sábado, 28 de junho de 2008

Estas flores de lascivo arabesco


poemas eróticos piauienses

Antologia organizada por Feliciano Bezerra e Wellington Soares.

Adriano Lobão Aragão, Chico Castro, Durvalino Couto, Elio Ferreira, Emerson Araújo, Keula Araújo, Laerte Magalhães, Marleide Lins, Nílson Ferreira, Salgado Maranhão


dou-te meu cravo, Safo
[Adriano Lobão Aragão]

dou-te meu cravo, Safo
se de ti me deres o vaso
onde tua forma lúcida
esplêndida pisa os astros
na pele de minha túnica
em ânsia e canto lasso
que na ponta de meu mastro
tua nua pele úmida
tome posse de terra tua

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Um olhar

Estes muros e pedras espalhavam seu urbano esquecimento pela rua antiga, onde ainda se pode encontrar um silêncio pétreo e uma saudade. E todo esse tempo pode ser restaurado nas retinas de Francisco, quieto e esquecido do mundo por muitos instantes, como a eternidade.

Talvez ainda consiga perceber camisetas desfilando a cara do candidato no peito, entre esquálidos cachorros mendigando votos de caridade. E um menino entre os cachorros, pelo mercado, acompanhando as compras da mãe. Uma de suas obrigações diárias.

Um dia, ele pôde ver uma moça tomando banho nua no quintal vizinho. Sem nome, sem passado, sem roupa, aquele corpo despertava uma estranha satisfação de estar vivo, acompanhada do receio de querer mais que olhar e, como pena, a visão do paraíso envolver-se em pudores.

Ter sido descoberto por ela quase lhe custou a alma fugir do corpo, mas de que adiantaria fugir se a acompanha um leve sorriso de cúmplice silenciosa?

A tristeza só baixaria suas mãos quando souberam de seu filho curiando mulheres nos quintais alheios, quem sabe o que mais?, motivo de taca e de vergonha. Apanhar calado.

Um rosto arrastando seu constrangimento não vê o olhar solidário da moça que jamais conseguirá reconhecer enquanto vestida.