte alguma, a não ser ao umbigo de nós mesmos. Não é todo dia, a propósito, que se consegue urdir o regionalismo transcendente e universalista de um Guimarães Rosa ou de um Graciliano Ramos. O escritor brasileiro, e sobretudo o poeta brasileiro, deve aprender a renunciar a esse maldito e enfezado exotismo dos trópicos, desses “tristes trópicos”, aliás.
(...)


[Ivan Junqueira, in Cinzas do Espólio, Record, Rio de Janeiro, 2009. p. 142-143]