sexta-feira, 31 de outubro de 2008

“Os poetas são fingidores, você nem imagina”



“Os poetas são fingidores, você nem imagina”
7.ª pergunta para EMERSON ARAÚJO


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof. Adriano Lobão Aragão
7.ª série

alunos:
Germana
Lucas Alves
Maria Jaíres
Mateus
Rafaela


Emerson Araújo, professor, bacharel em direito, especialista em educação profissional, escritor. Nasceu em Tuntum, Maranhão, mas é no Piauí que se sente feliz há mais de quarenta anos. Já escreveu: Vendedor de Picolé, Topada, Companheiros de Estrada, As Pedras da Aurora, 16 Movimentos Acima da Escuridão. Participou das antologias Baião de Todos e Estas Flores de Lascivo Arabesco. Fez parte da geração Pós-69, no contexto da literatura brasileira de expressão piauiense.


Qual a importância do incentivo à educação?
Olha, eu me fiz educador a vida toda, portanto todo incentivo a ela deve ter sempre um norte, ou seja, formar integralmente as pessoas para o exercício da cidadania, da vida sem opressores e oprimidos.

Para que serve um blog? Como você usa o seu?
Esta ferramenta de comunicação da grande rede tem me possibilitado a oportunidade de divulgar aquilo que eu escrevo e gosto de ler. É assim que eu uso o meu blog, [emersonaraujo46.blogspot.com], para me dizer no mundo.

O que você acha desta frase de M. de Moura Filho, postada no blog pessoal dele: “Se o meu blog parecer a alguém intolerável, pela forma que o conduzo, esqueça-o simplesmente; melhor do que perder tempo, porque a linha editorial no meu blog sou eu quem faço, e somente eu”?
Parece uma frase pedante, né? Mas não é. Quando o M. de Moura Filho coloca isso no blog dele,eu entendo que a criação de um autor, a princípio, é bastante egoísta. Mas não se preocupe com isso, pois todo artista é um fingidor em tudo.

De onde você busca inspiração para escrever?
Vou falar uma coisa. Eu sempre desconfiei desta coisa chamada inspiração, sabia? Mas vou te dizer o que disse para uma mestranda da UFPI um dia desses: eu escrevo para cobrir a lacuna da timidez. Aquilo que não consigo articular através da fala, eu escrevo. Escrever pra mim tem função terapêutica mesmo.

Como você define a sua produção poética?
Desculpe, mas não defino nada. A pior pessoa para se definir é o próprio escritor e, principalmente, o poeta. Os poetas são fingidores, você nem imagina. Portanto, aprenda a desconfiar dos poetas. Dos artistas de uma maneira geral.

Dos livros que escreveu você tem algum em especial?
Pretendo ainda escrever o especial. Todos que eu escrevi representam etapas do meu construir literário. Portanto, todos foram especiais e serão sempre.

Qual a importância da poesia no mundo contemporâneo?
O mundo sempre precisará da poesia. Ela é a mãe da arte literária. Então a importância dela se iguala ao pão da manhã e ao ar de todos os momentos. Poesia sempre!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Viola Chinesa - Camilo Pessanha


ilustração: Pessanha, óleo de Adriano Lobão Aragão, 1999

VIOLA CHINESA
(A Wenceslau de Moraes)
[Camilo Pessanha]

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

amálgama #4 - ÁGORAdaTABA


ilustração: Netto

- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.





4 comentários sobre LEONARDO DA SENHORA DAS DORES CASTELO BRANCO


Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco (1788-1873) é um dos poetas piauienses que carecem de uma séria e rigorosa revisão e divulgação de sua obra. Escritor, revolucionário e cientista, autor de O Ímpio Confundido (1835) O Santíssimo Milagre (1839) e A Criação Universal (1856), desperta incompreensão e paixões diversas. Vejamos alguns comentários que servem de ponto de partida para uma futura revisão e para instigar o desafio.



[01]
“(...) Com pequenos laivos arcádicos, é tudo o que faz o leitor lembrar que seus versos poderiam ser literatura. (...)
Leonardo era homem de pouco estudo. Historicamente é nosso primeiro poeta, mais pela vida que levou, pela vontade que teve. No longo poema A Criação Universal, 1856, ele perseguiu ingenuamente a poesia científica. Ora, não pode haver poema científico. Poesia não é ciência. Ciência não é poesia. São duas linguagens distintas, impossível associá-las. Outra: ele escrevia para as reses, para o pasto, para as matas. Não havia leitores. Não havia escolas no Piauí, nem bibliotecas, nem jornais para publicar seus trabalhos.”

(Franscico Miguel de Moura. Literatura do Piauí, 1859-1999, Academia Piauiense de Letras, Teresina, 2001. página 46)



[02]
“Como homem de letras, Leonardo não teve, em seu tempo, leitores-críticos suficientemente preparados para compreender sua obra. Talvez pela dificuldade de acesso às obras ou preconceito ao censo épico adiantado em relação aos épicos clássicos, muito ao gosto no século XIX e parte do século XX. Muitos estudiosos, tidos como homens letrados, desqualificaram o poeta e sua poesia. Seguramente, neste início de século XXI, os seis volumes de sua tríade épica serão reeditados, por iniciativa de pessoas comprometidas em fazer leituras analíticas e críticas capazes de reabilitarem o poeta e sua poesia.”

(Luiz Romero Lima. Presença da Literatura Piauiense, 3.ª edição, Teresina, 2003. página 23)



[03]
“O poema A Criação Universal, de Leonardo, é dividido em seis cantos, segundo o plano da criação bíblica. Contém 4.247 versos soltos e numerosíssimas notas explicativas. É um livro ilegível, sem elevação de estilo, sem arte, cheio de pueridades. Não tem uma página, uma linha que possa merecer a posteridade. Tudo nele é prosaico e chato.”

(Clodoaldo Freitas. Vultos Piauienses, apontamentos biográficos. 2ª. edição, Teresina, FCMC, 1998. página 95)



[04]
“A verdade é a seguinte: espalhou-se, por aqui, ao longo de séculos, uma certa postura burra de desprezo por autores literários com cara de universal. Assim fizeram com Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, tentaram fazer com Mário Faustino. E se não fossem os integrantes da Geração Pós-69, Torquato Neto seria, no máximo, um poeta baiano.
Daí a necessidade urgente de livrar Leonardo da peste analítica frouxa dos autobiografistas da terrinha, metidos a ensaistas, que continuam repetindo a impressão redutora de João Pinheiro de que faltava a Leonardo as ‘precípuas qualidades de poeta’. Nesse sentido é necessário colocar de novo em circulação as obras editadas por ele, e atualizar o raciocínio crítico a respeito do que escreveu. Como fizeram os irmãos Campos com Sousândrade. Como fez Ezra Pound com o provençal Arnaut Daniel. Essa é a única maneira de fazer com que as aves bico revolto do Canto 5 do verso 275 da Criação Universal de Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco venham acabar com essa festa bufa dos autobiografistas piauienses de plantão.
No fundo, aqueles que se colocam como sucessores do João Pinheiro que, a respeito de Leonardo, copia simplesmente o pensamento do Clodoaldo Freitas, deixaram entre nós, uma grande dúvida: será que leram mesmo o Leonardo, ou estão blefando?"

(Rubervam Du Nascimento, poeta, autor do premiado livro Marco-Lusbel desce ao Inferno, Editora Blocos/Rio de Janeiro, 1ª. edição, 1993, onde dialoga, entre outros, com poemas de Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

amálgama #4 - Palaversoesia




- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.


[3 poemas de Wanderson Lima]


dói o pássaro – a imagem – no outdoor
e a carícia da motosserra no ipê

dói o adjetivo colhido verde
e jogado ao lixo pelo gatuno oportuno

dói a paz interior de padres & pastores
que antegozam a flor-diamante do céu

dói a volúpia silente dos cartões de crédito
e sorriso do sílvio santos aos domingos


_______________________


O trem partiu com uma falta de fôlego
que me fez frear o frêmito da vida.
Do sol, inchado, tombou chuva de fogo
no chão: só resta flutuar – ou fugir.

E descobrir o porquê da cada casa,
cada curva, cada riso. Extrair
ternura do chumbo, leveza do jumbo:
da gaiola-céu prostituir as aves.

Flutuar, sim! Amar esse magro, amargo
gosto de chuva que chove e dói em mim
e murcha: nuvem açoitando o devir.

Findou o fôlego do trem ou dos trilhos?
Pangarés forcejados por fogo, só bra-
damos sins de areia nas praias do não.


_______________________


SOMOS MISERÁVEIS

Pontes-sem-língua no rio Miséria
engendram a sordidez o suicídio a preguiça.
Aeromoças de museu – órfãs de vôo –
sugam a luz soturna das pedras.
A fé dos eremitas se dissolve na maçã
das horas podres e no escuro do medo.
O mundo solfeja nãos no olho
visguento da agonia : o Homem não

quer ponte de sol nem pranto de mel

domingo, 26 de outubro de 2008

amálgama #4 - Palaversoesia






- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.



[3 poemas de Wanderson Lima]

minha metade pássaro
passa
e
minha outra metade
é meta
(exílio?)
fora :
mofo & mofa


_______________


POEMA ENGAJADO

palavra inchada
não capina
nem cava.

palavra enxada
incha?


_______________


tigre nu, rei devorado:
palavra & vida, rimas & remos,
a subir o rio da linguagem.

tigre nu, rei devorado:
campânulas & idéias
plantadas na luz do nome.

tigre nu, rei devorado:
chicote sujo de agrura
limpos com chuva & verbo.

tigre nu, rei devorado:
o medo se fará nuvem,
o verbo se fará carne?

sábado, 25 de outubro de 2008

amálgama #4 - Palaversoesia







- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.




SONETO

[Alexandre Bacelar]

Esse escarcéu de cristos salvadores
Reunidos em mim, onde procuro
Por florestas de flores incolores
Ainda não plantadas nos escusos
Pátios aonde planto meus senhores
São deuses que resguardam os minutos 
Inatos ao meu tempo sem pudores
Ainda humanos que hão de me ferir.
Como pode um menino triunfar
Além, além de si tendo por si
Seara de batalha e tenro lar
Cuidoso onde repousa uma criança?
Como se as faldas férteis do terreno
Florescem do meu húmus de tormento?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

amálgama #4 - palaversoesia



- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.


GLÓRIA
[Alexandre Bacelar]


1º  Canto

Perde-se um menino à cidade das palavras
E se invade um menino esse pálio de magma
Um mero menino, uma criança, que não caça
Mais que seu gral, pré-fabricado e Santo
Mais que sua salvação
Ou que espalhe seu secreto encanto
À insuperáveis becos de nobreza.
Ave, pálio das palavras
Ave, metrópole, talvez abandonada
Mergulhada, talvez inexistente
Em mares magníficos.
Oh cidade, oh cidade - oh magma
Absoluto magma espargido na Treva
Abstrata lâmina incendrável
Ao simples toque de um menino.


2º Canto

Decai-se um profeta à cidade das palavras
Prosternado e lúcido
Não as quer sob seu jugo
A um profeta nutre navegá-las
Tais palavras preservá-las sobre Eras
Transformadas em Carvalhos de Minerva
Sua aurora converter em transantontens
Por tornar-se em algures imortal
Tal é o preço de um troféu
Irrisório exalando nada
Barro indesfrutável de acalanto
E que no entanto exige a vida inteira
Arriscada sob a névoa
Da baba de Sibila.



Canto Principal


Germina um poeta
Germina um poeta do ventre do século
Do ventre do século XXI
Pouco dado à sutilezas.
Poeta que caminha por sobre os Tempos
Por entre templos de espedaçadas palavras
palavras filhas
Evoluídas ao extremo do Abismo
De paupéries colossais.
“Todas as coisas são palavras minhas
Na boca trago mundos e nos olhos palavras
Ouvi-me.”
Ouvi o que empunha palavras acumuladas de dezessete séculos
Então profetizadas em sua lassa máscara de Jano
Indispensável a um poeta
Também por ocultar
Sob a face idolatrada, sob o Mito
A vil cabeça de um menino.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

amálgama #4 - Outras palavras



- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.





O SAGRADO CAMINHO
por Sérgio Batista



A velha mão, sobre a mesa rude, rumina seus gestos, sua trajetória, sentindo a pele opaca, inelástica. Os dedos tamborilando, aflitos, como a recontar as omissões que não dão trégua. No dorso, veias saltadas, expostas, impregnadas de um sangue ralo e frio arrastando-se em um vermelho morto. Na palma vazia, as linhas tortuosas e confusas de uma vida fútil, desperdiçada, perdida. Sob as unhas crescidas, o desleixo.

De súbito, um murro violento fere a cena. A pobre mesa estremece. Do outro lado do móvel, imóvel, sobre a superfície áspera da madeira, a determinada e laboriosa formiga espera, paciente, serena, pelo término do tremor. Diligente, logo que pode segue seu caminho. Leva consigo um peso verde – a cor da vida! - que ultrapassa em muito o de seu pequeno e frágil corpo. Diante do membro inerte pára e aguarda. Não sabe o risco que corre.

A mão, trêmula e ébria, ergue-se repentina, mas se faz pedra em pleno ar, congelada pela vergonha, pelo nojo de si mesma. Apenas inveja a dignidade que passa, inocente, inconsciente de sua majestade.

À moribunda, resta agarrar-se novamente ao copo. Ao inseto resoluto, cabe prosseguir seu caminho perene, sagrado caminho de formiga.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

amálgama #4 - Outras palavras



- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.





DIÁLOGO
por Jeferson Probo




Leonardo era alferes secretário da Divisão Auxiliadora do Piauí e morava na fazenda Taboca, então pertencente ao município de Parnaíba. Lutou, bradou e proclamou. Um dia, ele chegou ao Brejo, depois foi preso e transportado no Sociedade Feliz:

- Leonardo, algo a proclamar?
- Queridos irmãos que habitais as fecundas margens do caudaloso Parnaíba por um e outro lado, dignai-vos atender as sinceras vozes de um patrício vosso, que todo unicamente se dedica ao vosso bem presente e ainda mesmo futuro.

- Leonardo, onde estão o brio e o patriotismo brasilienses?
- Irmãos, o meu coração se vê dilacerado pelo pungente punhal da mais intensa dor!

- O que quereis, Leonardo?
- Irmãos! Irmãos! Quereis ter a doçura que a força exigia de vós e por violência obtenha o que o dever, a honra e o patriotismo em vão, até agora vos têm tão instante e cordialmente persuadido?

- Como assim?
- A dor me embarga as vozes do sentimento, apenas respiro.

- Esperais algo?
- Quereis que a vossa adesão à nossa santa e comum causa seja obra de força? Pois sereis satisfeitos. Ei-la. Ela se apresenta. Um pé de exército de quatro a seis mil homens já devem ter feito em Oeiras o que cedo vereis; outro de dois a três mil homens vai fazer o mesmo em Campo Maior.

- E agora?
- No curto espaço de três dias tem visto crescer o duplo de seus soldados. Obtida a possível reunião das forças mencionadas, seguros de vitórias, marcharemos alegres a desalojar o nosso tirano déspota do seu último mal seguro asilo.

- E depois?
- Primeiro derramaremos a última gota do nosso sangue, depois gritai comigo: Viva a nossa santa religião! Viva a futura Constituição brasiliense...! Viva a nossa santa independência! Vivam todos os brasileiros honrados, briosos e intrépidos!

- Que vos falta?
- As minhas obras, pois que, segundo o Senhor Jesus, a árvore se conhece pelos frutos, porém, os meus ainda não podem ser apreciados pelo público, que os ignora. O talento, porém, também nasce às vezes demasiado cedo, ou demasiado tarde. Se nascem muito cedo, antes do seu século natural, passam ignorados; e a sua glória começa quando eles já não existem.

- Que vos prende a língua?
- Camões, que hoje é idolatrado pelos seus patrícios, foi desprezado dos seus contemporâneos, que o deixaram morrer em lastimosa indigência. Também eu, vim a este mundo demasiado cedo, ao menos para a minha província, onde por vários anos solicitei debalde a proteção pública e particular. Se eu me enganei na minha esperança, se ela foi mal fundada, o que não presumo, só a experiência me poderá convencer, e cujo resultado não está distante, eu o aguardo esperançoso, porém, impaciente.

- Que vos impede os passos?
- Limoeiro.

domingo, 19 de outubro de 2008

amálgama #4 - Poesia e Escola

- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.


[continuação...]


o E N S I N O de P O E S I A
por Dílson Lages Monteiro



Lugar de poesia é na escola. Certo? Se se averiguar a relevância dela na formação do educando, a resposta, inevitavelmente, há de ser sim. Entretanto, vasculhando-se detidamente a prática vigente na educação brasileira, logo se observa – a poesia não habita, via-de-regra, o seio escolar. Por quê?

Micheletti, Peres e Gebara, citando pesquisa organizada por Lígia Chiappini, publicada no volume 2 da coleção Aprender a ensinar com textos, da editora Vozes, argumentam que o descaso ao ensino de poesia e às atividades relacionadas a este tipo de texto, decorrem basicamente das seguintes causas:

1. Freqüentemente a interpretação textual dada nos livros e materiais afins tem um caráter ‘impressionista’, ou seja, o autor das questões propostas ou dos comentários registra as suas intuições, as suas ‘impressões’ sobre o texto. É comum ouvirmos que a interpretação é livre.

2. Outro Obstáculo encontra-se no modo pelo qual muitos livros didáticos tratam o poema, pois os questionários propostos para a compreensão e interpretação dos textos acabam por solicitar apenas a identificação de dados referenciais, deixando de lado a expressividade dos componentes textuais.

3. Uma terceira razão reside no contexto em que aparece o poema na sala de aula: nas séries iniciais, para memorização da representação gráfica de alguns fonemas e ensinamento de atitudes valorizadas pela escola e pela sociedade; no ensino médio, nas aulas de Literatura, com um enfoque quase sempre voltado para o estudo das escolas literárias.”

Na análise da professora Alice Vieira, em O prazer do texto, perspectivas para o ensino de literatura, “não se incentiva a leitura de poemas, talvez pela ausência de metodologias adequadas, talvez pelo uso excessivo de metodologias importadas. Talvez por um desvio de objetivo do pensamento pedagógico, que aceita apenas as coisas que apontem para uma finalidade concreta e palpável”. Diante desse quadro, que alternativas podem lançar mão os professores para transformarem a poesia em ferramenta pedagógica do prazer e da criatividade?

A educadora paulista Zizi Trevisan, analisando de modo pormenorizado a questão, em pesquisa intitulada Poesia e ensino – antologia comentada, editora Arte e Ciência, fornece contribuição grandiosa para se reverter essa situação. Ela ressalta que o ensino da poesia deve levar em conta, sobretudo, o caráter estético do texto literário, a fim de criar condições para uma exploração acertada do fenômeno poético na sala de aula. Segundo ela, esse tipo particular de discurso, deve ser analisado como uma estrutura de natureza epistemológica, “capaz de gerar um distanciamento do real para um posterior questionamento crítico, filosófico, existencial...” Na prática, como isso ocorreria?

Para a autora, “a leitura estética (da poesia) deve, pois, ser vista como um processo dinâmico-relacional, porque ela produz a multiplicidade de acesso ao texto e a multiplicidade de acesso coloca a realidade textual sempre em nova perspectiva, desenhando, ao final, para o leitor, uma situação global do texto”. Assim, o estudo do poema deve priorizar a relação ritmo-imagem, por meio da qual é sensato explorar o humor, a (re)invenção da carga sígnica dos vocábulos, as relações intertextuais e, essencialmente, a imaginação e os sentidos.

Ler por esse ângulo é, como prega Alfredo Bosi, “recuperar a figura mediante um jogo alternado de idas e voltas: série de re(o)corrências. É referendar a semioticista Lúcia Santaella: “Com seus jogos de palavras, sob palavras, quase palavras, com suas aliterações e coliterações sonoras, com suas paronomasias, rimas e anagramas, a poesia cria fluxos e refluxos, antecipações e regressões de sentido que configuram processos relacionais, equações, diagramas internos animados pelas leis das correspondências, pela força da atração da analogia”.

Urge que a escola seja lugar, por excelência, da poesia. Dessa maneira, pensar uma nova prática para seu ensino é imprescindível, como indispensável uma prática que dialoga com a própria voz dos escritores, num “processo contínuo de realizações de significados a cada vez produzidos e modificados pelo leitor, em novas e diversas leituras”, Afinal, é nisso que reside o prazer de ler e o sentido social da relação ensino/aprendizagem da leitura.

sábado, 18 de outubro de 2008

amálgama #4 - Poesia e Escola

- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.





R A Z Õ E S para E N S I N A R
por Dílson Lages Monteiro



Confundida cotidianamente com atividade piegas, com exercício de sonhadores, com prática de gente ociosa, a poesia vai sendo negligenciada a um espaço obscuro, embora consista em elemento dos mais importantes para a ampliação da inteligência lingüística. Mas onde reside essa esquecida importância?

Em linhas gerais, o teor pedagógico da poesia se mostra nas palavras da professora Beatriz Citelli: “As experiências desenvolvidas, especialmente com a produção e recepção do texto literário, revelam que, ao vivenciarem modalidades discursivas polissêmicas, dotadas de signos menos referenciais, os alunos tendem a soltar a imaginação, descobrindo faces e possibilidades expressivas da palavra”. Por quê? Ora, “a subjetividade abre portas para a subjetividade”, como afirma David Olson em “O mundo no papel: as implicações conceituais e cognitivas da leitura e da escrita”.

Assim, o ensino de poesia impõe-se como necessidade à compreensão da subjetividade peculiar à linguagem, ensejando dentre vários benefícios “a produção do texto como uma forma de ação e interação social”. Ensinar poesia contribui a que o processo de escritura de textos desenhe-se funcional, reflexo do resgate profundo de experiências individuais (profundo, porque mediado pela emoção) e, fundamentalmente, da ativação dos sentidos, que deveriam adquirir conotação primeira no desenvolvimento do discurso escrito, tendo em vista ser ferramenta consistente para a elaboração do conhecimento.

As especulações de alguns filósofos ilustram bem o valor da poesia na elaboração/aquisição da linguagem e do conhecimento. Entendendo que a poesia, em primeira instância, compõe-se a partir da abundância de dados sensoriais é cabível redimensionar, por exemplo, o pensamento de Locke para este contexto. Ele argumenta que “a percepção é a primeira operação de todas as faculdades intelectuais e a entrada de todo conhecimento em nossas mentes”. Conseqüentemente, o exercício assíduo da leitura e escritura do poema, visto ser uma atividade por excelência sensorial alarga a percepção, facilitando, dessa maneira, a inter-ação com a linguagem e a produção de conhecimento novo.

Que o diga a semioticista Lúcia Santaella: “Os sentidos são dispositivos para a interação com o mundo externo que têm por função receber informação necessária à sobrevivência”. Além disso, argumenta citando idéias de Gibson, o qual, “não considera os diferentes sentidos como meros produtores de sensações visuais, táteis, sonoras, gustativas ou olfativas. Ao contrário, são mecanismos ativos de busca e seleção de informações. (...) Os órgãos dos sentidos produzem dois tipos diferentes, mas simultâneos de sensibilidade: de um lado, operam como receptores passivos que respondem cada qual à sua forma apropriada de energia. De outro lado, constituem-se em órgãos perceptivos ativos que formam sistemas de orientação, exploração, seleção, organização, investigação e extração.

Cabe destacar, conforme atesta Locke, em busca de definir a percepção, que “cada um saberá melhor o que é a percepção refletindo acerca do que ele mesmo faz, quando vê, ouve, sente ou pensa, do que mediante qualquer explicação”. Esse pressuposto ratifica a necessidade de tornar freqüente a poesia na escola (e fora dela): se é através da prática do emprego dos sentidos que se compreende, de fato, a percepção, viver a poesia é dever primário; haja vista o reconhecido valor da experiência perceptiva na construção do conhecimento, como explicitado.

Não bastasse o que já se enfatizou, outro motivo suficiente para destinar à poesia – e por extensão à percepção – o espaço realmente merecedor, está na constatação de que segundo ensina Olson, recorrendo a Descartes, “as idéias têm origem principalmente no próprio indivíduo, não no mundo”, porquanto, de acordo com as palavras deste, “as coisas que sinto e imagino talvez não sejam nada fora de mim e nelas mesmas. Tenho certeza de que essas formas de pensar, que denomino sentimentos e imaginações apenas na medida em que são formas de pensar, se encontram em mim”.

Por que ensinar poesia? Ora, está provado que o conhecimento não se dá apenas pela incorporação de elementos do mundo inteligível. Antes do ingresso a tal âmbito, faz-se, consciente ou inconscientemente, o mergulho nas vias do sensível. Dessa maneira, o acesso ao conhecimento (e também ao domínio da linguagem) é, em primeira escala, psicológico, o que mostra o peso da poesia no desenvolvimento da inteligência lingüística.




[continua...]

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

amálgama #4 - "Incultos versos, ó Leitor, te ofereço"

- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.



“Incultos versos, ó Leitor, te ofereço”
por Adriano Lobão Aragão




Incultos versos, ó Leitor, te ofereço
Prole de um Vate, que há três anos voa
Pelos imensos, Helicônios ares.”


(Últimos versos da Dedicatória de Poemas,
primeira obra de Ovídio Saraiva,
publicada pela Universidade de Coimbra em 1808.)





Em 1759, tomava posse o primeiro governador da Capitania de São José do Piauí, João Pereira Caldas, embora ainda continuasse dependente do Maranhão, situação que só iria mudar em 1811, podendo então se entender diretamente com a metrópole. Constituindo um escasso contingente humano, não havia pessoas aptas a desempenhar as diversas funções vitais para organização administrativa da província. A educação escolar continuava praticamente inexistente e o poder público buscava sobreviver entre os desmandos dos fazendeiros que dominavam a região. Próximo ao litoral, encontramos a Vila de São João da Parnaíba, que segundo o ouvidor geral dr. Antonio José de Morais Durão, tinha, em 1774, uma população de 2.694 pessoas, distribuídas em 444 fogos, residências familiares, 79 fazendas e 500 sítios. Nasceria nessa vila, em 1787, o poeta Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, filho de Antônio Saraiva de Carvalho e Margarida Rosa da Silva.

O analfabetismo era generalizado e às famílias abastadas só cabia enviar seus filhos aos maiores centros ou valer-se da figura do mestre-escola negro, alforriado e proveniente da Bahia, para ensinar-lhe as primeiras letras, pois não havia ensino regular. Dessa maneira, Ovídio Saraiva permaneceria somente seis anos no Piauí, sendo enviado pelos pais, em 1793, para iniciar seus estudos em Portugal. Em seu Soneto LXII, faz referência a seu exílio.


Soneto LXII

Passaram lustros três, e mais três anos,
Que à Estância dos mortais volvi do nada;
Mas bem que inda não seja adiantada
Minha idade, sofrido hei já mil danos:

Além dos torvos mares desumanos,
Recebi dos meus Pais a vida ervada,
E contando anos seis, à Pátria amada,
Arrancaram-me os Pais com vis enganos:

Desde então me arrepela a voz maldita,
Da desgraça letal o braço forte,
E sobre tetos meus o Mocho grita;

E se não me enganei nos Céus... ó sorte!
Esta sentença li, com sangue escrita,
“Em breve lutarás com a torva morte.”

(Poemas, 1808)


E contando anos seis”, Ovídio foi enviado pelos pais a Portugal. Os versos declarando que, longe da remota vila no Piauí, o destino anunciado pelo Mocho, ave de rapina noturna menor que a coruja, seria morrer é mais reflexo de uma temática constante em seus versos que sentimento telúrico. Na realidade, o exílio foi determinante para sua vida, e não para a morte, pois em 1805 estava matriculando-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra. Ovídio dedicaria seu primeiro livro, Poemas, ao vice-reitor Manoel Paes de Aragão Trigoso. Encontramos os seguintes versos em sua homenagem no poema-dedicatória que abre o livro:

Um Mecenas portanto, em ti procuro,
Trigoso Benfeitor dos Céus, (...)
(...) farei teu nome,
Sobre as plumas de um Estro arrebatado,
Soar de Céu em Céus, de mundo em mundos.

(...)


Poemas foi publicado na Imprensa da Universidade de Coimbra em 1808, mesmo ano em que Dom João VI transfere-se com a corte portuguesa para o Brasil em virtude do cerco de Napoleão. Ovídio fez parte do batalhão acadêmico organizado por ocasião da invasão francesa. Concluiria seu curso em 1811. No ano seguinte, é nomeado juiz na cidade de Mariana, Minas Gerais, e entre 1816 e 1819, em Nossa Senhora do Desterro, Santa Catarina. Embora sua poesia seja por muitos considerada Neoclássica, a formação literária de Ovídio, realizada em Portugal, possui uma nítida tendência pré-romântica expressa, po exemplo, em seu anseio pela morte, tendo uma declarada influência de Bocage.

Ovídio Saraiva chegou a ser desembargador da relação do Rio Grande do Sul. Em 1821, foi eleito representante do Piauí junto às cortes constitucionais de Lisboa, mas residia no Rio de Janeiro e, ao que parece, estava mais interessado nas tendências separatistas do Sul que em sua “pobre aldeia sem cultura”, renunciando ao mandato, assumido pelo suplente, padre Domingos da Conceição, que muito lutou pela educação no Piauí, embora quase nunca tenha conseguindo êxito em suas reivindicações. A situação pedagógica na província continuava deplorável, na qual temos descrições dessa realidade nos escritos de padre Domingos:

Setenta mil portugueses, cidadãos pacíficos do Piauí, são setenta mil cegos que desejam a luz da instrução pública para que tem concorrido com seus irmãos de ambos os hemisférios, pagando o subsídio literário, de sua origem e apenas conhecem três escolas de primeiras letras na distância de sessenta léguas cada uma, estas incertas, e quase sempre vagas por não haver na província quem queira submeter-se ao peso da educação da mocidade pela triste quantia de sessenta mil réis anuais quando a um feitor de escravos, tendo cama e mesa, se arbitra a quantia de 200$000.
(...)
E como desgraçadamente na província do Piauí não haja pessoas idôneas que possam e queiram encarregar-se destes magistérios, devem por-se em concurso nesta capital (Lisboa) preferindo-se em iguais merecimentos presbíteros, assim seculares, como egressos, por haver grande falta de acertos na província
”.


Eram nessas cortes de Lisboa que o deputado baiano Cipriano Barata defendia abertamente a independência do Brasil.

Pouco depois temos a proclamação da Independência e as lutas no Piauí em prol da libertação, nas quais não se registra o posicionamento de Ovídio. Como advogado, no Rio de Janeiro, em 1825 defendeu o patriota republicano Ratcliff, envolvido na Confederação do Equador.

Uma vez estabelecida a independência, temos a busca dos valores nacionais que tanto caracterizou a 1.ª Geração da poesia romântica brasileira. A abdicação de Dom Pedro I, em 1831, marca o primeiro hino nacional brasileiro, Ao Grande e Heróico 7 de Abril de 1831, de Ovídio Saraiva e música de Francisco Manuel da Silva. Este hino foi executado quando Dom Pedro I, após abdicar ao trono brasileiro em favor de seu filho, então com 5 anos, deixou o Brasil, indo assumir a coroa portuguesa. No entanto, pela sua duvidosa qualidade, o hino acabou substituído 10 anos depois, ironicamente por um de valor literário mais duvidoso ainda, do qual só registramos a utilização do mesmo refrão. Somente em 1922, no centenário da Independência, temos a letra atual, escrita por Osório Duque Estrada.

No hino de Ovídio, os portugueses, tão venerados em seu livro, Poemas, são agora tidos por “monstros”. Além disso, menciona preconceituosamente o sangue judaico e mouro, gerador de “homens bárbaros”. Segundo Gilberto Freyre, em Casa Grande & Senzala, os portugueses seriam, dentre os povos europeus, os mais indefinidos entre África e Europa, devido aos anos de dominação árabe na Península Ibérica e da contribuição judia, povo que possui a extraordinária capacidade de aclimatação em diferentes regiões do planeta, o que muito deve ter ajudado a suportar as dificuldades de suas diásporas. Seria esse sangue mestiço de judeus, europeus e árabes o elemento que propiciou a fixação dos portugueses no Brasil, embora eles mesmos demonstrassem preconceito contra judeus e árabes. O grito de liberdade pode ser remetido ao episódio de D. Pedro I às margens do rio Ipiranga proclamando a independência. Só que, desatando-se desde o rio Amazonas até o rio Prata, o hino faz homenagem à data de abdicação de D. Pedro I em favor de seu filho, D. Pedro II. A independência, sob o reinado de D. Pedro I, não é tratada como sinônimo de liberdade, o qual se contrapõe ao atual hino, onde após o Grito do Ipiranga, “o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da pátria”. D. Pedro II é anunciado como um futuro monarca realmente brasileiro, após “uma prudente regência”. Dessa maneira, fica patente que o reinado de D. Pedro I era visto como um prolongamento da dominação portuguesa, em transição para a “independência verdadeira”. D. Pedro I, após a abdicação, assumiu o trono de Portugal.

Observa-se que as características básicas do Romantismo brasileiro já se encontram no hino de Ovídio Saraiva: o nacionalismo, a presença da natureza (“desde o Amazonas até o Prata”), o exagero e até mesmo traços da poesia social abolicionista que caracterizaria a 3.ª Geração romântica, apesar das contradições com a realidade. “Neste solo não viceja / O tronco da escravidão”, escreveria Ovídio, embora a escravidão negra continuasse sendo a mão-de-obra fundamental do Império, como era na Colônia. A “melhor lição” dada pelo Brasil foi ser uma das últimas nações americanas a abolir a escravidão, em 1888. De qualquer forma, essas contradições e exageros, principalmente ufanistas, também são expressões do Romantismo, por isso temos um céu com mais estrelas, uma Iracema que corre mais que a ema selvagem e um Peri que arranca palmeiras do chão, como vemos em Gonçalves Dias e José de Alencar. Tradicionalmente, aponta-se como marco inicial do Romantismo o livro Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, publicado em 1836, cinco anos depois do hino de Ovídio. É claro que não se trata de nenhuma obra-prima, aliás, faltam maiores qualidades literárias ao hino e seus demais escritos, mas mesmo Bento Teixeira, precursor do Barroco no Brasil, com Prosopopéia, e o próprio Gonçalves de Magalhães, também nunca foram grandes artistas.

Quanto ao livro Poemas, não constitui um grande momento da literatura nacional, nem expressão de valores piauienses, sobretudo pelas condições culturais, sociais e políticas da província na época e do poeta ter tido uma formação cultural lusitana. Seu livro encontra influências na literatura portuguesa, notadamente Bocage, que Ovídio adotou como modelo poético. Da mesma maneira que o poeta português oscila entre o Neoclassicismo e um Pré-Romantismo, os poemas de Ovídio também buscam essa mesma tendência, embora lamentavelmente impregnados de plágio e diluições. Somente em 1825 o Romantismo iria surgir em Portugal, através de Almeida Garrett, com seu poema Camões, embora já existisse desde o século XVIII, na Alemanha e na Inglaterra. De qualquer forma, Bocage e seus seguidores enquadram-se num período em que a poesia portuguesa estava em transição para o Romantismo, resultando daí esse Pré-Romantismo, onde alguns valores do Arcadismo coexistem com aspectos românticos, como a morbidez configurada na morte, no desejo de morrer, no ambiente noturno e na angústia, mesmo que sendo convencionalismo e fingimento poético. Inserido nesse contexto, temos a poesia de Ovídio. O contato do Romantismo português com o Classicismo, uma das matrizes do Neoclassicismo árcade, é tanto que foi introduzido com um poema sobre Camões, o grande poeta clássico português. Esse ambiente repleto de valores clássicos que continuariam no Romantismo já se encontravam presentes nos versos de Bocage, e por conseqüência em Ovídio, pois eram padrões que a própria literatura portuguesa não se libertou nem mesmo com o Modernismo, com Fernando Pessoa, seu heterônimo Ricardo Reis, e seus contemporâneos. O Romantismo português baseou-se num abandono das convenções árcades, principalmente a imitação aos antigos gregos e romanos e a Petrarca, mas não significou ruptura com nenhum padrão pré-existente, principalmente temáticos. Nacionalismo já era uma questão literária forte desde Os Lusíadas, de Camões.

Almeida Garrett inúmeras vezes retoma Camões, assim como os árcades retomavam Virgílio e Horácio. Camilo Castelo Branco, reescreve na sua novela passional Amor de Perdição, a tragédia de Romeu e Julieta, que William Shakespeare trouxe, provavelmente de forma indireta, do conto de Matteo Bandello, escritor italiano contemporâneo de Boccaccio, de menor projeção e estilo, que por sua vez retoma o mito greco-romano de Píramo e Tisbe, também aproveitado por Shakespeare na comédia Sonho de uma Noite de Verão.

O fascínio de Ovídio por Bocage dominava sua obra. No poema Nênia, à nunca assaz pranteada morte de M.M.B. du Bocage, incluída em Poemas, temos os seguintes versos que demonstram claramente a condição de imitador de Bocage: “Em minha frase já não tenho, ó morte, / Como Elmano um autor, que alheias frases / Modifique, e transforme, e mude, e ajuste.”. Nesse sentido, podemos observar a confirmação desses versos comparando o soneto Apenas Vi do Dia a Luz Brilhante, de Bocage, com o Soneto I, de Ovídio Saraiva. O segundo quarteto de Bocage também apresenta semelhanças com o Soneto LXII, já mencionado, de Ovídio.

Apenas vi do dia a luz brilhante
Bocage

Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Tubal no empório celebrado,
Em sangüíneo caráter foi marcado
Pelos destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e enfim meu fado
Dos irmãos, e do pai me pôs distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura
Minhas faces com lágrimas inundo.

E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.



Soneto I
Ovídio Saraiva

Apenas tristes, os meus olhos viram
O rútilo esplendor do Sol dourado,
Prenhes de raios, por meu negro Fado,
Nuvens os altos Céus logo cobriram;

Do Báratro os portões logo se abriram
À Brônzea chave de Plutão raivado;
E de pálidas fúrias bando alado
Rebentou sobre mim; males surgiram:

No palustro d’aflição Dragão imigo
Azeda os dias meus; mais me amargura
Negra lembrança de futuro p’rigo:

Oh! se tão brônzeo Fado assim atura,
Antes, antes, Ó Campa, o teu abrigo;
Antes a noite sempiterna, escura.



Na época de Ovídio Saraiva, o Brasil vivia o período de transição da Era Colonial, encerrada com os árcades, para a Era Nacional, iniciada pelos românticos. O intervalo compreendido entre as duas eras inicia-se com a transferência da família real portuguesa para o Brasil em 1808, mesmo ano de Poemas, até a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, Gonçalves de Magalhães; ou (por que não?) até o hino de Ovídio. Esse período de transição compreende a vinda da família real portuguesa ao Brasil, elevando-o assim a reino unido. Temos a vinda da missão cultural francesa, o jornalismo político de Evaristo da Veiga, Hipólito da Costa e Januário Barbosa da Cunha e a poesia didática e moralizante do padre Sousa Caldas e de Américo Elísio, pseudônimo de José Bonifácio de Andrada e Silva. Bonifácio possui características semelhantes a Ovídio, pois ao mesmo tempo em que tende para o Romantismo, ainda não consegue abandonar as convenções neoclássicas.

Ovídio morreria a 11 de janeiro de 1852, na Vila de Piraí, na província do Rio de Janeiro. Em 1989, a Universidade Federal do Piauí, UFPI, publica a segunda edição de sua obra Poemas, a partir de cópia enviada da Biblioteca Nacional de Lisboa pelo então embaixador Alberto da Costa e Silva, filho do poeta piauiense Da Costa e Silva. Não se trata, repetimos, de uma obra que mereça grande atenção crítica, mas para compreender nossa cultura literária, é preciso rever suas raízes, mesmo que tão presas aos moldes portugueses, à pobreza e ao abandono. Os demais escritos de Ovídio permanecem sem uma segunda edição ou qualquer comentário relevante.



Ao Grande e Heróico 7 de Abril de 1831

[Ovídio Saraiva]

Os bronzes da tirania
Já no Brasil não rouquejam
Os monstros que os escravizam
Já entre nós não vicejam.

Da Pátria o grito
Eis se desata
Desde o Amazonas
Até o Prata.

Ferro e grilhões e forcas
De antemão se preparavam:
Mil planos de proscrição
As mãos dos monstros gizavam.

Da Pátria o grito...

Amanheceu finalmente
A liberdade no Brasil...
Ah! não desça à sepultura
O dia Sete de Abril.

Da Pátria o grito...


Este dia portentoso
Dos dias seja o primeiro
Chamemos Rio de Abril
O que é Rio de Janeiro.

Da Pátria o grito...

Arranquem-se aos nossos filhos
Nomes e idéias dos lusos
Monstros que sempre em traições
Nos envolveram, confusos.

Da Pátria o grito...

Ingratos à bizarria
Invejosos de talento,
Nossas virtudes, nosso ouro,
Foi seu diário alimento.

Da Pátria o grito...

Homens bárbaros, gerados
De sangue judaico e mouro,
Desenganai-vos, a Pátria
Já não é vosso tesouro.

Da Pátria o grito...

Neste solo não viceja
O tronco da escravidão
A quarta parte do mundo
Às três dá melhor lição.

Da Pátria o grito...

Avante, honrados patrícios,
Não há momento a perder
Se já tendes muito feito
Idem mais resta a fazer.

Da Pátria o grito...

Uma prudente regência
Um monarca brasileiro
Nos prometiam venturosos
O porvir mais lisonjeiro.

Da Pátria o grito...

E vós donzelas brasileiras
Chegando de mães ao Estado
Dai ao Brasil tão bons filhos
Como vossas mães têm dado.

Da Pátria o grito...

Novas gerações sustentam
Do povo a soberania
Seja isto a divisa delas
Como foi de abril um dia.

Da Pátria o grito
Eis se desata
Desde o Amazonas
Até o Prata.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

amálgama #4 - Mestres do Passado?



- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.


MESTRES DO PASSADO?
por Wanderson Lima


O positivismo comteano consolidou a visão da história como progresso contínuo, como constante aprimoramento do pensar e do fazer humano. Mutatis mutandis, essa visão escatológica, redentora do pensamento positivo está presente também no marxismo: aqui, não a ciência mas a revolução libertaria o homem das “trevas” da sociedade burguesa capitalista e o conduziria às “luzes” da sociedade comunista. Tal apologia do progresso que permeia estas duas “religiões” seculares levou muita gente a aplicar a falácia da evolução contínua até mesmo no campo da arte. Assim, os artistas do passado, a exceção de gênios como Shakespeare e Dante, seriam necessariamente menos evoluídos.

Este equívoco – associar o passado a atraso, a ingenuidade, a pré-maturidade – nos custou e nos custa muito. Um dos sintomas desse engano é julgarmos os “mestres do passado” segundo valores – éticos, estéticos etc – do hoje. Por exemplo: diante da robustez de uma obra como a de Da Costa e Silva, valorizar-se apenas meia dúzia de textos que, supostamente, seriam prenúncio da Antrofagia oswaldiana (no caso, o soneto À Margem de um Pergaminho) ou do Concretismo (os poemas figurativos em forma de losango). Salva-se,neste caso, um navio e perde-se a frota.

Da Costa e Silva, aliás, é um navio muito maltratado nos mares da literatura piauiense. Há, por um lado, os que, como descrevemos acima, querem fazer dele um proto-vanguardista por conta de meia dúzia de poemas. Por outro lado, há as críticas de orientação biográfica e/ou impressionista, oriunda mormente dos meios acadêmicos, que querem fazer desse virtuose do verso, desse mestre da melopéia um reles “poeta da saudade”, um diluidor de um romantismo confessional e auto-piedoso. O reacionarismo saudosista desses críticos divulga e populariza, da obra dacostiana, o viés bairrista-personalista, cuja peça máxime é o soneto “Amarante”. Ora, o que Da Costa deve aos românticos é, em essência, o desejo de fazer boa literatura sem se desvincular das raízes populares. Vale-se, para tanto, de um temário essencialmente popular e mesmo telúrico, porém o submete às “exigências de uma aristocracia estética”, como bem frisou o crítico Fausto Cunha. Daí porque poemas como “O Aboio”, “A Balsa”, “A Moenda” e muitos outros impregnaram a memória popular e, ao mesmo tempo, foram inseridos por diversos críticos entre os grandes sonetos que já se produziu em língua portuguesa. E, mesmo aceitando a prerrogativa do débito a um certo Romantismo, duvidamos que o sentimentalismo e a assunção da sensibilidade de extração popular garantam por si só, a qualquer poeta de qualquer período literário, o acabamento formal de versos como estes:

(...)
“Fluindo dos ventrículos à artéria,
Refluindo da artéria para a veia.
(...)
Mar Vermelho sutil de ondas estuosas
(...)
Florindo em cravos, amarantos,rosas...”



Ou como estes:

“A concha cérula
De norte a sul,
Tem tons de pérola
No lindo azul”.

Ou ainda estes:

“Faz do fluido que flui das entranhas a estranha
e fina trama ideal de seda que a rodeia (...)”.


Urge, pois, que realizemos uma nova leitura da obra dacostiana. Uma leitura que o faça um autor atual, instigante; que não mistifique uma obra que,admitamos, apresenta altos e baixos; que não caia descritivismo inócuo; que não seja eivada de pré-conceitos, concebendo a modernidade como o ápice em excelência estética em relação a outras épocas . Neste sentido, o esforço crítico de Cunha e Silva Filho em sua dissertação de mestrado que virou livro – “Da Costa e Silva : Uma Leitura da Saudade”, 1996 – não foi suficiente para promover essa nova leitura. Não obstante alguns pontos positivos – por exemplo vasculhar as relações intertextuais em Da Costa e traçar um paralelo entre este e Manuel Bandeira –, na maior parte do livro Cunha e Silva contenta-se em catalogar em três categorias ( ‘anoranza’,’nostalgia’ e ‘arela’) a saudade expressa no poemas de Da Costa e Silva. Este esforço taxonômico, que pôs em segundo plano uma leitura imanente dos poemas, pouco ou nada serviu para alargar as interpretações já conhecidas da poesia dacostiana.


O mais fértil estudo da obra do amarantino, no sentido de dar-lhe um novo rumo de leitura, parece ser o ensaio de Oswaldino Marques (“O espelho do mundo: Refracções”), que, por sinal, não recebeu a devida atenção dos literatos piauienses. A despeito da ortodoxia formalista e de certos arroubos impressionistas, o texto de Oswaldino ,além de nos dá uma idéia precisa da mestria do poeta de Sangue, propõe-nos a fértil idéia de lermos o autor como o primeiro poeta impressionista de nossas letras. Tal proposta – infelizmente ele só propôs, não levou adiante – não é, como podem pensar alguns precipitados, mera mudança de “escola” literária; é possivelmente um horizonte que nos permitiria entender sem amolgar certas sutilezas da poética dacostiana, tais como a sensibilidade incomum ao retratar o cromatismo da natureza, o gosto pela produção de poemas em série sobre um mesmo tema ou sobre temas correlatos, o ouvido fino em captar com minúcias a multiplicidade de sons da natureza,a presença de um olho exterior pouco comum em seus coetâneos simbolistas, o primado do instante em contraposição ao eterno em boa parte dos poemas, e mais. O desafio, lanço-o Oswaldino; nenhum de nós, no entanto, até agora, o aceitou.

Autores da estirpe de um Da costa e Silva, um Cruz e Sousa, um Gonçalves Dias não devem ser lidos simplesmente como “mestres do passado”, veículos de concepções estéticas “do passado”. A lição deles é perene. Se não o vemos como “mestres de sempre”[1] é porque possivelmente fomos iludidos pela ideologia do progresso: aprendemos a ver a história como um processo linear, que marcha rumo a um final redentor, e engendramos uma concepção de progresso formal que nos fez crer na falácia da existência de uma arte atual, vanguardista e outra inatual e, portanto, fora de interesse.


nota
[1] Não queremos dizer com isso que tudo na obra de Da Costa e Silva, Cruz e Sousa e Gonçalves Dias seja imorredouro. De fato, nenhuma obra, por conta do contexto em que foi escrita e da maior ou menor adesão aos modismos, mantém vivos todos os seus “órgãos”, assim como nenhuma, por medíocre que seja, pode ser considerada completamente morta, dado que mesmo sem valor para história da arte, ela, no entanto, pode ser bem quista para a sociologia da arte.



_______________________________________
Wanderson Lima nasceu na cidade de Valença do Piauí (PI) em outubro de 1975.
É autor de Morfologia da Noite (poemas, 2001),
Balé de Pedra (poemas, Fundac, 2005)
e Reecantamento do Mundo (ensaios, com Alfredo Werney, amálgama, 2008).

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

amálgama #4 - Realismo fenomenológico e função épica na poesia de H. Dobal [Parte02]

desenho de Adriano Lobão Aragão

- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.


[...continuação]

Iberismo e Epigrama na Função Épica Dobalina

por Ranieri Ribas


O estudo de Odylo Costa interessa-nos sobretudo pelo emprego do termo ecumênico para qualificar a poesia de H. Dobal, emprego este empreendido: i) para enfatizar o caráter universal do canto telúrico dobalino; ii) para afirmar-lhe o caráter mundano e fenomenológico, em contraposição às práticas nefelibatas da poesia selênica e por decorrência; iii) para negar a poética de Hindemburgo como uma concepção do mundo e afirmá-la enquanto uma poesia do mundo, da cousa em si, positiva e fenomênica (não uma poesia de concepções sobre os objetos mas um inventário de objetos e vivências mundanas). Este realismo fenomenológico, Odylo captou na belíssima passagem “chão de pedra, piçarra, escalvado vermelho e cru onde as carnaúbas sacodem os braços amputados [...] porque este bestiário inclui sempre o homem, ligado sempre a sua condição animal”.

Odylo, contudo, concentra sua argumentação no processo inventivo da obra dobalina, processo este concretizado no tratamento singular do épico:

“na solução encontrada por Dobal para a narrativa épica [...] haverá um caminho novo, partilhante ao mesmo tempo das técnicas do poema escrito e da arte dramática, [...] o que é novo em Dobal é o jogo simultâneo do texto histórico e do texto poético, em ponto e contraponto”

Certamente, o prefaciador pretendia ressaltar nesta passagem o aspecto declamatório e recitativo na épica de Hindemburgo. Staiger ressalta em Homero este mesmo caráter declamatório, que em Dobal se diferencia do modo ortodoxo pela oralidade poemática atuante como elemento não-neutro, ou seja, como recurso dinâmico para compreensão semiótica e semântica dos níveis de significado da estrutura poética ali encerrada, na mesma proporção em que os recursos tipográficos e espaciais operacionalizam a leitura de algumas estruturas poéticas visuais. Esta ênfase oral, portanto, imposta ao poema de função épica, reafirma a tradição homérica, cujos textos eram declamados na àgora como insignes do espírito e da cultura grega. Na obra dobalina porém, a marca declamatória atua não apenas como função hínica e civil mas também poemática e estética, ou seja, atua como parte do fundamento poético da obra.

Esta discussão sobre o caráter civil da poesia homérica revolve-nos à temática social tantas vezes reafirmada na poesia de Dobal. A implicação social dobalina, contudo, constitui-se em mais uma redução do significado lato da função épica narrativa inserida em uma tradição da América Ibérica, mais especificamente da tradição nordestina. Se identificarmos sociologicamente esta tradição podemos afirmar que a temática social é uma variante subordinada à narrativa do ethos. Richard Morse, em seu fundamental O Espelho de Próspero atribui sinal positivo à singularidade cultural e política do republicanismo rousseauniano e da sociabilidade comunitarista da América Ibérica6 (denominação mais precisa que América Latina). Esta seria uma tradição, nas palavras de Angel Rama, em que “o ideal precedeu o material, o signo a coisas; o traçado geométrico do plano, as nossas cidades.[7]”. Neste sentido, segundo Morse, é que os discípulos de Própero, Ariel e Calibã[8] (metáforas da personalidade confusa da América Ibérica, dividida entre o suposto incivismo selvagem de Calibã e o civismo de excelente-aprendiz encarnado por Ariel), após tornarem-se independentes são obrigados a falar sua própria linguagem. Ariel é um epígono inculcado pelas lições do mestre e sua personalidade serigráfica o torna um títere. A literatura não escapa a esta análise, como bem disse Antônio Candido (Literatura e Subdesenvolvimento) ao analisar:

em sua formação as nossas literaturas são essencialmente européias, na medida em que continuam a pesquisa da alma e da sociedade definida na tradição das metrópoles.  Tanto mais quando foram transpostas à América na era do Humanismo, isto é, quando o homem europeu intensificava o seu contato com as fontes greco-latinas[...]

Se a literatura da América Ibérica tem sua faceta numênica, europeizada, sermo nobilis, representada na figura de Ariel, por outro lado, ela alimenta também sua faceta Calibã, instruída por uma linguagem própria, avessa ao signo transplantado do humanismo europeu. Esta mentalidade calibânica instruiu uma tradição através da recusa sociológica do narrador ao vocábulo civil e sublime, porque incivil é sua gente (“sua ração de vida o homem vê minguando”); por conseguinte, tal recusa se materializa no tratamento narrativo em consonância e empatia à condição animal do bicho-homem e sua realidade estiolada. A língua do narrador no épico dobalino, portanto, é a língua de Calibã, autóctone. E sua voz é tão crua e árida que nos soa como continuidade das paisagens que retrata, como uma poética isomórfica do vocábulo à imagem. Soa-nos como continuidade da tradição-mor da linguagem sertânica e agreste dos filhos do Equador: Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Gerardo Mello Mourão[9], Euclides da Cunha.

A voz de Calibã não é uma temática social, mas apenas a linguagem, a única, capaz de pronunciar o ethos de um povo, piauiense, nordestino, o outro mouro da América e sua canção pentatônica. Este argumento contra o tematismo social nos importa porque afasta qualquer imposição ideológica à poesia dobalina, não afeita a concepções e transcendências, mas a objetos tangíveis. H. Dobal é antes um cantador da América Ibérica. É autor do canto dos incivis que preferem falar sua própria língua a crer na superioridade dos artefatos de Próspero.

Hegel, ao tratar do caráter geral da poesia épica refere-se ao épico epigramático[10] que “diz simplesmente o que é a coisa” e onde “o homem não expressa ainda o seu pensamento pessoal, mas olha em torno de si, e acrescenta ao objeto uma breve explicação relativa à essência da coisa”. Este épico epigramático ao qual Hegel trata, constitui-se numa das formas imperfeitas do gênero, juntamente com os adágios e as gnomas em geral. Destarte, prossegue o filósofo:

mas trata-se de gêneros híbridos, na medida em que, mantendo o tom geral de um determinado gênero, aplicam este tom a um assunto que não ingressa completamente neste mesmo gênero, do que resulta uma espécie de compromisso, um gênero imperfeito, que pode imitar também o gênero lírico. As locuções deste gênero (epigramas, gnomas, elegias), fragmentárias e isoladas, podem todavia chegar a ser reunidas, para formar um todo mais vasto, uma totalidade de caráter propriamente épico, logo que torne presente à consciência não um estado de alma ou uma ação dramática, mas uma esfera definida da vida real[...]

A forma imperfeita do épico pode camuflar sua totalidade em fragmentos líricos de forma que, preservando um ou mais caractere épico, o gênero literário híbrido, ainda que indefinido, atue como uma função epopéica, seja em seu critério epigramático, seja em suas gnomas (não sendo este último o caso da poesia de Dobal). Isto se coaduna à tese fundamental aqui desenvolvida, afirmativa de que a poética de H. Dobal diz "o que é a coisa". Por outro lado, corroborando ainda a tese tangencial do caráter Calibã na poesia de Hindemburgo, Hegel afirma que “O verdadeiro poema épico pertence essencialmente a essa época intermediária em que um povo, saindo de sua ingenuidade e sentindo o espírito despertar, se põe a criar um mundo que lhe seja próprio e no qual se sente à vontade”. O canto dobalino afirma-se como epigrama de uma Kulchur e se contrapõe aos discursos que pretendem extorquir-lhe a beleza pelo uso equivocado dos conceitos. É um canto de cactos e talictres antilíricos, de terra árida. E isto é a essência de seu povo. Esperamos, ex nunc, que este ensaio incite os literatos a contribuírem na formação de uma fortuna crítica dobalina, que como outras questões intelectuais, espera por ação, nesta república onde tudo está por fazer.


notas

[1] Antonio Candido, em Formação da Literatura Brasileira.

[2] Jürgen Habermas, em Mudança Estrutural da Esfera Pública.

[3] Não é pretenso aqui analisarmos a poética dobalina como variável textual de suas supostas influências. Contudo, devemos ressaltar a nítida afinidade entre o caráter lírico-realista do segundo Yeats e o realismo fenomênico em Dobal. Refiro-me ao Yeats pós-Pound, desapegado da beleza mística outrora cortejada, enamorado a uma poética da raça, do belo estiolado : “To write for my own race/and for the reality” (escrever para minha própria raça e para a realidade). Não por acaso este Yeats epigrafou o Tempo Conseqüente.

[4] Haroldo de Campos refere-se assim aos critérios daqueles que pretendiam inserir forçosamente a poesia de João Cabral no rol da Geração-45. Ver o ensaio “O Geômetra engajado” incluso no livro Metalinguagem e outras Metas, editora Perspectiva.

[5] Staiger afirma a respeito da invalidação, pelo maniqueísmo, de uma narrativa em sua qualificação épica que “[...] a crítica de Xenófanes[...] debate-se com desvelo contra os ensinamentos divinos e a moral da poesia homérica. ‘Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo que entre os homens é blasfêmia e vergonha: roubos, adutérios, traições mútuas’. Aqui o bem e o mal já se desligaram das figuras e se tornaram valores abstratos.”(pág-113). O maniqueísmo da épica de Dobal está fundado em uma base cultural religiosa, ou seja na herança católico-judaica que divide o mundo entre anjos e demônios, e ainda em uma ausência de relativismo antropológico, o que permite julgar uma época a partir da outra ignorando as disparidades nas concepções de mundo entre passado e presente (refiro-me especificamente ao poema ‘El Matador’). Este, contudo, é um problema da aplicação histórico-antropológica do relativismo filosófico pirrônico, alhures abordado por Teresinha Queiroz. Este viés analítico não nos é pretenso aprofundar aqui.

[6] A conceituação do épico em Staiger constitui-se numa ideologia literária homóloga ao discurso ontológico fundamental de Heidegger, dái sua rigidez em admitir Homero, e somente Homero, como modelo puro da poesia épica.

[7] Esta abordagem relativa ao comunitarismo rousseauniano em Dobal, aparentemente destoante, nos fundamenta quanto ao argumento da filiação iberista do autor. Devemos esclarecer os desavidos que a epígrafe de Adolf Hitler, inclusa no poema ‘unreal city’ do livro A Provínicia Deserta não deve ser confundida com uma suposta simpatia ao nazi-fascismo. A frase “passou o dia da felicidade individual”, do próprio Hitler, apenas reafirma os valores de uma cultura Ibérica comunitarista que tem em comum com o fascismo um programa antiliberal e antiindividualista. E este é o único aspecto que Dobal pretendia enfatizar.

[8] Apud. Luiz Werneck Vianna. A Revolução Passiva — Iberismo e Americanismo no Brasil.

[9] Ver The Tempest, de Shakespeare.

[10] Ressaltemos a metodologia poundiana em Gerardo, que, execrado por conta da declarada filiação ao Integralismo, tem sua magnífica obra também pouco estudada. O próprio Ezra Pound disse “Em toda minha obra, o que tentei foi escrever a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de O País dos Mourões.”

[11] O conceito Hegeliano de epigrama não se restringe ao sinônimo dicionarizado da palavra, aprofunda-se na averiguação da raiz etimológica da palavra: “epigrama, palavra da mesma família de epígrafe e epigrafia, a qual na verdadeira acepção quer dizer letra gravada sobre colunas, monumentos, ofertas votivas e outros objetos [...] o epigrama diz simplesmente o que é a coisa”. É precisamente nesta acepção que aplicamos o conceito ao épico dobalino. Cf. Hegel, Estética. Coleção Filosofia e Ensaios. Guimarães e Ca editores. Tradução Álvaro Ribeiro.


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Ranieri Ribas é poeta e sociólogo,
autor de Os Cactos de Lakatus (amálgama, 2003).

terça-feira, 14 de outubro de 2008

amálgama #4 - Realismo fenomenológico e função épica na poesia de H. Dobal [Parte01]

desenho de Adriano Lobão Aragão

- Publicado originalmente em amálgama #4, agosto de 2003.






Realismo fenomenológico e função épica na poesia de H. Dobal

por Ranieri Ribas


“E tanto nascendo
contra os dias secos
se faz desflorida
a raça comum

Como fogo dormido
se faz a semente
que gerou esta raça
sem foro de ódio
de igual para igual”

(A Raça)






Uma literatura entalada no gargalo mallarmaico, em uma província refratária à modernidade, seja como manifestação culturmorfológica ou político-social. Uma república onde a meritocracia, banida pela politização de todas as relações sociais, inexiste, e cujos literatos acumulam capital social (supostamente intelectual) a fim de angariar um semicúpio na academia ou usar o prestígio para arrebanhar um séqüito de fiéis, ou ainda, conduzir uma política editorial que nomeie seus eleitos e os consolide no sistema literário[1] . O sufrágio aqui não é mercantil porque não há público suficiente para tanto. O sufrágio é editorial e se vale do capital afetivo e da visibilidade nos veículos de consagração canônica a que cada literato lança mão, seja pela adulação ou pela amizade. A Esfera Pública conceituada por Habermas[2] , por estas plagas não atingiu sua fundamental característica, a polêmica, porque permanece ainda como estética de corte. Sabe-se, a política literária, nestas paragens, sempre sobrepujou o mérito.O discurso daqueles que regozijam celebridade alterna-se de uma marginalidade-institucional (subsidiada por editora padrão, e aclamada pela Esfera Pública em todos os seus canais: emissoras de TV, jornais locais, revistas literárias, universidades, vestibulares, etc.) até uma retórica mútuo-elogiosa que arrenega a polêmica intelectual (indissociável das questões pessoais) e prefere a hipocrisia. A institucionalização política da literatura se evidencia na baixa qualidade dos textos que povoam o leitor médio, incapaz de sustentar um juízo fundamentado da cousa oferta.

H. Dobal contrariou a regra. Não se prestou ao tráfico de influência ou à autopromoção. Ateve-se à poesia. Fê-la como nenhum outro conterrâneo, e tirou ouro do nariz para a política literária. Na qualidade de poeta visceral da terra esperava-se uma retribuição analítica dos literatos paisanos. Contudo, a incongruência poética daquilo que apresentara em relação ao hélas prevalecente desencadeou uma ruptura tal que emudeceu a crítica local, anacronicamente instrumentalizada, e portanto incapacitada para inferir-lhe a extensão.A assimetria entre fortuna crítica (seria mais apropriado denominarmos paupérie crítica) e a magnitude da poética dobalina é um sintoma do caráter pré-moderno e retardatário prevalecentes na literatura piauiense. O salto qualitativo empreendido por Hindemburgo em O Tempo Conseqüente sucedeu semi-incólume desde sua primeira publicação; pouco se produziu para compreender o arcabouço poético e metodológico de sua obra. Não bastasse a escassez, faculta-nos ainda a pobreza analítica e o elogio oco do pouco produzido, impondo à criatividade textual do autor um certo reducionismo hermenêutico.

Entre os intérpretes prevalecem rotulações quixotescas e reducionistas. A primeira e mais recorrente — o poeta telúrico — fornece-nos uma informação imprecisa porque incapaz de distinguir a estética dobalina das demais igualmente telúricas. O poeta lírico-elegíaco, segundo o discurso institucional, está encerrado numa impressão que pretende impor à leitura de Dobal uma imprecisa continuidade com os cancioneiros da tradição provençal-ibérica. Esta leitura quixotesca indicia a negação do estro dobalino como poesia do tangível e do prosaico em favor do sublime e do inefável que, peremptoriamente inexistem et alii. O hélas ornamental da poética dobalina está subordinado ao vocábulo sujo da realidade fenomênica, chã e ordinária[3] . Por isso refutemos qualquer filiação de cronologia tabelioa[4] que queira inseri-lo no lirismo sermo nobilis do decorum poemático dos herdeiros de 1945. Dobal é deveras a antítese deste ideário porque soube conferir valor poético a termos como sabugem, DNOCS, culhões, BR-22, Coralit, etc., entre miríades que extirpam a nobreza vocabular e indiciam a preferência pela cousa ordinária em detrimento da metafísica. Esta preferência evidencia-se outrossim na escolha temática nitidamente influída por João Cabral de Melo Cabral (leitor de Francis Ponge, assim referido em meu último ensaio, Francis Ponge ou a Fenomenologia do Objeto), tais como “os cortadores de grama”, “a feira de automóveis”, “os seguros de vida”, etc., inclusos no livro “A Província Deserta”.

Outro problema da paupérie crítica está em seu surpreendente naïve em empreender uma leitura temático-conteudística cujo impressionismo é cego aos procedimentos metodológicos da poesia dobalina. A edição publicada em 1986 de O Tempo Conseqüente traz-nos o estudo breve, porém riquíssimo de fragmentos analíticos não desenvolvidos, de Odylo Costa (com destaque para a alusão pongiana ali contida referente ao parti pris des choses dobalino, cuja poesia não se projeta a partir das concepções do objeto mas do objeto em si, fenômeno), e ainda, a insípida tergiversação conteudístico-descritiva de Maria G. Figueiredo dos Reis. Esta última restringe-se a diluir o conteúdo temático do substrato poemático segundo a heurística metodológica do “o-que-o-poeta-está-dizendo-aqui-significa...”, interpelando o texto com elogios ocos e descrições desprovidas de análise. O alvo aproveitável deste texto permaneceu subdesenvolvido, e diz respeito à técnica singular do épico dobalino, uma técnica herotodoxa, característica de toda a experimentação epopéica moderna. Reis não soube prover um argumento que viesse a demonstrar a peculiaridade de tal intenção épica em Dobal, restringindo-se a afirmar, na página vinte e um(21) da referida edição que o poema “Leonardo foge à técnica da epopéia tradicional, guardando do gênero épico o fato de narrar os feitos de um herói, o herói piauiense, Leonardo, na luta pela independência nacional”. Esta afirmação, não obstante, aponta-nos um dos caracteres do épico ortodoxo preservados por Hindemburgo (tendo em vista que o heroísmo como característica épica é uma categoria eminentemente ortodoxa e está invalidado, em Dobal, por sua condição estrutural maniqueísta[5]) sem nos indicar qual aspecto substantivo do gênero foi transgredido.

Subjacente a esta discussão está a bipartição entre a epopéia ortodoxa vs heterodoxa. O gênero épico, enquanto conceituação ortodoxa fora solapado por empresas que impuseram a ductilização dos caracteres de sua definição, sobretudo quanto ao aspecto da linearidade sintática e discursiva. Desde Mallarmé (Igitur e Un Coup de Dés Jamais n’Abolira le Hasard), T.S. Eliot (The Waste Land e The Hollow Men) e Pound (The Cantos), qualificar um poema como epopéia implica em formular uma base conceitual capaz de englobar a envergadura transgressiva destas obras. O argumento acidental de Reis aplicava-se a explicação do lírico em Dobal, ignorando que este mesmo caractere lírico fosse na verdade um requisito épico ortodoxo.


“um aspecto que chama a atenção na arte do poeta piauiense é a técnica de conduzir o pessoal de maneira sempre impessoal, é a presença do eu lírico, disfarçado na terceira pessoa, é o emprego do indefinido pelo definido, do objetivo pelo subjetivo que deixam na poesia a ausente presença do autor. Este recurso nascido em O Tempo Conseqüente, continua em toda a obra de H. Dobal.”


Poderíamos, a partir deste excerto, coadunar o épico dobalino à rígida conceituação de Emil Staiger[6] — Conceitos Fundamentais da Poética — o qual afirma que o narrador épico é um apresentador representante de um ethos; narrador que embora não se imiscua nos acontecimentos, mantendo-se objetivo, distancia-se sem desaparecer atrás da história, ou melhor, sem tornar-se ausente. Ora, segundo Staiger, esta presença ausente, a qual se refere Reis, é característica fundamental do narrador-apresentador épico. E se concordamos que tal presença ausente se espraia por toda a poesia dobalina, então corroboramos a hipótese da função épica fragmentada em faturas líricas, ou melhor, fraturas líricas.

A intuição de Odylo Costa, por outro lado, qualificando ecumênica a poesia dobalina, estava correta porque reconheceu o caráter universal do particularismo cultural ali representado. Ora, a preferência de Dobal pelo mundo ordinário e rústico em consonância com a tradição da cultura de seu povo e seus homens de cada dia, reafirma a tese de que a poesia dobalina tem por substrato e acentuação uma função épica. Digo função porque seria equivocado considerá-la épica enquanto gênero, por uma questão de rigor no uso do conceito. Uma épica que varia seus humores a fim de representar todas as facetas do espírito de um povo, seja pelo drama da escassez em O Tempo Conseqüente, seja pelo testemunho crônico-anedótico dos causos e da gente comum em A Serra das Confusões. Varia o humor, a função épica é constante. A respeito desta predileção pelo ordinário Staiger afirma:

“o homem épico vive exclusivamente a vida de cada dia [...] A epopéia [...] tem seu lugar determinado na história. O poeta aqui não fica sozinho. Está num círculo de ouvintes e lhes conta suas histórias [...] Os ouvintes reconhecem Homero porque este representa as coisas como eles próprios estão acostumados a ver.”

A ala institucional da crítica, por sua vez, abraçou o poeta e fê-lo a seu modo, ainda que sob custo de distorcer-lhe a força antilírica. Para tanto puseram-no sob o jugo de universalismos conceituais omissos à singularidade da literatura brasileira. A poesia nacional há muito adquiriu autonomia e tradição para ser tratada idiograficamente, e não simplesmente estar subsumida no rótulo de poesia portuguesa, como impõe M.Paulo Nunes ao citar Unamuno como referencial teórico para leitura da estética de Dobal. A hipótese da semi-restrição temática (amor/elegia) não confere nenhuma singularidade à poesia dobalina,não a diferencia de modo a torná-la distinguível como manifestação poética de uma cultura, pelo contrário, a reduz a um leque de conceitos alheios à autonomia literária brasileira. Nunes não nos fornece o instrumental necessário e coadunável para o estudo da poesia de Hindemburgo Dobal uma vez que, para a análise específica do caso, usar Unamuno seria uma hipótese ad hoc, ao que Thomas Khun denominou inversão dos papéis epistemológicos: ao invés do teórico reconhecer a demonstrada insuficiência de seu aparato conceitual em relação ao objeto e admitir refutada sua empresa, prefere distorcer a percepção do objeto para que este caiba exato em seu arcabouço.


[continua...]

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

amálgama #4


Em julho de 2003 publicamos a quarta edição de amálgama. Como editores, contamos com: Adriano Lobão Aragão, Ranieri Ribas, Sérgio Batista, Wanderson Lima e Washington Ramos.
Para a capa, foto de Delnato Lopes, gentilmente cedida da mostra fotográfica Duplipensar.

Nas postagens subsequentes, reproduziremos o conteúdo publicado em nossa quarta edição.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

as capas os discos







as capas os discos

[adriano lobão aragão]




ontem eu vi o disco da vaca à venda na galeria
onde há muito naqueles campos estranhos me perdi
entre os riscos do vinil motocicleta e sinfonia

ontem eu vi um velho em um quadro carregando lenha
adornando em parede destroçada a capa de um álbum
e a iluminada escuridão de um dirigível de chumbo

ontem eu vi o álbum branco que depois de muitos anos
pude perceber as matizes dispersas de suas cores
e seu discreto nome de besouro impresso em relevo

mas há muito dispostos em silêncio seus sons evocam
sonora imagem retida na retina da memória

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Borra de café

[Adriano Lobão Aragão]


O corte no dedo ainda arde. Distração. Pensamento solto, a faca erra seu caminho. Ainda arde. Há poucos dias quisera facas novas, trabalho mais fácil, fio mais cortante. Pensava se algum dia poderia perder um dedo. Talvez este? Quem sabe... Ele não sabe que gotas de sangue temperaram sua comida. Várias vezes. Sentiu-se estranha e feliz por isso. E esboçou um leve riso, pois realmente as coisas não são mais as mesmas. Não há o que lamentar. Com ajuda de sabão, conseguiu retirar a aliança. A estranha circunferência que ela preenche com seu dedo. Buscava lembrar o instante exato em que se cortara. Não conseguia. Percorrendo o pequeno corte passou a observar as dobras dos dedos, que no futuro novas rugas a elas se juntarão, assim como tudo que é inevitável. Na palma da mão, outras linhas. Uma senhora já as lera uma vez. Eram muito novas, ela e as irmãs. A velha disse coisas tão bonitas que teve medo de um dia cortar as mãos, mudar aquelas linhas. Bobagem. Alguns risos, algum dinheiro, foram embora as três irmãs felizes com seus destinos. Agora ela prepara café.

Continua esperando a água ferver. Ainda com a camiseta de dormir, um pé sobre o outro, o cabelo em desalinho, vestígios de uma noite mal-dormida. Em seus olhos via-se a necessidade de dormir. Bocejava durante o dia inteiro. Sentia dores de cabeça. Culpava a insônia. A inutilidade dos comprimidos. Deveria mesmo era voltar para cama. Talvez dormir. Talvez sonhar. A água quente na chaleira recebe o açúcar, o pó de café. Logo o marido terminará seu banho, precisará comer e sair. Busca nos grãos de açúcar um gosto doce na boca. O líquido atravessa o coador, acomoda-se no bule.

Breve, o marido acabara de beber seu café, comer seu pão com queijo e presunto e sair para o trabalho. Deve voltar no fim do dia. Ela caminha até o banheiro, é hora de se recompor. Põe ordem em seus cabelos, olha-se no espelho e acha-se simpática. Procura sorrir. Durante o jantar, perceberá que ela está sem aliança. Quando discretamente ele indagar, dirá que esqueceu na pia.

domingo, 5 de outubro de 2008

amálgama #3 - Ovídio Saraiva

- Publicado originalmente em amálgama #3, maio de 2002.






Ovídio Saraiva (1787-1852) não foi um poeta genial. No entanto, este Soneto XLIII é um belo poema que ilustra aquilo que muitos chamam de plasticidade poética. A imaginação descritiva de Ovídio Saraiva, neste poema, projeta um quadro em que as imagens de templo, corações, trono e sangue se fundem, reforçando a mais cara idéia que os poetas neoclássicos tinham do amor: a de uma força despótica contra a qual é inútil lutar.
Já o Soneto XLVII é um exemplo da transição da poesia neoclássica para a romântica. Observa-se o desprezo do poeta pelos bens materiais – atitude própria dos autores árcades – e o sofrimento e a morte – temas centrais no romantismo.


Soneto XLIII

Eis o templo de Amor: Amor se assenta
Num rubro trono; nos degraus sangrentos
Sobre mil corações, já sem alentos.
Seu tirano poder de bronze ostenta.

Magro ciúme rápido atormenta
Vivas entranhas com fatais tormentos;
A suspeita infernal, surda a lamentos,
Males, e males mais cruéis inventa.

De sangue rios mil cortam o Templo,
São mais os ais, são mais gemidos, brados,
Que as areias do mar, do Céu que estrelas.

Oh! feliz, Inocência, eu te contemplo:
Mísero amante, vê aqui teus fados;
Eis o templo de Amor, do Deus, que anelas.



Soneto XLVII

Não quero que a fortuna enganadora
Me ladeie de bens de alta valia;
Pois bem conheço que vir pode um dia,
Em que me roube os bens com mão traidora.

Não desejo, que a sorte aduladora
Me eleve ao trono da alta monarquia;
Pois que a História dos tempos me anuncia,
Que nem, ó Sólio, tens robusta escora.

Só quero que me dês, ó Céu tirano,
Trevosa furna, em que se albergue o susto;
Que assim me deixarás, ó Fado insano.

Porém não... é melhor, que o braço injusto
Da negra morte me despenhe ufano.
Lá onde, ó morte, tens o trono augusto.