domingo, 30 de novembro de 2008

amálgama #5 - A vida é sonho



Publicado originalmente em amálgama #5, agosto de 2004.




A VIDA É SONHO

por Rodrigo Petronio


Pedro Calderón de la Barca nasceu no ano de 1600, exatos cinco anos antes da publicação da primeira parte do Quixote. Creio que o ponto central de A Vida é Sonho, considerada pelos especialistas sua obra máxima e também a que gozou de maior prestígio junto ao público e seus pares, seja o jogo entre os dados considerados reais, ou seja, tudo aquilo que cerca o protagonista Segismundo, e a hipótese sempre reiterada de que tudo talvez não passe de ilusão. É desse limiar entre res e uerbum, entre as palavras e as coisas, entre os fatos e a verdade poética que Calderón parece tirar a substância, a matéria-prima de sua peça. Qualquer referência à obra de Cervantes e à ilusão continuada de que padece o seu cavaleiro andante, não será mera coincidência. E talvez possamos dizer que não é ao Quixote, literalmente, que ela se refere, mas sim que ambas as obras ilustram exemplarmente a forma mental e os códigos artísticos de uma época: não expressam, de maneira instrumental, a realidade, mas fundamentam o real. E no que se baseiam essas afinidades?

Em primeiro lugar, em um tipo de distanciamento estóico que está o tempo todo quebrando a possibilidade de Segismundo tomar o que vive tal e qual. Encarcerado na masmorra pelo rei, seu pai, devido a uma premonição astrológica que o profetizava como o déspota que destronaria o poderoso, ele é submetido a uma simulação que, tirando-o do cativeiro e colocando-o no trono, quer testar se sua predisposição bestial confirma o que o sacerdote leu nos astros. Mas aqui há um paradoxo interessante: Segismundo se encontra em um estado bruto, adormecido sob uma aparência selvagem; mas quem o moldou assim não foi a Natureza, mas os anos de confinamento preventivo a que as crenças religiosas o condicionaram. Sob esse ponto de vista, a peça de Calderón é uma obra de inclinação moralizante: dá-nos, ao fim e ao cabo, a humanização do protagonista, que perdoa aqueles que o puseram na condição que estava e passa a crer que a virtude só é alcançada se domamos em nós o ímpeto e o instinto, e se obramos bem, proposta que está dentro de uma chave de pensamento próprio à Contra Reforma, com o qual o autor se afinava. Espécie de teatro de formação, com pontos tênues de contato com o que posteriormente seria chamado de Bildungsroman, romance de formação, a obra de Calderón ilustra e mostra, na trama dos personagens, algo passível de ocorrer na vida real, e nos dá também os exempla: o domínio das paixões e a retidão do espírito são o único caminho para a bem-aventurança.

O crítico espanhol Marcelino Menéndez y Pelayo sugere que os personagens Rosaura e Clarín não têm consistência, e que suas primeiras falas, no início da obra, são metáforas vazias que predizem todos os possíveis defeitos estilísticos que haja no seu decorrer. Mas Pelayo, ilustre detrator de Góngora e do gongorismo, que usa para a sua desqualificação, estes sim, os argumentos mais vazios e desinteressantes aos quais pode se dedicar um homem da sua erudição, parece não perceber que é justamente dessa construção de metáforas levada a um alto grau e da versatilidade do verso de Calderón que se extrai a condição poética de uma ação que transcorre o tempo todo entre a imaginação e o fato, e que dão os alicerces para os belos monólogos de Segismundo. Calderón nunca poderia ter escrito A Vida é Sonho se guiando pelo estilo claro, ágil, volátil e popular de Lope de Vega, e se devemos recriminá-lo pelo excesso de artifícios de que lança mão, por que não fazê-lo também em relação a Lope, em virtude da completa ausência deles? Pontos de vista.

Quanto aos personagens Rosaura e Clarín, são o contraponto de uma invenção a várias vozes. Se os motivos que os levaram ao castelo de Segismundo são às vezes pouco verossímeis e até mesmo obscuros, seria exigir demais de um artista querer que ele dê conta de desenvolvê-los com a mesma aptidão com que desenvolve o tema principal. Seria, em outras palavras, o mesmo que criticar Claudio Monteverdi por intercalar em suas obras orquestrais pequenos motivos que expiram em si mesmos.

Edmund Wilson diz que a obra demonstra a passagem alegórica das forças amorfas da Natureza e do embrutecimento às luzes da civilização, o que é uma interpretação sensível e justa. Só acrescentaria o seguinte: o próprio Calderón parece jogar, ainda que dentro de limites muito estreitos, com as próprias concepções de natureza humana e a sua contrapartida. Basta lembrar o excelente monólogo de Segismundo, onde ele compara a sua condição à da serpente, da ave, do peixe e do rio, e, em detrimento de sua humanidade iminente, parece equivalê-las, passagem que, por si só, já garantiria a inserção da peça entre as obras-primas da poesia lírica e dramática.
Atualizando o mito platônico da caverna, que serviu ao filósofo grego para demonstrar que, quando dentro destas, apenas podemos entrever as sombras que se projetam no seu interior e estamos presos às contingências do sensível, sem acesso ao sol atemporal da Idéia, A Vida é Sonho mostra o percurso de sujeição dos instintos rumo à beatificação concedida pelo perdão e o domínio de si. Diz-nos que a vida é efetivamente um sonho se não nos guiamos pela vontade de aceder à luz, que em um sentido amplo e metafísico é Deus, e em um restrito e político, os valores católicos e sua ética.


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Rodrigo Petronio nasceu em 1975, em São Paulo.
Escreveu textos críticos para revistas como Bravo!, Cult e Agulha.
Colabora com regularidade para a revista virtual Trópico e os jornais Rascunho, Estado de Minas, Jornal do Brasil e O Globo.
Publicou o livro de poemas "História Natural" e o de ensaios "Transversal do Tempo" (Prêmio João Emerenciano, do Conselho Municipal de Cultura do Recife, 2001).

sábado, 29 de novembro de 2008

amálgama #5 - O nu confesso



Publicado originalmente em amálgama #5, agosto de 2004.




O NU CONFESSO


por Adriano Lobão Aragão


Aos que se debruçam ante a poesia contemporânea, é recorrente a classificação poundiana de autores dentro da seguinte escala: inventores; mestres; diluidores; bons escritores sem qualidades proeminentes; beletristas; iniciadores de manias. Vencedor do Concurso Novos Autores, promovido pela Prefeitura de Teresina em 2000, Hermes Coelho, com o livro de poemas Nu (Fundação Cultural Monsenhor Chaves, Teresina, 2002), estaria, no máximo, como um beletrista; isto é, “homens que na realidade nada inventaram, mas que se especializaram em algum aspecto peculiar da escrita, que não podiam ser considerados como ‘grandes homens’ ou como autores que estivessem tentando propiciar uma representação completa da vida ou de sua época”. Ainda assim, é possível estarmos sendo por demais benevolentes, mas fica tal risco como incentivo por tratar-se de obra de estréia.

Coelho construiu uma obra exacerbadamente egocêntrica, voltada para um eu-lírico repleto de resquícios românticos, tendo o caráter confessional como elemento fundamental. Utilizando um processo de auto-investigação sentimental e de supervalorização do eu, deu continuidade à tradição do poeta-bardo: aquele que dedica-se à exposição de sua personalidade. O livro expressa um exercício de sublimação que reflete o próprio conceito de poesia romântica, avaliada a partir do que é capaz de reproduzir de uma experiência pessoal. O culto do contraste soa como mera alegoria e não uma incursão barroca, conforme se pode notar no poema Alma Barroca.

Tenho alma barroca –
oca, de barro formada –
cheia de tudo errado,
de frente, de lado, na mente,
pra me fazer diferente,
sendo calibradamente
um desequilibrado.


A base constante é o ego, como o poema Id assim o revela (novamente o contraste é pura alegoria), utilizando a palavra “eu” em fonte cada vez maior para encerrar a fórmula “eu > tu”. Lembrando que a palavra “eu” e o símbolo “maior que” estão impressos em tamanho exageradamente maior que a minúscula palavra “tu”. A tentativa de revelar este ego é a justificativa do título do livro, Nu, não se tratando, obviamente, de uma obra erótica em sua essência. Aliás, o corpo em si não é temática recorrente. Uma justa exceção seria o poema Show (Eu quero transar no Parnaíba / Ser pego gozando no teu canal / ...), um dos bons momentos de seus versos. Educado sob os rígidos princípios cristãos da Igreja Batista, conforme informa a orelha do livro, Coelho deixou de lado o que poderia fazer de Nu uma boa obra: o conflito religioso, quase totalmente descartado, restando apenas um fragmento, o poema Teologia.

Encontrei Deus –
fugi.


Mas retornando ao “aspecto peculiar da escrita”, expresso no já mencionado conceito de Ezra Pound, seria a preferência por versos livres imbuídos de trocadilhos e contrastes que remetem, quase sempre, a rimas enfadonhas (“Estou em falta / comigo / sem tigo” ; “(...) teu marfim / um querubim / pra você e pra mim”) ou a valorização de coincidências de significantes como se fossem “achados lingüísticos” (“A vida me leva / à força / à forca”) típica de herdeiros das brincadeiras semânticas popularizadas nos anos 70. Porém, a poesia desenvolvida naquela época estava sob a mira da polícia e da política, envolta na manifestação de denúncia e protesto, e na proliferação de poemas espontâneos, mal-acabados, irônicos, coloquiais, que falam do mundo imediato do próprio poeta. Apenas a esta última tendência está aliciada a poética de Coelho, descartando a vertente política. Os poemas D. Pedro I e Primeira Classe, ao buscarem tematizar de forma generalizante, respectivamente, a história oficial e as drogas, soam como corpos estranhos numa obra essencialmente confessional.

O mencionado descuido gerador de poemas “mal-acabados” é tolerável na poesia dita marginal de décadas passadas, descontando então a censura, perseguição ideológica e toda conjuntura política, mas não podemos mais contemplar uma série de fragmentos “a la Leminski” com os mesmos olhos infantis, pois são cada vez mais tênues os limites entre o nefelibata e o confessional.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

amálgama #5 - Metáfora e Argumentação


Ilustração: Nilton


Publicado originalmente em amálgama #5, agosto de 2004


METÁFORA E ARGUMENTAÇÃO

por Dílson Lages Monteiro


Os novos Parâmetros Curriculares, no que se refere à Língua Portuguesa, orientam para a valorização dos símbolos, bem como da diversidade de gêneros textuais e de linguagens do cotidiano na escola. Nesse contexto, era de se esperar mudanças concretas, especialmente quanto à linguagem literária.

No dia-a-dia escolar, o trabalho com discursos desse matiz, entretanto, ainda deixa bastante a desejar – principalmente em relação à ausência de diálogo entre a literatura e outras linguagens. O resultado disso se colhe na prática vigente – recursos lingüísticos como a metáfora, por exemplo, são vistos como manifestações exclusivas da literatura.

Assim, é comum florescerem em aulas de Redação perguntas como esta: “professor, posso usar metáfora em meu texto argumentativo?”

Muitos alunos, portanto, acabam alimentando a idéia de que as figuras de linguagem somente são utilizadas em textos literários. Esse sofisma se avoluma junto aos vestibulandos, fundamentalmente, em face de uma visão deturpada, presente em vários manuais de redação e, também, de uma abordagem estanque e estereotipada comum na produção textual em diversas escolas.

Algumas instituições, equivocadamente, por não criarem condições para os alunos compreenderem os mecanismos de construção de sentido do texto, apostam na montagem de um arcabouço de esquemas “capaz” de garantir a expressão do pensamento, mas que, em virtude de sua superficialidade, resulta em textos pré-moldados, sem autoria, incapazes de ativar, de fato, operações de pensamento.

Fortalecendo o problema, encontram-se manuais de redação que tentam simplificar o processo de elaboração de textos, a partir da divisão entre textos objetivos e textos subjetivos. Divisão infrutífera, haja vista que ela leva o aluno à concepção de que não deve escrever textos com marcas de subjetividade patentes.

Tal postura deve ser duramente combatida. Por quê? Conforme ressaltam George Lakoff e Mark Johnson, no clássico Metáforas da Vida Cotidiana, “o objetivismo e o subjetivismo precisam um do outro para existir. O objetivismo tem por aliadas a verdade científica, a racionalidade, a precisão, a justiça e a imparcialidade. O subjetivismo tem por aliados as emoções, o conhecimento intuitivo, a imaginação, os sentimentos humanos, a arte, bem como uma verdade ‘mais alta’”.

Para justificar a premissa, os referidos estudiosos da linguagem argumentam que cada um “é mestre em seu próprio domínio”, acrescentando que “cada um existe, mas em domínios separados. Cada um de nós tem um domínio em que é apropriado ser objetivo e um domínio em que é apropriado ser subjetivo”.

Vinculado ao equívoco da visão tubular objetivo versus subjetivo, o não emprego da metáfora em textos argumentativos se fortalece erroneamente na noção de “desvio” que vigora nos manuais didáticos. Alimenta-se, como conseqüência, a idéia segundo a qual desviar-se do padrão em textos argumentativos é construir sentenças obscuras, porque, como afirma Joaquim Brasil Fontes, quando se fala em desvio, “em geral, fala-se de um desvio entre figurado e usual: aquela “linguagem iluminada” de Cícero obteria suas claridades graças a uma comparação com a língua quotidiana, mais simples(...) O figurado só existe na medida que se opõe ao literal (...)”

Diante dos modernos estudos lingüísticos e dos usos sociais da língua, ainda assim, normas do tipo “textos argumentativos não devem criar a sensação de estranhamento, tampouco centrar-se na ativação dos sentidos” ainda encontram espaço no receituário de muitos manuais de redação e nos implícitos das concepções vivas em manuais de literatura. A sugestão como caminho à convenção ( o ícone levando ao símbolo) e à referencialidade não se limita à literatura.

O exame detalhado de artigos de opinião comprova que as figuras de linguagem, especialmente a metáfora, também são recursos de textos predominantemente lógicos; não obstante o pensamento de alguns especialistas em retórica clássica, como Pascal Ide, em A Arte de Pensar, afirmar que a analogia fragiliza a argumentação. Qual seria, portanto, a função das figuras de linguagem, sobretudo da metáfora, em textos predominantemente argumentativos?

Suarez Abreu, em A Arte de Argumentar – gerenciando razão e emoção (atelier editorial), responde à formulação: “As figuras retóricas são recursos lingüísticos utilizados especialmente a serviço da persuasão. (...) Possuem um poder persuasivo subliminar, ativando nosso sistema límbico, região do cérebro responsável pelas emoções. Elas funcionam como cenas de um filme, criando atmosferas de suspense, humor, encantamento, a serviço dos nossos argumentos”.

Para melhor compreender o emprego das figuras na argumentação, restringem-se à metáfora as observações subseqüentes, uma vez que as figuras de linguagem, conforme Jakobson, podem ser reduzidas à metáfora e à metonímia, se examinadas as maneiras como se organiza a língua (proximidade/similaridade). Além disso, porquanto, a metáfora, segundo as palavras de Edward Lopes, “é mais do que simples figura ornamental: é um mecanismo cognitivo de pensamento, atuando desde a poesia mais sublime até o raciocínio científico mais abstrato, intervindo também na linguagem comum do homem comum”.

A metáfora consiste em poderosa ferramenta da argumentação, porque funciona como elemento de esfriamento do texto – pode ser utilizada para diminuir o grau de formalidade da comunicação; buscar no repertório do leitor uma imagem de que ele se possa servir para entender o conteúdo proposicional do texto. É o que demonstra, recorrendo à teoria do canadense Mcluhan, o inventor do “gancho frio”, o supracitado Suarez Abreu: “dizer para o cidadão comum que ‘as altas taxas de juros estão colocando em perigo a contenção da inflação e que o ministro da Fazenda parece não ter condições de resolver esse urgente problema’ pode ser quente demais. Dizer, entretanto, que as taxas de juros colocaram a inflação ‘na marca do pênalti’ e que ‘ o ministro da Fazenda não tem a menor chance de pegar essa bola’ esfria bastante a mensagem, uma vez que qualquer brasileiro tem em seu repertório as regras de futebol e sabe muito bem o perigo representado por uma cobrança de penalidade máxima”.

Ao funcionar como “gancho frio”, a metáfora em textos argumentativos acentua duas virtudes da boa comunicação, a clareza e a motivação do interlocutor, e ressoa princípios de grandes estudiosos da linguagem. Entre eles, Aristóteles e Mattoso Câmara Júnior. Aristóteles, já dizia, analisando as qualidades do estilo, que a metáfora é o meio que mais contribui para dar clareza ao pensamento. Ainda de acordo com o filósofo, a comunicação se torna agradável servindo-se de expressões novas. Para ele, as palavras mais agradáveis são as que trazem algum conhecimento – efeito particularmente produzido pela metáfora: “Quando dizem que velhice é como o colmo, fornecem-nos um conhecimento: velhice e colmo, ambos perderam a flor”. Para Câmara Júnior, a metáfora atua de modo a enfatizar a mensagem, deixando-a mais clara. Dessa forma, “é um recurso quase sempre eficiente para obviar ao caráter vago de termos abstratos”.

O emprego da metáfora, portanto, não é um recurso exclusivo de textos literários. Ela também exerce papel ímpar em textos em que predominam as funções de linguagem referencial ou apelativa, porque o processamento da metáfora se confunde com a própria construção do pensamento. Por isso, textos argumentativos pautados pelo eficiente uso de figuras de linguagem não anulam a referencialidade das relação de convencimento ou persuasão. Distantes de simbolizarem obscuridade, os tropos configuram-se como fator de clareza – se utilizados conscientemente para esse fim; ademais, como fonte segura de implícitos, atuantes na renovação do vigor semântico das palavras pelo alargamento de suas possibilidades sígnicas.


BIBLIOGRAFIA
ABREU, Antônio Suárez. Curso de redação. São Paulo: Ática, 1996.
ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. Rio de Janeiro: Ediouro, 1969.
BLIKSTEIN, Izidoro. Técnica de comunicação escrita. São Paulo: Ática, 1998.
CÂMARA JÚNIOR, Manual de expressão oral e escrita. Petrópolis: vozes, 1996.
FONTES, Joaquim Brasil. As obrigatórias metáforas – apontamentos sobre literatura e ensino. São Paulo: Iluminuras, 1999.
HOLESTEIN, Elmar. Introdução ao pensamento de Roman Jakobson. São Paulo: Zahar, 1978.
IDE, Pascal. A arte de pensar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação poética. São Paulo: Cultrix, 1973.
LOPES, Edward. Metáfora: da retórica a semiótica. São Paulo: Atual, 1987.
LAKOFF, George & JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. São Paulo: Educ, 2002.
MCLUHAN, Mashall. Os meios de comunicação como extensão do homem. São Paulo: Cultrix, 1969.


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Dílson Lages Monteiro nasceu em Barras do Marataoã (PI), 1973.
Poeta e professor. Autor de + Hum-poemas (1995),
Colméia de Concreto (1997), Os Olhos do Silêncio (1999)
e O Sabor dos Sentidos (2001).

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

amálgama #5 - Wanderson Lima entrevista Carpinejar [parte02]



- Publicado originalmente em amálgama #5, agosto de 2004.


“POESIA É NUNCA SE ALFABETIZAR”
Wanderson Lima entrevista Fabrício Carpinejar


[continuação...]


Wanderson - O diálogo com Manoel de Barros em seu último livro, Biografia de uma Árvore, é notório e foi ressaltado por críticos como Miguel Sanches Neto. Até que ponto esse diálogo foi relevante? Qual a importância, para nossa literatura, da produção literária de Manoel de Barros?

Carpinejar - Um poeta precisa ser influenciado principalmente pelos seus defeitos. Isso é estilo. Sou também influenciado por aquilo que não foi escrito. Manoel de Barros é um grande escritor, peculiar, explorando os desvios da língua já anunciados por Raul Bopp e Guimarães Rosa. Faz a catequese do traste, a pedagogia do ínfimo. Defende uma teologia do abandono, pós-industrial. Sua estética simula o nível da criança enquanto está aprendendo. Recupera a primeira dentição da linguagem. Realiza uma poética da fé, religiosa, que reivindica a crença de que todos partilham das mesmas convicções. Barros infantilizou a forma poética, não se restringindo a tematizá-la. Propõe que o objeto seja de todos não sendo de ninguém. Minha poesia é mais desconfiada, cínica, não quer o deslumbramento, mas o assombro, algo entre a alegria e a dor. Quero misturar os sentimentos: chorar rindo e rir chorando. Não falo como uma criança, porém percorro as diferentes idades do homem em um mesmo livro.

Wanderson - Há uma forte unidade em sua obra, não só entre os poemas de um mesmo livro mas entre um livro e outro. Parece-me, porém, que seu primeiro livro, o surpreendente As Solas do Sol, foge dessa unidade, é uma experiência a parte...

Carpinejar - Apronto os livros simultaneamente. Não é um processo estanque, individualizado. Desdobro pensamentos em uma única matriz. Meu núcleo é a família e suas relações de poder e despoder, influência e desatino. São manuscritos emendados, embaralhados na escrivaninha, manchados pela luz líquida. Em As Solas do Sol, existem metáforas fechadas que aos poucos foram se abrindo nas demais obras. É um livro à parte, mas com extrema significação no todo. Fui raspando minha estréia, retirando o que tentava me esconder, desvelando o que ainda não estava suficientemente formulado. O personagem de As Solas do Sol, Avalor, pode ser o mesmo de Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma Árvore. Uma espécie de Jó sem fé. Ficou três vezes viúvo: da esposa, dos amigos e de seu tempo. É o último da fila. Busca um lugar seguro para guardar sua memória. Está procurando até hoje.

Wanderson - Em “Um Terno de Pássaro ao Sul”, você conseguiu realizar um mea culpa sem se deixar contaminar pelo pathos romântico, o que é realmente admirável. Foi o livro mais difícil de ser escrito?

Carpinejar - Um Terno de Pássaros ao Sul foi o livro mais difícil, pois o considero um divisor de águas da minha literatura O trunfo dele consiste em não ser derrotista. É muito fácil cativar pela dor, viciar-se na depressão, exaltar o sofrimento. O romantismo se espalha pior do que a gripe. O difícil – e estimulante – é superar as adversidades e cantar a alegria que pode existir no mais banal. No início, o filho pretende condenar o pai pródigo. Entretanto, descobre que está assim se condenando. A amizade se fortalece pela compreensão. Compreender é perdoar de certo modo. Eu corria o risco de ser confessional. Armei-me, portanto, da ironia, conciliando o apelo dramático com a autocrítica. O que proponho são “conficções”, confissões inventadas. Sou um perfeccionista pelas imperfeições. Quero mudar o senso comum de lugar. Procuro o avesso e a inversão, corromper as certezas. Fazer com que a palavra não morra no costume. Quem pensa que a vida está ganha, não está. Quem pensa que está perdida, também não está. Literatura é indefinição, tensão, desejo, estar na contracorrente do óbvio, caminhar do fim ao início. Poesia é nunca se alfabetizar. Renuncio à erudição para desaprender e perceber cada pessoa como um novo dialeto. Renuncio ao conhecimento para me desconhecer. Quero desescrever cada vez mais, desaparecer para que quem está lendo se enxergue. Que ninguém repare que a poesia foi escrita. Meu nome não é um endereço. O autor precisa se ausentar do livro para se fazer presente por inteiro. O crítico Maurício Melo Júnior talvez tenha descoberto o grande duelo em minha obra: “do anônimo com o inonimável”.

Wanderson - Em um artigo seu, Antecedentes Criminais Poéticos, você tece importantes reflexões a respeito do desinteresse do jovem pela poesia. Por que o jovem lê tão pouco textos poéticos? Que parte da culpa cabe à escola?

Carpinejar - A poesia não é posta na escola como criação, porém apenas como leitura e catalogação de gêneros e escolas. Persiste uma interpretação mórbida da vida do autor em detrimento da obra. Sabe-se mais das doenças de Castro Alves do que de suas odes. Esse é o grande erro. É impraticável criar um laço com aquilo que não é exercitado. Ninguém nasce tocando violão. O jovem tem uma vocação natural à poesia, procurando se expressar por diários, cartas e agendas antes de qualquer outro gênero. Infelizmente, não recebe o incentivo, o exercício da sensibilidade, a intimidade do convívio, que insira o verso como algo espontâneo, real, funcional e vivo. O sistema educacional brasileiro trata a poesia como um luxo ou um acessório. Pela desinformação, ela termina sendo sinônimo de tumba formal ou de derramamento, catarse e atentado emocional ao pudor. Poesia é o contrário: contenção e ritmo, idéias e música, relâmpago da voz.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

amálgama #5 - Wanderson Lima entrevista Carpinejar [parte01]



- Publicado originalmente em amálgama #5, agosto de 2004.


“POESIA É NUNCA SE ALFABETIZAR”
Wanderson Lima entrevista Fabrício Carpinejar


Durante alguns meses, troquei com Fabrício Carpinejar alguns e-mails em que discutimos a poesia alheia e, às vezes, a nossa. Surpreendi-me como, em seus breves e-mails, Carpinejar conseguia ser a um só tempo crítico e poético. A essa época, já havia lido a histórica entrevista que o autor de "As Solas do Sol" (1998) havia concedido, na revista eletrônica Agulha, ao crítico e poeta Floriano Martins e senti que valeria a pena fazer-lhe outros questionamentos, quiçá completares às indagações argutíssimas de Floriano. O resultado são essas nove perguntas que seguem e que Capinejar respondeu, via e-mail, pelo mês de agosto de 2003.

Fabrício Carpi Nejar nasceu em Caxias do Sul (RS), em 1972. É poeta e jornalista. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS. Publicou cinco livros de poemas, o mais recente, "Caixa de Sapatos" (2003), pela Companhia das Letras. Recebeu diversos prêmios literários, entre eles o Prêmio Internacional ‘Maestrale - San Marco’ 2001, Marengo d’Oro (5ª Edição), de Gênova (Itália), categoria obra em língua estrangeira, com poemas de "Um Terno de Pássaros ao Sul" e o Prêmio Nacional Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras, com "Biografia de uma Árvore", escolhido o melhor livro de poesia de 2002. 




Wanderson - Ernesto Sábato, em um de seus ensaios, diz que em nossa época um escritor que queira se passar por profundo deve ser obscuro, pois temos associado clareza à superficialidade. Esse comentário de Sábato parece ter a ver com uma linha de nossa poesia que engloba Bandeira, Quintana, Manoel de Barros e você, verdadeiras vítimas desse julgamento equivocado, patrocinado principalmente por certos vanguardismos formalistas afeitos a experimentações herméticas as quais só é possível a compreensão se estivermos por dentro de seus pressupostos teóricos. O que pensa sobre isso?

Carpinejar - Eu penso que o poeta não deve ir ao fundo da linguagem, mas permanecer em vigília na superfície. A superfície é densa e expressiva, onde o mundo nos assiste. O que me importa é o cheiro da rua, da casa, das roupas, remexer no desperdício. Estar tão próximo do leitor que ele me sinta longe. O fundo é isolamento e nos afasta da vulnerabilidade. Desde criança, tenho uma empatia pela fraqueza. Sempre tentei amparar quem estava desfocado, deslocado, às margens. Minha linguagem é um esforço de diplomacia entre a imaginação e a realidade, entre os que as pessoas pensam e o que elas são. Criou-se uma crença de que a boa poesia é aquela que não é compreendida. Quanto mais difícil, melhor a criação. Não concordo. A poesia precisa falar para todos os tempos em qualquer tempo. O tempo tem que estar vivo no verso. O que adianta dizer para não dizer? O que adianta apenas preencher um lugar na estante? O que adianta escrever para si? Melhor então é nunca publicar. Escrevo como doação, buscando transferir meu sangue. Minha única vanguarda é acompanhar minha morte a distância. Deixar que ela se aproxime. Enquanto isso, vou fazer da vida a minha mais alta despedida. O verdadeiro poeta não precisa de um prefácio para ser entendido. A sensibilidade tem urgência e não fica esperando pressupostos teóricos.

Wanderson - Mário Faustino, quando de sua página no JB, reclamou certa vez que o Brasil estava cheio de “Drummondzinhos”. Talvez hoje ele dissesse que está cheio de “Cabralzinhos”...

Carpinejar - Mario Faustino era um leão (crítico) com coração de ave (poeta). Acredito que Cabral teve muitos imitadores em vida. Mas é impossível imitar Cabral, o autor brasileiro com o melhor sistema anti-vírus. Houve até quem conseguisse cotejá-lo na forma, mas sem nunca atingir sua implacável visão de mundo. Imitar Cabral é tentar ser gago. Tudo não passará de uma caricatura. A poesia brasileira contemporânea está se libertando dos referenciais da última metade do século XX. Mais solta, convicta, menos experimental, capaz de inaugurar sua fome sem precisar recorrer à metalinguagem. Vários autores começam a aparecer com intensidade, não transformando seus livros em teses acadêmicas e procurando sentir o peso das contradições e paradoxos de nossa época.

Wanderson - O crítico Hidelbrando Barbosa Filho afirma com lucidez: “Poeta que pensa, Carpinejar, no entanto, não busca seu pensamento fora de sua vivência pessoal. À semelhança de Rainer Maria Rilke, nas Elegias de Duíno, sua convocação metafísica nasce do pacto com a vida, do olhar sobre as coisas, do olhar por dentro das coisas, e não exteriormente das doutrinas filosóficas que aí circulam.” Você concorda com os que afirmam que os poetas romperam “o pacto com a vida” e passaram a produzir uma poesia muito literalizada e auto-referente?

Carpinejar - Concordo. Centenas de poetas passaram a problematizar o poema, com medo da influência de Cabral, Bandeira e Drummond. A poesia virou um divã, uma terapia. Ao invés de propor um pacto com a vida, regurgitava a impossibilidade de se fazer um poema. Basta pegar aleatoriamente
qualquer iniciante das últimas décadas, sempre existirá um verso pedindo desculpas por não conseguir vencer a insônia. Há gente que ficou cega com a página em branco. Daí que os leitores se afastaram dos poemas pela ausência de identificação e foram encontrar ressonância biográfica nas letras da MPB e do rock. Agora o poema voltou a ser música, sentido e olhar demorado sobre as coisas. Retoma-se os grandes temas a partir das pequenas delicadezas e irrupções do cotidiano.

Wanderson - O cânone literário brasileiro precisa ser reavaliado?

Carpinejar - Sim. É um crime deixar de fora do cânone Cecília Meireles, Murilo Mendes, Jorge de Lima e toda uma poesia filosófica e mística. A crítica tentou dilapidar nossa herança barroca e visionária. A necessidade de engajamento nos anos 70 e 80 criou uma obrigação aos poetas de transformar o mundo. O que parecia mais subterrâneo e religioso, ficou de lado. Uma tônica realista e ateísta impregnou o cânone brasileiro, dificultando o acesso a alguns importantes precursores de nossa brasilidade. O lirismo acabou deslizando para os epigramas, ao humor, aos trocadilhos, aos haicais preguiçosos e aos anúncios publicitários. Do protesto, a poesia virou brincadeira.

Wanderson - Jorge Luis Borges parece ter sido muito importante em sua formação, como transparece especialmente em seus dois últimos livros...

Carpinejar - Ainda é importante. O que mais gosto dele é a espessura do pensamento. Ninguém lê Borges sem mudar o tom de voz. Ele exige uma projeção fônica de fábula, de vatícinio e história. Borges controlava a paixão durante a formulação poética para que ela despontasse somente na leitura, na oralidade. Ele acreditava que a grande magia estava em reunir novamente a narração e o poema, dizia que os leitores estavam sedentos pela épica. Nesse sentido, meus livros formam um romance versificado, um desdobramento de um enredo, feito pela velocidade das metáforas.


[continua...]

domingo, 23 de novembro de 2008

amálgama #5



Em agosto de 2004 publicamos a quinta edição de amálgama. Como editores, contamos com: Adriano Lobão Aragão, Alexandre Bacelar, Dílson Lages Monteiro, Herasmo Braga, Ranieri Ribas, Sérgio Batista, Washington Ramos e Wanderson Lima.

Nas postagens subsequentes, reproduziremos o conteúdo publicado em nossa quinta edição.




EDITORIAL


Como qualquer publicação independente do ramo literário, amálgama chegou ao quarto número praticamente se arrastando. O motivo, claro, a falta de recursos. Foram quatros números, de 2002 pra cá, editados com uma apresentação gráfica quase ao estilo de fanzine e com uma tiragem modestíssima que, não obstante, provocaram debates, incitaram ânimos, dividiram opiniões, enfim, cumpriram um papel social de alguma relevância.

O quinto número, que ora se edita, traz algumas modificações significativas e reafirma algumas posições já antes defendidas. A modificação mais visível é que amálgama passa, deste número em diante, a ser um jornal. Isso tornará mais prática sua difusão, barateará o preço ao público e irá nos permitir estabelecer uma periodicidade fixa, bimestral. Outra modificação significativa é a ampliação dos participantes que, felizmente, romperam as fronteiras do nosso Estado.

Dentre as posições que gostaríamos de reafirmar, ressaltaremos, para evitar delongas, apenas duas: a recusa do bairrismo enclausurante – verdadeiro cancro da cultura literária piauiense – e o sentido de abertura à pluralidade de opiniões. Abertura à pluralidade, aliás, que não significa ausência de critério – há, sem dúvida, entre as pessoas que a revista congrega, coordenadas comuns, pontos de convergência, mas amálgama não se constitui um grupo stricto sensu, como alguns querem. amálgama, como tantas outras publicações espalhadas pelo país, nasceu remediada contra as utopias vanguardistas policialescas e unitárias, que professavam (ainda professam!), em quase receituários, a forma certa de se fazer um poema e de dialogar com a tradição. Comungamos, dessa forma, com o que disse o amigo e colaborador Rodrigo Petronio em entrevista concedida a Floriano Martins: “Todas as maneiras de abordar o passado são criticáveis, devem ser, como tudo. Mas acreditar que elas sejam excludentes é algo que só colabora para o benefício da exclusão e não do espírito”.

Aqui se inicia, pois, uma nova etapa de amálgama.

Os Editores

sábado, 22 de novembro de 2008

“Deve-se escrever despretensiosamente, sem esperar recompensas”

foto: Acessepiauí

“Deve-se escrever despretensiosamente, sem esperar recompensas”
7.ª pergunta para WELLINGTON SOARES


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Aluno – 7ª série
Marcos Egidio


Wellington Soares de Jesus nasceu em 1958, em Teresina. Professor, cronista e contista. Participa da organização do Salão do Livro do Piauí – Salipi, da Fundação Quixote e da Civitas. Editou “A Linguagem dos Sentidos” (contos, 1992), “Maçã Profanada” (contos, 2003) e “Por Um Triz” (crônicas, 2007).


Quando foi que você percebeu que tinha talento para escrever?
Na verdade, nem eu mesmo sei se tenho talento para escrever, mas foi uma coisa que foi brotando naturalmente. Com o passar do tempo comecei a ler e a gostar de escrever também, e isso foi se fortalecendo cada vez mais.

Como se deu a elaboração de sua primeira obra?
Minha primeira obra foi “A Linguagem dos Sentidos”, lançada em 1992. É um livro de contos, uma obra ficcional, com vários aspectos interessantes. Teve uma ótima repercussão do Piauí a Minas Gerais.

Existe alguma pessoa que lhe ajudou durante sua carreira ou você fez uma carreira sem ajuda ou conselhos?
É impossível alguém fazer uma carreira sem ajuda, mas verdadeiramente quem me ajudou foram os autores que li, e que marcaram minha vida com o diálogo entre eles. Um diálogo coletivo entre amigos também foi uma ótima ajuda.

Você se inspira em algum autor para fazer suas obras?
Sim. Na verdade, um autor tem como inspiração os vários autores que leu e, é lógico, o desejo de comunicar-se, de retratar um problema, uma história ou uma solução possível para um problema, ainda que imaginário. Cito alguns dos vários autores que muito me influenciaram, como: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Rubem Braga, Dalton Trevisan, Carlos Drummond de Andrade, Mário Faustino.

O que você sugere para as crianças que têm interesse em seguir a carreira literária?
Praticar, ter consciência que se deve escrever por prazer e vontade, e que escrever é um ato solitário. Que nunca se pode escrever movido a dinheiro ou fama. Deve-se escrever despretensiosamente, sem esperar recompensas.

Como você consegue conciliar a atividade literária com outras atividades profissionais?
Como é muito difícil sobreviver apenas da literatura, não tenho a atividade literária como exclusiva, mas as outras atividades se complementam, e não coloco nenhuma atividade superior à outra. Eu me sustento mesmo é com meu trabalho de magistério.

Na sua concepção, como poderíamos incentivar a literatura piauiense?
Já melhorou bastante. Eu acho que devem adotar livros de autores piauienses para que as crianças conheçam nossa cultura, bem como ser adotada a literatura piauiense nas escolas, além do incentivo dos pais, pois a leitura faz bem ao próprio desenvolvimento do cidadão. Tirando-os da TV e do computador e incentivando a leitura, estará contribuindo para o crescimento moral e intelectual do seu filho. Além disso, os dirigentes deveriam construir bibliotecas espalhadas por toda a cidade, isto disseminaria o hábito de ler. O Salipi, por exemplo, é uma grande ajuda para divulgação da literatura piauiense.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

“Carrego em meu âmago um ser que se redescobre em cada palavra renovada”



“Carrego em meu âmago um ser que se redescobre em cada palavra renovada”
7.ª pergunta para DÍLSON LAGES MONTEIRO


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série
Laylla Lima
Lorena Magalhães
Thays Eline
Fragne Morais
Amanda Menezes



Dílson Lages Monteiro nasceu em Barras do Marataoã, Piauí, 1973. Edita a revista lítero-cultural entre-textos. Sua obra poética compreende + Hum-poemas (1995), Colméia de concreto (1997), Os olhos do silêncio (1999) e O sabor dos sentidos (2001).


Em quem, ou em que, o senhor se espelhou para seguir sua carreira?
Creio que as condições socioculturais favoráveis, aliadas ao estímulo da juventude, foram fundamentais para que alimentasse esse desejo contínuo de me autoconhecer, esse desejo contínuo de compreender melhor a esfera humana que me cerca – seus valores, seus sentimentos, seu som, seus sentidos. Nesse particular, diria que os estímulos recebidos na adolescência e uma obstinação muito própria, obstinação que carrego comigo desde quando tomei consciência do que queria para a vida, determinaram minha escolha de fazer das Letras não apenas uma forma de sublimar... mas também o meu ganha-pão. Jamais poderia deixar de citar os estímulos do professor A. Tito Filho, quando era ainda um adolescente, e posteriormente de Herculano Moraes. Muito me estimularam para que as portas da motivação fizessem com que acreditasse no potencial da criação. Por isso, digo que me espelho nos bons exemplos... eles foram exemplos para mim, quando ainda descobria o valor da Literatura... Descoberto, espelhei-me em muitos exemplos de grandes escritores. São tantos que não vou citar. Eles me habitam o inconsciente.

De que forma o senhor aprimorou sua escrita?
Costumo dizer que o melhor laboratório para todo escritor é a redação de um jornal ou, se não seja a redação, escrever para um. Comecei a descobrir os sentidos do texto escrevendo sobre Barras, minha cidade natal, em jornais de Teresina, e escrevendo alguns versos sem expressão anotados com o título de “Cadernos de Sonhos”. Eu ainda era um aluno secundarista e muito me lastimo não ter guardado aqueles versos sem som, sem literatura; mas cheios da vontade de aprender.
Comecei literalmente a escrever por volta dos 13 anos. Num belo dia, fui surpreendido, ao abrir as páginas do jornal O Dia, com texto de minha autoria. Estava lá: “Esquecimento”. Professor Arimathéa, que assinava quase diariamente crônicas no jornal e então presidia a Academia de Letras, mandara publicar generosamente. O texto estava horrível; além de transgressões gramaticais, uma paráfrase mal feita do que se dizia sobre a seca, apesar de dito com ênfase e convicção. Não era Literatura, mas começava ali meu desejo de escrever Literatura com qualidade. E assim comecei, estimulado por A. Tito Filho, a estudar Letras aos dezesseis anos e a viver intensamente a palavra e da palavra.
Logo estava publicando em alternativos literários e discutindo textos com escritores de outros estados; isso para mim foi uma grande oficina a que se somou minha experiência de uma década no Instituto Dom Barreto, onde alunos exigentes me provocavam a refletir sobre a linguagem e a ler cada dia mais.
Nessa trajetória, vejo que a cada dia meu texto é outro, tanto estilística quanto tematicamente, porque também sou outro – outras leituras, outras prioridades, outros sonhos. Agora mesmo, depois de só escrever poemas e crônicas (estas inéditas) – não conto aqui obras de cunho didático, ensaístico ou historiográfico, por onde também já me aventurei a escrever e publicar – estou me aventurando com entusiasmo a escrever um romance.
Hoje, vocês mais novos têm muito mais chances do que nós, adolescentes da década de oitenta. E é preciso aproveitar essa oportunidade. Hoje, o jovem pode iniciar escrevendo um blog e, se persistir, encontrar rapidamente o seu “leitorado”.

Por que você escreve?
Para sublimar, para vencer meu inconsciente, porque carrego em meu âmago um ser que se redescobre em cada palavra renovada.

Quando e onde nascem seus livros?
Eles vão se construindo de minhas vivências e pouco posso determinar sobre isso. Apenas sei que não são frutos do acaso.

O que gosta de fazer em seu tempo livre?
Meu tempo livre é curtíssimo. Aproveito para ir a minha cidade natal, onde além do descanso colho matéria literária e me sinto um personagem da história, o que Teresina não consegue me possibilitar. Esta cidade também me estima, mas sobretudo como meu local de trabalho. Não aprecio a tarde diante da tv ou no cinema vendo filmes. Não tenho paciência para isso. Ocupo ainda lendo boa Literatura – o que já faço por vontade ou por imposição pessoal no dia-a-dia; lendo Literatura, seja em livro, seja na Internet. Aproveito também para o contato com escritores e para trabalhar em meu site, que não é propriamente meu.

Quais são seus projetos para o futuro?
Estou editando a coletânea “Adiante dos olhos suspensos” e escrevendo o romance “O morro da casa-grande”. Estou empolgado com a história e às vezes me vejo dentro dela. Segundo alguns críticos amigos, estou acertando na qualidade do texto, que é o mais importante. Espero que não seja apenas mais um livro. Porém, se for, o meu entusiasmo valeu...

O que é necessário para se tornar um grande escritor?
É preciso, sobretudo, vontade de mergulhar nas palavras... Se tiver talento e o sistema literário ajudar, prospera algum dia, se for descoberto. Se não for, ficou pelo menos a satisfação pessoal de ter vivido seu tempo – o tempo de sua palavra.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

“Sempre estou trabalhando em alguma obra”

foto: Sérgio Batista

“Sempre estou trabalhando em alguma obra”
7.ª pergunta para FRANCISCO MIGUEL DE MOURA


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série
Jadson Viana
Liuhan Oliveira
Vinycius de Sousa
Vinicius Alexandrino
Mateus Desidério


Francisco Miguel de Moura nasceu em Francisco Santos (outrora “Jenipapeiro”, município de Picos, sertão do Piauí), aos 16 de junho de 1933. Formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí e pós-graduado na Universidade Federal da Bahia. Funcionário aposentado do Banco do Brasil. Dentre sua extensa obra encontramos Areias (poesia,1966), Pedra em Sobressalto (poesia, 1974), Bar Carnaúba (poesia, 1979), Os Estigmas (romance, 1984), Poesia in Completa (poesia, 1997) e Porque Petrônio não Ganhou o Céu (contos, 1999).


Quando o senhor despertou o interessou pela Literatura?
Foi muito cedo, talvez tivesse 11 a 12 anos. Ficava na mata – morava no interior, naquela época – ouvindo os passarinhos cantarem, cada um com sua modulação e voz, vendo-os às vezes em suas variadas cores e pensava algo parecido. Já havia lido poemas, na escola, de Olavo Bilac a Castro Alves, de Casimiro de Abreu a Álvares de Azevedo. Então passei a tentar imitá-los, na escola, quando nos períodos vagos, ou na hora da merenda, etc. Mas não mostrava a ninguém.

Qual a sua preferência em relação a suas obras?
Não tenho preferências. É claro que de algumas a gente gosta mais, principalmente daquela que se acabou de escrever ou publicar. Meu melhor romance, nessas condições, é “D. Xicote”. Parece, mas não é “D. Quixote”, que só li depois que escrevi o meu. Em poesia, meu melhor livro é a “Antologia” (poemas escolhidos pelo autor).

O senhor costuma visitar sua terra natal?
Sim, todo ano, principalmente em outubro, quando há festas da Padroeira. Também, no mesmo mês, vou a Picos, cidade próxima, onde há um evento literário para o qual sempre sou convidado a fazer palestra. As lembranças de minha terra, do meu tempo de criança, continuam comigo aonde vou, mas é claro que, visitando a terra, elas afloram mais fortes. Já minha adolescência foi muito bagunçada, não sei bem onde curti seus anos, pois meu pai vivia de mudanças, ora aqui, ora acolá.

No poema “Escuro”, o que o senhor quis dizer com “as coisas estão com medo”?
O discurso literário é plurissignificativo. No meu entendimento, como leitor de mim mesmo – se estou poetizando com a natureza – claro que aí são as “coisas” da natureza modificadas pelo homem. A natureza vira coisa na mão dos homens, rio ou esgoto, ar ou fumaça, árvore ou erva daninha. Mas, se você quiser, também o significado pode estender-se realmente às coisas (que estão sobrando nas prateleiras, nas bancas, nas fábricas, nos armazéns), humilhando-as e daí o sentimento de medo que elas podem (e devem) ter nestes tempos de horrores: furacões, tufões, tsunamis, etc. Daí elas (as coisas) podem ter seus dias contados, sua glória quebrada por uma segunda morte, a morte por extinção completa das suas formas.

Para o senhor, qual foi o auge da sua carreira como escritor?
Agora, quando acabo de publicar minha “Fortuna Crítica”, uma antologia de artigos e ensaios sobre a minha obra – prosa e poesia – contando, entre os participantes, com ensaio, artigo ou carta, autoridades como Drummond, Fernando Py, O. G. Rego de carvalho, Magalhães da Costa, Rejane Machado, M. Paulo Nunes, Assis Brasil, Oton Lustosa, entre outros.

O senhor está trabalhando em alguma obra atualmente?
Sempre estou trabalhando em alguma obra, às vezes em mais de uma. É o caso de agora. Estou preparando meu quinto romance, “O Crime Perfeito”, terminando de escrever “O Menino Quase Perdido” e meus poemas inéditos, que, com o volume atual, fazem 5 – só de inéditos.

O senhor acha que é possível mudar as pessoas através da literatura?
Não é possível a mudança nas pessoas, salvo por elas próprias. Aqui estão excluídas as crianças, porque ainda não são pessoas propriamente ditas – são criaturas. As mudanças pessoais só vêm com a vontade (grande vontade) de quem assim o quiser. Claro que nada é capaz de mudar ninguém se ele próprio não quer. A vontade é a alma. Mas pode ser, apenas como hipótese, que uma grande obra venha a mudar o rumo de uma vida, e, quem sabe, de muitas vidas. Na literatura universal, por exemplo, conheço “Crime e castigo”, obra que pode mudar o interior dos leitores. Como, aliás, todas as demais obras de Dostoievski e também de Leon Tolstoi, por coincidência dois autores russos. A Bíblia tem mudado o mundo, pelo menos desde o advento de Jesus, que pregava a lei do amor.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

“Através da poesia, a palavra deixa de ser mero meio e torna-se um ser”



“Através da poesia, a palavra deixa de ser mero meio e torna-se um ser”
7.ª pergunta para WANDERSON LIMA


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série
Ana Beatriz
Cláudio Valentim
Ingrid Rocha
João Pedro
Victor Trajano


José Wanderson Lima Torres nasceu na cidade de Valença do Piauí (PI) em outubro de 1975. Poeta e professor, mestre em Letras pela Universidade Federal do Piauí e doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Dentre outras obras, é autor de Morfologia da Noite (poemas, 2001), Balé de Pedra (poemas, Fundac, 2005) e Reecantamento do Mundo (ensaios, com Alfredo Werney, amálgama, 2008).


Qual o motivo da sua escolha na área de Letras?
Sempre gostei de ler, por isso escolhi fazer Letras e Jornalismo. Não terminei Jornalismo porque comecei a trabalhar muito, mas ainda hoje atuo na imprensa, no jornal Diário do Povo. Hoje, tenho outra paixão, que é o cinema. Vivo, assim, dividido entre o ensino, a produção escrita e o cinema. O curso de Letras me deu uma boa base, e sou satisfeito de tê-lo feito, apesar de, no Brasil, o professor não ser levado a sério.

Que metas você estabelece para sua carreira artística?
Auto-aprimoramento.

Como poeta, qual é o verdadeiro significado da poesia?
Poesia é revelação: afina nossa visão, inclusive nossa visão espiritual. Por isso, é meio de educação da sensibilidade e recuperação de uma forma radical de pensar. Através da poesia, a palavra deixa de ser mero meio e torna-se um ser.

Entre suas obras, qual delas você entende como a melhor?
“Película”, um livro de poesia inédito que terminei no início de 2008.

Qual a importância do incentivo à literatura e poesia nas salas de aula?
Todos sabem que a leitura é fundamental em nossa formação, ela é fonte de autoconhecimento do mundo indispensáveis. No Brasil, porém, a família e a mídia participam muito pouco desta formação. Sobra, assim, muita responsabilidade para o professor.

Sendo professor, você possui sugestões para que se possa melhorar a qualidade de ensino nas escolas públicas?
Investir na formação dos professores e remunerá-los melhor. Além disso, criar estratégias para que a família participe mais do cotidiano escolar.

Qual a sua opinião sobre Literatura Piauiense?
Entre meus autores preferidos estão o argentino Jorge Luis Borges, o mexicano Octavio Paz, o russo Dostoievski e o japonês Bashô. Para mim, não importa de onde veio o escritor, pois arte não tem fronteira. Gosto de muitos autores nascidos no Piauí, como H. Dobal e Assis Brasil, mas penso que quando nós falamos “literatura piauiense” estamos limitando muito a coisa, misturando estética e geografia, mistura esta pouco elucidativa e frutífera. Falemos apenas de “literatura”, e leiamos sempre mais Da Costa e Silva, O.G. Rego de Carvalho e outros bons escritores nascidos no nosso Piauí.

domingo, 16 de novembro de 2008

10x5 - exposição



O Espaço Cultural São Francisco convida para a abertura da exposição 10x5.

Cícero Manoel
Elon Constantino
Gabriel Archanjo
Genivaldo Amorim
Valderi Veras


Abertura: 22/11/2008 às 9h
Visitação: 23/11 a 23/12/2008
Segunda a domingo, de 7h30 às 17h30

Rua Lucídio Freitas, 1633 - Mercado do Mafuá
(86) 3221 3784 / 9992 4440
www.ecfrancisco.xpg.com.br
Teresina - Piauí - Brasil

sábado, 15 de novembro de 2008

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

“Se a pessoa não tiver talento, jamais poderá escrever”

Teoria do Simples, Hardi Filho, 1986. Capa de Albert Piauí

“Se a pessoa não tiver talento, jamais poderá escrever”
7.ª pergunta para HARDI FILHO


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série
Carmel Vilarinho
Júlia Felipe
Maria Mariana
Mariana Reis
Vinícius Siqueira


Francisco Hardi Filho, poeta, membro da Academia Piauiense de Letras, nascido em Fortaleza-CE, em 1934, mas há muito radicado no Piauí. Autor de Cinzas e Orvalhos, 1964; Gruta Iluminada, 1970; De Desencanto e de Amor, 1983; Teoria do Simples, 1986; Suicídio do Tempo, 1991; e Estação 14, 1987, dentre outros.



Na sua opinião, o que um bom escritor deve fazer para conquistar leitores?
Tenho certeza que nenhum escritor tem realmente essa preocupação. Depende da mídia, do próprio público, que às vezes não é educado para tal. Depende de diversos fatores.

Dentre os diversos poemas que escreveu, existe algum de sua preferência?
Essa é uma pergunta que todos fazem. É uma coisa do dia-a-dia. Muitas vezes, quando termino de escrever, já esqueço. Para quem escreve são muitos poemas é difícil escolher um só.

No final do ano de 2003, houve, na Bahia, o II Colóquio Internacional para discutir a “Crise na Poesia”. Você considera que a poesia está em crise?
Não vejo por esse prisma. A poesia ou é arte ou não é. Todos nós, por exemplo, aprendemos a ler e a escrever, mas nem todos são escritores. Se a pessoa não tiver talento, jamais poderá escrever.

Para que serve a literatura em um país como o Brasil?
A literatura é uma coisa muito importante, uma coisa mundial e é para todos. Através dela o mundo é registrado.

Como se dá seu processo criativo?
Uma pergunta muito complexa. É uma coisa que sai do ar e entra no pensamento. Tem que ser escrita na hora, senão ela vai embora e não volta mais. Se volta, é bem diferente de antes. Por isso, se sentimos vontade de escrever, escrevemos a qualquer hora.

Durante a sua carreira, você “se espelhou” em algum outro autor para escrever?
Eu diria que a palavra não é bem “se espelhar”, mas sim se identificar. Comecei lendo poetas brasileiros como Castro Alves, Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, e inclusive o piauiense Celso Pinheiro.

Como se define o homem e o poeta em seu espaço da vida?
É muito difícil falar de si mesmo. Geralmente é mais fácil falar dos outros. Temos que valorizar a vida. O meu objetivo de vida, creio que já alcancei. Para mim, as coisas mais importantes da vida são: a arte e a família.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

“A minha vida está toda diluída nos meus livros de ficção”



“A minha vida está toda diluída nos meus livros de ficção”
7.ª pergunta para ASSIS BRASIL



Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série
Alcione Barbosa
Beatriz Moreira
Guilherme Sousa
Maria Clara Melo
Murilo Dias



Um dos mais importantes escritores piauienses, Francisco de Assis Almeida Brasil nasceu em Parnaíba, 18 de fevereiro de 1932. Na década de 40, muda-se para Fortaleza-CE. No Rio de Janeiro, estudou jornalismo na PUC. Em 1956, assume a crítica literária do Jornal do Brasil. Autor de extensa e variada obra publicada ininterruptamente a partir da década de 60, da qual destacamos os romances da Tetralogia Piauiense: Beira Rio Beira Vida (1965), A Filha do Meio Quilo (1966), O Salto do Cavalo Cobridor (1968) e Pacamão (1969).


Quando e por que você decidiu ser escritor?
Desde sempre. Isso quer dizer o quê? Que desde o útero de minha mãe já ouvia as belas canções que ela tocava no seu piano. Arte, literatura, minha vida pré e pós-parto sempre girou em torno disso. Leitura, o fundamental. Sem saber, o escritor estava em formação.

Há alguma característica pessoal nos livros que você escreve?
É claro. É o chamado “estilo”. O estilo é o homem, disse um escritor. Já falaram muita coisa sobre o meu estilo. Me identifiquei com o que um crítico da minha obra disse: uma mistura do sensível com o real, porque o escritor não pode nem fugir de seu dimensão onírica nem de sua condição humana.

Dentre os livros escritos, qual o mais trabalhoso? E o mais prazeroso?
Muitos entre os meus mais de cem livros. Lembro-me de “Tiradentes – poder oculto o livrou da forca”, um romance de vastas pesquisas e muitas horas de trabalho. Com ele, com a execução, paguei um tributo até com a doença. Escrever para crianças é o melhor e o mais prazeroso do meu trabalho, e me descansa do trabalho intelectualizado, cerebral, dos meus ensaios e estudos críticos.

Você reconhece uma história que se aproxime da contada no livro “Os Desafios do Rebelde”?
Todos os meus livros têm uma história real paralela. Muitas vezes, o real empírico é mais contundente do que a ficção. Me acostumei com esse dualismo de criação. Vivi a maior das aventuras do meu personagem Gavião Vaqueiro. Antes de escrever o livro citado, já conhecia o fazendeiro neto dele, problemático, ambos morando em Cuiabá. Em visita ao grande romancista Ricardo Dick, ele me contou parte da história do garoto rebelde, que acabei transformando em livro.

Você já pensou em fazer uma autobiografia?
Não, porque devido à minha imaginação febril, eu iria mentir muito, e não é muito outra coisa o que as autobiografias contém. O escritor não pode fugir da sua imaginação para descer ao chão, muitas vezes vulgar, da sua vida pedestre. Ele está em outra. É claro que a minha vida está toda diluída nos meus livros de ficção.

De onde vem sua inspiração para escrever seus livros?
Para os materialistas, a inspiração vem do córtex cerebral, que contém tudo. Jung falou num inconsciente coletivo. Os espiritualistas têm um elo com o grande enigma, com a divindade. Eu, pessoalmente, acho que a criação artística é algo incomum, cheia de mistério. Uma experiência que é muito mais rica do que a experiência vivida. É o que alguns chamam de vivência: a experiência é da vida, a vivência é a experiência da arte, tão enriquecedora para o ser humano quanto a própria vida.

Você acha que a leitura pode transformar o mundo? De que forma?
Claro que sim. Educação é cultura, é livros, é leitura, em sala de aula ou em casa. Se seus pais não têm o hábito da leitura, quando você adquirir o seu, estimule-os a ler. O mundo está cheio de violência e coisas vãs, e tecnologia sem algo definido. A leitura é o melhor caminho para a pessoa se manter íntegra, honesta, altruísta, fraterna. Tudo isso está nos livros. A leitura, principalmente de livros de literatura, ficção, poesia, abre a imaginação dos jovens e dos menos jovens; e, se está estudando, com certeza será um bom estudante. Educação é cultura através dos livros, o caminho certo para uma humanidade espiritualizada, solidária, feliz. Grandes escritores já falaram sobre a importância da leitura num mundo pragmático, frio e sem valores humanos. Monteiro Lobato, Castro Alves... e, lá bem distante, o filósofo Platão, que recomendava a leitura aos jovens inclusive para livrá-los da marginalidade e do banditismo. E isso foi dito 400 anos antes de Cristo.

domingo, 9 de novembro de 2008

Maneira simplérrima de destruir uma cidade



Maneira simplérrima de destruir uma cidade



Esperar, escondido no gramado, que uma grande nuvem da espécie cúmulo se situe sobre a cidade detestada. Disparar então a flecha petrificadora, a nuvem se transforma em mármore e o resto não merece comentário.




[Julio Cortazar, A volta ao dia em 80 mundos, tomo I, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, Civilização Brasileira, 2008. p 17]

sábado, 8 de novembro de 2008

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

“A poesia é uma forma muito boa de melhorar a vida”



“A poesia é uma forma muito boa de melhorar a vida”
7.ª pergunta para ELIO FERREIRA


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série
Alexander
Carlos
Gabriel Ângelo
Josman
Leonan



Elio Ferreira de Sousa nasceu em Floriano, Piauí. Poeta, ensaítas, doutor em Letras pela UFPE, professor de Literatura na Universidade Estadual do Piauí, capoeirista. Publicou os livros de poema: Canto sem viola (1983); poemartelos (o ciclo do ferro) (1985); o contra-lei (1994); o contra-lei & outros poemas (1997) e América Negra (2004). Publicou poemas nos Cadernos Negros 27 e 29 e Quilombhoje (2004-6).


O que lhe influenciou para começar a escrever?
Eu comecei aos 8 anos, quando minha irmã me entregou uma foto de uma menina e um tucano. Ela falou que se eu fizesse um texto, eu seria gratificado com uma recompensa. Aos 17 anos comecei uma carreira que pode ser chamada de profissional. Já nos 18 para 19 anos publiquei meus textos nos jornais e revistas de minha cidade, Floriano.

Quais as obras que mais lhe gratificaram e aumentaram seu conhecimento?
Não são poucas. A todo momento são criadas novas histórias. Li grandes obras de autores como Machado de Assis, que me desperta muito interesse.

Você buscou inspiração quais livros quando escreveu suas obras?
Vários livros, como “As Mil e uma Noites”, “Mitologia dos Orixás”, em grandes autores como Machado de Assis. A inspiração veio da leitura. No decorrer da mesma, você ganha uma enorme inspiração.

Quais as dificuldades que você passou ao longo de sua vida em busca da carreira de escritor?
Em primeiro lugar, no Brasil é muito difícil a carreira, a profissão de escritor. Fazer e criar livros é uma tarefa muito difícil. Em outros países, como os EUA, existe uma cultura de leitura, já no Brasil, os autores têm que se autofinanciar. Não há muito interesse pela leitura, principalmente no Piauí.

Você se orgulha do trabalho que tem?
Claro que sim. Sempre tive vontade de escrever e a cada dia a experiência tende a melhorar as obras de texto.

Você acha que tem o merecido reconhecimento?
É uma questão problemática. Necessita-se de muita dedicação. Depois disso você mesmo tem de se auto-avaliar.

Com que tipo de texto você mais se identifica?
Eu gosto de poemas. Com a poesia, eu ganho mais experiência, e para mim é uma forma muito boa de melhorar a vida.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

"Não é fácil mostrar seu trabalho quando se é piauiense"




“Não é fácil mostrar seu trabalho quando se é piauiense”
7.ª pergunta para O.G. REGO DE CARVALHO


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série
Amanda Naira
Carla Curty
Cecília Teixeira
Iohanna
Raimundo Ferraz
Tamiris Carvalho


Orlando Geraldo Rego de Carvalho nasceu em Oeiras, no dia 25 de janeiro de 1930. Lecionou literatura no Colégio Estadual Zacarias Góis, bacharelou-se em direito pela extinta
Faculdade de Direito do Piauí, e atualmente é funcionário aposentado do Banco do Brasil. Autor de Ulisses Entre o Amor e a Morte, 1953, Rio Subterrâneo, 1967, e Somos Todos Inocentes, 1971.



O que influenciou o senhor a seguir a carreira de escritor?
Com certeza o livro O Guarani, de José de Alencar, que foi um dos primeiros livros que li.

No início da sua carreira você teve que enfrentar muitos obstáculos?
Alguns. Tudo que fiz foi com muita luta e determinação, pois não é fácil mostrar seu trabalho quando se é piauiense.

Sua cidade natal, Oeiras, lhe influenciou em algum livro?
Não muito. Só como inspiração, pois tudo que escrevo é ficção.

Você tem algum escritor que lhe serve, ou já serviu de inspiração para alguma obra?
Sim, um escritor francês chamado Gustave Flaubert.

Já que você é um escritor, e até editor de revista literária, o que lhe fez cursar uma faculdade de Direito e ser bancário?
Na época que eu estava para cursar a universidade, a única opção que valia a pena era o curso de Direito.

Você acha que já se realizou como escritor, ou ainda tem algo que gostaria de fazer?
Gostaria, só que hoje, com meus problemas de saúde, não tenho como continuar escrevendo.

Rio Subterrâneo é uma das obras suas mais famosas, pois foi comentada por vários escritores famosos da época. Quando você escreveu, previa esse sucesso?
Não, mas me surpreendi com todos os prêmios que ganhei com essa obra.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

“Ler é uma necessidade, mas também um prazer”

ilustração: Netto


“Ler é uma necessidade, mas também um prazer”
7.ª pergunta para CINEAS SANTOS


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª A
André Lucas
Ingrid Carvalho
Lorena Veloso
Luís Eduardo
Matheus Vilarindo


Cineas Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, sertão do Caracol, PI. Aos 17 anos chegava a Teresina, em 1965. Formou-se em Direito, mas dedicou-se à Literatura. À frente da Oficina da Palavra e da Fundação Quixote, Cineas é também um dos idealizadores e organizadores do Salão do Livro do Piauí, SALIPI, e responsável pela publicação de vários autores piauienses, como Da Costa e Silva e Mário Faustino. Escreveu os livros Tinha que Acontecer (contos), Miudezas em Geral (poemas), As Despesas do Envelhecer (crônicas), O Menino que Descobriu as Palavras (infantil, com ilustrações de Gabriel Archanjo), Nada Além (poemas).



Por que o senhor não seguiu a carreira jurídica, optando pelas letras?
Porque para ser um bom professor eu só dependo de mim; para transitar pela máquina da Justiça eu precisaria de meios que não disponho e nem de disposição para fazê-lo.

O que você acha da Literatura Piauiense? Ela está no mesmo nível da literatura nacional?
Não. Literatura, como qualquer outra arte, precisa de contato, visibilidade. O isolamento geográfico e cultural do Piauí nos impediu de conhecermos o que estava acontecendo no mundo. Ainda assim, existem grandes textos de autores piauienses: Da Costa e Silva, Mário Faustino, Torquato Neto, O. G. Rego de Carvalho e Assis Brasil, para citar apenas os mais conhecidos, que produziram textos da melhor qualidade e do mesmo nível do que de melhor se produziu na Literatura Brasileira.

O que deveria ser feito para que as pessoas pudessem se interessar mais pela Literatura?
Professores deveriam estimular os alunos a lerem os autores piauienses desde as séries iniciais. Infelizmente, os textos estudados nas escolas são apenas aqueles que figuram nas relações dos vestibulares. Não bastasse isso, professores ainda fazem resumos de obras. Ler é uma necessidade, mas também um prazer. Ninguém gosta do que não conhece.

Nos seus livros, você coloca fatos que aconteceram na sua vida?
Toda Literatura é, de certa forma, uma recriação do que vivemos, aprendemos e sofremos. Isso não é memória, é recriação. O que está no texto não é necessariamente o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido.

Para você, qual a importância do SALIPI?
Para mim, a importância é mínima; para o Piauí, deve ser máxima. O Salão não é feito para os organizadores, e sim para o público em geral. Esperamos que ele esteja cumprindo seu papel junto ao público jovem.

Quais as dificuldades para a edição de livros no Piauí?
Faltam leitores. Sem leitor, não há Literatura.

Como o senhor se sentiu ao receber o título de Cidadão Teresinense pela Câmara Municipal de Teresina?

Sou cidadão teresinense desde que cheguei aqui em 1965, pois aqui está o meu domicílio eleitoral. O título é apenas um símbolo e como tal deve ser entendido.

sábado, 1 de novembro de 2008

yone de safo § 5 - a bailarina da Ásia ondula





§ 5
[Adriano Lobão Aragão]


a bailarina da
Ásia ondula
suavemente seus
gestos lascivos

envolta em sua sombra
sua chama dança
desde a ponta
dos dedos volta
sua dança devassa

a bailarina da
Ásia oscula
suavemente a ponta
dos dedos

desenvolta seu véu
sua chana ao léu
onde dança
aponta a ponta
de minha lança

envolta em sua umbra
suavemente se depura
a cona a anca
o lábio a vulva
avulta a dança de puta

a bailarina da
Ásia perdura
suavemente ondula
os seios

desenvolta em sua dança
sua cona se alcança
desde o lábio
lambendo a anca
ofertada em altar de santa