sábado, 30 de agosto de 2008

amálgama #2 - homenagem - Zito Batista




- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002.




Raimundo Zito Batista possui a mesma naturalidade do irmão, Jônatas Batista, tendo nascido a 16 de setembro de 1887. Autodidata, jornalista e poeta, fundou as revistas Cidade verde e Alvorada, sendo diretor da Imprensa Oficial do Piauí. Foi membro da Academia Piauiense de Letras. Estreou na poesia em 1909, com a coletânea Almas irmãs, em parceria com Celso Pinheiro e Antônio Chaves, sendo o responsável pela parte intitulada Pedaços do coração. Depois publicou Chama extinta, 1918 e Harmonia dolorosa, 1924, obras poéticas bem aceitas pela crítica brasileira, merecendo inclusive elogios por parte de Olavo Bilac e Afonso Celso. Morreu aos 39 anos, em 20 de outubro de 1926, no Rio de Janeiro.


Visionário
[Zito Batista]

Soberbo como um deus que atingisse as alturas
E sentisse, aos seus pés, curvada, a Terra inteira,
Pensa em ressuscitar toda a lenda guerreira
Do passado, ao sabor de conquistas futuras...

E, assim, o seu olhar, num brilho de águas puras
Que refletissem toda a paisagem fronteira,
Basta a lhe retratar a alma livre e altaneira,
Rasgada num clarão forte de iluminuras...

Ama a gloria da cor, e os céus, e o sol faiscante,
E, na febre do sonho, e na ânsia da conquista,
Guarda a nobreza real do alto gesto arrogante...

Certo, ainda ao morrer, no horror que a morte espalha,
A ilusão da vitória há de acender- lhe a vista
Ao raivante estridor da última batalha...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

amálgama #2 - homenagem - Jônatas Batista




- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002.



Jônatas Batista nasceu no povoado Natal (atual Monse-nhor Gil) em 18 de abril de 1885. Auto-didata, teatrólogo, conferencista, poeta e jornalista, foi um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, onde ocupou a cadeira de número 07, cujo patrono é seu avô, David Moreira Caldas. Sua atividade jornalística em Teresina foi intensa. Escreveu para os jornais Tribuna Operária, A Palavra, Aurora, O Nordeste, Diário do Piauí, entre outros. Colaborou também com as revistas de arte Alvorada e Litericultura. Suas obras poéticas são Sincelos, 1907; Maio, 1908 e Alma sem rumo, 1934. Desempenhou papel importantíssimo no desenvolvimento do teatro piauiense. Escreveu peças como Jovita ou a heroína de 1865; Mariazinha; Frutos e frutas e O coronel pagante. Pertenceu à Sociedade de Autores Teatrais do Rio de Janeiro. Morreu em São Paulo, a 15 de abril de 1935.




Aos Tristes
[Jônatas Batista]

Escrevo para vós, almas tristes, vencidas,
Exaustas de sofrer e de viver cansadas;
Ermas de sonho e fé, sem destino, perdidas
Num pesadelo atroz de esperanças finadas.

São múrmuras canções; são rimas repetidas,
Pelas vozes do vento às praias atiradas...
Escrevo-as para vós, almas desiludidas,
Prisioneiras da sombra, eternas torturadas.

Para vós, para vós, ó corações descrentes!
Os versos que escrevi nas horas de amarguras,
Os versos que eu tracei, em trínulos gementes...

Fi-los por mim, por vós... Por todo aquele que erra,
Perdidamente, só, nas planícies escuras,
Pelas noites sem fim das vastidões da terra...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

amálgama #2 - palaversoesia







- Poemas publicados originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002.


show
[Hermes Coelho]

Eu quero transar no Parnaíba
Ser pego gozando em teu canal
Aparecer naquele canal, e no jornal, e na revista
Ter a minha vida revista e devassada
Eu quero transar no Parnaíba
E aparecer no show da vida
E no show da vida
aparecer
nu

____________



felina
[Josué Antonio Hernandez]

nenhum olhar triste
continuaria ao receber
teu olhar de lince

____________



viagem
[Sérgio Batista]

Convido todos à cegueira!
Convido todos...

A não ver o sol
Mas a irmandade das sombras.

A não ver a árvore
Mas o milagre do ninho.

A não ver a terra
Mas o destino dos rastros.

A não ver a escultura
Mas a força do gesto.

A não ver o quadro
Mas a agonia do pincel.

A não ver estas palavras
Mas a divagação da Poesia.

____________



salão de festas
[Carmen Gonzalez]

gola de marinheiro
costas da manhã

enjôo da alegria


____________


correnteza
[Noa]

Uma inquietude devasta-me a noite insone:
Até quando durará, em mim, teu fantasma,
se é que ele existe?

Uma dúvida inoportuna espreita-me o desejo,
às vezes, incontrolável de rever-te,
de reverter-te
ou de converter-te.
E o tempo tudo vai desbotando, desfigurando,
esmaecendo-nos, noite após noite.
Enquanto o orgulho faz-me odiar-te,
a solidão faz-me amar-te, compulsivamente.

Sendo eu água,
não conseguiste conter-me.
Banhaste em meu regaço,
mataste tua sede, em mim.
Não sou açude,
sou rio
e corro para o Mar,
O Mar-Mundo-Meu-Mistério-Morte.

Embora me tenha posto,
mansamente, em tuas mãos,
deixaste-me esvair-me por entre teus dedos.
Deixei-te sentir-me de ninguém,
e o azar foi meu,
foi teu,
foi nosso.

Não somos mais.
Fomos,
mas...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

amálgama #2 - Lembranças da Meninice de Não Banhar

- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002




Lembranças da Meninice
de Não Banhar

por Jeferson Probo



Manhã de sábado no Mafuá. Eu carregava cesta cheia de tudo e pedia baladeira pra não estudar. Depois de algum tempo compreendi o porquê de tantos livros que Seu Lacerda lia. Ele falava:

- Menino só é gente quando tem termo.

Tardinha do dia, só dormia quando Dona Mundica coçava pezinho, tanto é que acostumei. Até hoje fico insone. Manhãzinha de domingo, na calçada da Pires de Castro, Seu Nezin gostava de cortar laranja e distribuir sonhos sem casca. Dona Corina fazia bife - só a conta - e todo mundo enchia o bucho. Eu malinava pra ganhar outro pedaço. Nessas conversas de pé-de-calçada, o vigia da casa de vovô falava que enchia sacos e sacos com muriçocas. Mentia tanto que dava tristeza no pensamento. No tempo de mangas pelos setembros de caju vovó reclamava:

- Menino, vai logo esfriar o corpo, isso dá fastio!

Naquelas equatoriais tardes, perambulava pelo Ipase procurando o Gerson Papagai, Toin, Júnior, Didi, Marcelo, Ricardo, Manel, Carlu Lulu, Pirrola, Carrola e o Balai. Tudo isso era para não ficar de pareia fora. Das primeiras coisas aprendidas na meninice, o par e ímpar era regra geral, pois não tínhamos um juiz para conciliar o "é nossa". Juntar dinheiro era coisa para merendar na garapeira. Além do pão massa grossa de todos os dias de alguns, lá tinha o que gente sabida chama de ciclo... a vida já se mostrava atrevida e previsível. A pureza de egoísmo que só a meninice proporciona fica para os registros nos devidos compêndios das lembranças.

Quem tinha tino de liberdade era o Andorinha. Ele meninava no caos e equilibrava nos muros alheios. Quando os fogoiós do Ipase Velho ocupavam a quadra onde jogávamos, era só chamá-lo. Andorinha fazia verão pra gente brincar de sonho. De tanto verão, Andorinha jaz no visgo. Os meninos sabidos de cuspe instigavam brigas na FUNABEM, casa abandonada de gente e de sofrimento. No terraço, usávamos meias como luvas de boxe, batíamos em nossas diferenças, em nossas raivas e em nossos medos. A bem da verdade, nada era de morte, era de vida.

Vez por outra, ficava no Mercadinho Econômico jogando conversa dentro com um amigo de Batalha - o Antero - que contabilizava números e sonhos num balcão. Presenciava pessoas escolhendo coisas e desistindo de outras. Vida era aquilo de quitanda. Amizade mesmo! aquilo de amigo! só na meninice. O que depois surge é blá, blá, blá... tapinha nas costas... blá, blá, blá...

Meninice era brincadeira de não banhar, de ser guábis na vida do tudo ou nada, equilibrar na infinitude dos muros para sonhar dentro das árvores alheias, passar cerol nas linhas tortas do destino, brigar pelos arco-íris de papagaios dependurados nos fios de meu Deus, pilotar carrinho de rolamento queimando pele no asfalto, decorar tabuada todinha pra depois jogar bola na praça.

Disso dou fé e a vida certidão.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

amálgama #2 - Vestibular UFPI 2003

Palha de Arroz, de Fontes Ibiapina


- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002.


VESTIBULAR UFPI 2003
Professores comentam lista de obras indicadas


Em 11 de janeiro de 2002 a UFPI divulgou sua relação de obras literárias para o Vestibular 2003. Ei-la: Os piauienses Palha de Arroz, romance de Fontes Ibiapina; Fogo, conto de Vítor Gonçalves Neto; Tá Pronto, Seu Lobo?, livro de poemas de Paulo Machado. Da Literatura Brasileira também constam Memórias de um Sargento de Milícias, romance de Manuel Antônio de Almeida; a novela A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, de Jorge Amado; e os poemas de Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade. Foram indicados da Literatura Portuguesa os romances Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco; e Gaibeus, de Alves Redol.

A comunidade vestibulanda já começa a se assanhar com essa lista. É natural, pois toda vez que a UFPI divulga os livros do vestibular surgem os mais variados comentários entre professores e alunos. Alguns criticam, outros elogiam.
Amálgama ouviu alguns professores de Literatura e a eles transferiu o mérito dessa relação de livros organizada pelo Departamento de Letras da Federal. Vejamos o que dizem os professores.


“Nossa cultura literária é tão pobre que o talento de um escritor é menos importante que uma lista de vestibular para se comprar, editar e discutir Literatura, ou mesmo lecionar em sala de aula. Vestibular dá dinheiro, Literatura não.”
Adriano Lobão Aragão - Instituto Universitário do Piauí

“A lista é meio falha por dois motivos. Primeiro, porque não contempla escritores da maior importância como Cecília Meireles, jamais indicada nas relações de livros da UFPI. Segundo, porque inclui livros já muito estudados, como Memórias de um Sargento de Milícias e A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água. No lugar deste último, seria mais interessante Capitães de Areia, obra sobre um tema atualíssimo que a sociedade brasileira precisa resolver.”
Benilde Monteiro - Sistema Anglo de Ensino

“A UFPI, de maneira acertada, sugeriu oito obras para o Vestibular 2003, fazendo uma diversidade de gêneros, além de indicar livros específicos das literaturas piauiense, brasileira e portuguesa. Resta aos professores fazer a análise literária para nossos alunos.”
Carlos Jansen - Colégio Certo

“As obras indicadas não foram as melhores dos respectivos autores, mas a escolha revela ecletismo.”

Gilberto Campelo - Gilberto Campelo’s Method

“As obras indicadas demonstram um certo descaso com os nomes consagrados da nossa Literatura para beneficiar a divulgação de autores menos prestigiados. Acredito que ‘o novo sempre vem’, mas não podemos deixar que os mestres sejam esquecidos.”
Hildalene Pinheiro - Colégio Sinopse

“Embora seja divulgada com aproximadamente um ano de antecedência, há dois pontos negativos que precisam ser lembrados. Em primeiro, a quantidade de leituras indicadas. Diante da estrutura da prova – que prioriza o entendimento e a exploração de todos os recursos textuais – torna-se inviável o enfoque de oito obras em uma única prova. Cobra-se assim muito do aluno já sabendo que será explorado pouco. Não podemos esquecer que isto ocorreu no último Vestibular da UFPI. Outro ponto que é mais grave: algumas obras escolhidas não são editadas há décadas. O romance Palha de Arroz teve sua última edição em 1975. Não fossem ações louváveis do professor Cineas Santos em editar tais obras, ficaria quase impossível o acesso ao livro pelos candidatos. O Departamento de Letras e a EDUFPI poderiam perfeitamente trabalhar em parceria neste sentido. Assim, não se esperaria tanto da iniciativa privada para o resgate da Literatura Piauiense. Se não houvesse iniciativas como a do professor Cineas Santos, como isso se resolveria?”
Jorge Alberto - Gradus Vestibulares

“A cidade de Teresina, no seu sesquicentenário, é a grande homenageada no Vestibular 2003 da UFPI, pela presença de obras que a focalizam muito bem.”

Luiz Romero - Colégio Sapiens

“De todas as indicações feitas pela UFPI, esta é a mais fraca, não desmerecendo nenhuma obra ou autor nela contidos. Algumas obras batidas, outras sem a envergadura para uma análise em concurso. Nomes como Cecília Meireles novamente esquecidos. No mínimo, uma escolha desatenta.”
Nilson Ferreira - Curso Português Fácil

“Poderia ter sido melhor. Nessa lista, há obras de autores portugueses e piauienses sem expressão dentro do panorama literário nacional.”

Reginaldo Brandão - Instituto Dom Barreto

“Está cheirando demais a coisa sapecada, a sexo, a cachaça essa lista da UFPI. Excetuando-se um ou outro texto realmente clássico, o restante é Naturalismo quase total.”
Washington Ramos - Liceu Piauiense

“Costumo dizer que as universidades que adotam livros, como incentivo à leitura, merecem nosso aplauso. No Piauí, a UFPI foi pioneira, abriu caminho para que outras fizessem o mesmo. Este ano, como nos anteriores, a UFPI traz uma lista com obras da melhor qualidade, com autores expressivos das literaturas portuguesa e brasileira, incluindo três significativos escritores piauienses. Agora, cabe-nos apenas semear os livros entre a estudantada.”
Wellington Soares - Colégio ProJúris

domingo, 24 de agosto de 2008

amálgama #2 - Prus Minu Réi

A obra, em capa de Amaral
O autor, em caricatura de Netto

- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002



por Adriano Lobão Aragão


Todo idioma se concretiza através da fala, a maneira pessoal como cada indivíduo usa sua língua. Por isso existem as variações lingüísticas, motivadas por fatores regionais, culturais, contextuais, naturais. Chamamos nível coloquial-popular a fala que as pessoas utilizam no seu cotidiano, sobretudo nas situações mais informais. O mino réi Paulo José Cunha, “o carioca mais piauiense do Brasil”, direcionou seu olhar para o registro dessa fala coloquial, sem visar a nenhuma pretensão acadêmica. Melhor assim. Ninguém vai precisar saber de nada disso para passear pela sua Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês, 2.ª edição, revista e ampliada (Edições Corisco, Teresina).
Além de refletirem nossa identidade cultural, é interessante notar como diversas particularidades de nossa expressão lingüística são cômicas e inusitadas. As referências a Fontes Ibiapina e Alvina Gameiro são inevitáveis e essenciais, mas é um exagero encontrar inúmeras citações do jornalista esportivo Deusdeth Nunes. Paulo José deveria ter notado que o "Garrincha" já havia colaborado com muitos exemplos nos verbetes. Nem precisava tanto, pois garimpando outros autores, com certeza encontraria achados preciosos. Aliás, essa Grande Enciclopédia motiva seus leitores a pesquisar e colaborar com palavras e expressões a balde, pois ainda existem muitas expressões tão nossas que não poderiam ficar de fora. Isso é sinal de que esse piauiês ainda pode contar com muito pano pras mangas.

Jornalista residente em Brasília, Paulo José Cunha declarou desde a primeira edição que a idéia do livro surgiu em 1995, quando anotava palavras e expressões de sua mãe, Dona Yára Cunha. Deu no que deu. Quem mais deve ter se divertido foi o próprio autor, pois o livro é recheado de brincadeiras com os amigos, quem sabe até com os desafetos. Só não precisava daquela cambada de prefácios e comentários no início e no final da obra, como se fosse um atestado de garantia ou coisa parecida. Trata-se apenas de uma leitura sem maiores compromissos, boa para apurar olhos e ouvidos.

sábado, 23 de agosto de 2008

amálgama #2 - Folia de Perto

Narguilé Hidromecânico, 2002 - foto de Dida Matos

- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002



Por Adriano Lobão Aragão

Poeirão é o “carinhoso” apelido do coletivo que faz a linha Teresina – Santa Teresa, povoado a cerca de 20Km da capital. Também é o título do novo disco do Narguilé Hidromecânico e tema da faixa Folia de Longe. O ônibus encontra-se na capa, bem significativa, apesar de a placa dianteira não coincidir com a que se encontra no verso. Questões gráficas à parte, a banda, que conta na sua atual formação com Fábio Crazy da Silva no vocal, Júnior B. no baixo, Márcio Bigli na guitarra, Dj Paulo no toca-disco, Naka na bateria, Flypper e Arnaldo na percursão, é uma das poucas bandas de Teresina que possui público cativo. É o que Fábio Crazy chama em seus shows de “comunidade”. A irreverência continua marca registrada nesse segundo trabalho, gravado no Rio de Janeiro e em Teresina, mantendo as influências de Maria da Inglaterra e Luiz Gonzaga misturadas ao hard-core. “O novo disco está mais sintetizado, mais conciso”, segundo seu vocalista. Essa é a grande diferença em relação ao trabalho anterior, que era fruto de ensaios para o projeto Música do Brasil, resultando no projeto Itaú Cultural, onde o Piauí divide um disco com o Maranhão, tendo como representantes Narguilé e Naeno. Nesses contatos fora do Piauí, destacamos a coletânea Conexão Candango, a ser lançada em Brasília, que também conta com os músicos Teófilo e Nando Chá, ex-narguilé. O Narguilé Hidromecânico estará presente com Maluco Regulão, hit de seu primeiro trabalho, Perseverança de Caatinga e Remédio Caseiro, extraídas do novo disco. O Poeirão tem a distribuição Brasil afora pela Terreiro Discos, do Helder Vasconcelos, integrante da banda Mestre Ambrósio. “O difícil não é gravar o disco, mas conseguir que ele seja bem divulgado e comprado”, comenta Júnior B. A banda se apresenta dia 22 de fevereiro no Sesc Pompéia, em São Paulo e participará de vários programas de televisão, como o Musicaos e o Metrópolis, na TVE. “Não existe a pretensão de sucesso. Nosso compromisso é com o nosso trabalho”, declarou Fábio Crazy. Poeirão é um exemplo claro que na música piauiense existe talento em todos os estilos, sem precisar do marketing das gravadoras, embora o grande público espere pelo aval dessas empresas para comprar um disco como esse. Felizmente ainda existe um circuito alternativo que sobrevive pelo próprio empenho.


Perserverança de Caatinga
Letra: Fábio Crazy da Silva
Música: Fábio Crazy e dj Negralha

tanto faz, de teresina ao rio
a violência é o que faz
a gente andar pra trás,
mas mesmo assim eu rio

há uma alma
cativa em cada cubículo pregresso
garis recebendo salário
pra se livrarem do excesso
mas há no lixo social uma
perseverança de caatinga
e cada lixo retorna ao seu lugar

todos querem agora gozar desse tal ritmo
de gente discriminada
de nordestino raquítico
que entra pelo cano, mas britadeira
nunca foi lambreta de baiano

frito na lata ou paçoca no embornal
o que sai pela boca é o que te faz mal
bala achada na praia
ou perdida no corpo
olha o sopro de vida
que se mistura à dor
e no choro da mulher parida

aí depois tu vai me dizer, que
a gente nunca te avisou, que
toda essa dor que tu sente
é colheita do mal que tu semeou

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

amálgama #2 - Entrevista com Rubervam Du Nascimento e Naeno [parte2]

Rubervam Du Nascimento e Naeno, Vale do Poti, 2002


- Publicada originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002.


[continuação da postagem anterior]


Amálgama - O Piauí não aposta em seus valores culturais?

Rubervam - Na verdade, o Piauí precisa sair do atraso econômico para ter um desenvolvimento cultural. Não vejo como ter uma arte forte em uma economia frágil. Daí essa dependência do artista em relação à lei A. Tito Filho, por exemplo. Tem artistas que chegam a posar na televisão defendendo tal Governo, que é passageiro, como são passageiras são as obras medíocres que esses Governos realizam. Quer dizer, o artista não pode deixar se levar por isso. Ele está compactuando com essa situação econômica miserável, que é absorvida e alastrada pelo comando político medíocre. Nós temos uma arte forte. Não podemos desprezar a poesia de um H. Dobal, que é um baita poeta, que pode estar batendo nos poetas lá do Sul, com livros festejados nas Bienais. Para termos uma arte, uma literatura forte, o artista, o poeta deve ser independente para poder exercitar o seu universo criativo.

Naeno - O músico tem uma outra obrigação: se inteirar da literatura para se aprimorar musicalmente.

Amálgama - A classe artística brasileira, e piauiense também, é uma classe que está atrás de um pai cultural. Quando o Collor, figura desastrosa de que ninguém gosta, fechou a Embrafilme e retirou vários incentivos culturais, foi execrado. O pessoal da arte realmente quer um paizão?

Naeno - Essa coisa é interessante. É bem brasileiro e é terrível. É por isso que não se sobressai, não se destaca lá fora. É mais conhecido pelo lado pitoresco do que pelo lado técnico. Um filme que mostra o Brasil, que mostra a realidade brasileira, não é um filme técnico, compatível com os filmes produzidos em Hollywood. O brasileiro nunca vai alcançar aquela beleza de Hollywood porque um filme que o Governo financia é feito de uma forma pequena. Façanha irresponsável, tecnicamente. O brasileiro só produz atrelado a isso. Enquanto a arte for institucionalizada, ela não sai a cara do povo, ela não vai levar ao potencial do artista, mas às tendências que o governo quer. A censura é uma coisa nojenta, tacanha, uma das coisas piores que pode existir no mundo. Mas, no caso brasileiro, foi o tempo em que os artistas mais produziram.

Amálgama - O Chico Buarque de hoje é o mesmo daquela época?

Naeno - O Chico não é mais o mesmo. O que falta é a ira do Governo e o cara trabalhar contra. Quando melhorar essa situação econômica no Piauí, vai melhorar a arte, o povo vai ter novas aspirações, os artistas vão produzir mais e não ficarão tão acanhados, tão medrosos.

Amálgama - Não se vende livro para analfabeto...

Rubervam - Não se vende, é verdade.

Amálgama - Nem para liso...

Rubervam - Claro. Agora essa questão do paizão cultural é tão terrível que pode refletir em algo pior, que é essa busca do pai espiritual que torna o artista tão dependente que passa a repetir o pensamento dos ideólogos de plantão e, indiscutivelmente, a arte vai lá pra baixo. Quer dizer, ele é incapaz de qualquer manifestação que mexa com aquele coro chamado pelo Torquato Neto de coro dos contentes.

Amálgama - Desenvolver outros raciocínios, por exemplo? Não só escrever por escrever?

Rubervam - A gente precisa retomar os postulados de 22, sendo um deles a pesquisa de novas linguagens para ver se a gente consegue construir algo mais consistente. Estive conversando com o Silviano Santiago, um crítico literário que mora no interior de Minas Gerais, essa coisa de fazer arte e poesia para que o povo entenda. “Ah, o livro do Rubervam a gente não lê porque ninguém entende o que ele quer dizer...” Como se poesia tivesse essa preocupação de contar história. O campo semântico do conceito, das explicações, não pertence à poesia.

Amálgama - O que pertence à poesia então?

Rubervam - Na verdade, o caminho a ser trilhado é o da busca de referenciais. Por isso que eu fico puto quando vejo pessoas se dando ao luxo de deixar fora da literatura piauiense poetas como Mário Faustino e Torquato Neto. Eu li uma entrevista de um senhor acadêmico onde ele falava que o Torquato Neto não é poeta porque não existe poesia no que ele escreveu. Uma avaliação, no mínimo, equivocada.

Amálgama - Quando surgiu o compositor Naeno e quais foram suas influências musicais?

Naeno - Ainda pequeno, com 10 anos, comecei a cantarolar. Essa qualidade do artista é natural, é um dom de Deus mesmo. No ginásio comecei a compor meus primeiros trabalhos que refletiam o que eu ouvia, Luiz Gonzaga, Trio Nordestino. Depois passei a ouvir a Tropicália de Caetano e Gil...

Amálgama - Naeno, o grande sucesso da música Morena estigmatizou muito sua obra?

Naeno - Não, não. Porque eu não deixo. Eu não sou compositor só de Morena. O piauiense nunca se arriscou a descobrir coisas novas. Ele só valoriza o que já foi testado, retestado e comprovado no mundo todo.

Amálgama - Então você concorda com aquela tese de que pra se ter valor aqui é preciso que se obtenha reconhecimento lá fora?

Naeno - Infelizmente é assim. No Maranhão você vê que o Nonato, músico dos anos 70, fez sucesso primeiro no Maranhão para depois fazer fora de seu Estado. O Pinduca fez sucesso primeiro no Pará para depois fazer no mundo. Agora nós, não. Tem que fazer sucesso primeiro lá! O Climério, Clésio e Clodo fizeram sucesso porque o Fagner gravou. Ninguém conhecia Torquato Neto no Meduna. Conhecia o Torquato através do que Gil e outros contam dele.

Amálgama - Será por isso que o Waly Salomão disse: “Poetas, saiam do Piauí”?

Naeno - Ele está falando uma experiência dele. Ele, pra fazer sucesso, teve que sair da Bahia. Porque naquela época era assim. Hoje, a técnica que eles usam em São Paulo para gravar um CD você dispõe aqui no Piauí. Mas é necessário que o povo valorize o artista do Piauí, não só pelo fato de ser conterrâneo, mas ler, ouvir e assimilar a sua arte. Até a Ônix Jeans vende para fora, mas o Piauí não compra Ônix não, bicho...

Rubervam - É verdade, é verdade...

Naeno - É uma das etiquetas mais famosas do Brasil, mas o Piauí não usa Ônix Jeans.

Rubervam - E tem a história do cara que foi pra São Paulo e comprou uma dúzia de camisas. Quando olhou a etiqueta, disse: “Porra, é da Ônix Jeans!”

Naeno - Foi o Ari Magalhães. [interrompendo] Eu tenho uma posição radical que tenho comprovado ao longo do tempo. O piauiense não se valoriza. E se não valorizar, não há remédio para nós. E se continuar assim, é ficar como rapariga fazendo música pelo mundo, pra quem quiser, que encontra paulista mas nunca encontra piauiense. Que história é essa? Se a gente vai pra São Paulo os caras ficam de queixo caído. Na minha inércia de piauiense, na minha casa, mandei uma música para São Paulo e os caras me escolheram entre 7.500 trabalhos. Eu fiquei entre os doze selecionados. Consegui o que muitos baianos não conseguiram. O que é isso? É a coisa incontestável da obra boa. É o que o Rubervam tem e que, modestamente, eu tenho. Que o Aurélio Melo tem, que o Geraldo Brito tem, entendeu? Nós fizemos nossa parte, cumprimos nosso papel. Eu já cantei nesses bares de Teresina e os caras pedem uma música do Djavan enquanto a minha música nem sequer é aplaudida.

Amálgama - O que leva o piauiense a não valorizar seus artistas?

Naeno - É que o Rubervam falou e vou passar a falar disso: a questão econômica mesmo.

Rubervam - É interessante esse aspecto que o Naeno está colocando. O que a gente tem ouvido muito ultimamente é sobre a busca da identidade piauiense, a chamada piauiensidade, palavra até difícil de pronunciar. Uma coisa que a gente precisa repensar. Por exemplo, o poeta que resolve colocar Teresina como feição do seu trabalho é um poeta sofredor. O Paulo Machado é o poeta de Teresina. Eu vou ser franco aqui, tenho maior dificuldade de escrever sobre Teresina porque o substrato do material poético que escolhi não é daqui.

Amálgama - Mas em A Profissão dos Peixes você não fala da praça São Benedito?

Rubervam - Mas ali é uma travessia. Você pode ver que aquela do rio de carros delimita o momento em que me coloquei como cidadão piauiense por conta própria. O meu centro imagético de Teresina é o balão da São Benedito. Quando eu leio o dicionário de Piauiês, do Paulo José Cunha, porra!!!, me dá uma certa satisfação em morar no Piauí. Descubro como nossa identidade está escondida debaixo do chão, na fala escondida de seu povo. Ou a gente desperta essa piauiensidade, assim chamada, pelo falar, pala música, ou então não vamos encontrar nada. E pior, nenhum bem-estar social será alcançado. A pobreza não interessa à arte. O que interessa à arte é o belo. E o belo supera tudo que é pobre. Daí a dificuldade da gente entrar nesse mundo pela pobreza. Não é facilitando, fazendo música brega, fazendo poesia chamada de fácil, essa coisa que eu não sei que diabo é. Não é por aí.

Naeno
- Fazer o que o povão quer.

Amálgama - Ser vendável?

Rubervam - Ser comercial e vendável. Daí o que Naeno falou agora há pouco. A arte não é mensurável. Eu até gosto quando poesia não vende, quando o editor diz que não edita poesia porque não vende. A indústria discográfica manda e desmanda na liberdade de criação do artista.

Amálgama - E a sua criação?

Rubervam - Eu vou retomar a matriz de A Profissão dos Peixes. O substrato é um baú de ossos, que...

Naeno [interrompendo] - Pode ver que o baú sempre reflete acúmulo de experiência do passado.

Rubervam - Isto, isto. Então minha mãe, que é filha de Inca, me disse: “Olha, tua avó tem um baú e você precisa ver o que tem dentro dele.” E esse baú me foi repassado pela minha mãe. Dentro dele tinham ossos de meus antepassados, vasos de cerâmica, cartas de um tio do Egito que hoje não sei onde ele está agora, Certidões de Nascimento e Óbitos. A Profissão dos Peixes foi retirada justamente desse material, o substrato de tudo isso. No livro há trechos dessas cartas, datas das certidões. Eu transformei o material do baú em material poético. O lugar onde encontrei o baú de ossos, é uma ilha chamada Upaon-Açu, que nada mais é que o começo da ilha de São Luís do Maranhão. Quando você atravessa a ponte, aquela primeira cidade, que antes era uma vila e que eu já havia transformado, em A Profissão dos Peixes, em Estado, cuja capital, Mandubé, era a estação de trem, onde eu brincava quando criança. Era uma vila de pescadores e, inclusive, meu pai e meus tios eram pescadores. E meu avô, que veio lá do Peru, comprou umas terras, alugou alguns paióis de sal, comprava peixe e exportava, não sei pra onde. Então A Profissão dos Peixes é esse material transformado em matéria de poesia. Eu não poderia fazer este livro se não tivesse encontrado esse material mágico, se não tivesse nascido num lugar riquíssimo em histórias de visagens, mortos ressuscitando, andando de madrugada pela estrada de ferro, carregando bêbados que iam parar num lugar sem fim, que depois descobri tratar-se da Pasárgada de Manuel Bandeira, porque lá habitava um rei encantado do qual não só me tornei amigo e depois seu contestador. E isso tudo eu trouxe pro livro. A última parte do livro, Aqui Segundo São Sebastião, trabalha o momento em que a gente queria saltar da ilha para uma outra realidade, e a gente não conseguiu. Não conseguimos ultrapassar esses limites não só na ilha de Upaon-Açu, como não conseguimos ultrapassar no Piauí, na arte, na economia, na política, na cultura. Algo muito poderoso nos interrompeu e continua nos interrompendo de ter a terra prometida.

Amálgama - Naeno, o seu último disco é religioso. Isso destoa do restante de sua obra ou é apenas um amadurecimento?

Naeno - Ou então é o que se fez ao longo do tempo e não poderia deixar de viver.

Amálgama - A influência religiosa é uma coisa recente?

Naeno
- Não. Eu acho que em todo nordestino isso é uma coisa de princípios, de berço. Eu tenho padre na família, então isso é coisa que eu vivo há muito tempo.

Amálgama - Então por que só agora surgiu esse disco religioso?

Naeno - Foi por causa do meu tio, o padre Toni, que quis produzir o CD e eu me prontifiquei de destinar as vendas em prol das obras dele.

Amálgama - O que o projeto Itaú Cultural acrescentou à sua carreira?

Naeno - Deu uma reanimada na minha auto-estima. Me submeteu a um público que eu não conhecia e me deu a comprovação da validade do meu trabalho. Entre os paulistas eu tive uma receptividade muito boa.

Amálgama - A banda Narguilé Hidromecânico também foi escolhida pelo Itaú Cultural. Como você avalia o trabalho deles?

Naeno - É um pessoal novo fazendo música que foge do convencional, fazendo uma coisa alternativa, inusitada e de pesquisa também...

Amálgama - Como as referências à Maria da Inglaterra?

Naeno - Maria da Inglaterra é uma pessoa que o Piauí nunca valorizou devidamente. Brincam com ela como quem brinca com folha de palmeira e depois joga no mato.

Rubervam - Aqui esse mal é recorrente. Ou se brinca com o que é grandioso ou se despreza. Escalam para programas culturais a mesmice e a ingenuidade, aquilo que é forte não, porque a maioria dos profissionais que lida com a cultura é constituída de pessoas que não querem continuar estudando, não querem ver coisa nova, não se arriscam. Quando organizei a mostra de poesia visual aqui, em 1994, chamei a Maria da Inglaterra para uma apresentação. Veio um pessoal que eu trouxe de Natal, de Recife, e o Jomar Muniz de Brito me disse: “Meu Deus, essa mulher é ouro aqui no Piauí. Como é que é tratada essa mulher?” Eu respondi: “Você nem imagina. Eu a incluo em programação desse tipo, mas não é todo mundo que tem essa coragem e disposição, pois além de tudo trata-se de uma cantora humilde”. Eu a apresentei nessa mostra como a única cantora piauiense de nome internacional. [risos]

Amálgama - Rubervam, como surgiu essa coisa de edições revistas e diminuídas de A Profissão dos Peixes?

Rubervam - É instigante. Eu encontrei o Carlos Volgt, um poeta do Rio de Janeiro, e ele me chamou num canto lá na biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, e falou: “Você nem imagina como outro dia eu passei uma noite inteira sem dormir pensando nessa história do teu projeto de revisar e diminuir o teu livro. Porque a gente conhece mais é o autor que revisa, mas aumenta. Diminuir não. Me fala direito o que é isso que você tá pretendendo?” [risos] A idéia de revisar e diminuir tem um lance de admitir que poesia tem muito a ver com o caos, com a desleitura de tempos. Busco na poesia o que o poeta Wallace Stevens descreveu como a “síntese de uma excepcional concentração”, entre aspas, cujo suporte principal para atingi-la, é o trabalho exaustivo com o material poético à disposição.

Amálgama - Rubervam, até onde o caminho revisto e diminuído vai chegar?

Rubervam
- No momento em que você determina um projeto de revisar e diminuir um livro, você pensa no processo de comunicação que pode ser despertado a partir do envolvimento do leitor com o autor e a novidade que isso pode provocar naqueles que buscam na recriação artística algo mais denso e original. Num poema de nome Rapsódia para El Mulo, Lezama Lima, extraordinário poeta cubano, comparou o ofício do poeta com a figura de um animal obstinado, que marcha em direção ao abismo. Como o poeta, em sua busca constante, o mulo padece em sua marcha, mas resiste com seu passo seguro até cumprir seu destino. Assim é o poeta, até encontrar o misterioso silêncio de sua pedra-peixe. Eu determinei cinco edições revistas e diminuídas. O livro vai diminuindo mesmo. Nunca aumentarei. Já estou com a terceira edição quase pronta e talvez a editora Sete Letras, do Rio de Janeiro, a edite. Determinei a última edição como um imenso cartaz, onde irá refletir apenas a pedra-peixe, e a pedra-peixe é a orelha do livro, é uma nova linguagem, uma outra leitura.

Amálgama - A pedra-peixe é um fóssil?

Rubervam - Aquela pedra é um fóssil. Estava dentro do baú. Eu a perdi uma vez transportando numa temporada que passei no Rio de Janeiro. Eu a despachei e quando cheguei em Teresina, a pedra havia desaparecido. Foram encontrá-la em Natal.

Amálgama - Então ela é a sua Muiraquitã?

Rubervam - É verdade. [risos] Hoje ela está dentro de uma redoma de vidro que levo para onde quer que eu vá. Carrega, em sua forma e conteúdo, os olhos e as escamas do peixe-pedra que continuam muito vivos, uma simbologia propulsora porque completa o mito da criação em mim e nos outros, ao mesmo tempo que desmantela a idéia da transitoriedade humana. Seremos imortais se virarmos todos pedra-peixe, ou seja, se retornarmos à nossa origem perdida.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

amálgama #2 - entrevista com Rubervam Du Nascimento & Naeno [parte1]

Jeferson Probo, Adriano Lobão Aragão, Rubervam Du Nascimento, Sérgio Batista e Naeno, Vale do Poti, 2002


- Publicada originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002



Naeno nasceu em São Pedro do Piauí, 1954. Músico, cantor e compositor. Autor de pérolas da música brasileira, como Morena e Incelença. Já teve obras gravadas por inúmeros
artistas, de Zemarques a Papete. Em seu último disco, Entre nós, revela a vertente sacra de sua música. Recentemente foi selecionado para o projeto Itaú
Cultural. Rubervam Du Nascimento nasceu na ilha de São Luís do Maranhão em 1954. Reside em Teresina desde os anos 70. Advogado e funcionário público, há muito tempo reinventa seus poemas. Disso resultou as edições revistas e diminuídas de seu livro A Profissão dos Peixes. Com Marco Lusbel Desce ao Inferno, ganhou o Concurso Blocos de Poesia/97. Numa manhã de sábado de carnaval, no Vale do Poti, bairro Santa Sofia, concederam esta entrevista para amálgama. Washington Ramos, Jeferson Probo, Adriano Lobão Aragão e Sérgio Batista prepararam um peixe manpará, cerveja pro Rubervam, refrigerante dietético pro Naeno, e muitas perguntas. O resultado taí.





Amálgama - Naeno, qual seria o maior problema para a música e para a arte piauiense: o pouco interesse do público, a falta de investimento ou o próprio artista?

Naeno - Pode-se atribuir essa culpa a todo mundo. Ao artista, porque não sabe fazer alguma coisa que prenda o público; ao público, porque não valoriza o que o artista faz. O Piauí é um estado que eu não sei situá-lo num contexto mais geral, de Brasil, se ele está além ou aquém. Eu acho que o Piauí é um caso raro. Um dos poucos estados, que eu saiba, que não tem uma cultura forte, uma cultura de raízes. E a que tinha largou-se por esses tempos perdidos. No Maranhão, existe essa coisa pulsante, no folclore. A Bahia, nem se fala... Mas o Piauí é que não tem, ainda.

Amálgama - Agora isso entra no âmbito da fomentação pelos poderes públicos?

Naeno - O dever do Estado seria manter certas estruturas. Eu não creio muito nessa coisa do Estado ficar dando verba pra artista. Se não houver uma estrutura, um teatro bem montado, um espaço suficiente para o artista, fica difícil. O Estado não faz essa parte. Tanto não faz que o nosso teatro é o menor do Nordeste, e só tem um em nossa capital. Essa é a falha do Governo. Mas eu não acho que o Estado deva fazer aquela coisa de ficar financiando o artista, pois cria uma coisa que até adoece o cara...

Amálgama - Cria uma dependência?

Naeno - Cria. O artista não pode ficar atrelado a isso não. Eu até admiro quem fica insistindo para a pessoa comprar seu produto, mas quando há essa insistência já passa para o consumidor a idéia de que aquilo não tem consistência muito boa, porque o que é muito bom não é oferecido assim insistentemente. E o artista faz isso. Eu conheço pessoas que vendem vinte CDs para uma única pessoa. Isso não pode. Porque o cara faz isso sabendo que o outro vai, no mínimo, engavetar dezenove e, quem sabe, ouvir um.

Amálgama - Como você vê a lei A. Tito Filho? [lei municipal de incentivo à Cultura]

Naeno
- Eu tenho queixas demais a fazer às pessoas que elaboraram essa lei. O que eles fizeram foi colocar o artista numa situação de pedinte e, o que é pior, a Prefeitura acaba usando o artista como um caçador de sonegador de imposto. Um artista como eu e o Rubervam, que já temos muito tempo de trabalho pela cultura piauiense, ainda tem que provar para alguém, para alguma instituição, o nosso valor através de um projeto. O cara faz um projeto para justificar que merece, apesar de uma obra de arte não ser mensurável, e depois de aprovado ainda vai se submeter aos olhares e à mercê dos empresários. Sendo que nesse ponto ele acaba sendo usado para ir atrás de quem não paga imposto, e ainda vai negociar. Artista não é para isso não! Torna-se um funcionário público, e dos mais importantes, porque é o cara que vai descobrir o contribuinte que poderia sonegar.

Amálgama - Isso parece estar se tornando uma queixa muito constante...

Naeno - E tem mais outra coisa. Não valoriza ninguém. O que é que ela faz? Dá o dinheiro, não quer saber da qualidade e esquece o projeto. Aí o cara faz como quer, vende ou dá para quem ele quer. Uma coisa que poderia ser feita era o seguinte: se o cara fez o primeiro disco, então venda seu disco, procure colocar ele no mercado de uma forma decente, para isso te dar algum retorno, para depois fazer o segundo disco. Mas isso não acontece. O artista pode fazer tantos quantos queira e isso gera um círculo vicioso, e só privilegia alguns. Eu conheço pessoas que têm quatro, cinco discos contemplados pela lei e que virou para eles meio de vida. Isso é horrível.

Rubervam - Não é de hoje que a relação do artista com o Estado, no Piauí, é de subserviência. Eu sempre falo, quando questiono essa relação, uma frase do Oscar Wilde: “O Estado tem que fazer o que é útil, e o artista o que é belo”. Aqui no Piauí é o inverso. O Estado não faz o que é útil e quer fazer o que é belo. Quem arma e desarma o circo aqui é sempre o Estado. Uma referência direta ao Salão de Humor, por exemplo. Dizem que vão revigorar este ano dentro do perímetro dessa “vida nova”, entre aspas, porque continua envelhecida, viciada e cooptável, a partir do momento em que você admite a arte trabalhar a favor, como suporte do poder estatal, essa arte passa a ser decadente. Ela não pode refletir o espírito necessário de rebeldia, de transformação, de beleza...

Amálgama - De liberdade?

Rubervam - De liberdade, acima de tudo, capaz de impulsionar o surgimento do novo, e recriar o pensamento do seu tempo, sem a interferência da ideologia reinante, seja ela qual for.

Amálgama - Já faz muito tempo que você começou a desenvolver sua poesia...

Rubervam
- Mais de duas décadas...

Amálgama - Mas o seu livro demorou bastante para ser editado, não?

Rubervam - É um livro que foi gestado durante todo esse período que eu trabalho com poesia. Durante algum tempo eu cheguei a escrever peça de teatro, escrevi contos, inclusive alguns foram publicados em coletâneas. De repente, descobri que viver no Piauí, é admitir um limite, e que dentro desse limite, você tem de escolher fazer uma coisa só e bem feita. Isso já é surpreendente. Então eu deixei o conto, deixei a arte cênica. O que eu utilizo hoje da arte cênica é a favor da poesia. Quando monto um espetáculo é com o objetivo de divulgar a poesia. E resolvi fazer poesia da seguinte maneira: estudando poesia. Estudando crítica literária. Lendo poetas em busca de referenciais. Eu até acho incrível quando converso com algum poeta que diz não gostar de ler poesia. Bom, então ele devia era deixar de ser poeta. Passei duas décadas escrevendo e reescrevendo A Profissão dos Peixes. Eu não publiquei livro individual nos anos 70. A primeira edição é de 1987 e isso foi proposital.

Amálgama - Tem gente que quer escrever poesia sem ler poesia. O que você acha do nível dessa produção artística?

Rubervam - Quando nós começamos, lá nos anos 70, alguns poetas e escritores montaram uma estratégia. Paulo Machado montou uma estratégia que até hoje ele está desenvolvendo. Muita gente pensa que Paulo Machado não está mais escrevendo. Tá sim. Muito mais que escrevendo, Paulo Machado está repensando o que escreve. Eu fiz isso nos anos 70. Eu montei uma estratégia que talvez não tenha funcionado como pensei na época, mas que hoje está sendo entendida por aqueles leitores ou estudiosos mais exigentes. Por exemplo, eu tinha o maior receio de entregar ao Menezes y Moraes para publicar no suplemento do jornal O Dia aqueles poemas que eu achava que, mais tarde, poderia utilizar como matriz para um livro. Por que eu fiz isso? Porque eu lia o caderno cultural publicado pelo Menezes e achava muita coisa precária. Então não vou colocar esse poema que eu acho melhor. Eu vou colocar esse outro poema. Eu desenvolvia na época, por exemplo, poemas sobre os ratos, que vinham de uma convivência muito próxima que eu tinha com os ratos, uma experiência aparentemente genial, mas desprovida de um propósito estrutural e estético e de ruptura que eu buscava. E aí eu pensei em publicar esses poemas dos ratos que são rascunhos que eu não vou incluir em livro individual algum. Então jogava lá pro Menezes. Essa estratégia marcou o que hoje é A Profissão dos Peixes, um livro com uma composição ambiciosa tanto no campo estético como lingüístico. Daí algumas pessoas às vezes enfrentarem dificuldades na leitura por falta justamente desse substrato que eu arranquei de uma matriz muito bem definida no passado. Essa questão de estratégia funcionou com poucos nos anos 70. Muitos se afobavam, jogavam com aquilo que achavam constituir algo de mais concreto na poesia e hoje deixaram de escrever, não se sabe mais o que escrevem ou onde estão. Não souberam experimentar.

Amálgama - Houve uma desagregação?

Rubervam - Também. Agora veja bem, eu sou uma pessoa que vive envolvida com essa história de poesia 48 horas por dia. É ela que alimenta o meu espírito. A barriga é o Ministério do Trabalho, que me dá tempo pra poesia. Eu jamais me sentiria bem se fosse um bancário...

Amálgama
- Olha o Naeno aí... [risos]

Naeno - Eu sou ex-bancário...

Rubervam - Mas retomando a questão, isso não quer dizer que não temos aqui no Piauí valores indiscutíveis surgidos naquela época. Tenho contatos com o chamado eixo Rio-São Paulo, com Minas Gerais e com Brasília, que é um núcleo muito forte. Tenho muitos contatos e recebo muita coisa de lá. Posso dizer que estou em dias com o que está acontecendo no Brasil a nível de poesia. A gente tem que repensar essa coisa de admitir que somos poetas e escritores municipais ou estaduais. Deixar de pensar que a produção local está abaixo do que está se produzindo no resto do Brasil, até pela dificuldade que nós temos de romper a barreira da edição e distribuição de nossos livros, daqui pra lá. É muito mais fácil romper essa barreira lá em São Paulo. Um amigo, escritor Ronivalter Jatobá, me disse: “Rubervam, se você tivesse feito em São Paulo 30% desse trabalho que você faz no Piauí, no mínimo você seria reconhecido lá no Piauí”. Veja bem, a qualidade de alguns trabalhos literários daqui está em pé de igualdade, senão superior, a muitos trabalhos que eu recebo do eixo Rio-São Paulo, de autores que saem no Caderno Mais [Folha de São Paulo], no suplemento de MG e na música é a mesma coisa. Não é à toa que o Naeno ganhou um prêmio do Itaú Cultural. Mas também não vou dizer que são muitos, que temos um poeta a cada esquina ou em cada família, isso é ilusão alimentada pela confraria da multidão letrada, que toma de conta das associações de letras, preocupada em manter fora de debate o que é produzido com qualidade na poesia.

[continua]

terça-feira, 19 de agosto de 2008

amálgama #2 - Fontes Ibiapina - Folclore & Regionalismo [parte2]




- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002




por Abdenaldo Rodrigues e Adriano Lobão Aragão


João Nonon de Moura Fontes Ibiapina nasceu na fazenda Lagoa Grande, município de Picos, em 14 de junho de 1921. Segundo ele, “pego pra estudar já grande”, veio para Teresina matricular-se no Colégio Diocesano. Formou-se pela Faculdade de Direito do Piauí, exerceu a magistratura durante muitos anos. Foi professor, diretor do Colégio Rural e Artesanal Pio XII, Juiz de Direito e membro do Conselho Estadual de Cultura, da Associação Profissional dos Jornalistas do Piauí, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Primeiro presidente e um dos fundadores da Academia Parnaibana de Letras, fundada em 28 de julho de 1983 e oficialmente instalada em 19 de outubro, do mesmo ano. Na Academia Piauiense de Letras, ocupou a cadeira n° 9, cujo patrono é Alcides Freitas. Colaborou em periódicos, como “Opinião” (1953) e “Avante” (1952), sendo diretor desse último, órgão do Grêmio Centrista “Da Costa e Silva”, (Não confundir com o “Avante” de 1958, dos alunos do Colégio Estadual Zacarias de Góis).

Quando começou a escrever participava de concursos de contos promovidos pelas revistas “Cigarra” e “Alterosa”, nas quais chegou a ser vencedor. Essa fase está registrada em seus dois primeiros livros: Chão de Meu Deus (1958) e Brocotós (1961). Já como escritor consolidado, foi 1° lugar no VII Concurso Nacional do Clube do Livro com o romance Vida Gemida em Sambambaia e Prêmio Mobral com Lorotas e Pabulagens de Zé Rotinho.

A obra de Fontes Ibiapina pode ser assim apresentada: os livros de contos Chão de Meu Deus (1958), Brocotós (1961), Pedra Bruta (1964), Congresso de Duendes (1969), Destino de Contratempos (1974), Quero, Posso e Mando (1976), Mentiras Grossas de Zé Rotinho (1977), Lorotas e Pabulagens de Zé Rotinho (1979), Eleições de Sempre e até Quando (1985), os póstumos Trinta e Dois e Tangerinos (1988) e Dr. Pierre Chanfubois (1988), e os inéditos Amor Roxo, Mentiras de Verdade, Onde a Velha Mediu de Cócoras, Onde o Filho Chora e a Mãe não Ouve e Nas Capengas Rajadas. Os romances Sambaíba (1963), Palha de Arroz (1968), Tombador (1971), Nas Terras do Arabutã (1984), Curral de Assombrações (1985) e Vida Gemida em Sambambaia (1986), que circulou somente após sua morte, mais o inédito Pecado é o que Cai do Cacho. No folclore, temos: Paremiologia Nordestina (1975), Passarela de Marmotas (1982) e o póstumo Crendices, Supertições e Curiosidades Verídicas do Piauí (1993), e os inéditos Gente da Gente, Desfile de Malucos, Mentiras ou não o Povo Conta, Terreiro de Fazenda, Ponta de Terreiro e Almas Penadas. Existe ainda a peça popular em três atos O Casório da Pafunsa (1982), além de ensaios e dicionários.

Pela inexistência de um estudo crítico profundo da volumosa obra de Fontes Ibiapina, podemos dizer que a crítica literária foi ingrata com o escritor, conforme observou Francisco Miguel de Moura no posfácio de Literatura Piauiense; escorço histórico. Cid de Figueiredo, da Universidade de Botucatu, São Paulo, afirma que “não faz idéia de que riqueza infinda o Piauí era portador, de que notável registrador do linguajar do nordestino e de quão notável retratador dos costumes piauienses havia por essas plagas. (...)”. Esse comentário foi extraído do posfácio do romance Nas Terras do Arabutã (1984). Nesse mesmo posfácio, Jon M. Tolman, da University of New Mexico, nos Estados Unidos, escreveu que achava que “muitas expressões contidas no livro (Paremiologia Nordestina) são gerais no Brasil e prestam-se muito bem a fins docentes. A Passarela de Marmotas também tem o seu lado cultural. Acho que vou datilografar algumas para as minhas aulas de português (...)”. Aqui notamos que a potencialidade didática da obra de Ibiapina é valorizada até por um estrangeiro. Então, por que não é dado a Fontes Ibiapina o reconhecimento que sua obra merece? Uma das respostas para essa questão encontramos em Alcenor Candeira Filho, no Jornal da Manhã, Teresina, de 06 de junho de 1982:

“(...) Apesar da atenção que lhe têm dedicado alguns de nossos intelectuais, a verdade é que a obra de Fontes Ibiapina, que já é relativamente extensa, não alcançou ainda um nível sequer razoável de compreensão e de interpretação a ponto de o regionalismo do nosso escritor nunca ter sido estudado, ainda que perfunctoriamente, em qualquer de suas manifestações, das quais a mais importante está positivamente no pitoresco da linguagem. Essa carência pode ser atribuída, certamente, ao fato de Fontes Ibiapina viver no Piauí, longe dos grandes centros literários. Morasse no Rio de Janeiro ou em São Paulo, a obra de Fontes Ibiapina já teria sido, sem qualquer dúvida, esmiuçada pelos editores e pelos críticos literários que comandam o sistema de promoção e reconhecimento dos intelectuais brasileiros”.

O escritor faleceu a 10 de abril de 1986, em Parnaíba. A família prestou-lhe homenagem depois de sua morte, criando a Fundação Fontes Ibiapina. Funcionou na rua Desembargador Freitas, no centro de Teresina, com acervo composto por revistas, jornais, fotografias, diplomas e documentos, além de sua obra, incluindo inéditos e objetos pessoais. Vida Gemida em Sambambaia foi reeditado há pouco tempo pela editora Corisco, que este ano também reedita os contos Trinta e Dois e Tangerinos. A Universidade Federal do Piauí incluiu, na sua lista de obras indicadas para o Vestibular 2003, o romance Palha de Arroz, o que já estimula uma nova edição. Mas é imprescindível o resgate de toda sua obra e a preservação de seus inéditos. Ou seria melhor dizer o resgate de nossa própria cultura?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

amálgama #2 - Fontes Ibiapina - Folclore & Regionalismo [parte1]

Bico de pena de Genes


- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro de 2002.



por Abdenaldo Rodrigues e Adriano Lobão Aragão

O homem é a expressão do meio cultural em que vive. Assim foi Fontes Ibiapina: a representação viva da cultura do Piauí, autor de obras que retratam com apuro a vida no sertão através de uma literatura cheia de graça, situada entre o real, o folclórico e o mítico. As pesquisas realizadas por Ibiapina são os mananciais da produção do autor, que busca, nas relações intrínsecas do homem com o meio, matéria-prima para sua literatura.

A produção de Ibiapina está inserida na prosa regionalista contemporânea, contextualizada no Brasil a partir da década de 30, quando, segundo Alfredo Bosi, a ficção encaminhou-se para o chamado “realismo bruto”, identificado na linguagem oral, nos brasileirismos e regionalismos léxicos, onde destacamos José Américo de Almeida (A Bagaceira), Raquel de Queiroz (O Quinze), José Lins do Rego (Pedra Bonita) e Graciliano Ramos (Vidas Secas). Ante toda tradição resgatada no romance de 30 e reinventada nos anos 50 por Guimarães Rosa, temos a estréia de Fontes Ibiapina com o livro de contos Chão de Meu Deus, em 1958, tendo uma segunda edição em 1965.

Em Fontes Ibiapina, não encontramos propriamente um regionalismo mágico, mas a própria pesquisa folclórica, tanto na Paremiologia Nordestina e Passarela de Marmotas, como no restante de sua obra. Para Câmara Cascudo, “o que caracteriza essencialmente uma cultura não é a existência de padrões equivalentes aos nossos no espaço e no tempo. Uma cultura vive pela sua existência”. Desse modo, a cultura nordestina se identifica na própria realidade social. Essa afirmação se estrutura na interpretação do pensamento social de Gilberto Freyre, onde em Casa-Grande & Senzala, publicado em 1933, consegue fazer rigorosa distinção entre raça e cultura. O nordestino, diz o sociólogo, nunca foi uma raça inferior, como queria a elite etnocêntrica que, na diferença, encontrava alicerce para o preconceito. Esse pensamento elitista foi tão enraizado em nossa História, que até mesmo intelectuais como M. Paulo Nunes, comentando Casa-Grande & Senzala, na primeira edição de seu livro Modernismo & Vanguarda, embora critique o etnocentrismo, ainda vê a cultura regionalista nordestina de mulatos e cafuzos como equivalência de atraso: “Eram, isto sim, como em grande parte ainda o são hoje em dia, pessoas culturalmente atrasadas, doentes e desassistidas.” (M. Paulo Nunes, in Modernismo & Vanguarda, p.241)

É inconcebível a existência de uma cultura superior a outra, pois o termo cultura só pode ser concebido do ponto de vista antropológico, já que confundir cultura com erudição é deturpar seu significado. Daí a não existência de déficit cultural e a importância dos trabalhos de Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Noé Mendes, Pedro Silva, Fontes Ibiapina e outros não menos importantes.

O enfoque de Gilberto Freyre abriu um leque de possibilidades que confluíram para o estudo de aspectos essencialmente regionais que, aos poucos, foram incorporados à Literatura Brasileira. A linguagem oral, os costumes, as tradições e as crenças do Nordeste fizeram surgir, pela força de sua expressão, obras-primas como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Vila dos Confins, de Mário Palmério, Vida Gemida em Sambambaia, de Fontes Ibiapina, atingindo o quase “estado bruto” da realidade do sertão nordestino, almejado desde Franklin Távora, ainda no Romantismo, conforme podemos constatar no prefácio de O Cabeleira.

A ficção regionalista se expressa principalmente no Nordeste. A paisagem decadente, os problemas da seca, os costumes e as crenças dão aos ficcionistas regionalistas base para a estruturação de um espaço de conflito expressivo. A psicologia do sertão e o pensamento mítico do sertanejo transcendem a miséria e o drama da seca. Poderíamos dizer que se trata do homem em estado bruto, enfrentando a natureza: a potência do homem diante da seca, sobrevivendo. Até mesmo sua linguagem há de ser bruta; daí a identificação com pedra em João Cabral de Melo Neto (ver os poemas O Sertanejo Falando e A Educação pela Pedra) e o magistral trabalho com a linguagem do sertanejo, notadamente no personagem Fabiano, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Se em Graciliano encontramos a deficiência da linguagem em Fabiano, e a recriação da linguagem em Guimarães Rosa, em Fontes Ibiapina a linguagem também perdeu suas amarras com a norma, buscando a partir de espaço próprio mostrar a significação da fala sertaneja, sem precisar de certa adjetivação excessiva, que encontramos em A Bagaceira, de José Américo de Almeida, por exemplo. Ibiapina fundamentou sua linguagem nas construções simples, sem levar em consideração a sintaxe e a regência.

Almeida Garrett, na primeira metade do século XIX, é o precursor dos estudos das coisas populares e tradições do povo português. Seu interesse parte das influências recebidas das baladas de Walter Scott, as de Burger, e os irmãos Grimm. No Brasil, contudo, o estudo do folclore só vem à tona depois da revolução literária no Modernismo brasileiro, onde há um desprendimento da Literatura Portuguesa. Surgem, dessa forma, folcloristas como Sílvio Romero, Celso de Magalhães, Barbosa Rodrigues, Batista Caetano, Couto Magalhães, Beaurepaire Rilhas e Araripe Júnior. Mas é no Nordeste, com Câmara Cascudo e Leonardo Mota que o folclore atinge o seu auge literário. No espaço piauiense, por sua vez, pode-se citar um seleto grupo de estudiosos que desenvolveram um trabalho de significativa relevância, como é o caso de Leônidas de Sá, no século passado e, mais recentemente, Artur Passos, Pedro Silva, Noé Mendes, João Alfredo de Freitas, Raimundo Rosa de Sá e Fontes Ibiapina. Quanto a Fontes Ibiapina, foi um exímio catalogador das lendas, fábulas e adágios do Nordeste. Embora o seu estudo temático tenha como geografia determinada o Piauí, sua produção se torna universalizada, devido à força significativa do folclore, definida pelas relações do homem no seu cotidiano natural, onde as crendices apresentam um incomparável valor como manifestação social. As fábulas e lendas, ensinava Fontes Ibiapina, “têm sua razão de ser, sua causa, origem, sua utilidade econômica, moral e social”.

Ibiapina partia do princípio de que o folclore é uma manifestação espontânea, mas que se expressa em determinados segmentos sociais, onde é o povo simples das pequenas cidades, das fazendas, da periferia que desenvolve sua criatividade. Na sua obra, existe a consonância da tríade homem-terra-tradição. É através dessa mesclagem que surge um espaço folclórico próprio, capaz de mostrar o pensamento, a ação e a vivência integrados às expectativas e emoções do homem sertanejo, tornando-o sujeito de sua história.


[continua]

domingo, 17 de agosto de 2008

amálgama #2 - correspondência

- Publicado originalmente em amálgama #2, fevereiro 2002.

A MÁQUINA DO MOVIMENTO PERPÉTUO

Muito me agradou ter em mãos o primeiro número de amálgama. Gostaria de ressaltar algumas questões relativas ao meu livro Marco Lubel desce ao Inferno, comentado no artigo A Máquina do Movimento Perpétuo, publicado nesta revista. O livro é um exercício de ressuscitação poética, tem a ver com a nossa origem perdida. Passei um tempão com idéia de trabalhar apenas uma obra, revisando-a e diminuindo-a em novas edições a cada cinco anos. Aí apareceram os toques de dois personagens instigantes, o poeta piauiense Leonardo da Senhora das Dores Castello Branco e a sua Criação Universal, e o poeta subcomandante Marcos, zapatista mexicano, que resolveu assustar, com manifestos poéticos extremamente bem realizados, os poderosos de plantão, e preparei o eixo orgânico do livro, buscando criar uma memória textual e existencial do mundo latino-americano, utilizando a metalinguagem com esses e outros poetas contemporâneos. O que não é novidade. A poesia de um nasce da poesia de outro, como deixou escrito, desde o século VIII a.C. o poeta Baquilides.

Rubervam Du Nascimento
Teresina-PI

sábado, 16 de agosto de 2008

amálgama #2



Em fevereiro de 2002 publicamos a segunda edição de amálgama. Como editores, contamos com: Adriano Lobão Aragão, Jeferson Probo, Sérgio Batista e Washington Ramos.

Nas postagens subseqüentes, reproduziremos o conteúdo publicado em nossa segunda edição.


editorial

Chegamos ao segundo número. É também nosso segundo e muito ansiado fôlego, pois trabalhar com cultura no Piauí é como viver sob um lago de águas turvas, tentando chegar à superfície para respirar.

O lançamento do primeiro número, na livraria DesLivres, foi um momento muito agradável, prestigiado por importantes figuras da arte piauiense. Algumas colaboraram com AMÁLGAMA, o que nos deixa muito felizes. Mas todos estão convidados a enviar seus trabalhos para publicação.

Nesta edição, estamos trazendo um ensaio, premiado pela Fundec, sobre Fontes Ibiapina; uma apreciação do mais recente disco compacto do Narguilé Hidromecânico; uma excelente conversa com o músico Naeno e o poeta Rubervam Du Nascimento; o Desafio Poético com uma das vozes mais líricas de que se tem notícia; além de outras opções.
Agora só falta você, caro leitor, nos ajudar, com sua inestimável atenção, a tomar pé para que respiremos um pouco mais de cultura.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Sobre um vereador empossado sem que tivesse voto algum

[renato zagrel]



Pra se fazer vereador
na província do Piauí
nem campanha ou eleitor
se precisa por aqui,
pois sem um voto sequer
se fez novo vencedor
na terra do vai quem quer
cruzando a perna o saci.
E se ninguém nele votou
quem deixou ele assumir?



agosto 2008

domingo, 10 de agosto de 2008

cummings - love is a place

e.e. cummings


love is a place
& through this place of
love move
(with brightness of peace)
all places

yes is a world
& in this world of
yes live
(skillfully curled)
all worlds
__________________
No Thanks, 1958



amar é um espaço
& através desse espaço de
amar movem-se
(com o esplendor da paz)
todos os espaços

sim é um mundo
& nesse mundo de
sim vivem
(habilmente espiralados)
todos os mundos

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Traduzido por Adriano Lobão Aragão
Setembro 2003

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Senhora das Dores

(ou São Sebastião amarrado à laranjeira)
(ou um samba-do-crioulo-doido para Leonardo)
[Adriano Lobão Aragão]


Dizem que a ema gemeu no tronco do Juremá. Jackson do Pandeiro foi à Limoeiro e gostou do forró de lá. Bem mais azedo que qualquer limão do paraibano era um outro Limoeiro, este em Portugal, que naquele 1823 nos legava ainda ácidos frutos. Que São Sebastião ajude Leonardo de Carvalho Castelo Branco, preso em Limoeiro, trazido do Brasil a bordo do brigue Sociedade Feliz, porque a vida insiste em nomear ironias. Triste epitáfio para quem almeja a liberdade nas terras do Piauí. Porém, canta Gilberto Gil, muitos anos depois, que mesmo a quem não tem fé, a fé costuma acompanhar, pelo sim pelo não, pois milagres acontecem até mesmo entre os infiéis.

Talvez tenha faltado fé a Torquato quando abriu o gás de seu apartamento no vigésimo oitavo aniversário. Pra mim chega. Vocês aí: peço o favor de não sacudirem demais o Thiago que ele pode acordar. Mas nem ele nos acordou. Morrem cedo os que os deuses amam e os portugueses detestam. Para evitar isso, tem Leonardo a assistência do deputado piauiense Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, de nome mais longo que a valia, pois quem precisa de deputado quando se tem a devoção pela Senhora das Dores? Maior fé na santa que nos homens, pois esta prisão é obra humana, como humanas foram as mãos que amarraram Sebastião à laranjeira e puxaram o arco para flechá-lo pelo corpo. Não faltaria fé a Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, pois é tempo de promessas e esperanças. Ganharia Sebastião a santificação e Leonardo um novo nome. Se o santo não morreu na laranjeira, não poderia o piauiense apodrecer no Limoeiro.

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Janeiro 2002

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

amálgama #1 - Homenagem a Martins Napoleão


Publicado originalmente em amálgama #1, janeiro de 2002

Benedito Martins Napoleão do Rego nasceu em União-PI, 1903. Professor, poeta, jornalista e tradutor. Presidiu a Academia Piauiense de Letras. O Cancioneiro Geral, 1981, reúne sua obra poética, composta, entre outros, por Copa de Ébano, 1927; Poemas da Terra Selvagem, 1940; Caminho da Vida e da Morte, 1941 e Prisioneiro do Mundo, 1953. Faleceu no Rio de Janeiro em 1981.

Poemas da Terra Selvagem
1940

Prelúdio

As árvores aqui são tão altas
que as estrelas cansadas dormem nos seus galhos.

E há tanto silêncio nos seus vales
que o sol da tarde pára, admirado, em cima das montanhas.

Os pássaros têm um canto tão bonito
que a madrugada nasce mais cedo para os ouvir.
E a noite é tão clara
que as almas pensam que seja um lago de se banharem.

Há tanta riqueza
que as águas mortas dos pauis brilham de noite
fabulosamente:
é um delírio tão grande como o da febre dessas águas.

A luz, de tão intensa,
atravessa a alma dos meus patrícios:
é por isso que há tantos poetas
na minha terra.
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O Amor

Aqui, o amor
é brutal e violento
como o sol do meio-dia
na posse plena da terra.

É como o sol que seca as fontes.
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Caminhos da Vida e da Morte
1941

Cabem muitos amores

Em cada coração cabem muitos amores,
como todas as cores cabem em nossos olhos
e todos os sons em nossos ouvidos.

Para nós, uma cor e um som apenas
não seriam, com certeza, a vida
mas a monotonia melancólica da eternidade.
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Versículos de Salomão

Eu pensava nas coisas eternas:
na essência da verdade e da beleza.

Eu pensava nas coisas eternas,
quando ofereceste a boca matinal
à sede do meu beijo.

(Como posso, Senhor; recusar, sem soberba,
o fruto macio e orvalhado
que a árvore dadivosa atirou aos meus pés?...)
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Última noite de festa

Ao fim de tudo, na hora serena,
se apagarão os meus sentidos
como lâmpadas de festa.

As sombras entrarão
e a casa ficará vazia...
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terça-feira, 5 de agosto de 2008

amálgama #1 - palaversoesia


Publicado originalmente em amálgama #1, janeiro de 2002.


Seminal
Jeferson Probo

bruta palavra feito pedra
metáfora em estado mineral
lápide de silêncio para extrair
das distâncias palavras
pedra de toque em seminal poesia

bruta palavra feito pedra
metáfora em estado de lição
empilhar palavras em concreto construir
toque de pedra em seminal poesia

bruta palavra feito barro
metáfora em estado de carne
lápide de vértebras para distrair
serpentes e o cosmo
verbo em seminal poesia

bruta palavra feito depois
metáforas em estado de antes
lápide de tempo para
a seminal poesia do agora
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Colibri
Aldo José Vaz de Sousa

Ah! Doce linda beija-flor
Beije-me
Mas não me beije
Com um beijo de dor.

Beije-me
Com um beijo de amor.

Beije-me linda flor.
Beije-me minha musa
Beije-me minha lusa
Beije-me Cazuza
Beije-me como Cazuza
Me Beijou.

Beije-me linda flor.
Beije-me no silêncio do escuro
Beije-me no mais alto dos muros
Beije-me Russo
Beije-me como Russo
Me beijou.

Beije-me linda flor.
Beije-me entre quartos
Beije-me no mato
Beije-me Renato
Beije-me como Renato
Me beijou.

Beije-me linda flor
Beije-me linda bela flor
Beije-me mais bela das belas
Beije-me até mesmo na sentinela.

Doce linda flor
Beije-me com amor
Beije-me com o beijo mais
Suave de uma beija-flor.

Linda bela flor
A mais bela das belas

Beije-me linda flor
Beije-me com todo amor
Beije-me beija-flor.
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O que o Garoto Imobilizado Dizia


Ilustração de Gabriel Archanjo

Publicado originalmente em amálgama #1, janeiro de 2002.




Por Adriano Lobão Aragão

As mãos do segurança imobilizam os dois bracinhos. A criança grunhe algo. Parece um bichinho feroz, porém muito assustado. Chora sem lágrimas, não articula palavra.

– Cala essa boca, porra!

A voz grossa do segurança explodia na cara do garoto enquanto um outro menino, Jaime, não conseguia seguir seu caminho. Sumiria em seu cotidiano confortável, não fosse a cena incomum para seus olhos. A mão de sua mãe o leva de volta ao seu mundo.

– Vamos, menino! Isso não é coisa pra ficar olhando!

Jaime queria saber o que o garoto imobilizado dizia, mas não tinha permissão para tanto. Não podemos traduzir aquela linguagem nem comprometer as oferendas que a mãe coloca em sua vida. E o que temos a oferecer ao menininho vagando no estacionamento do shopping em busca de pequenos furtos? Somente a mão forte que agarre seus bracinhos e leve-o para onde? A mão do segurança não assume o papel da Providência. Nem poderia. Diante de um shopping, não seria o segurança o operário do bem-estar comum.

Mas como acabar com esses pequenos mamíferos selvagens que vagueiam entre grandes dinossauros? Esse é o caminho dos pensamentos de Taís, irmã mais velha de Jaime. Sente-se incomodada demais com os terríveis trombadinhas. Tudo poderia ser simplificado, bastaria eles não existirem. Minha querida Taís, bote na sua cabecinha que, sim, eles existem e estão entre nós; mas lembre-se, não são extraterrestres. Ela pensa em suas inutilidades sociais. Não precisamos deles para estragar o dia, conclui.

Coisas humanamente negativas. Não tiveram essas crianças a mão forte que nos levou às oportunidades do progresso humano, do vaso sanitário ao emprego renumerado e à educação escolar. Porém, nossa educação revelou-se inútil nesses instantes. Diante do centro de compras, parece ser o emprego renumerado, ou a renumeração mesmo sem emprego, a única coisa que possui sentido. Um pequeno ladrão não deve subverter a ordem, e sim buscar suas migalhas no dia-a-dia quebrado.

Seus grunhidos advertem: ele é humano. Bem mais humano que eu. Uns o vêem como substantivo abstrato, como democracia, fome ou esperança. Para outros, é bem mais confortável observar o derramamento de sangue na Terra Santa e a fome na África pela tv, onde podemos nos comover como nos filmes ganhadores de Oscar em cartaz nos cinemas do shopping.

domingo, 3 de agosto de 2008

amálgama #1 - Não façamos feio


Ilustração de Gabriel Archanjo

Publicado originalmente em amálgama #1, janeiro de 2002




Por Sérgio Batista


Prezada maioria de nossos articulistas, confesso-vos que tolerei até onde me foi possível calar o desabafo. Entretanto, sinto não poder mais fazê-lo, apesar de o querer imensamente, no receio de ser mal interpretado e, conseqüentemente, malquerido. Entretanto, este grande amor à Literatura nunca me é gratuito: ou causa-me euforia diante do texto artístico ou completo furor, frente aos inqualificáveis escritos. Cometer a omissão de escrever sobre tais estados de espírito seria negar esse sentimento que me arrebata, instiga e compromete diante da arte literária. De qualquer modo, desejo deixar clara minha intenção com este manifesto: a de promover o desenvolvimento cultural de nossa gente, a partir de uma qualidade cada vez mais plausível dos textos jornalísticos, nada além.

Inicialmente, senhores, permitam-me vos lembrar que talento literário é coisa rara, e o papel do escritor, de fundamental importância. Proponho que nos respeitemos enquanto escritores – se é que somos, mas, sobretudo, na posição de comunicadores, formadores de opinião, respeitemos mais o leitor. Respeitemos seu amanhecer, seu pequeno e valioso tempo de que dispõe antes da árdua e penosa labuta; mas respeitemos, acima de tudo, sua inteligência e bom gosto. Tenhamos mais zelo quando estivermos diante do papel em branco. Sejamos mais solenes. Concebamos nossas linhas como uma sagrada escritura, certidão indestrutível de um sagrado casamento. Pensemos em nossa obra como uma aliança, um forte elo entre nós e o indispensável ser humano à frente das páginas: razão final de nosso escrever.

Portanto, o que sugerimos é que, à guisa de início, deixemos de lado determinados textos que só dizem respeito a nós mesmos ou à nossa tradicional e ilustríssima família. É preciso que nos toquemos para o fato de que Teresina se desenvolveu demasiadamente nos últimos 20 anos, deixando de ser um provinciano reduto de sobrenomes. Empreendimentos em diversos ramos foram implantados em nossa capital, atraindo gente de todas as partes do país. A verdade é que há muitas pessoas de fora residindo conosco, cultas, de formação e gosto apurados, totalmente desinteressadas em nossas apologias genealógicas. Assim, rogo-lhes que não façamos feio: deixemos de desenterrar defuntos, relembrar um passado que já não nos diz nada. Todavia, se tivermos de recorrer à História, que o façamos com criatividade, em tiradas inesperadas e oportunas, surpreendendo agradavelmente quem pagou para ler; isso mesmo, colegas!: respeitemos o dinheiro do leitor, o esforço para ganhá-lo.

Sob outro prisma, é importante observarmos que vários de nossos artigos funcionam notoriamente como verdadeiros tapa-buracos. Ora, se não temos com que preencher a coluna, existe saída: deixemos que o jornal publique os bons textos que estão à espera, mas não banalizemos nosso nobre ofício em nome do egoísmo. Lembremo-nos de que tudo escrito sem esforço é geralmente lido sem prazer. Sigamos as sábias recomendações de Rilke e de nosso saudoso Drummond: escrevamos somente por absoluta necessidade. Contudo, uma vez com a pena, sejamos caprichosos na escolha do tema: deve ser interessante, conveniente, oportuno. Ao leitor, já lhe bastam as demais notícias que necessita engolir por qualquer tipo de obrigação. De nós, ele não espera nem mais nem menos do que dois simultâneos brindes: entretenimento e instrução.

Tenhamos, outrossim, a devida cautela com a clareza, fluência, leveza e coesão textuais. Não devemos esquecer que estamos escrevendo para jornais, para pessoas com distintos níveis de conhecimento; e é exatamente nesse ponto que se encontra nosso mérito jornalístico: conseguir que inteligências tão heterogêneas leiam e apreciem nossos artigos. Para lográ-lo, não devemos, pois, abusar de linguagem técnica ou rebuscada, quase sempre cansativa. Se temos que versar sobre Direito, Economia ou similares, façamos de forma a mais simples e agradável possível, utilizando referências e associações de idéias que causem empatia ao leitor.

Aspecto diverso, para o qual devemos dar uma atenção especial, é a riqueza das informações; esta não pode nem deve ser desprezada. Para escrevermos com a necessária autoridade, precisamos ler e pesquisar exaustivamente, no intuito de passarmos dados atraentes, inéditos, com um enfoque inteligente e original. Todo escritor é, antes de tudo, um grande leitor. Estou absolutamente certo de que, caso estivesse ao meu lado, Samuel Johnson diria: “Aproveita, Sérgio, e acrescenta: ‘a maior parte do tempo de um escritor se passa em leitura, para depois escrever; uma pessoa revira metade de uma biblioteca para fazer um só livro’ ”.

Prestemo-nos também, de uma vez por todas, um último e grande favor: chega de erros primários de grafia, pontuação, concordância... Poupemo-nos disso, digníssimos professores de língua portuguesa, veteranos jornalistas, renomados advogados, meritíssimos juízes. Tenhamos, ao menos, a compostura de rendermo-nos a um bom revisor, um profissional competente. Observemos o senso do ridículo. Enfatizo, senhores: não façamos feio!

Por fim, uma última súplica: se alguns dos colegas possuem a rara consciência de que não são portadores da indispensável autocrítica, procurem expor seus trabalhos antes da publicação de fato. Seria mais sensato. Façam uma espécie de pré-estréia entre os seus; mais à busca de críticas edificantes do que de elogios que se precipitem no vazio. Exponham, porém, para quem entende de arte literária, ou, no mínimo, para quem não dispensa o bom português. Dessa maneira, evitarão o vexame; senão, algo muitíssimo pior: a indiferença.