domingo, 29 de março de 2009

[ao terror que o nome Mandu Ladino inspira em seus opressores]



[ao terror que o nome Mandu Ladino inspira em seus opressores]
adriano lobão aragão




seria filho de mestre-de-campo?
seria educado por jesuítas?
seria índio doméstico em Pernambuco?

à frente dos combates
às margens do Rio Grande dos Tapuias
seria conhecido Ladino

mas uma Carta Régia agradece
em 14 10 1718 a Manuel Peres
o bem com que se houve
no extermínio dos índios
junto à vila da Parnaíba


[in Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, 2005]

sexta-feira, 27 de março de 2009

"Vejo minha obra em constante mutação"




Entrevista com Adriano Lobão Aragão
por Wanderson Lima

- Entrevista concedida em maio de 2004
- Publicada originalmente no site www.revistaamalgama.hpg.com.br e no jornal Diário do Povo


Seu primeiro livro, “Uns Poemas” (1999), apresenta traços evidentes de influência da estética marginal; seu trabalho mais recente – “Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra” –, segundo colocado no Concurso Torquato Neto da Fundac 2003, palmilha outro caminho e, segundo me parece, recebe influxo de autores como H.Dobal, João Cabral e Gerardo Mello Mourão, entre outros. Comente como e por que se deu essa mudança.

Adriano Lobão Aragão: Vejo minha obra em constante mutação. Esse é o único aspecto que me induz a continuar escrevendo: a possibilidade de trilhar outros caminhos, independente de serem avanços ou retrocessos. “Uns Poemas” foi escrito na sombra de uma estética dita “marginal”, principalmente (ou exclusivamente) dentro do contexto piauiense; e isso fica patente nas limitações facilmente encontráveis na obra. Há muita coisa que deveria ter sido mais desenvolvida, mais trabalhada, mas a pressa em publicar atrapalhou um pouco. Já existia a influência de Dobal em meu primeiro livro, mas a informação sobre as influências na transição para o segundo livro está correta. Poderia citar inúmeras outras, mas prefiro deixar esse serviço para os leitores que eu venha a ter. Porém, aceito o fato que foi através dessas influências que minha poesia buscou abandonar os pressupostos estéticos do primeiro livro e mergulhar na intertextualidade e na releitura.

Um dado novo importante de sua nova fase poética é o intenso jogo intertextual que você realiza. A maneira como você monta esses jogos denuncia um débito a T.S.Eliot. Você poderia explicitar melhor esse ponto? Qual o impacto da poética eliotiana em sua nova fase?

Adriano: Vi no Eliot dos “Poemas de Ariel” e “The Wast Land” elementos que gostaria de ver como funcionariam se fossem associados a contextos piauienses. Essa ânsia me perturbou por muito tempo e gerou alguns poemas bem mais “eliotizados” que preferi excluir e até agora permanecem inéditos. Após esse exercício, a influência já estava estabelecida de maneira que não precisei me preocupar com os resultados. Na primeira parte de “Entrega a própria lança...”, há trechos de poemas de Eliot reescritos, juntamente com Safo, Horácio, Gregório de Matos e outros; as fontes já não me interessavam mais. Os exercícios mais radicais estão na parte intitulada “A classe operária vai ao paraíso”, absolutamente composta por colagens.

Recentemente caracterizei a cultura literária piauiense como autofágica, o que decerto desagradou a algumas pessoas. Se alguém vier aqui para falar de Homero ou Dante terá um público minguado; mas se o tema for, por exemplo, Torquato Neto ou Fontes Ibiapina (sem querer desmerecê-los ou compará-los ao autor grego e ao italiano) o auditório decerto lotará. Você concorda com essa avaliação?

Adriano: Não apenas na literatura, mas em nossa cultura artística em geral, somos vítimas desse bairrismo besta. Aliado a esse aspecto, é necessário lembrar que vivemos numa província onde, com as justas e milagrosas exceções, escreve-se mal e fala-se demais. É inacreditável a falta de critérios justos nas “críticas literárias” que tentam produzir por aqui. Parece elogio de prefácio e orelha de livro. A seleção de temas e autores revela-se através de amizade, coleguismo, geração isso e aquilo, e o que é pior: costuma-se tratar mais de autores que de obras e literatura. Aliado a isso, falar de Eliot, Pound, Homero, Keats, Safo, é ser chamado de diluidor, pretensioso, traidor da pátria ou simplesmente ignorado. Creio ser mais saudável ficar quieto lendo Catulo e Sade.

Como professor de ensino médio, não se revolta em ver obras de valor literário mais que questionável, como “Traquinagem”, serem adotadas em vestibulares enquanto uma autora do porte de Alvina Gameiro é completamente esquecida?

Adriano: É o que mencionei anteriormente. Conviver com indicações para lá de absurdas é o mínimo. O desafio de formar leitores é bem mais complicado sob a sombra de um vestibular que reduz o trabalho do professor a treinar seus alunos a marcar cruzinhas em gabaritos, como se a vida nos trouxesse respostas prontas. Espero que essas cruzes não sejam de nosso futuro cemitério intelectual. Quanto a Alvina Gameiro, trata-se de uma das mais injustiçadas escritoras que tenho notícia, pela ausência de uma avaliação crítica substancial de sua obra. “Curral de Serras” é uma obra que tem muito a oferecer à nossa cultura, mas precisa ser mais lida e estudada. Poderia citar também o Leonardo das Dores, Álvaro Pacheco, Martins Napoleão...

Fale sobre a gênese da Revista e site Amálgama. A seu ver, em que Amálgama pode contribuir no contexto literário piauiense?

Adriano: Amálgama nasceu da falta de espaço para divulgação dos primeiros textos que escrevíamos, mais ou menos em 1996, quando passei a editar livretos reproduzidos por xerox. Mas a revista só passou a existir em 2002, quando convidei o poeta Hermes Coelho, o contista Sérgio Batista e os professores Jeferson Probo e Washington Ramos e iniciamos um trabalho que deveria misturar produção e jornalismo literário. Disso resultou um misto de revista e fanzine que é publicado, por enquanto, com periodicidade irregular. Nem todos continuam trabalhando conosco atualmente, a periodicidade continua irregular, mas já contamos com vários novos colaboradores, como Rodrigo Petronio, Aquiles Rique Reis, Delmo Montenegro, entre outros. Creio que a contribuição seja a de estabelecer mais um canal de debate e divulgação. De preferência que não seja associado a uma estética, a um grupo ou geração. A intenção é criar um espaço aberto. Porém, a falta de recursos financeiros e tempo hábil nos limita bastante. Se quiséssemos apenas divulgar “literatura piauiense”, talvez fosse mais fácil conseguir patrocínio, mas nossa proposta não se limita a regionalismo algum. É importantíssimo falar e divulgar o Piauí, mas não fazer dessa bandeira uma venda que nos impeça de discernir uma obra de arte de uma perda de tempo.

Por mero diletantismo, como você mesmo frisa, tem traduzido poemas de autores de língua inglesa, como Emily Dickinson. Que aprendizado tem tirado desse exercício?

Adriano: Isso é sério? Minhas traduções são apenas exercícios sem maiores conseqüências. Divulgo algumas no site Amálgama apenas para instigar comentários, críticas. Atualmente, trabalho como cummings e Keats. Cada um deles nos traz aprendizagens distintas. No caso de cummings, a organização gráfica influenciando o próprio contexto do poema é fascinante e praticamente intraduzível. O jogo entre a estética e o conteúdo é o que mais me instiga nessa didática.

segunda-feira, 23 de março de 2009

yone de safo

[adriano lobão aragão]

§ 8



teu corpo ao dormir meu corpo busca
em teu colo se debruça
minha face que teu cheiro aguça

minha face tua face
minha mão que tua mão segura
enquanto dorme
e segura minha mão a mão tua

teu corpo ao dormir me procura
e sobre minha perna tua perna perdura
e sobre tua perna a minha imita a mesma postura
e dura infinito neste sono a minha carne dura

encosta na minha a face tua
encosta em mim por todo sono
o seio o lábio a vulva
e deixa assim junto o sonho
de sempre habitá-la nua

e quando a mim à noite assim se debruça
mais que teu corpo meu sonho busca





.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Octavio Paz



Poema do mexicano Octavio Paz Lozano (1914-1998), prêmio Nobel em 1990, traduzido por Wanderson Lima




AQUÍ

Mis pasos en esta calle
resuenan
en otra calle
donde
oigo mis pasos
pasar en esta calle
donde

Sólo es real la niebla




AQUI

Meus passos nesta rua
ressonam
noutra rua
onde
ouço meus passos
passar nesta rua
onde

Só a névoa é real



_______
Poema retirado de “Lo Mejor de Octavio Paz: El Fuego de Cada Dia”, Selección, prólogo y notas del autor, Seix Barral S. A. , Barcelona,1989.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A mídia e os escritores




A mídia e os escritores
por Rubem Mauro Machado

- Originalmente publicado no jornal Rascunho, na edição de março de 2008, gentilmente cedido pelo autor para este blog.


Presenciei certa vez na redação de um grande jornal a seguinte cena: uma escritora do Sul, que na época despontava como uma das promessas de nossa literatura, apareceu para fazer a divulgação de seu livro recém-lançado. O subeditor do caderno de cultura e variedades a conhecia e determinou a um repórter que a entrevistasse. A escritora, minha velha amiga, é pessoa arguta e muito inteligente (ao contrário do que se pensa, nem todo escritor é arguto e inteligente), disse coisas interessantes, foi fotografada e retirou-se. O repórter se pôs a escrever a matéria. Quando o editor chegou, perguntou no que se ocupava e ele informou. Na mesma hora o editor o atalhou: "Quem é essa mulher? Ninguém a conhece aqui; ela não é notícia. Não, não vai ter matéria." A entrevista foi para o lixo, não se aproveitou uma palavra do que minha amiga disse, não saiu uma linha sobre o livro (e depois dizem que escritor brasileiro não vende; pergunto: vai vender como?).

A atitude desse editor nada tem de excepcional. Ela apenas reflete o papel que a nossa imprensa se atribui: ela é não-formadora, mera reprodutora de matrizes culturais, quase sempre importadas de fora. Vivemos no capitalismo e reproduzir em escala é muito mais fácil e barato do que produzir e divulgar novos conteúdos. É a lógica do sistema. Pouco importava se a entrevista pudesse ser inteligente ou o livro bom; isso nem chegou a ser cogitado. Apenas não havia uma imagem já pronta a ser vendida (consumida), dentro de nossa sociedade de simulacros. Vamos ser bem sinceros: a grande mídia (embora ela não possa ou não ouse confessar isso abertamente) está se lixando para a cultura brasileira e, dentro dela, especialmente para a literatura brasileira. Na medida em que nós, ficcionistas brasileiros, vendemos em geral quinhentos, mil, três mil quando vamos bem, exemplares (cinco mil é considerado best-seller), na medida em que as tiragens são pequenas, insignificantes mesmo, em outras palavras, na medida em que a literatura sendo feita não tem relevância econômica, ela também deixa de interessar aos meios de comunicação. Para eles, relevante é o artista de comunicação de massa. Qualquer jovem cantor ou instrumentista lançando seu CD tem quase garantido que seu trabalho será avaliado, seja positiva ou negativamente, seja num maior ou menor espaço; afinal, a indústria fonográfica tem peso. Já o que determina hoje se um ficcionista brasileiro terá direito à glória de uma resenha, se um trabalho que consumiu às vezes anos merecerá míseras, ainda assim valiosas, vinte ou trinta linhas de apreciação, são fatores absolutamente insondáveis e aleatórios, que nada têm a ver com mérito literário ― bem, se tiver algum, melhor.

Há poucos anos uma grande revista semanal (não leio nenhuma, mas um exemplar me caiu nas mãos, juro, no dentista, por puro acaso) em sua seção Livros diminuía a conquista do Jabuti por um contista radicado no interior de São Paulo, dizendo que se tratava de um desconhecido (como se neste país de analfabetos, inclusive engravatados, isso tivesse algum significado). Aquilo me incomodou, inclusive pelo fato de eu ter sido premiado em 1986 com o feio animalzinho, que conservo na minha estante, pelo meu romance A idade da paixão, o que aliás pouco contribuiu para a divulgação do livro lançado na época pela Editora José Olympio (depois de vinte anos esgotado, reescrito pelo autor, ele foi relançado no ano que passou pela Bertrand Brasil, em edição comemorativa). Enchi-me de brios e mandei um e-mail para eles, dizendo que ser desconhecido não significava necessariamente ser despido de mérito; e se o escritor era desconhecido, a revista com certeza tinha sua parcela de culpa nisso: por que não o entrevistaram, por exemplo? Às vezes, continuei, vejo notícias assim: um fulano qualquer ganhou um concurso de contos entre mais de mil e quinhentos concorrentes. Alguém se interessa em entrevistar o cara, em saber o que se esconde por trás disso, se um novo talento está mesmo nascendo? Espere sentado. Saudosos os tempos em que um autor estreante podia merecer a atenção de um Álvaro Lins, que num de seus famosos rodapés podia construir do dia para a noite uma reputação (ou inversamente acabar com ela, no caso de alguns).

Não publicaram minha carta; mas o editor me respondeu. Alegou que os livros que recebiam a cada semana entupiam toda uma mesa e que não dava tempo sequer de folhear uma parte daquela torrente, sendo virtualmente impossível saber o que continha. Ou seja, nós, escritores, éramos acusados de escrever demais; e os editores de publicar em excesso.

Não prossegui na polêmica; vi que seria inútil. Mas tive vontade de dizer ao meu missivista que se havia muitos lançamentos, isso era um problema deles, jornalistas culturais, não de nós, autores. Se existisse um real compromisso da (poderosa) revista com a cultura brasileira, eles pagariam uma equipe de leitores para examinar e, se fosse o caso, destacar alguma pepita em meio a todo esse cascalho; porque com certeza há gente boa escrevendo por esse país afora. E, boa ou má, a literatura que fazemos é a expressão da nossa gente e do nosso momento e deveria merecer alguma relevância. Mas essa comissão de leitores é apenas um sonho de verão e a simples idéia deve provocar sorrisos sarcásticos em muita gente boa, que deve pensar "temos coisas mais importantes com que nos preocupar".

Bem, o que resta então? Resta, como já disse, os fatores aleatórios que levam este jornal ou aquela revista a abrir espaço para um livro e não para outro. O empenho (ou prestígio) maior deste ou daquele editor em prol de seu pupilo, a maior ou menor vocação ou saco deste ou daquele autor para o exercício do que se chama de Relações Públicas, o compadrio ― "Vamos dar uma força pro fulano, ele é gente boa" ou "Ele é filho do nosso amigo beltrano" ― a simpatia, o prestígio social. Ou ainda o fato de que João da Silva ― famoso por qualquer estripulia relevante, mesmo que seja um crime, ou qualquer outro feito no campo da atividade humana, por ser um astro do rock ou um ex-Big Brother ― descubra-se de repente um ficcionista. Em outras palavras, se algum fenômeno social, ou aberração que desperte curiosidade, se a Mulher Barbada lançar seus poemas ou seus contos, terá espaço garantido: a obra é o que menos interessa, interessa a figura do autor. Se você colecionar num livro fofocas sobre a vida de trinta astros de Hollywood, ele será capa de caderno de jornais de todo o país, porque vivemos a era da cultura de massas; e algo não vende porque é bom, mas é bom porque vende. Afirmo isso baseado na experiência de quem passou a maior parte de sua já longa vida profissional dentro de redações.

E no entanto é importante que se proclame: avaliar a obra de um autor brasileiro não é um favor que se faz a ele ― é um direito legítimo que ele tem, do mesmo modo que o público tem todo o direito de saber que existe essa obra na qual ele poderá se refletir, ou não; o leitor deve ter acesso à informação, embasada e isenta, para decidir. Como os suplementos se transformaram em larga medida numa ação entre amigos ("você me elogia, depois retribuo") ou numa extensão dos departamentos de mídia das editoras, a reproduzir releases, quase toda crítica que trazem vem hoje eivada de suspeição.

Comecei com uma história, termino com outra. Um dia, no jornal em que eu trabalhava, aproximou-se um colega, também jornalista e escritor e hoje famoso novelista da televisão brasileira, e me mostrou a capa do caderno de variedades. Era ocupado pela reportagem com foto sobre um fabricante de best-sellers americanos. Motivo: ele estava indo para a Austrália, onde ia se dedicar à elaboração de seu próximo livro.

― Veja só ― comentou rindo meu colega ― o cara ainda nem escreveu o livro e já tem toda essa cobertura. O que sobra para nós?


Rio de Janeiro, 7/4/2008

quinta-feira, 12 de março de 2009

Assassinando o Cream


Ubaldo, Adriano, Ostiga e André, no Toda Lua, julho de 2005. Tocamos Sunshine of Your Love. Que Eric Clapton nos perdoe.

quarta-feira, 11 de março de 2009

quando todos os acidentes acontecem



quando todos os acidentes acontecem


Manoel Ricardo de Lima nasceu em Parnaíba, PI, 1970. É professor de Literatura e doutor em Teoria da Literatura (UFSC).

Publicou Embrulho (7Letras), Falas Inacabadas, com Elida Tessler (Tomo Editorial), Entre Percurso e Vanguarda – alguma poesia de P. Leminski (Annablume), As Mãos (7Letras), outra manhã, com Aníbal Cristobo e Eduardo Frota (Dragão do Mar), As Mãos/ The Hands, com tradução de Sérgio Bessa (Lumme Editor) e 55 Começos (Editora da Casa).

Organizou as coletâneas A nossos pés (Editora da Casa/Dantes Editora) e A Visita, com Isabella Marcatti (Barracuda).

Seu mais recente livro é quando todos os acidentes acontecem (7Letras). Coordena a coleção Móbile, de mini-ensaios (Lumme Editor), e a série Alpendre de Poesia, com Carlos Augusto Lima (Editora da Casa).

Bolsista de Pós-Doutorado, CNPQ, com pesquisa sobre Joaquim Cardozo e Mário Faustino. Vive em Florianópolis.

terça-feira, 10 de março de 2009

a COLUNA de SÃO SIMEÃO

V. judicium
[adriano lobão aragão]


avaliar cada coluna
com seu eremita no alto
e todos que lá não puderam estar

toda linguagem
serenidade de quem colhe tempestade
tranqüilo

avaliar cada linguagem
com sua metáfora
na margem do silêncio

toda metáfora
eternidade que sozinha
se finda





[in Yone de Safo, 2007]

segunda-feira, 9 de março de 2009

a COLUNA de SÃO SIMEÃO

IV. enarratio
[adriano lobão aragão]



palavra sobre palavra
uma linguagem se constrói

cada palavra guarda sua metáfora
uma a uma se encaixam
como as vértebras da coluna

interpreta linguagens
de homens e anjos





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domingo, 8 de março de 2009

a COLUNA de SÃO SIMEÃO

III. emendatio
[adriano lobão aragão]


corrigir um ato
refazer a coluna
reanotar cada indicação do caminho

onde não há horizonte
restam nuvens por solução

reelaborar o caminho
para continuar o mesmo

toda obra de um homem
se refaz no tempo

como tudo que é sólido
se desmancha no sangue

um homem busca corrigir seu tempo
que sozinho se esvai






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sábado, 7 de março de 2009

a COLUNA de SÃO SIMEÃO

II. lectio
[adriano lobão aragão]



fazer de uma idéia objeto
fazer da fé uma coluna

estar perto do céu

naquele tempo não mais
havia gigantes sobre a terra

estar no alto de uma coluna
São Simeão o estilita

elevar a fé à loucura

desejo de repousar entre as estrelas
esquecer a carne
que essa se corta nas espadas

que essa se devora
em rituais de um novo mundo
onde se canta a bravura
dos inimigos

que essa se penetra
quando o instinto devora
mesmo sem pagar o preço
de nova vida

elevar-se ao céu
exige seu sacrifício

no campos de Senaar
os homens erguem a coluna
onde a força divina divide os homens

vencidos pela linguagem
que se confundam
por todas as outras regiões

Santo Simeão em sua coluna
não tem com quem se confundir

um mundo moldado a sangue
outro se refaz em silêncio







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sexta-feira, 6 de março de 2009

a COLUNA de SÃO SIMEÃO

I. scriptio continua
[adriano lobão aragão]




oquerepousaemsuacoluna
emmoldeimpurosefaz
noquebuscadisforme
tuaimagemesemelhança






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quarta-feira, 4 de março de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button: Um filme sem magia



O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON: UM FILME SEM MAGIA
por Alfredo Werney


Ontem eu vi – numa tarde vazia, sem nenhuma companhia, num shopping cotidiano e sem magia (como todos os outros) - uma estranha e curiosa estória de um homem que nasceu velho e aos poucos foi rejuvenescendo. Antes mesmo de ver o filme, eu havia consultado um pouco sobre o instigante conto do escritor Scott Fitzgerald, no qual a película dirigida por David Fichner se baseara. Foi surpreendente observar como uma estória tão mágica e interessante se transformou num filme morto e sem magia. Tecnicamente é um filme bem realizado, mas para na técnica mesmo. Por exemplo, sua maquiagem é convincente e bem detalhada – por isso mesmo merecedora do Oscar. Porém, não há na película sequer um plano de natureza poética, de riqueza imaginativa, de impulso criador. Trata-se de uma série de relatos - muitas vezes enfadonhos e repetitivos - sobre o romance de Benjamin com Dayse. Como é que uma película trata de algo tão sombrio e poético, de maneira tão prosaica e ao mesmo tempo sem visceralidade? Realmente não entendi a proposta de David Fichner, que está longe de ser um mau diretor.

O filme deixa de mergulhar no universo poético e denso do personagem Benjamin, para sobrepor relatos pessoais que mais parecem [como bem nos disse Luiz Carlos de Oliveira, da revista “Contracampo”] uma propaganda de plano de saúde. Chega a ser incômodo a insistência de David Fichner em mostrar que toda aquela narrativa insossa está sendo relatada por Dayse – agora já bem velha e agonizando numa cama de um hospital. Aliás, com uma voz ríspida, mal equalizada e, não obstante, kitsche. Como se não bastasse, o filme ainda é narrado pelo próprio Benjamin. Ou seja: parece que o cineasta não se sustenta somente com o discurso de suas imagens - ele precisa colocar dois atores para narrar o que já se está vendo na tela. Repetição da repetição da repetição. As cenas no hospital - onde Dayse narra sua aventura amorosa com Benjamin - poderiam ser retiradas sem o menor prejuízo para a diegese do filme [a observação, mais uma vez, é da revista “Contracampo”]. São cenas gratuitas, sem simbolismos, vazias como o cenário...

E em se tratando de trilha sonora? Nada de instigante e mágico! A música do compositor francês Alexandre Desplat é prosaica e apenas reforça o conteúdo das imagens, e de maneira muito óbvia por sinal. Se John Willians [autor da trilha de filmes que já fazem parte do nosso imaginário cinematográfico: E.T, Tubarão, A lista de Schindler, A cor púrpura, Indiana Jones] tivesse musicado um filme dessa natureza, certamente ouviríamos harpas “mágicas” executando solos, violinos vibrantes, melodias instigantes e incisivas, além de instrumentos que nos ambientariam num mundo da fantasia, num mundo regido pelo realismo fantástico. Poderíamos dizer que o mestre Willians nos colocaria num mundo sonoro kafkiano – disso não tenho a menor dúvida. A trilha do francês não é feia, nem tampouco mal composta, mas é sem pulso e - mais uma vez- sem magia. Aliás, todo filme é assim, sem pulso e sem força criadora. Não se sente ali a presença de um diretor, nem a marca de um estilo fílmico. Como nos disse Cléber Eduardo [revista Cinética], é um filme no qual deixamos de ver o mundo da imaginação e passamos a ver a técnica de sua construção. É um filme SEM VIDA!



Alfredo Werney é professor de Artes e músico. Autor, juntamente com Wanderson Lima, do livro "Reeancantamento do mundo: notas sobre cinema".